Sonhos e Mitos - Regina N. Consoline

Sonhos e Mitos - Regina N. Consoline

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Aulas ministradas para pequenos grupos, facilitando a troca de informações e a dinâmica de aprend Cursos sobre Análises de Sonhos e Mitologia Grega

02/05/2026

Música terapia da Alma

Em vez de ser forte e admoestador, Orfeu tinha como armas uma lira e seus dons musicais. Nos túmulos das profundezas, teceu uma canção encantada que confessou sua necessidade insuportável pela esposa. Cantou um amor consumidor, uma dor que tomou seu coração. Não era combativo ou agressivo, mas vulnerável, criativo e expressivo.

A música de Orfeu era uma arma poderosa. Com isso, ele subjugou Caronte e Cérbero, trouxe lágrimas aos olhos das Erínias (deusas femininas do julgamento e da vingança) e fez que os condenados ao sofrimento eterno – Tântalo, Íxion, Tício e as filhas de Dânaos – pausassem e esquecessem seus tormentos.

Ovídio escreveu que, enquanto cantava, “os fantasmas sem sangue estavam em lágrimas”, e “as armas teriam sido tornadas inofensivas pelo charme das canções de Orfeu”. Ele não atacou os poderes das profundezas, mas partiu o coração deles. Enfrentou as mesmas forças instintivas, destrutivas e caóticas da escuridão que Hércules, mas encarou-as com música e saudade.

Quando o coração está pesado e a expressão criativa irrompe, a essência de Orfeu está presente. É preciso heroísmo para liderar com o coração, falar a verdade da alma, das feridas, dos medos. É preciso heroísmo para viajar fundo em si mesmo e enfrentar as maiores reservas de energia da vida, implorando lhes por renovação da vida e por sua energia. O sucesso de Orfeu na persuasão de Hades e Perséfone para a libertação de Eurídice destaca o poder da sinceridade e da autoexpressão diante das trevas – o da sofrimento da vulnerabilidade.

Citando alguns exemplos, podemos ser sensíveis e autênticos por meio do desenho, da pintura, do canto, da dança, da escrita, da escultura e da música. Essas ferramentas nos ajudam a expressar e a conhecer nossa própria experiência. Pinturas, canções, poemas e movimento são modos de descobrir mais profundamente quem somos e o que estamos sentindo.

Muitas pessoas liberam dor, complexidade, desequilíbrios e escuridão por meio da expressão artística catártica. O sofrimento e a criatividade andam de mãos dadas. Alguns dos maiores artistas da história tinham vidas agonizantes. Virginia Woolf teve de suportar a morte de familiares próximos enquanto lutava com os próprios colapsos psíquicos; Anne Frank canalizou seu trauma e medo em um diário; e, em Terezín, campo de concentração tcheco, Rafael Schächter compôs e conduziu um coro adulto de mais de cem judeus que cantavam a própria miséria.

A música é uma maneira órfica de navegar pelo submundo – é menos agressiva e mais reflexiva, usando a imaginação e a criatividade para se conectar, processar e expressar a escuridão na qual nos encontramos.

Arquétipos da Sombra- Joanna La Prade
A Sombra Interior - James Hollis

19/04/2026

Ulisses - o herói da astúcia

Por que “o herói da astúcia"?
Ulisses poderia ser olhado e traduzido como o "herói do retorno" ou o "herói do nóstos" - saudade da terra de origem, da qual a palavra nostalgia deriva.

Todavia, como decorrência de seus atributos de personalidade, traduzidos por sua inteligência, argúcia, por sua sagacidade solerte, como a ele se refere Junito Brandão (1987), podemos então qualificá-lo como o herói das mil faces de métis, ou seja, da astúcia.

Segundo Détienne e Vernant (2008), a palavra métis tem o sentido de “uma forma particular de inteligência, uma prudência avisada" (p. 17).

Métis é a astúcia e, portanto, a sagacidade, a prudência, a esperteza, a eficácia prática. E assim é descrito o herói Ulisses.

Certamente, tais características de métis podem ser exercidas como expressões positivas e criativas da sua natureza arquetípica, bem como facetas negativas e destrutivas.

A inteligência e a perspicácia podem estar a serviço tanto de construir quanto de demolir.

Ulisses o herói da astúcia – Maria Zélia de Alvarenga e
Sylvia Mello Silva Baptista

14/04/2026

DESORDENS DE NOSSO EGO

Existe uma gama de sofrimentos humanos que se estende além do simplesmente neurótico - o que chamamos de "desordens da personalidade". A personalidade neurótica está consciente de seu sofrimento, sempre se culpando por deixar de banir a inquietação da alma e, ainda assim, tem a possibilidade de trabalhar em meio ao sofrimento para encontrar um significado maior.

