Jornal Mundo

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O Jornal Mundo é publicado desde 1992 e aborda temas atuais de Geopolítica, História, Economia e Cultura. Saiba mais: www.clubemundo.com.br

Estamos muito gratos por seu interesse em nos conhecer. Somos uma editora chamada Pangea e existimos há vinte anos. Publicamos o boletim Mundo – Geografia e Política Internacional que trata de grandes temas da política e economia contemporâneas. Mundo é um material de caráter paradidático amplamente utilizado em sala de aula, por professores e alunos em cerca de 200 das melhores escolas do país. M

Mundo 11/02/2019

NELSON BACIC OLIC (1947-2019), IN MEMORIAM
Demétrio Magnoli & José Arbex Jr.
Editores de Mundo

Nelson Bacic Olic faleceu no dia 7 de fevereiro, como consequência de complicações decorrentes de um câncer no pâncreas. Desafiando todos os prognósticos médicos, Nelson resistiu ao longo de mais de quatro anos de tratamento quimioterápico, dando provas de sua extraordinária vontade de viver e de seu compromisso para com o trabalho. A crise final teve início no dia 7 de setembro, quando Nelson levou para o hospital, onde foi internado, suas anotações de pesquisa para escrever os artigos que aparecem às páginas 9 e 10 da última edição de Mundo (outubro de 2018). No fim, em meio a uma evolução difícil de seu quadro clínico, enviou fotografias de textos manuscritos, que foram digitados pela Karina, a insubstituível secretária de Pangea. O compromisso de Nelson com o trabalho não tinha limites.

Não eram só textos. Nelson encarregava-se da produção cartográfica de Mundo, produzindo mapas originais para cada edição. Dessa vez, episódio inédito em 26 anos de existência de nosso jornal, esgotado o prazo, ainda faltava um mapa, destinado à página 9. Descobrimos, então, que ele pedira à Karina um mapa em branco da América do Sul, para completá-lo no hospital, com os intercâmbios comerciais dos países do subcontinente com a China. Interrompemos a tempo a operação e produzimos, nós mesmos, o tal mapa. Nelson nunca admitiu a hipótese de dar trabalho a outros, embora estivesse sempre disponível para ajudar os que o rodeavam.

Há professores e professores com maiúsculas. Nelson pertencia à segunda categoria. O seu empenho era o de um artesão das antigas. Fazia questão absoluta de aprender, enquanto ensinava. Ele jamais operava no automático ou se rendia à rotina. Suas aulas e, depois, seus textos para livros e para Mundo sempre foram frutos de um engajamento intelectual singular. Sem alarde e sem pretender fazê-lo, por meio do exemplo, Nelson dava aulas cotidianas de ética profissional.

Eu, Demétrio, conheci Nelson bem antes de encontrá-lo pela primeira vez, por intermédio de alunos do curso Anglo, que também eram alunos dele, no Colégio Santa Cruz. Do nada, nas minhas aulas de Geopolítica, os jovens punham-me diante de perguntas agudas, explicando que eram indagações dirigidas a mim por um certo professor Nelson Bacic Olic, de Geografia. Habituei-me a respondê-las, mas acrescentando uma nova indagação, que deveria ser levada às aulas dele. O curioso diálogo por bocas e ouvidos interpostos durou meses e enriqueceu as aulas de nós dois, antes do telefonema que, finalmente, propiciou um primeiro café.

Eu, Arbex, tinha grande admiração por seu equilíbrio e perseverança. Costumava chamá-lo de “Mr. Basic”, uma brincadeira com seu nome. Aprendi a respeitá-lo tanto como intelectual quanto como ser humano, completamente dedicado à família que construiu ao lado de sua mulher Neide, quatro filhos e três netos. Era também um atleta. Correu várias versões da São Silvestre e tinha orgulho ao exibir suas medalhas. Nelson viveu bem, muito bem. Conquistou tudo o que dependia apenas de seus própios esforços. Só não deu para ver a seleção da Croácia de seus pais ser a campeã mundial de futebol, na Rússia. Não deu, mas foi quase.
GEÓGRAFO PELA USP

A ditadura militar ingressava no seu longo outono, nos nossos tempos de faculdade. Nelson, cerca de uma década mais velho, cursou a Geografia da USP nos “anos de chumbo”. O AI-5, de dezembro de 1968, pegou em cheio a geração dele. No 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin fincaram uma bandeira na superfície desolada da Lua e deixaram uma placa com os dizeres: “Aqui, homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua”.

