18/05/2026
A visão tradicional da OA como puro "desgaste mecânico" mudou. A OA é uma condição sistêmica impulsionada pela metaflamação (inflamação metabólica) e pela imunossenescência.
Mecanismo: Do Lúmen à Articulação:
O conceito central é o eixo intestino-articulação. A disbiose intestinal compromete a integridade da barreira epitelial , e permite que padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs), como os lipopolissacarídeos (LPS), atinjam a circulação sistêmica. Uma vez na corrente sanguínea, esses componentes ativam receptores de reconhecimento de padrões, especialmente o TLR4, em células imunes e sinoviócitos. Desencadeia-se uma cascata inflamatória de baixo grau que amplifica a degradação da unidade cartilagem-sinóvia-osso subcondral.
Inflammaging e Senescência Imune
Destaca-se o papel do inflammaging: a inflamação sistêmica acelera o envelhecimento imunológico (imunossenescência). A exaustão de células T e a perda da capacidade de reparação tecidual transformam o estresse mecânico articular em um processo degenerativo crônico e sistemicamente alimentado.
Fenotipagem para Medicina de Precisão
Propõem-se uma estratificação da OA em 4 fenótipos principais baseados no eixo intestino-articulação:
1-Dominância Inflamatória: foco em mediadores pró-inflamatórios.
2-Metaflamação: associada a distúrbios metabólicos e obesidade.
3- Orientado pelo Envelhecimento: a senescência celular é o driver principal.
4-Hipersensibilidade à Dor: envolve mecanismos neuroimunes.
O que muda na prática clínica?
A nova compreensão da OA convida profissionais de saúde a olhar além da articulação lesionada. O manejo do estilo de vida, da saúde intestinal e do status metabólico torna-se tão importante quanto o tratamento local para modificar o curso da doença, de modo que podemos incluir
Diagnóstico precoce via biomarcadores de integridade intestinal e metabólitos microbianos.Modulação da microbiota (probióticos, prebióticos e dieta) como terapia modificadora da doença.
12/05/2026
Evidências prospectivas recém-publicadas na Neurology reforçam que a adoção de padrões alimentares baseados em vegetais pode reduzir o risco de doença de Alzheimer e demências relacionadas — desde que a qualidade nutricional seja priorizada.
Park et al. analisaram dados de 92.849 participantes do Multiethnic Cohort Study (Havaí e Califórnia), com seguimento médio de 10,9 anos.
Os achados revelaram que indivíduos com maior consumo global de alimentos vegetais apresentaram risco 12% menor de demência (HR 0,88; IC95% 0,85–0,92). Contudo, ao estratificar pela qualidade da dieta, os resultados divergiram significativamente: dietas plant-based de alta qualidade — ricas em grãos integrais, frutas, vegetais, oleaginosas, leguminosas e chá/café — associaram-se a menor risco (HR 0,93; IC95% 0,89–0,97), enquanto dietas de baixa qualidade — com predominância de grãos refinados, sucos industrializados, batatas e açúcares adicionados — elevaram o risco (HR 1,06; IC95% 1,01–1,10).
Particularmente relevante foi a análise longitudinal das mudanças dietéticas ao longo de 10 anos: a redução substancial de alimentos vegetais de baixa qualidade associou-se a 11% menos risco de demência, ao passo que o aumento desses alimentos elevou o risco em 25%. Esses resultados mantiveram-se consistentes entre diferentes faixas etárias, grupos étnico-raciais e status do gene APOE4.
Os dados sugerem que orientações nutricionais voltadas à neuroproteção devem ir além da simples recomendação de "comer mais vegetais", enfatizando a qualidade dos alimentos escolhidos — mesmo quando a transição alimentar ocorre em idades mais avançadas.
Referência: Park S-Y, et al. "Plant-based dietary patterns and risk of Alzheimer disease and related dementias in the Multiethnic Cohort Study." Neurology 2026; DOI: 10.1212/WNL.0000000000214916.
11/05/2026
A microbiota já é uma das áreas mais relevantes da gastroenterologia, mas poucos profissionais sabem aplicar isso na prática.
O curso Microbiota na Prática do Gastroenterologista, que eu preparei junto com a Dra Vera Angelo, é direto ao ponto: te ensina a usar esse conhecimento no atendimento clínico, com mais segurança e estratégia.