A desordem da personalidade é encontrada no indivíduo que foi significativamente traumatizado pela vida. Ele não sente simplesmente a dor da ferida, pois é possuído por ela e vive sempre dentro de seus limites imaginários. Quando age e fala, é por meio da janela da ferida, com pouca ou nenhuma consciência de possibilidades paralelas. O problema relacionado à Sombra manifesta-se em desordens da personalidade por meio da exclusão de alternativas. Não se é muito ameaçado pelas alternativas, como se experimenta a neurose normal, pois nos organizamos exatamente para excluí-las.

Como Prometeu, acorrentado perpetuamente a uma rocha no Cáucaso, a desordem da personalidade antissocial é acorrentada à percepção de que o outro está sempre presente para feri-lo. Essa percepção domina todos os relacionamentos, levando-os ao complexo de poder. Como observou Jung, onde o poder predomina, o amor inexiste. O indivíduo está destinado a uma vida sem amor.

Pode estar casado ou em posições de grande influência, mas vive num ambiente estéril, que se reproduz, onde o amor e o relacionamento foram banidos. A vida toda é refratada pelas lentes do poder - uma vida sisifista, reduzida e repetitiva - que prejudica os outros e afasta a reflexão sobre o mal, constringe a consciência por meio da qual é possível dividir o sofrimento do outro. A desordem da personalidade paranoica é caracterizada pelos medos primários que assaltam a criança e, subjugando seus recursos, criam uma sensibilidade governada pelo medo.

Logo, esse medo cobre o mundo, desliza por cada fenda e é responsabilizado por ilusões de perseguição ou grandiosidade compensatórias. Como todas as desordens da personalidade também são desordens da imaginação, então, a pessoa não pode imaginar suas capacidades de experimentar outras possibilidades além daquelas que a ameaçam. Portanto, os medos do passado encontram-se em todas as esquinas de sua vida e os velhos temores são duplicados. Assim, a Sombra para ele ou ela não é o medo; esse é o estado constante do ego. A Sombra é o mundo alternativo da compaixão e o apoio a si mesmo e aos outros.

James Hollis – A Sombra Interior – Por que pessoas boas fazem coisas ruins?

31/03/2026

A sabedoria das Trevas

Ter perspectiva a partir do submundo significa desenvolver relação pessoal com ambos os aspectos sombrios, ou seja, com aquilo que ainda não é consciente e com as inúmeras expressões e camadas de sofrimento. O objetivo de uma jornada mítica ao submundo é tornar o inconsciente consciente.

É uma experiência transformadora que envolve a dissolução e a reconstrução de aspectos de quem pensamos ser e de como nos envolvemos com o mundo. Esse é o perigo e a sedução da jornada ao submundo: o renascimento advém da escuridão. Morrer para aquilo que já não nos serve nos dá oportunidade de viver plenamente. Deixarmo-nos ir nos permite expandir.

No Ocidente, corremos para mais próximo da luz solar, caminhamos em busca de segurança e previsibilidade, daquilo que pensamos poder encontrar no mundo diurno. O poeta austríaco Rainer Maria Rilke escreveu: “Somos desperdiçadores de tristezas!”.

Para criar uma perspectiva do submundo, temos de desistir do impulso de evitar mudanças, de quaisquer ideias que tenhamos de perfeição (ou de quaisquer outras formas de nos compararmos aos outros ou a um ideal), de esforços para controlar nossas emoções ou nossos pensamentos, assim como da crença de que nosso sentido de “eu” é a única força em nós.

É na escuridão – no desconhecido e, talvez, no incognoscível, em meio ao caos e ao sofrimento – que a luz da sabedoria e nossa própria capacidade podem resplandecer. Quando a escuridão é tão cruel que não somos capazes de permanecer nela, isso indica que é cedo demais para iniciarmos algum processo de mudança.

A jornada ao interior pode ser insuportável – dolorosa ou assustadora demais para que possamos caminhar. Quando é esse o caso, precisamos dar uma pausa, aceitar onde estamos e perceber que necessitamos voltar nossa atenção a quem somos neste momento. Por ora, o portão não se encontra suficientemente aberto para que se possa entrar. Ainda não somos capazes de tolerar o desconforto.