Naquele dia histórico, Nelson viu através das grades de uma cadeia as imagens borradas, em preto e branco, dos dois astronautas americanos, captadas pelo aparelho de TV de um policial militar. Ele, de fato, não pertencia a nenhum grupo político clandestino e não desempenhava nenhum papel destacado no movimento estudantil. Estava lá por “engano”, como atestado de um apogeu do arbítrio de Estado.

Nelson exerceu o ofício de professor durante décadas. Antes de deixar as salas de aula, começou a escrever livros paradidáticos e, conosco, deflagrou a aventura de Mundo. Ele acreditava na escola, no melhor sentido da palavra: o lugar capaz de despertar a centelha da curiosidade intelectual dos jovens.

Gerações diferentes, estilos diferentes. Nelson escrevia como um geógrafo francês clássico, situando seu objeto na rede de quadrículas do mapa e descrevendo suas feições naturais, antes de analisá-lo sob as lentes da economia e da geopolítica. Seus textos ancoraram Mundo numa fértil tradição acadêmica e pedagógica que, infelizmente, vai se perdendo. Os artigos da seção O Meio e o Homem, bem como da mais recente Mundo dos mapas, mapas de Mundo são, na sua imensa maioria, de autoria dele.

Mundo nasceu em 1993, quando se intensificava a guerra étnica na antiga Iugoslávia, Israel e os palestinos firmavam os acordos de paz de Oslo, o apartheid começava a ser desmantelado na África do Sul, o Tratado de Maastrich estabelecia a União Europeia – e quase nenhum dos leitores de sua última edição tinha nascido. Daí em diante, durante um quarto de século, Nelson produziu conosco essa ferramenta didática especial, que filtrou a corrente de notícias da “era da informação”, irrigando os conteúdos curriculares de Geografia e História. A aventura não teria sido possível sem ele – e terminou junto com ele.

Nos últimos quatro anos, Nelson deu sua aula derradeira. Lutando contra a doença, trabalhou com a perseverança de sempre – e nunca se queixou. Os artigos escritos à mão no hospital, o esboço de mapa que pediu nos dias finais são testemunhos de amor à vida e dedicação ao trabalho. São, ainda, o testamento de um professor.

O amigo querido vai. Suas lições ficam.

Mundo 05/11/2018

JORNAL MUNDO OUTUBRO 2018

Esta é a capa e as manchetes do sexto número do jornal Mundo - Geografia e Política Internacional de 2018 que as escolas assinantes já receberam.
PAUTA DO JORNAL MUNDO OUTUBRO 2018

Página 1: Manchetes e conteúdo do jornal
Página 2: Concurso de Redação: resultados
Página 3: Editorial – Xenofobia à brasileira
A esquerda brasileira diante de Maduro e Ortega
Página 4: A diáspora venezuelana
Página 5: Imigração e crise do sistema político alemão

Dossiê: Os EUA, a China e a ordem mundial
Página 6: EUA-China, rumo de colisão?
Página 7: A China diante da “Pax Americana” + O “Mare Nostrum” chinês

Página 8: Os acordos da guerra comercial
Página 9: As grandes correntes do comércio mundial
Página 10: Os partidos políticos no Brasil, desde o Império
Página 11: 50 anos do AI-5
Página 12: Diário de Viagem – Lisboa

História & Cultura:
# Museu Nacional do Rio de Janeiro: memória imolada pelo fogo
# Machado de Assis: o eterno mestre na periferia do capitalismo
# 90 anos de Macunaíma

Mundo 19/10/2018

A URSS, MODELO OU INTERVALO?
(Este texto está presente na página 7 de Mundo 3, maioo de 2018, ainda não disponível no site)

A natureza socioeconômica da antiga União Soviética, definida pela economia estatizada e centralmente dirigida, não interessa a Putin. Na nova Rússia, a economia se organiza como capitalismo de Estado: a aliança entre empresas estatais e grandes empresas privadas. Da antiga União Soviética, interessa a Putin o poder geopolítico, que se expressa territorialmente. A “catástrofe” foi a queda do Império, não a do poder comunista.