Você vai entender como a microbiota influencia doenças, condutas e resultados clínicos.
É uma atualização estratégica para quem quer mais segurança, mais embasamento e um diferencial real no consultório.
Conheça a grade curricular e detalhes do curso:
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10/05/2026
Como médico, professor e pesquisador, convivo com mulheres de rara grandeza, que fazem do cuidado uma arte maior e da entrega, sua maior certeza.
Antes que o sol ilumine a enfermaria, já cuidaram dos filhos, já arrumaram o lar, já deram conta da casa, do dia a dia — e muitas, sozinhas, sem com quem contar.
Mães solo que carregam o mundo nos ombros e ainda assim chegam com o sorriso inteiro. Não pedem aplausos, não esperam assombros — apenas seguem, com amor verdadeiro.
São médicas, enfermeiras, nutricionistas, fisioterapeutas de mãos acolhedoras. São professoras de almas visionárias, formando o futuro como educadoras.
São pesquisadoras que entre o café da manhã, a lição dos filhos e o jantar a fazer, avançam a ciência, destemidas, ousadas, ampliando os limites do nosso saber.
Eu vejo de perto essa dupla jornada, essa força que não se mede em horário. A vocês, colegas, meu respeito e gratidão por tudo que entregam — o extraordinário.
Que este domingo seja só de vocês, com todo o amor que merecem receber. Pelo tanto que dão, tantas e tantas vezes — feliz Dia das Mães, do fundo do meu ser.
07/05/2026
A tomada de decisão ética na nutrição clínica é, talvez, um dos maiores desafios da prática hospitalar e ambulatorial contemporânea, que precisa de análise que transcende o simples aporte calórico-proteico para alcançar a dignidade humana.
O novo guideline prático, liderado por Cardenas et al., diferencia por trazer a inclusão de fluxogramas decisórios e algoritmos desenhados especificamente para guiar equipes multiprofissionais em cenários de alta complexidade e incerteza clínica. O posicionamento reforça que a TN — compreendendo nutrição enteral (TNE), parenteral (TNP) e suplementos orais — é.
Como tal, deve obrigatoriamente seguir os mesmos preceitos de qualquer outra terapia invasiva: necessita de indicação clínica precisa, definição de metas terapêuticas claras e obtenção de consentimento informado, para garantir que a intervenção vise o benefício real ao paciente sem impor riscos desproporcionais ou cair na obstinação terapêutica.
O documento aborda dilemas específicos e frequentes, como o início ou a suspensão da TN em contextos de cuidados paliativos, demência avançada e na delicada síndrome de vigília não responsiva. Também define a importância da alimentação de conforto quando os objetivos nutricionais quantitativos deixam de ser a prioridade técnica.
O guideline consolida que toda decisão nutricional deve estar ancorada nos quatro bases clássicas da bioética: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça.
Além disso, introduz uma perspectiva moderna sobre direitos humanos e diversidade cultural, reconhecendo que o ato de nutrir possui significados simbólicos que variam entre sociedades.
Ao transformar a bioética em um guia prático para a beira do leito, a ESPEN nos aponta um caminho humanizado para lidar com a terminalidade e a vulnerabilidade extrema, que reduz o desgaste moral das equipes e assegura que o cuidado nutricional seja sempre um aliado da biografia do paciente, e não apenas de sua biologia.
04/05/2026
A fronteira diagnóstica da cirurgia metabólica está mudando. O conceito de biópsia líquida, amplamente consolidado na oncologia para rastrear mutações genéticas no sangue, ganha agora uma nova e poderosa aplicação na endocrinologia: a biópsia líquida epigenética.
Em vez de buscarmos apenas mutações, passamos a interceptar a "conversa" molecular entre as células através dos MicroRNAs (miRNAs).
Os MicroRNAs são pequenos fragmentos de RNA que não produzem proteínas, mas atuam como verdadeiros maestros da expressão gênica.
Eles funcionam como interruptores biológicos que podem silenciar ou ativar genes específicos em resposta ao estado metabólico.
No sangue, eles viajam protegidos dentro de pequenas vesículas (exossomos), funcionando como uma "biópsia" em tempo real da saúde dos órgãos endócrinos, como o pâncreas e o fígado, sem a necessidade de procedimentos invasivos nesses tecidos.
