14/07/2026
Fascismo tardio, uberização e tecnologia disruptiva: a vilipendiação do precariado sob o capitalismo de plataforma
Este artigo analisa a ascensão contemporânea da extrema direita a partir de sua articulação com dois processos convergentes: a precarização e uberização do trabalho, e a captura da inovação tecnológica pela lógica da solvência — tecnologias "disruptivas" desenhadas para quem pode pagar por elas, e não para quem delas necessita. Sustenta-se, com Ricardo Antunes, que a nova morfologia do trabalho produziu um proletariado de serviços digitalmente mediado; com Shoshana Zuboff e Nick Srnicek, que o capitalismo de plataforma e de vigilância inverteu a promessa emancipatória da técnica, convertendo o trabalhador simultaneamente em insumo e em excluído da tecnologia que opera sobre ele; com Alysson Mascaro, que a forma política capitalista abriga estruturalmente a saída autoritária em contextos de crise; e, com Marilena Chaui, que o discurso competente — hoje encarnado no solucionismo tecnológico — fornece o revestimento ideológico do processo. Conclui-se que a incapacidade de mobilização da esquerda decorre da inadequação de suas formas organizativas históricas à condição fragmentada e algoritmicamente gerida do precariado.
1. Introdução
A segunda década do século XXI assistiu à emergência simultânea de três fenômenos cuja conexão este artigo pretende demonstrar. Primeiro, a consolidação de regimes e movimentos de extrema direita em escala global — Trump, Bolsonaro, Milei, Orbán, Meloni, a AfD —, fenômeno que Traverso (2019) denomina "pós-fascismo". Segundo, a generalização de formas de trabalho intermitentes e mediadas por plataformas, processo que Abílio (2020) conceituou como **uberização** e que Antunes (2018) inscreve no "privilégio da servidão". Terceiro — e é este o eixo que o presente texto acrescenta ao debate —, uma inflexão na própria direção do desenvolvimento tecnológico: a chamada **tecnologia disruptiva**, celebrada como motor de progresso universal, passou a ser desenhada, precificada e distribuída segundo a capacidade de pagamento, e não segundo a necessidade humana. A técnica que poderia libertar o trabalho tornou-se o instrumento mais eficiente de sua subordinação.
A hipótese central é que esses fenômenos são internamente articulados: a extrema direita contemporânea é a forma política do ressentimento produzido pela precarização tecnologicamente administrada — ressentimento que a esquerda, presa a formas organizativas moldadas pelo trabalho fordista, não conseguiu disputar.
2. A nova morfologia do trabalho e o privilégio da servidão
Ricardo Antunes vem demonstrando, desde *Adeus ao trabalho?* (1995) e *Os sentidos do trabalho* (1999), que a reestruturação produtiva pós-fordista não eliminou a centralidade do trabalho, mas alterou sua morfologia: no lugar do operário fabril estável emerge uma "classe-que-vive-do-trabalho" heterogênea, terceirizada e crescentemente informal. Em *O privilégio da servidão* (2018), o diagnóstico se radicaliza: o capitalismo de plataforma engendra um "novo proletariado de serviços da era digital" para o qual ter qualquer trabalho — sem direitos, sem jornada, sem futuro — apresenta-se como privilégio.
Abílio (2020) precisa o mecanismo: a uberização transfere ao trabalhador os custos e riscos da atividade (veículo, combustível, o próprio corpo), enquanto o gerenciamento — distribuição de tarefas, remuneração, punição, desligamento — permanece concentrado na plataforma, exercido de modo algorítmico e opaco. É o "trabalhador *just-in-time*": disponível em tempo integral, remunerado apenas pelo tempo efetivamente consumido pelo capital. Standing (2013) captura o resultado subjetivo com o conceito de **precariado**, classe-em-formação habitada pelos quatro As — raiva, anomia, ansiedade e alienação. É sobre esses afetos que a extrema direita construirá sua base.
3. A tecnologia disruptiva e a inversão da promessa: inovar para quem paga
É preciso, contudo, dar um passo além da sociologia do trabalho e interrogar a própria **direção do desenvolvimento tecnológico**. O discurso da "disrupção" — categoria nativa do Vale do Silício, elevada a teoria por Christensen (1997) — apresenta a inovação como força neutra e universalmente benéfica: cada nova plataforma, aplicativo ou modelo de inteligência artificial viria "democratizar" o acesso a serviços. A realidade é inversa, e pode ser descrita em três movimentos.
**Primeiro movimento: a inovação segue a solvência, não a necessidade.** Sob a forma-mercadoria, a pesquisa e o desenvolvimento respondem à demanda solvável — quem pode pagar — e não à carência social. Investe-se bilhões em aplicativos de conveniência para as classes médias e altas das metrópoles (entrega em dez minutos, carros autônomos, assistentes de luxo), enquanto permanecem tecnologicamente órfãs as necessidades de quem não constitui mercado: saneamento, habitação popular, doenças negligenciadas, transporte público das periferias. Morozov (2018) chama de **solucionismo tecnológico** essa operação ideológica que redefine todo problema social como problema técnico — e todo problema técnico como oportunidade de negócio. O resultado é que a "disrupção" não distribui a técnica: distribui o *acesso* à técnica segundo a renda, e aprofunda o fosso que alega encurtar.