No auge de seu poderio geopolítico, a União Soviética funcionava como centro do Pacto de Varsóvia, a aliança militar de Moscou com os países-satélite do Leste Europeu. Naquele período, que se estendeu do pós-guerra até 1991, Moscou estendia sua influência até a Europa Central. A implosão da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia provocaram a retração da influência de Moscou e a concomitante expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar liderada pelos Estados Unidos [veja o mapa]. Isto é a “catástrofe”, para Putin.

No horizonte estratégico do Kremlin está a meta de fazer retroceder a influência americana sobre a Europa. A Otan e a União Europeia são definidas como rivais históricas da Grande Rússia. Mas a reconstrução da Grande Rússia começa pelo estabelecimento de um bloco político e econômico: a União da Eurásia. O núcleo do bloco é constituído por Rússia, Belarus e Cazaquistão. A república caucasiana da Armênia e a república centro-asiática do Quirguistão aderiram à iniciativa, que almeja reagrupar a maior parte dos antigos componentes geopolíticos da União Soviética.

O poderio militar da antiga União Soviética serve de modelo para Putin. Mas, do ponto de vista dos tempos longos da história, o chefe do Kremlin enxerga o período soviético como um mero intervalo, um parêntese, que separa o glorioso Império Russo da Grande Rússia em vias de reconstituição.

O presidente russo “está em outro mundo”? Provavelmente – mas seu mundo, dominado pelo peso do passado, interfere no presente, colocando desafios inesperados tanto para a aliança entre Estados Unidos e Europa quanto para a União Europeia.

Mundo 10/10/2018

BRASIL: UMA VISÃO GEOGRÁFICA DOS SHOPPING CENTERS
(Este texto está presente na página 4 de Mundo 4, agosto de 2018, ainda não disponível no site)

Há pouco mais de 50 anos, um novo elemento se incorporou à paisagem urbana do Brasil. Em 1966, entrou em funcionamento o pioneiro Shopping Center Iguatemi, empreendimento comercial situado na cidade de São Paulo. Desde então, o número de shopping centers cresceu vertiginosamente e se espalhou por inúmeras cidades do país. Em dezembro de 2017 o total deles no Brasil era de 571 e, em 2018, a previsão é de que novos 23 serão inaugurados.

Nem todo agrupamento de lojas pode ser considerado um shopping. Segundo definição da Associação Brasileira de Shopping Center (Abrasce), o shopping é “um empreendimento constituído por um conjunto de lojas, operando de forma integrada, sob administração única e centralizada, composto de lojas destinadas à exploração de ramos diversificados ou especializados de comércio e prestação de serviços”.

De 1966 a 1971, o Iguatemi reinou absoluto no mundo dos shoppings. Dez anos mais tarde, os shopping centers já eram oito, aos quais foram acrescidos mais 25 em 1986. Em 1996, já eram 136, e, em 2006, ultrapassaram a barreira de 350. Entre 2006 e 2010, em média, surgiram novos 15 shoppings a cada ano. No período compreendido entre 2011 e 2013, o crescimento foi ainda maior, mas arrefeceu a partir de 2014, por conta da crise econômica que se abateu sobre o país [veja o gráfico 1].

Acreditando que o tempo das “vacas gordas” da economia fosse para sempre, muitos investidores colocaram suas fichas na construção de novos shoppings, causando uma espécie de “overdose” de empreendimentos em determinadas cidades – isto é, muita oferta não compatível com a procura. A profunda crise econômica levou alguns desses shoppings à falência. Em 2016, pela primeira vez em muito tempo, os shopping centers fecharam mais lojas que abriram. Além disso, mesmo naqueles que resistiram à crise, inúmeras lojas foram desativadas.

A distribuição geográfica regional dos shoppings espelha o PIB e o poder de consumo. A Região Sudeste concentra mais da metade dos empreendimentos, seguida pelas regiões Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte [veja o gráfico 2]. O Sudeste também agrupa cerca de dois terços do número de lojas e dos empregos gerados pelo setor.

Em termos estaduais, PIB e poder de compra também são fatores decisivos. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais abrigam, juntos, pouco mais da metade de todos os shoppings existentes no país. Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Goiás ocupam posições destacadas. De maneira geral, os estados do Nordeste e do Norte apresentam números inferiores, mas crescentes, desses estabelecimentos [veja o mapa].

