03/06/2022
Segundo Marcos Bagno, ocorre variação quando as falantes têm a sua disposição duas ou mais formas de dizer “a mesma coisa”. Por exemplo, no Brasil existe variação no uso de “tu” e “você”, uma variação que se deve a diferentes fatores: origem geográfica, classe social, maior ou menor monitoramento do discurso etc. Ora, isso não existe no caso de “vós” e “vocês”, porque “vós” não está à disposição de ninguém no uso corrente da língua. Não existe variação “vós”/”vocês”, portanto. “Vós” só está à disposição em textos antigos e religiosos (e, mesmo assim, quando tentamos usá-lo erramos feio na conjugação!). E para quem continua chamando “você” de “pronome de tratamento”, lamento informar que essa denominação é descabida: chamar alguém de “tu” também é uma forma de tratamento (informal, por exemplo, ou até agressiva, em certos lugares e situações). Por isso e mais alguma coisa é que aquela tabela de conjugação que aparece nas gramáticas e nos livros didáticos (junto com a parlenda “eu, tu, ele, nós, vós, eles”) presta um imenso desserviço à educação linguística. O “tu” é minoritário no Brasil. Nos dois estados mais populosos do país, SP e MG, não se usa "tu" praticamente nunca (mas mesmo assim deve figurar na tabela, com as duas formas possíveis: “tu és” e “tu é”), o “você” já devia estar lá há um bom século, junto de “nós” devia aparecer “a gente” (que, segundo as pesquisas, está desbancando “nós” na fala espontânea) e por aí vai. Aquela tabela de conjugação reflete o português falado no século 16. Fico imaginando um livro de ciências atual que descrevesse, por exemplo, a medicina do século 16 como algo a ser aprendido e ensinado hoje...