Com o tempo e a ajuda de guias – terapeutas, guardiões da sabedoria e amigos empáticos –, podemos nos tornar capazes de retornar às nossas feridas e cultivar a capacidade de nos mantermos presentes no sofrimento, no medo, na dor, na escuridão e até mesmo em nossas limitações.

Arquétipos da Sombra – dra Joanna LaPrade

24/03/2026

Minha parceria com dragões não é de hoje!rs
Quanto mais 'conheço essas criaturas', mais sei da força psíquica que precisamos desenvolver para entender esses embates simbólicos.
O mito é maravilhoso porque nomeia nossas lutas, vitórias e personagens, e assim sabemos que não estamos sozinhos.
Fazer parte de algo em conjunto é tranquilizador, mesmo que esse algo seja uma luta dracônica!
Hoje entendo um pouco mais Jung quando disse: “ Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.”
"Confrontar-se com o aspecto perigoso e devorador do inconsciente pode ser terrível, mas é também o papel do herói (...). Jamais alguém ganhou os grandes tesouros sem se arriscar numa luta heróica com o lado tenebroso e desconhecido da vida.
Algumas pessoas têm a missão de enfrentar os perigos da vida nos conflitos e nas lutas exteriores e outras enfrentam-nos em seu próprio interior.
Ninguém passa pela vida sem, de alguma forma, ter se aproximado de algum dragão. Certa vez, Jung escreveu: "Nos mitos, o herói é aquele que vence o dragão e não o que é devorado pelos mesmos...De modo semelhante, não é herói aquele que encontrou o dragão, ou se por acaso o viu, declarou depois que não tinha visto nada...Somente aquele que arriscou a luta com o dragão e não foi vencido por ele ganha o prêmio. o ' tesouro difícil de alcançar'. - Jung Misterium Coniunctionis

31/01/2026

Religião, Arquétipo e Símbolo

Para Jung as manifestações religiosas seriam formas de o homem entrar em contato com seu material arquetípico usando símbolos para falar sobre “Aquilo” que não se pode expressar em palavras, que não pode ser compreendido, enfim, sobre o Numinoso. Haveria assim, no arcabouço psíquico humano, uma função religiosa inata, responsável por elaborar a relação do homem com o Mistério.

Cabe aqui fazer a distinção entre três conceitos que normalmente se confundem, a dizer: crença, fé e espiritualidade. Crença, por definição, é o ato de crer. Ela é algo universal, pois, diante do Que Nada Sabemos, só nos cabe crer. Não seria próprio assim dizer que não se crê em nada, mas sim que se crê que nada exista além das forças naturais, políticas, econômicas e culturais regendo este mundo: a crença ateia.

Fé, a princípio, designaria um tipo de crença: a de que existiria algo transcendente a este mundo. Pode-se usar também o verbo transcender no sentido de sair da perspectiva egocêntrica para o enfoque social, a assim chamada transcendência horizontal. Esta nada tem a ver com a fé, apesar de ser, sem dúvida, uma evolução espiritual.

A fé se relaciona sim com a transcendência vertical, a noção de que existem forças superiores mais sutis além das naturais e humanas, que de certa forma interfeririam e direcionariam a vida na Terra e no Universo. Com o desenvolvimento da linguagem, ampliou-se o sentido do termo fé, podendo-se hoje dizer, por exemplo, que se tem fé na ciência, mas geralmente o termo fé está relacionado a algo abstrato, imaterial.

O termo espiritualidade, por sua vez, é o mais difícil de ser conceituado. [ ] havendo quase tantas definições de espiritualidade quanto o número de pesquisadores em atividade na área. Para nosso uso, definiremos espiritualidade como a relação do homem com o Numinoso e de como esta relação interfere no cotidiano da vida.

Isto é, a espiritualidade seria a interseção entre a transcendência vertical e a horizontal. Desta forma, todos nós teríamos vida espiritual, pois temos que conviver com o mundo e dar uma resposta aos mistérios que nos cercam, seja ela qual for. A resposta é a nossa crença.
Jung acreditava que existisse no inconsciente um arquétipo da totalidade, ou melhor, um arquétipo de Deus. A imagem de Deus não coincidiria propriamente com o inconsciente em si, mas com um conteúdo particular deste, o arquétipo do Si-mesmo, onde reinaria o paradoxo absoluto.

Estudando profundamente as religiões, Jung corajosamente questionou-se sobre vários dogmas cristãos em busca de entender a razão da existência do mal no mundo. Em um de seus livros mais polêmicos, Resposta a Jó, Jung vislumbrou a possibilidade de um Deus capaz de errar e de aprender com seu erro, isto é, um Ser capaz de evoluir. E sua evolução se daria justamente por meio do sofrimento humano; em outras palavras, o homem seria o campo de pesquisa ética de Deus.

