10/03/2026
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Carnaval e o Divino em Jesus de Nazaré.
Ante a polissemia (sentidos múltiplos) para festa tão bonita, sinto-me tocado para dizer algo que provoque reflexão.
Seja como " carne vale tudo" ou "carne nada vale" , o fenômeno já vazou milênios. Não nasceu com catolicizacao ou sacralização cristã medieval. Logo, não deve satisfação a nossos princípios marcantes da construção teórico -simbólica da fé cristã e seus dogmas. Seja no horizonte católico ou protestante (aqui fazendo distinção necessária se classificaçoes variadas entre históricos, pentecostais, cura divina ou neopentecostais).
Bom. Questão aqui, é traduzir, na perspectiva do " numinoso" o Carnaval como festa essencial, em sua origem, nas andanças de Jesus: abrir-se para risos, escárnio, faz bem.
Nada, nas Escrituras, em seu todo, acomete Carnaval de festa satânica ou portadora do maligno invasor de nosso cotidiano. Nem história da Igreja Contemporânea.
Deixemos nosso povo e sociedade global festejar.
Festejar o que?
Viver e permanecer na Esperança como busca da saciedade entre as necessidades básicas materiais e mundo dos sonhos.
"Ainda estamos aqui".
Acordamos. Dormimos. O trem. Ônibus. Os animais e plantação na roça. Preocupação com empresa grande e como encaminhar tudo . As enfermidades com filas no bem sucedido SUS. Sim, maravilha de festejo brasileiro e universal. Os desamores. A violência cotidiana (intra-familiares; feminicidio; inserção no narco-trafico ou narco-pentecostalismo, etc...); juventudes e inserção no mercado de trabalho; idosos/as e dúvida sobre o que virá... . São tantas situações.
E Jesus? Sem dúvida estaria na folia conosco. Crítico ferrenho das estruturas sócio-econômicas e político-religiosas de seu tempo encorajaria nossas 4 noites de samba, suor e folia.
Festa carnavalesca como apelo da concretude do hoje sobre o risco de um amanhã incerto.
Vamos "dançar a vida" (Roger Garaudy) enquanto podemos.
Como Jesus nos encoraja e inspira ao olharmos seus embates ante a Lei e o Templo. Propõe novo jeito de ser e estar (Jon Sobrinho, Antônio Patola, Benedito Ferraro, Antônio Manzatto, Maria Caterina Jacobelli e Konrad Korner).Tudo com sutileza, delicadeza e rigor profético.
Tudo para além do princípio, já também milenar, de um Deus punidor, aliado ao amor à Pátria como meu nicho e a produzida ideia de família, gestada na moral do ressentimento (Nietzsche).
Mas em que Jesus nos acompanha concretamente na festa da folia? No exato momento em que nos inebriamos de abraço, de compaixão e de ternura. Indo ao encontro. Saindo de nós mesmos e mesmas.
Carnaval é tempo encontro, prazer da bebida responsável, beijos, abraços, soltura dos corpos numa invejavel dança sedutora e libertadora.
Está muito além de gritos histéricos de pecado, queda ou culpa. Que sejam momentos de graça, superação e gozo.
Encontro na diferença, dissolução momentânea da luta de classes, que no dia seguinte faz-nos acordar para necessidade de supera-la.
Jesus dançaria conosco,
beberia conosco, comeria conosco, sonharia conosco. Sim, talvez já pré-anunciando a essência da mesa eucarística que celebraremos na Semana Santa.
Carnaval é toque. Toque de corpos que anseiam pelo SAGRADO, pelo NUMINOSO. São corpos para além do dualismo neoplatónico invadiu nossa Teologia Ocidental, via Escola Alexandrina (Clemente e Orígenes) e se petrificou como iluminador de dogmas e princípios de moral casuística presentes, por exemplo, na Renovação Carismática e nas chamadas "novas comunidades". Movimentos anti-festas livres que não conduzam para um suposto paraíso de santos e santas.
Por fim: viva beleza dos 4 dias!
Nossa alma (nefesh) esteja livre e pronta para amar.
(por Dr. Adailton Maciel Augusto. Manhã de Carnaval em Perus, São Paulo. Bairro herdeiro da Greve dos Queixadas e da ossada encontrada em vala no Cemitério dom Bosco advinda dos porões da Ditadura.
Paróquia São José. 15/02/2026).