Mundo 02/10/2018

NO MEDITERRÂNEO, HISTÓRIA E GEOGRAFIA SE ENCONTRAM
(Este texto foi originalmente escrito pra o jornal Mundo – Geografia e Política Internacional, ano 18, número 4 (agosto de 2010), página 10. Seu conteúdo pode ser acessado em: www.clubemundo.com.br)

Mediterrâneo é um mar quase fechado que banha o litoral sul da Europa, a porção ocidental da Ásia e a faixa costeira da África do Norte. Possui uma ligação natural com o Oceano Atlântico, através do estreito de Gibraltar, e uma artificial com o Mar Vermelho e Oceano Índico, através do Canal de Suez. Os estreitos de Bósforo e Dardanelos o colocam em contato com o Mar Negro. Mais que um mar, o Mediterrâneo é uma sucessão de mares.

O “mar entre terras” apresenta grandes profundidades e é emoldurado por montanhas de formação recente, como os Pireneus, Alpes e Apeninos, na Europa, e a cadeia do Atlas, na África. Vários cursos fluviais lançam suas águas nele, com destaque para o extenso rio Nilo.

Podem ser distinguidas duas áreas no Mediterrâneo – as bacias oriental e ocidental. A divisão é, no entanto, fragmentada por reentrâncias da costa, que servem como referências para a delimitação de mares menores como o Tirreno, o Jônico, o Adriático e o Egeu. Milhares de ilhas de variados tamanhos pontilham o mar que conecta três continentes, especialmente na sua porção oriental.

Vinte e dois países são banhados pelo Mediterrâneo. Eles apresentam grandes diferenças de tamanho, evolução geopolítica, nível de desenvolvimento e tradições culturais. Espanha e França, por exemplo, são integrantes da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O mesmo ocorre com a Itália e a Grécia. Por outro lado, são também “mediterrâneos” países árabe-muçulmanos como a Síria, o Egito, a Argélia e a Tunísia (veja o mapa).

A diversidade geopolítica estende-se além dessa polaridade tradicional. Antigas repúblicas que faziam parte da Iugoslávia – como a Eslovênia, a Croácia e Montenegro – são banhadas pelo Adriático. Há ainda pequenos países insulares, como Malta e Chipre, e também Israel, uma entidade singular em meio ao “mar” árabe-muçulmano que é o Mediterrâneo Oriental. A minúscula e superpovoada Faixa de Gaza, um território palestino, também é banhada pelo Mediterrâneo. Atualmente, ela figura como foco de acesas tensões no conflito entre Israel e os palestinos.

Desde a Antiguidade, o Mediterrâneo constituiu uma zona privilegiada de contatos culturais, intensas relações comerciais e de constantes enfrentamentos políticos. Em suas margens, floresceram e desapareceram importantes civilizações, como a egeia, a egípcia, a fenícia, a grega, a romana e a bizantina. Um evento marcante na história mundial deu-se em 1453, quando o Império Otomano conquistou a cidade de Constantinopla (a atual Istambul, na Turquia) e fechou o Mediterrâneo Oriental à navegação europeia. O fechamento prejudicou as cidades mercantis italianas e impeliu portugueses e espanhóis a se aventurarem pelo Atlântico, em busca do caminho das Índias.

A partir da segunda metade do século XVIII, Grã-Bretanha e França foram ampliando suas influências sobre o Mediterrâneo

Oriental, aproveitando a gradativa decadência otomana, ao mesmo tempo em que buscavam conter a expansão do Império Russo na região. Os britânicos, fazendo valer sua condição de grande potência marítima, estabeleceram-se em pontos estratégicos como Gibraltar, Malta e Chipre, onde instalaram importantes bases navais. Em 1869, com a abertura do Canal de Suez, o Mediterrâneo Oriental passou a integrar as grandes rotas do comércio internacional, tornando-se um corredor relevante nas relações políticas e comerciais das potências europeias.

No final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a supremacia geopolítica britânica na região, o Mediterrâneo Oriental se transformou em artéria vital para a Europa, propiciando uma ligação mais rápida entre os mercados consumidores de petróleo e as áreas produtoras do Oriente Médio. Com o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Mediterrâneo tornou-se um teatro dos jogos de alianças engendrados pela Guerra Fria e, por meio da OTAN, os Estados Unidos substituíram os britânicos como potência dominante na região.