Um exemplo prático dessa revolução é o estudo clínico, capitaneado pela Dra. Ana Cristina Martinez, em nosso laboratório Metanutri – LIM-35, do HC-FMUSP.
A pesquisadora investigou o impacto do Bypass Gástrico em Y de Roux (BGYR) sobre o perfil dessas moléculas em mulheres com obesidade e Diabetes Tipo 2 (DM2). Identificamos que o miR-144-3p é um biomarcador preditivo excepcional: níveis elevados deste microRNA no plasma pré-operatório indicam uma assinatura molecular de resistência ao tratamento.
O impacto clínico é direto: este marcador foi capaz de predizer com 100% de especificidade quais pacientes manteriam o diabetes persistente após o procedimento, independentemente da perda de peso. Além disso, a análise mostrou que alterações precoces no miR-144-3p podem antecipar até mesmo a recidiva da doença anos antes dela se manifestar clinicamente.
Esses achados reforçam que a biópsia líquida baseada em microRNAs nos permite ir além dos exames laboratoriais convencionais (como HbA1c ou insulina).
30/04/2026
A compreensão da cirurgia bariátrica evoluiu de um procedimento puramente restritivo ou disabsortivo para uma intervenção metabólica profunda.
Entre as complexas mudanças sistêmicas que observamos, o papel dos lipídeos bioativos, como as esfingolipinas, ganha destaque como peça fundamental na sinalização celular e na resolução de doenças cardiometabólicas.
As esfingolipinas são uma classe de lipídeos complexos que compõem a estrutura das membranas celulares, mas que atuam, sobretudo, como potentes mediadores de sinalização. Diferente dos triglicerídeos, que servem prioritariamente para armazenamento de energia, as esfingolipinas — como ceramidas e esfingomielinas — participam ativamente da regulação da inflamação, apoptose e sensibilidade à insulina.
Em quadros de obesidade, o acúmulo desses metabólitos pode gerar lipotoxicidade, importante na resistência à insulina e disfunção das células beta pancreáticas.
Estudo clínico prospectivo, capitaneado pela Dra. Gabriela Lemos, em nosso laboratório Metanutri – LIM-35, do HC-FMUSP, investigou o impacto do Bypass Gástrico em Y de Roux (BGYR) sobre o perfil dessas moléculas em mulheres com obesidade e Diabetes Tipo 2 (DM2). (Lipids, 2026)
Em apenas três meses de pós-operatório, observou-se remodelamento significativo de 21 dos 32 metabólitos de esfingolipídeos identificados.
Mais do que a redução ponderal, as pacientes apresentaram melhora glicêmica robusta, com 60% atingindo a remissão do DM2 conforme os critérios da ADA.
Nos intriga a forte correlação entre espécies específicas de esfingomielinas — notadamente as SM(d18:1/20:0) e SM(d18:1/22:0) — e a redução das frações pró-aterogênicas do colesterol.
Isso sugere que a cirurgiabariátrica reduz os níveis de lipídeos circulantes, e também altera a própria arquitetura molecular do plasma, favorecendo um perfil menos inflamatório.
Essas evidências reforçam que a metabolômica é a chave para identificarmos novos biomarcadores de sucesso cirúrgico.
27/04/2026
Compreender que a saúde do trato gastrointestinal é um determinante crítico da homeostase emocional, é de interesse para uma abordagem terapêutica integrativa.
A inflamação sistêmica originada no intestino não é um evento isolado, e pode ser gatilho para alterações neurofisiológicas profundas.
Os principais mecanismos de interface descritos incluem:
Modulação Imunológica: A quebra da barreira intestinal permite a translocação de mediadores inflamatórios. Células imunes intestinais migram via circulação sistêmica, e podem secretar citocinas que alteram a sinalização cerebral e os circuitos de regulação do humor.
Bioquímica de Neurotransmissores: Embora a serotonina seja frequentemente associada ao SNC, a vasta maioria de sua produção ocorre no trato digestivo. Processos inflamatórios locais podem comprometer essa síntese e a disponibilidade de outros precursores neuroquímicos.
