11/02/2019
NELSON BACIC OLIC (1947-2019), IN MEMORIAM
Demétrio Magnoli & José Arbex Jr.
Editores de Mundo
Nelson Bacic Olic faleceu no dia 7 de fevereiro, como consequência de complicações decorrentes de um câncer no pâncreas. Desafiando todos os prognósticos médicos, Nelson resistiu ao longo de mais de quatro anos de tratamento quimioterápico, dando provas de sua extraordinária vontade de viver e de seu compromisso para com o trabalho. A crise final teve início no dia 7 de setembro, quando Nelson levou para o hospital, onde foi internado, suas anotações de pesquisa para escrever os artigos que aparecem às páginas 9 e 10 da última edição de Mundo (outubro de 2018). No fim, em meio a uma evolução difícil de seu quadro clínico, enviou fotografias de textos manuscritos, que foram digitados pela Karina, a insubstituível secretária de Pangea. O compromisso de Nelson com o trabalho não tinha limites.
Não eram só textos. Nelson encarregava-se da produção cartográfica de Mundo, produzindo mapas originais para cada edição. Dessa vez, episódio inédito em 26 anos de existência de nosso jornal, esgotado o prazo, ainda faltava um mapa, destinado à página 9. Descobrimos, então, que ele pedira à Karina um mapa em branco da América do Sul, para completá-lo no hospital, com os intercâmbios comerciais dos países do subcontinente com a China. Interrompemos a tempo a operação e produzimos, nós mesmos, o tal mapa. Nelson nunca admitiu a hipótese de dar trabalho a outros, embora estivesse sempre disponível para ajudar os que o rodeavam.
Há professores e professores com maiúsculas. Nelson pertencia à segunda categoria. O seu empenho era o de um artesão das antigas. Fazia questão absoluta de aprender, enquanto ensinava. Ele jamais operava no automático ou se rendia à rotina. Suas aulas e, depois, seus textos para livros e para Mundo sempre foram frutos de um engajamento intelectual singular. Sem alarde e sem pretender fazê-lo, por meio do exemplo, Nelson dava aulas cotidianas de ética profissional.
Eu, Demétrio, conheci Nelson bem antes de encontrá-lo pela primeira vez, por intermédio de alunos do curso Anglo, que também eram alunos dele, no Colégio Santa Cruz. Do nada, nas minhas aulas de Geopolítica, os jovens punham-me diante de perguntas agudas, explicando que eram indagações dirigidas a mim por um certo professor Nelson Bacic Olic, de Geografia. Habituei-me a respondê-las, mas acrescentando uma nova indagação, que deveria ser levada às aulas dele. O curioso diálogo por bocas e ouvidos interpostos durou meses e enriqueceu as aulas de nós dois, antes do telefonema que, finalmente, propiciou um primeiro café.
Eu, Arbex, tinha grande admiração por seu equilíbrio e perseverança. Costumava chamá-lo de “Mr. Basic”, uma brincadeira com seu nome. Aprendi a respeitá-lo tanto como intelectual quanto como ser humano, completamente dedicado à família que construiu ao lado de sua mulher Neide, quatro filhos e três netos. Era também um atleta. Correu várias versões da São Silvestre e tinha orgulho ao exibir suas medalhas. Nelson viveu bem, muito bem. Conquistou tudo o que dependia apenas de seus própios esforços. Só não deu para ver a seleção da Croácia de seus pais ser a campeã mundial de futebol, na Rússia. Não deu, mas foi quase.
GEÓGRAFO PELA USP
A ditadura militar ingressava no seu longo outono, nos nossos tempos de faculdade. Nelson, cerca de uma década mais velho, cursou a Geografia da USP nos “anos de chumbo”. O AI-5, de dezembro de 1968, pegou em cheio a geração dele. No 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin fincaram uma bandeira na superfície desolada da Lua e deixaram uma placa com os dizeres: “Aqui, homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua”.
Naquele dia histórico, Nelson viu através das grades de uma cadeia as imagens borradas, em preto e branco, dos dois astronautas americanos, captadas pelo aparelho de TV de um policial militar. Ele, de fato, não pertencia a nenhum grupo político clandestino e não desempenhava nenhum papel destacado no movimento estudantil. Estava lá por “engano”, como atestado de um apogeu do arbítrio de Estado.
Nelson exerceu o ofício de professor durante décadas. Antes de deixar as salas de aula, começou a escrever livros paradidáticos e, conosco, deflagrou a aventura de Mundo. Ele acreditava na escola, no melhor sentido da palavra: o lugar capaz de despertar a centelha da curiosidade intelectual dos jovens.
Gerações diferentes, estilos diferentes. Nelson escrevia como um geógrafo francês clássico, situando seu objeto na rede de quadrículas do mapa e descrevendo suas feições naturais, antes de analisá-lo sob as lentes da economia e da geopolítica. Seus textos ancoraram Mundo numa fértil tradição acadêmica e pedagógica que, infelizmente, vai se perdendo. Os artigos da seção O Meio e o Homem, bem como da mais recente Mundo dos mapas, mapas de Mundo são, na sua imensa maioria, de autoria dele.
Mundo nasceu em 1993, quando se intensificava a guerra étnica na antiga Iugoslávia, Israel e os palestinos firmavam os acordos de paz de Oslo, o apartheid começava a ser desmantelado na África do Sul, o Tratado de Maastrich estabelecia a União Europeia – e quase nenhum dos leitores de sua última edição tinha nascido. Daí em diante, durante um quarto de século, Nelson produziu conosco essa ferramenta didática especial, que filtrou a corrente de notícias da “era da informação”, irrigando os conteúdos curriculares de Geografia e História. A aventura não teria sido possível sem ele – e terminou junto com ele.
Nos últimos quatro anos, Nelson deu sua aula derradeira. Lutando contra a doença, trabalhou com a perseverança de sempre – e nunca se queixou. Os artigos escritos à mão no hospital, o esboço de mapa que pediu nos dias finais são testemunhos de amor à vida e dedicação ao trabalho. São, ainda, o testamento de um professor.
O amigo querido vai. Suas lições ficam.
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