Estabilidade não é um traço da região mediterrânea. Os processo conflituosos de independência de colônias europeias situadas na África do Norte, a pressão exercida pela crescente presença da marinha soviética, os vários conflitos entre países árabes e Israel e as históricas rivalidades entre países da região fizeram do Mediterrâneo um cenário de tensões geopolíticas recorrentes. Na porção oriental, o principal eixo de disputas geopolíticas contrapõe Israel aos países árabes, especialmente Síria, Líbano e Egito, num panorama definido pelo acirramento da chamada Questão Palestina. Na parte africana do Mediterrâneo, o crescimento do fundamentalismo islâmico provocou uma guerra civil de baixa intensidade na Argélia. O conflito, envolvendo forças do governo e grupos religiosos radicais, perdurou por toda a década de 1990 e fez mais de cem mil vítimas.

No Mediterrâneo Oriental, as históricas rivalidades entre gregos e turcos referenciam-se, atualmente, em duas questões distintas. De um lado, verificam- se disputas pela definição de soberania sobre a plataforma continental do mar Egeu. De outro, continuam a crepitar as tensões no interior de Chipre, dividido entre a comunidade greco-cipriota e a turco-cipriota.

O conflito militar mais importante ocorrido na Europa após a Segunda Guerra Mundial ocorreu na Península Balcânica, mais exatamente na região do mar Adriático. Naquela área, entre 1992 e 1995, desenrolou-se a Guerra da Bósnia, o capítulo mais dramático do processo de desintegração da Iugoslávia. A guerra étnica na Bósnia ocasionou mais de cem mil mortes, deixando um milhão de feridos e 2 milhões de refugiados. Curiosamente, entre todos os países banhados pelo Mediterrâneo, a Bósnia é o que possui a menor extensão de litoral: meros seis quilômetros.

Mundo 25/09/2018

JORNAL MUNDO SETEMBRO 2018

Esta é a capa e as manchetes do quinto número do jornal Mundo - Geografia e Política Internacional de 2018 que as escolas assinantes já receberam.
PAUTA DO JORNAL MUNDO SETEMBRO 2018

Página 1: Manchetes e conteúdo do jornal
Página 2: Os 170 anos do Manifesto Comunista
Página 3: Editorial – Abuso de poder
Cuba, depois dos Castro
Página 4: Mapas de Mundo, mundo dos mapas – Evolução demográfica da
América do Sul
Página 5: Reabertura do caso Vladimir Herzog

Dossiê: Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos
Página 6: De Auschwitz à Declaração Universal
Página 7: Fontes históricas da Declaração Universal

Página 8: Trump, Bannon e a direita europeia
Página 9: Um declínio global da democracia?
Página 10: A UFSC e o arbítrio, um depoimento
Página 11: Israel, a democracia e a lei do Estado judeu
Página 12: O Meio e o Homem – Aquecimento no Ártico [N.]

História & Cultura:
# O boêmio e o síndico: Nelson Gonçalves e Tim Maia
# Brasil sobre rodas: a dependência do Brasil em relação ao transporte rodoviário
# 210 anos da chegada da família real ao Rio de Janeiro

Mundo 14/09/2018

A SAGA DOS CURDOS
(Este texto foi adaptado do jornal MUNDO – Geografia e Política Internacional, ano 21, outubro de 2013, página 9. O primeiro parágrafo foi atualizado.)

Em 25 de setembro de 2017, ignorando a pressão de Bagdá e as ameaças do Irã e da Turquia, os curdos do Iraque compareceram em massa para votar no plebiscito sobre a independência do Curdistão iraquiano. Quase 80% dos 5,2 milhões de eleitores curdos votaram e a imensa maioria deles apoiou a ideia de independência. Segundo o líder curdo Massoud Barzani, não se pensa numa independência imediata, mas o resultado será usado como elemento pressão nas negociações com o governo iraquiano. Em função desses novos eventos vale a pena saber um pouco a respeito de quem são, como vivem e o que pretendem os curdos.

Há cerca de 5 mil anos, tribos de pastores se estabeleceram numa região montanhosa da porção setentrional do Oriente Médio, localizada de forma mais ou menos equidistante dos mares Mediterrâneo, Negro, Cáspio e do Golfo Pérsico. Permaneceram nessa região e absorveram influências culturais – o islamismo, por exemplo – dos povos que ao longo do tempo dominaram a região. Essa é a origem dos curdos.

