20/09/2017
Sobre como amar os adolescentes
por Alessandra Castro
Definitivamente não é fácil ama-los e confesso, quando ouço uma fala materna ou paterna - eu me dou tão bem com ele - eu desconfio.
Desconfio porque se de fato está fácil se relacionar e compreender um adolescente é porque quem emite a frase está mantendo distância quase diplomática do universo psíquico desse sujeito, está olhando para uma direção diferente da dele e/ou está tão tomado por seus próprios conflitos psíquicos que não consegue nem ver e nem escutar a comunicação cifrada do adolescente.
Adolescente que se preza faz barulho. Arruma argumentos para se impor, para opor, para desprezar, para provocar o deslocamento da atenção dos pais para ele.
São tantas as formas que não caberiam lista-las nesse texto, mas só a título de ilustração cito que os adolescentes param de comer, se metem em brigas, contrariam as regras da família, buscam os objetos proibidos pelas autoridades e a sociedade e o comportamento mais recorrente, quase um lugar comum, descomprometem-se com o fazer escolar.
Esse movimento pode ser explicado pela teoria psicanalítica. Diz-nos Freud que o tempo da infância inaugura nossa estruturação psíquica...nos tornaremos quem somos por conta de um longo percurso que inicia-se ao nascer e não se cessa antes de morrermos. É na infância que essa construção é mais definitiva tendo os pais (aqueles que cumprem a função materna e paterna) como apoio para esse start. Com eles nos tornamos um indivíduo, vamos organizando nosso estilo de amar, vivemos o prazer e desprazer. A partir deles nos identificamos e nos projetamos nas relações e no mundo, com a tarefa de buscarmos preencher a falta que também se inaugurou quando nos individuamos.
A adolescência então, precisa atualizar todos esses aspectos constitutivos. Precisar fazer uma revisão de como é amar, de como é ter uma identidade, como é sentir prazer e desprazer. Só que nesse período o adolescente está imerso em um caldeirão contextual muito mais complexo que na infância. Já faz parte de uma estrutura familiar há quase 15 anos, está permeado por suas incoerências, conflitos, não ditos, perdas e valores morais. Pertence a um histórico escolar de relações e aprendizagens que o posicionam em um rótulo. É integrante de uma sociedade que dita modelos e exige comportamentos.
E o que faz o adolescente com tudo isso? Com tanto trabalho psíquico a executar?
Do meu ponto de vista ele demanda, nos impõe trabalho também. Ele nos pede ajuda através de formas de comunicações enigmáticas, abusivas, desrespeitosas, acanhadas e caóticas.
Winnicott, psicanalista inglês, nos diz sobre a necessidade de desafio e confronto do adolescente e a compara a fase em que o bebê mamava no seio da mãe e que, em um dado momento, passa a morde-lo com intencionalidade, como se testasse a capacidade da mãe de suportar essa agressividade, esperando que ela possa confronta-lo sem, no entanto, negar-lhe o peito e o seu amor, sobrevivendo desta forma, a ele.
Não há maneiras de se preparar para esse momento da adolescência de nossos filhos. Cada exemplar dessa "espécie" vai nos apresentar uma tarefa hercúlea para executar. Cabe-nos, respirar fundo, refletir muito antes de qualquer movimento de confronto (se for possível), nos deslocarmos para a perspectiva do sentir, pensar e agir do adolescente e ama-los. Ama-los muito.
Que a canção de Renato Russo possa nos ajudar na nutrição desse amor.
" Todos os dias, quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo,
Tenho todo o tempo do mundo..."