O livro Grego de Jó- qual o interesse de Deus no sofrimento do homem?
Antônio Ar**ha

21/01/2026

As vivências humanas na mitologia

Os mitos, ou mitologemas, ou peças trágicas falam, algumas vezes, de estados dolorosos da alma, de sofrimento da psique. A par de relatar essas condições, falam também sobre as causas, ou seja, dos porquês do sofrimento psíquico, e também da condução do processo a resultados exitosos ou não.

Essas configurações retratam caminhos arquetípicos de estruturação simbólica e consequente ampliação do padrão e do campo da consciência. Mas, mais que tudo, essas configurações representam a possibilidade da estruturação da imparidade de identidade de cada um de nós, seres humanos!

Quando os caminhos são não exitosos, redundam em estagnações ou fixações de realidades arquetípicas, as quais, por não alcançarem humanização, (e, como decorrência, a não estruturação de símbolos e a não ampliação do campo da consciência e consequente estruturação da imparidade da própria identidade) compõem-se como estruturas complexas, de caráter defensivo, pelas quais a psique passa a se reger.

Os caminhos não exitosos retratam também a dor que a estagnação causa quando a defesa se torna impeditiva para que ocorra a progressão simbólica. A dor se torna expressa nos reclamos surdos dos símbolos aprisionados nos complexos.

Esses reclamos surdos emergem do inconsciente e, como venenos peçonhentos, agridem o corpo desencadeando sintomas, como também transtornam a psique expressando-se por realidades inequívocas de dor da alma: tristeza profunda, angústia, perda de sentido da vida, cansaço mental, irritabilidade, desalento, falta de confiança em tudo e todos, sensação de incompetência, sensação de estar sendo observado ou perseguido ou controlado por “forças ocultas”, inveja pelo sucesso do outro, etc.

Muitas são as possibilidades de leitura simbólica dos motivos míticos contidos nas incontáveis histórias das figuras divinas (deuses, deusas, heróis, heroínas, ninfas, centauros, sátiros, titãs, titânidas, rios, mares, e etc.).
[ ]
A humanização, quando se realiza pelos caminhos do sofrimento da alma, está implicada a vivências de perda, abandono, luto, fracasso, agressões físicas violentas, restrição de liberdade com perda de autonomia, humilhações, destituição da honra, falsas acusações, e de muitas outras realidades subjetivas e objetivas, todas causadoras de dor.

Quando falamos de caminhos arquetípicos de humanização estamos nos referindo a processos psicodinâmicos trilhados pela psique no ensejo de estruturação simbólica, e descritos nos vários mitologemas componentes dos mitos das divindades que nos povoam.

Maria Zelia Alvarenga - Os Deuses Castigam? Mitologia e Psicopatologia Simbólica

Photos from Sonhos e Mitos - Regina N. Consoline's post 08/01/2026

Mito como expressão da psique humana

Ao adentrar o psiquismo mais profundo, sempre ultra histórico e trans temporal, começamos a tatear a fonte original dos mitos que sempre retrataram a Humanidade, em todos os lugares e época, os quais são os verdadeiros hologramas do que fomos, somos seremos.

E, para começar, é bom você saber que um mito sempre expressa o mundo ou a realidade humana em símbolos essenciais que são fruto de representações coletivas transmitidas geneticamente de ser humano para ser humano, em função de uma interminável repetição sucessiva de experiências análogas de vida.

Neste sentido, os mitos nada têm a ver com lendas, fábulas, histórias de ficção ou parábolas, e é por este motivo que as variadas culturas sempre apresentaram mitos bastante parecidos entre si: afinal, as experiências humanas básicas são semelhantes, pouco importando onde e como se deem.

Além disso, cada mito predominante no psiquismo individual – e esta “dominância” sempre varia de pessoa para pessoa, dependendo de sua bagagem genética -sempre busca ser revivenciado através de algum tipo específico de rito pessoal (seja ele religioso ou apenas se manifeste no cotidiano, através de hábitos e “manias”), já que todo rito é uma forma de atualizar na consciência, voluntária ou involuntariamente, o conjunto de símbolos dos mitos que se destaquem no psiquismo da pessoa.

Como exemplo, busque recordar alguém que você conheça que vive certo aspecto de sua existência, por mais banal que seja, dentro de uma rigidez ritual que chama a atenção, mas para a qual a própria pessoa não só não tem explicação como talvez nunca tenha atentado.