Atualmente dispersos por uma vasta área do Oriente Médio que abrange regiões de cinco países (Turquia, Iraque, Irã, Síria e Armênia), os curdos constituem não só a mais numerosa minoria da região como também o maior grupo étnico do mundo que não possui um território nacional próprio. Culturalmente, eles estão na encruzilhada dos mundos árabe, turco e persa.

O que eles denominam de Curdistão – o “país dos curdos” – não tem limites precisos, mas se estende a partir das Montanhas Zagros no Irã, abrangendo também o norte do Iraque, a porção setentrional da Síria e a Turquia Oriental. De maneira geral, é uma região montanhosa, com mais de 500 mil quilômetros quadrados, parcialmente banhada pelos rios Tigre e Eufrates.

O número exato de curdos é motivo de controvérsias. Algumas fontes falam em 27 milhões, enquanto outras indicam um total de 36 milhões. Isso se deve ao fato de que os governos dos países que os abrigam produzem estatísticas pouco confiáveis sobre esse delicado tema. Cerca de metade dos curdos presentes no Oriente Médio vivem na Turquia, onde representam aproximadamente 20% da população total deste país. No Iraque, são quase 20%; na Síria, 8%; no Irã, 7%; na Armênia, pouco mais de 1%.

Os curdos não falam uma única língua e nem sequer professam uma religião comum, ainda que a parcela majoritária deles seja adepta do islamismo sunita. Genericamente, os curdos podem ser enquadrados em três categorias: os das montanhas, os das planícies e os das cidades. Os primeiros vivem basicamente do pastoreio e do comércio informal que ignora as fronteiras nacionais estabelecidas. Tais áreas montanhosas abrigam mais de trinta tribos, cujas rivalidades tradicionais muitas vezes se sobrepuseram às lutas por autonomia. Quanto aos curdos das cidades, eles estão representados basicamente pelos centros urbanos do Iraque – ligados à indústria e à prospecção do petróleo – e pelos migrantes curdos de Istambul, na Turquia.

Os anseios de um Curdistão independente ganharam força no fim da Primeira Guerra Mundial (1914-18), quando se imaginava que o país dos curdos surgiria com o fim do Império Turco-Otomano, que dominou a região por séculos. Na hora das negociações de paz, o presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson apresentou seus célebres 14 Pontos – e o 12º destes pontos tratava de uma nação curda. O Tratado de Sévres, de 1920, previa autonomia para os curdos, mas o de Lausanne, de 1923, derrubou aquelas aspirações.

A partir de então, por inúmeras vezes, os curdos se revoltaram, mas invariavelmente foram reprimidos pelos governos dos países aos quais estavam submetidos, especialmente na Turquia e no Iraque, o que deu origem a organizações curdas de luta armada. O exemplo mais notável é o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK, na sigla em inglês), criado em 1984 na Turquia, que atua também a partir do lado iraquiano da fronteira comum. Por inúmeras vezes, o governo turco atacou bases do PKK em território do Iraque. Depois de décadas de luta, em março de 2013, a organização decretou um cessar-fogo unilateral com o governo turco.

No Iraque, por décadas, os curdos sofreram com a violenta e sistemática repressão por parte do governo do país. A situação começou a mudar ao final da Guerra do Golfo (1991), quando a ONU autorizou a proteção internacional de uma região curda no norte do Iraque, que ficou resguardada de ataques do ditador iraquiano Saddam Hussein. A proteção externa permitiu aos curdos conquistar substancial autonomia regional.

Em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, os curdos desempenharam papel importante na derrubada do regime de Saddam Hussein. Em 2005, com a eleição de um governo de transição, os curdos assumiram postos-chave na nova administração iraquiana, mas sempre procuraram preservar sua autonomia regional no contexto de um Iraque federalista.

Em 2014, quando jihadistas do grupo Estado Islâmico conquistaram amplas áreas do norte do Iraque, inclusive as cidades de Mossul e Kirkuk, as forças curdas (denominadas pershmergas) estiveram na linha de frente no combate aos extremistas. Os curdos foram fundamentais para a libertação das duas cidades citadas.

Todavia, deve-se levar em consideração que a criação de um Curdistão independente é praticamente uma utopia. Nenhum dos países que têm populações curdas abriria mão da soberania sobre seus territórios. Além disso, um Curdistão independente que abrangesse as tradicionais áreas de povoamento curdo seria excepcionalmente rico em petróleo, por conta das valiosas jazidas do norte do Iraque, e em recursos hídricos, pois as nascentes dos rios Tigre e Eufrates estão no sudeste da Turquia.