**Segundo movimento: para o pobre, a tecnologia não chega como serviço, mas como patrão.** Eis a assimetria decisiva: a mesma tecnologia que o consumidor solvente experimenta como conveniência, o trabalhador precarizado experimenta como comando. O algoritmo que entrega o jantar em minutos ao cliente é, do outro lado da tela, o feitor digital que cronometra, pontua, pune e desliga o entregador. Zuboff (2019) demonstra que o **capitalismo de vigilância** converte a experiência humana em matéria-prima gratuita: o uberizado é duplamente expropriado, pois fornece não apenas seu trabalho, mas os dados sobre seu próprio comportamento, que alimentam os modelos que o gerenciarão com eficiência crescente. Srnicek (2017) completa o quadro: as plataformas não são mercados neutros, mas infraestruturas monopolistas que extraem renda de tudo o que atravessam. O precariado, assim, ocupa a posição mais cruel da divisão tecnológica: é **insumo** da tecnologia (seus dados, seu trabalho) sem jamais ser seu **destinatário** (seus benefícios, sua propriedade, seu desenho).
**Terceiro movimento: a exclusão tecnológica realimenta o ressentimento.** A promessa incumprida importa politicamente. O trabalhador que vê a técnica resolver, diariamente e diante de seus olhos, os problemas de quem pode pagar — enquanto seus próprios problemas (fila do SUS, ônibus lotado, escola sucateada) permanecem intocados — apreende corretamente que o progresso não é para ele. Essa percepção, verdadeira em seu núcleo, torna-se matéria-prima do neofascismo quando desacompanhada de uma explicação de classe: a raiva contra a exclusão converte-se em raiva contra "as elites" abstratamente definidas — a universidade, a imprensa, a ciência, o "sistema" — precisamente as instituições que a extrema direita deseja destruir, jamais contra a estrutura de propriedade que dirige a inovação. Não é acidental que os magnatas das plataformas, de Musk a Thiel, tenham migrado da retórica libertária para o patrocínio aberto da extrema direita: o autoritarismo protege o monopólio tecnológico da única ameaça real, que é a regulação democrática.
4. A crítica ideológica: Chaui e o discurso competente na era do algoritmo
Marilena Chaui oferece as ferramentas para nomear a operação ideológica em curso. Em *O que é ideologia* (1980) e em *Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro* (2013), a autora demonstra que a sociedade brasileira é estruturalmente autoritária — verticalizada, organizada pela tutela e pelo favor, incapaz de operar com a noção de direitos, sempre convertidos em privilégios para os de cima e em carência ou dádiva para os de baixo. O neofascismo não precisou inventar seu terreno: encontrou-o pronto no **autoritarismo social**.
A noção chauiana de **discurso competente** — o discurso que só pode ser proferido do lugar institucional autorizado — ganha, na era das plataformas, sua forma mais acabada: o **algoritmo é o discurso competente que dispensa até mesmo o falante**. A decisão que rebaixa a pontuação do motorista, reduz sua tarifa ou o desliga não é proferida por ninguém; apresenta-se como resultado técnico, neutro, inapelável — a ideologia realizada como código. Ao trabalhador interpelado como "empreendedor de si", "parceiro", "CEO da própria vida", o discurso competente do empreendedorismo (Dardot; Laval, 2016) veda o reconhecimento do patrão e da classe: quem se crê empresa não faz greve contra si mesmo, e sua raiva, não podendo dirigir-se para cima — para onde não há rosto, apenas interface —, dirige-se para o lado e para baixo.
5. A crítica da forma política: Mascaro e o Estado da crise
Se Chaui explica o solo ideológico, Alysson Leandro Mascaro explica por que a crise desemboca na saída autoritária. Em *Estado e forma política* (2013), na esteira da derivação pachukaniana, Mascaro sustenta que o Estado não é instrumento neutro ocasionalmente capturado pelo capital, mas **forma social derivada** da própria sociabilidade mercantil — constitutivamente capitalista. Disso decorre que democracia liberal e autoritarismo não são opostos externos, mas variações funcionais da mesma forma: quando a acumulação entra em crise, a reprodução do capital pode dispensar as mediações democráticas sem alterar sua estrutura profunda.
Em *Crise e golpe* (2018), Mascaro aplica o esquema ao Brasil: a crise aberta em 2008 e aprofundada após 2013 exigiu um rearranjo do bloco no poder que desaguou no impeachment de 2016, na reforma trabalhista de 2017 — que juridificou a precarização, legalizando o trabalho intermitente — e no bolsonarismo. O neofascismo aparece como **gestão autoritária da crise**: a forma política que o capital assume quando precisa impor a superexploração a uma classe já fragmentada. E o capital de plataforma é seu sócio natural: a desregulamentação que o fascismo tardio oferece é exatamente o ambiente de que o monopólio tecnológico necessita para operar sem transparência algorítmica, sem direitos trabalhistas e sem tributação. Fascismo tardio e tecnofeudalismo, como sugerem Löwy (2019) e Boito Jr. (2020) por um lado e Varoufakis (2023) por outro, são faces do mesmo rearranjo.