Disbiose e Saúde Mental: A microbiota intestinal atua como órgão endócrino e metabólico. O desequilíbrio entre comensais e patógenos (disbiose) está correlacionado a estados de ansiedade e irritabilidade, enquanto cepas específicas promovem fenótipos de resiliência e bem-estar.
Vias Neurais Diretas: O nervo vago funciona como uma "via expressa" de comunicação aferente e eferente, permitindo que sinais viscerais influenciem quase instantaneamente a função cognitiva e emocional.
Na prática clínica podemos considerar:
Dietoterapia Anti-inflamatória: Foco em polifenóis, fibras e ácidos graxos insaturados.
Higiene do Sono: Otimização do ciclo circadiano para reduzir a inflamação sistêmica.
Atividade Física: Promoção da diversidade da microbiota via estímulo metabólico.
Manejo do Estresse: Redução da ativação do eixo HPA, protegendo a integridade da mucosa intestinal.
Avaliar a composição da microbiota intestinal por técnicas de sequenciamento genético.
Referências:
Bodnar et al. Front Microbiomes. 2025;4:1701608.
Yassin et al. Front Aging Neurosci. 2025;17:1667448.
24/04/2026
Em colaboração, com a EMTN do ICESP e outros pesquisadores, publicamos no Journal of Parenteral and Enteral Nutrition (JPEN), um estudo muito citado no ano de 2025.
Trata-se de investigação prospectiva que avaliou a confiabilidade interavaliadores e a validade dos critérios GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition) em pacientes oncológicos admitidos em UTI.
Em 212 pacientes, os critérios GLIM demonstraram excelente concordância entre avaliadores (kappa = 0,947; P < 0,001). A combinação de perda de peso com presença de inflamação apresentou sensibilidade de 82,4% e especificidade de 92%, tendo a Avaliação Subjetiva Global (ASG) como referência. Na análise multivariada por regressão de Cox, a maioria das combinações GLIM emergiu como preditora independente de mortalidade em 30 dias.
Esses achados reforçam a aplicabilidade clínica dos critérios GLIM para o diagnóstico padronizado de desnutrição em pacientes críticos oncológicos, uma população onde a identificação precoce do comprometimento nutricional pode impactar diretamente os desfechos.
Gersely GD, Klein RCM, Rocha GDGV, Bruzaca WFS, Ribeiro LMK, Santos BC, Almeida MMFA, Silva Junior JM, Correia MITD, Waitzberg DL, Ozorio GA. GLIM criteria validation and reliability in critically ill patients with cancer: A prospective study. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2024.
20/04/2026
As diretrizes de 2026 da ADA enfatizam dietas de baixo índice glicêmico (IG), padrões mediterrâneos e redução de carboidratos para o manejo do diabetes tipo 2 (DM2). A qualidade do carboidrato é tão vital quanto a quantidade para o controle glicêmico.
Fundamento Fisiopatológico
Alto IG: Causa picos glicêmicos e hiperinsulinemia reativa, favorecendo a resistência insulínica, estresse oxidativo e disfunção endotelial.
Baixo IG: Promove elevação gradual da glicemia e liberação insulínica sustentada. Meta-análises indicam que dietas de baixo IG reduzem a resistência insulínica (HOMA-IR), a hemoglobina glicada (HbA1c), o IMC e o colesterol (Total e LDL).
Classificação dos Alimentos
Baixo IG (≤ 55): Leguminosas, a maioria das frutas/hortaliças, grãos pouco processados, massas al dente, oleaginosas e laticínios magros.
IG Moderado (56–69): Batata-doce, milho, arroz branco e cuscuz.
Alto IG (≥ 70): Pães e biscoitos brancos, ultraprocessados e cereais matinais industrializados.
Prática Clínica
Substituições simples impactam o perfil glicêmico: troque arroz branco pelo integral/parboilizado; aveia instantânea por flocos grossos; e pão branco por versões de grãos inteiros.
Nota Importante: O IG não deve ser usado isoladamente. Deve-se considerar a Carga Glicêmica (CG) — que avalia a quantidade real de carboidrato na porção — e a composição da refeição, pois fibras, proteínas e gorduras ajudam a reduzir a velocidade de absorção da glicose.
Referências:
American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes — 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). Wang Y et al.. Front Nutr. 2025;12:1458353.