05/05/2026
Projeto
Parque Municipal do Rio Bixiga
As inquietações sobre como entrelaçar projeto, lugar e memória começaram a apontar pensamentos vinculados a um tempo não linear, ou seja, não ancorados nos ideais de sucessividade e substituição. Era preciso incorporar as dinâmicas existentes no Bixiga, outrora Quilombo do Saracura, bairro dos terreiros de candomblé, do samba, da capoeira, do jongo; dos corpos-repertórios cantantes, dançantes e ritualísticos que ali resistem.
Sendo assim convocamos o que a pensadora Leda Maria Martins denomina de tempo espiralar, um tempo que molda o futuro presentificando o passado. Essa perspectiva compreende o passado de uma maneira viva, um passado em movimento, transformado a cada giro da espiral, e, por isso, um passado que nunca retorna como o mesmo.
O desejo de grafar o tempo espiralado em uma coreografia espacial originou o primeiro gesto do projeto: a escavação de um círculo rebaixado no chão do parque. Acessado por rampas que costuram um movimento fluido e contínuo entre o dentro e o fora, o espaço-solário acolhe os corpos em um microclima protegido, onde o afloramento do Rio Bixiga se movimenta entre topografias construídas e jardins filtrantes. O círculo vem a ser também uma infraestrutura hídrica capaz de armazenar um volume de até 11.500m³ de água, contribuindo para a redução dos alagamentos no entorno.
O traçado proposta para rio meandra entre o retrospectivo (pela citação da sinuosidade original) e o prospectivo, sem intencionar a reversibilidade da situação original, afinal, como nos ensina Leda, repetir um gesto não é copiar, é reativar e atualizar o passado.
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