6. A esquerda diante do trabalho uberizado: a forma que não alcança o conteúdo
Por que a esquerda não organiza a revolta do precariado? A resposta é de **forma**, não apenas de conjuntura. O sindicato por categoria, o partido de massas e a greve pressupõem o que a uberização dissolveu: vínculo empregatício, unidade espacial da produção, identidade profissional, tempo livre para a vida associativa. A fragmentação do trabalho é fragmentação da classe: o entregador não encontra seus pares na fábrica — os disputa na rua, corrida a corrida, ranqueado contra eles pelo mesmo algoritmo.
Há ainda uma assimetria tecnológica interna à disputa política: a extrema direita opera com desenvoltura na infraestrutura das plataformas — grupos de WhatsApp de motoristas, canais de YouTube sobre "renda extra", igrejas neopentecostais cuja teologia da prosperidade é a tradução religiosa do empreendedorismo —, beneficiando-se de algoritmos de recomendação que privilegiam a indignação e o engajamento. A esquerda, que denuncia as plataformas, hesita em habitá-las; e quando as habita, fala *sobre* o precariado em vez de falar *com* ele. Os *breques dos apps* de julho de 2020 e as experiências de sindicalismo de plataforma indicam, contudo, que o precariado não é inorganizável: é organizável por formas em invenção — reticulares, territoriais, digitais —, que incluem necessariamente a disputa da própria tecnologia: plataformas cooperativas, transparência algorítmica como direito, tecnologia pública orientada à necessidade e não à solvência.
7. Considerações finais
A ascensão do neofascismo não é desvio cultural corrigível por pedagogia democrática: é o resultado político da vilipendiação material, simbólica e **tecnológica** do precariado. Chaui mostra o solo autoritário e o discurso competente, hoje codificado em algoritmo; Antunes e Abílio, a base material da fragmentação; Zuboff, Srnicek e Morozov, a captura da técnica pela solvência — a inovação dirigida a quem pode pagar, operando *sobre* quem precisa dela; Mascaro, a lógica estrutural que converte crise em autoritarismo. A conclusão é tripla: não haverá derrota duradoura da extrema direita sem desprecarização do trabalho; não haverá desprecarização sem disputa da direção do desenvolvimento tecnológico — quem desenha, quem possui, quem se beneficia; e não haverá nenhuma das duas sem que a esquerda reinvente suas formas organizativas à altura da nova morfologia do trabalho. A disputa decisiva do nosso tempo é pela explicação do sofrimento de quem trabalha — e pela propriedade das máquinas que hoje o administram. Até aqui, quem venceu foi quem explicou errado.
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# # Referências
ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização: a era do trabalhador just-in-time? **Estudos Avançados**, São Paulo, v. 34, n. 98, p. 111-126, 2020.
ANTUNES, Ricardo. **Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.** São Paulo: Cortez, 1995.
ANTUNES, Ricardo. **Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.** São Paulo: Boitempo, 1999.
ANTUNES, Ricardo. **O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital.** São Paulo: Boitempo, 2018.
BOITO JR., Armando. Por que caracterizar o bolsonarismo como neofascismo. **Crítica Marxista**, Campinas, n. 50, p. 111-119, 2020.
CHAUI, Marilena. **O que é ideologia.** São Paulo: Brasiliense, 1980.
CHAUI, Marilena. **Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro.** Belo Horizonte: Autêntica; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013.
CHRISTENSEN, Clayton M. **The innovator's dilemma: when new technologies cause great firms to fail.** Boston: Harvard Business School Press, 1997.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. **A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal.** São Paulo: Boitempo, 2016.
LÖWY, Michael. Neofascismo: um fenômeno planetário — o caso Bolsonaro. In: **O fascismo do século XXI.** São Paulo: Boitempo, 2019.
MASCARO, Alysson Leandro. **Estado e forma política.** São Paulo: Boitempo, 2013.
MASCARO, Alysson Leandro. **Crise e golpe.** São Paulo: Boitempo, 2018.
MOROZOV, Evgeny. **Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política.** São Paulo: Ubu, 2018.
SRNICEK, Nick. **Platform capitalism.** Cambridge: Polity Press, 2017.
STANDING, Guy. **O precariado: a nova classe perigosa.** Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
TRAVERSO, Enzo. **The new faces of fascism: populism and the far right.** London: Verso, 2019.
VAROUFAKIS, Yanis. **Technofeudalism: what killed capitalism.** London: Bodley Head, 2023.
ZUBOFF, Shoshana. **A era do capitalismo de vigilância.** Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
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