Mundo 04/09/2018

A GUERRA ESQUECIDA NO IÊMEN

Se a guerra na Síria ganhou uma certa visibilidade na mídia internacional, os conflitos no Iêmen permanecem quase invisíveis, apesar de configurarem “a pior crise humanitária do planeta”, segundo observadores da ONU. Desde 2015, foram realizados mais de 90 mil ataques aéreos sobre o país de 29 milhões de habitantes, matando um número incontável de crianças, mulheres e civis, além de provocar fome em massa, epidemias e todos os horrores associados. Cálculos aproximados indicam que pelo menos 40 mil crianças foram mortas, só em 2017. Mais de 2 milhões de pessoas foram deslocadas de seus lares e 80% da população demanda algum tipo de assistência.

Liderada pela Arábia Saudita, a intervenção militar no Iêmen conta com a participação do Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Egito, Jordânia, Marrocos, Bahrein, Senegal e Sudão. Tem o respaldo diplomático dos Estados Unidos, além de Grã-Bretanha, Austrália, Alemanha, Canadá e Turquia. As grandes potências têm especial interesse no desfecho da guerra iemenita, pela localização estratégica de seu território, especialmente o estreito de Bab-el-Mandeb.

Mundo 30/08/2018

AGRONEGÓCIO EXPANDE SUAS FRONTEIRAS NO BRASIL TROPICAL
(Este texto está presente na página 11 de Mundo 3, maio de 2018, ainda não disponível no site)

O agronegócio é a principal fonte de riqueza em amplas áreas do Brasil. Emprega cerca de 35 milhões de trabalhadores, pouco mais de um terço da força de trabalho ativa no país. Ao contrário de outros setores da economia, e apesar de alguns percalços, o agronegócio exibe crescimento sustentado. Especialmente nos últimos 20 anos, sua participação no PIB gira ao redor de 25%. Sozinhas, as exportações de soja superam em valor as de petróleo e derivados e de minério de ferro.

O Brasil deixou, há décadas, sua condição de importador de alimentos e assumiu o quarto lugar no ranking de exportação de commodities agrícolas. Atualmente o país ocupa posições destacadas nos rankings globais de produção e exportação de cerca de uma dezena de produtos. Em 2016, o Brasil figurava como primeiro produtor e exportador mundial de açúcar, café e suco de laranja; o segundo produtor e maior exportador de soja em grão; o terceiro produtor e segundo exportador de milho; o quarto produtor e terceiro exportador de óleo de soja, farelo de soja e algodão. Isso sem contar as destacadas posições nas exportações de carne bovina, carne suína e aves.

Atualmente, centenas de produtos são cultivados no país e não há um estado da federação cuja produção dependa de um único produto. Contudo, o Centro-Sul é responsável por mais de 80% do valor da produção agrícola nacional e, além disso, alguns dos principais produtos apresentam nítida concentração espacial.

As principais commodities da pauta de exportação brasileira são produzidas, em sua maior parte, em apenas 11 estados da federação. Café e soja ilustram o fenômeno da concentração espacial.

Mundo 28/08/2018

JORNAL MUNDO AGOSTO 2018

Esta é a capa e as manchetes do quarto número do jornal Mundo - Geografia e Política Internacional de 2018 que as escolas assinantes já receberam.

PAUTA DO JORNAL MUNDO AGOSTO 2018

Página 1: Manchetes e conteúdo do jornal
Página 2: Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos
Página 3: Editorial – EUA separam famílias na fronteira com o México
Nicarágua, de Somoza a Ortega
Página 4: Passado, presente e futuro dos shopping-centers no Brasil
Página 5: Ditadura brasileira: o que dizem os documentos da CIA

Dossiê: Coreia e Irã – dois acordos nucleares
Página 6: Trump diante do Irã e da Coreia
Página 7: O TNP e a proliferação nuclear
Página 8: Irã, armas nucleares e Oriente Médio
Página 9: Coreia do Norte, armas nucleares e Extremo Oriente

Página 10: Diário de Viagem: México
Página 11: O México de Obrador
Página 12: Mapas de Mundo, mundo dos mapas – Correntes de comércio na África