Do tipo “eu faço questão de que tal objeto fique sempre num certo móvel”, ou “eu sempre faço determinada coisa de um certo jeito e não gosto de mudar” ...
Com certeza, é algum mito pressionando a partir de seu inconsciente profundo e se manifestando de forma aparentemente comum no cotidiano.

Finalmente, saiba que o termo grego mythós significa ao mesmo tempo história e esquema (ou plano). Em outras palavras, e reunindo isto tudo, cada mito carrega em si (num tempo só):
• Um certo objetivo final visado pela psique pessoal;
• O conjunto de ritos (ou de formas pessoais de procedimento e de comportamento) necessários para atingir este determinado objetivo;
• E o esquema geral de vida a adotar para que isto seja possível, razão pela qual, mesmo inconscientemente, a pessoa termina agindo de acordo com os seus mitos pessoais (muitas vezes sem o perceber), os quais estão registrados em seus arquétipos e, mais particularmente em suas imagens arquetípicas.

Terapia – um caminho Divino Luiz Carlos Teixeira de Freitas

31/12/2025

Feliz 2026!!!
Que possamos construir novos caminhos que nos levem a realização dos nossos sonhos!

20/12/2025

Psique, alma e espírito

A consciência é muito confundida ou aproximada daquilo que chamamos de alma. Mas ao usar esse termo, em muitos momentos de seu texto, Jung pretende nos lembrar que a psique é bem mais que a consciência. “A consciência é um rebento tardio da alma inconsciente” (JUNG, 1984, §.676). Portanto, o que temos consciência é apenas uma ínfima parte de toda uma totalidade que ignoramos ou desconhecemos. Apesar disso, só possuímos a consciência e é através dela, com toda a insuficiência que lhe caracteriza, que temos acesso ao restante de nossa psique. Ela é unilateral, isto é, ela é apenas um lado da percepção. “Consciência significa acima de tudo estar ciente.” (EDINGER,2004, p.19)

O fato é que na unilateralidade da consciência nos sentimos mais seguros e, portanto, nos sentimos menos presa da angústia. Pois a consciência é ser ciente não só do outro-objeto, mas de si mesmo-sujeito. É uma consciência interna, uma percepção de si como algo separado, o que pode resultar em uma soberania que será experimentada pelo ego em relação à natureza e ao mundo. Diz Jung: Na consciência somos nossos próprios senhores; aparentemente somos nossos próprios fatores [deuses]. Mas se ultrapassarmos o pórtico da sombra, perceberemos aterrorizados que somos objetos de fatores. Saber isso é decididamente desagradável, pois nada decepciona mais do que a descoberta de nossa insuficiência. (JUNG, 2008, § 49)
[...]
Espírito e alma possuem como característica, algo que não pode ser definido pelas categorias da razão e que é experimentado com uma dose de mistério que parece indicar muito mais sobre nossa psicologia. A alma é uma força movente, que tem força vital: […] o conflito entre a natureza e espírito não é senão o reflexo paradoxal da alma: ela possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que parecem se contradizer mutuamente, porque, em última análise, não compreendemos a natureza da vida psíquica como tal. (JUNG, 1984, §680)
Assim, podemos perceber que, para Jung, corpo e alma estão juntos. As doenças afetam a totalidade do ser humano. Tudo que experimentamos é psíquico, todos as minhas percepções são imagens psíquicas que representam minha única experiência imediata, isto é, minha psique pode transformar e até mesmo falsear a realidade; toda a realidade é a realidade do psíquico, única realidade em que o psicólogo pode se apoiar.

Nesse sentido, os conteúdos psíquicos se originam tanto na natureza, como no espírito. Porém, ainda acreditamos mais no fogo que nos queima, do que no medo de um fantasma: “o medo que tenho de fantasmas é uma imagem psíquica de origem espiritual, tão real quanto o fogo, porque o medo que eu sinto é tão real quanto a dor causada pelo fogo” (JUNG, 1984, §681). Problemas somáticos afetam a alma, tanto quanto a condição desta acaba por afetar o corpo.

É na psique humana que matéria e espírito se tornam um. E foi isso que fascinou Jung e que, segundo Von Franz, fez dele um psiquiatra. Talvez seja isso que faça da alma e espírito conceitos que possuem uma definição razoável na psicologia empírica de Jung, mas que também apontam uma névoa onde nossa existência está mergulhada e onde a nossa consciência pouco pode enxergar, mas sabemos que ela é nossa única luz.

Autora: Dra. Maria Cristina Mariante Guarnieri

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