HISTÓRIA & CULTURA:
# Bossa Nova, 60 anos: surgimento e o impacto do movimento na produção cultural brasileira
# Redes Sociais: É o fim da privacidade?
# Imigração: Há 110 anos, os primeiros japoneses chegavam ao Brasil

Mundo 22/08/2018

O TURBULENTO GOLFO PÉRSICO

O Golfo Pérsico é um braço de mar quase fechado que se estende desde o estuário do Chat el Arab, canal fluvial resultante da junção dos rios Tigre e Eufrates, até o Estreito de Ormuz, onde as águas do golfo se conectam com as do Oceano Índico. Situado num dos pontos nevrálgicos da região do Oriente Médio, as águas do Golfo Pérsico banham os territórios de oito países: Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Barein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã. (veja o mapa).

Durante muito tempo foi uma área pobre, árida e despovoada cujas margens eram frequentadas por traficantes. Todavia, ao longo do século XX, a região passou a ter grande importância estratégica, pois nos territórios, continentais e em espaços marítimos sob controle dos Estados ribeirinhos se concentra cerca de 30% da produção mundial de petróleo e 10% da de gás natural. Ali estão aproximadamente 60% das reservas do “ouro negro” e 40% das de gás.

As porções norte e leste do golfo são ocupadas por um único Estado, o Irã e o restante da orla marítima pelos demais países. Culturalmente a região do golfo é também uma área de contato entre as civilizações persa – representada pelo Irã – e árabe que engloba os demais países.

No século XIX, a Grã Bretanha aproveitando-se da decadência do Império Otomano e tentando conter o avanço da influência do Império Russo sobre a Pérsia, fez acordos com diversos líderes árabes na margem ocidental do Golfo.

Algumas décadas depois, essa estratégia resultou numa grande fragmentação política da área onde hoje se encontram o Kuwait, o Catar, Barein, o Sultanato de Omã, os sete emirados que formam os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Assim como ocorreu no Iraque, também uma entidade política “inventada” pelos britânicos, as fronteiras estabelecidas se mostraram praticamente tão arbitrárias e artificiais quanto as africanas.

Atualmente, os países do Golfo apresentam grandes discrepâncias no que se refere a extensão, população e economia. O de maior superfície é a Arábia Saudita, com pouco mais de 2 milhões de km2, enquanto Barein tem uma área de 700 km2. O mais populoso dos países é o Irã, com cerca de 75 milhões de habitantes e no outro extremo está o Barein, com pouco mais de 800 mil. A maior ou menor presença e exploração de petróleo e gás mostra também as grandes disparidades econômicas. Por exemplo, a Arábia Saudita possui um PIB cerca de dez vezes maior que o de Barein.

A imensa maioria da população de todos os países do Golfo professa o islamismo, mas com algumas variações no que diz respeito aos “ritos” religiosos seguidos. No Irã e no Iraque, a maioria da população segue o islamismo xiita, só que no primeiro a proporção de xiitas é de cerca 90% da população, enquanto que os xiitas iraquianos representam aproximadamente 60% do efetivo demográfico do país. Nos demais países da região, a maioria da população segue o rito sunita, com eventuais minorias xiitas. A convivência entre sunitas e xiitas, especialmente no Iraque, tem sido quase sempre conflituosa.

Por conta dessa ampla diversidade a região do golfo apresenta inúmeras questões geopolíticas. Algumas delas são de caráter religioso e étnico como as que envolvem o Irã persa e xiita e os países árabes vizinhos, dominantemente sunitas. Há também as diferenças relacionadas aos regimes adotados. Todos os países são monarquias, à exceção do Iraque e Irã que são repúblicas. Todavia, a república parlamentarista iraquiana foi imposta pelos Estados Unidos após suas forças terem invadido o Iraque em 2003. Já o regime do Irã, que foi monárquico até a revolução de 1979, é classificado atualmente como uma república teocrática, onde as principais decisões são tomadas por um colegiado de religiosos.

Mas, sem dúvida, a riqueza excepcional do subsolo dos países da região é a principal causa das instabilidades políticas regionais e cujas repercussões se manifestam também em escala mundial. Assim, nas últimas décadas a região do golfo assistiu a três grandes conflitos: a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), Guerra do Golfo (1990-1991) e, em 2003, a invasão do Iraque desencadeada pelas forças norte-americanas.

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