10/06/2015
NÃO CULPE O TRÂNSITO PELA SUA BARRIGUINHA!
Matéria: The New York Times - Tradução: Paulo Ballotti (Networds Traduções
Buzinas e sirenes podem dar uma baita enxaqueca a qualquer morador das grandes cidades. Porém, o ritmo turbulento de uma área urbana também pode trazer os famosos “pneuzinhos” para a cintura de uma pessoa? É isso que alguns noticiários recentes têm defendido, com base em um estudo que focou no ruído do tráfego e na obesidade.
Contudo, as pessoas com apartamentos voltados para a rua não precisam entrar em pânico com os botões de seus jeans estourando a qualquer momento, porque os autores do estudo não acreditam realmente que um fator tenha causado o outro. Ao contrário, eles informaram ter observado uma associação entre a exposição ao ruído vindo do tráfego e um aumento em gordura abdominal. Mas as notícias resultantes geralmente confundiram correlação com causalidade — a mesma lógica que pode sugerir que as vendas de sorvete são responsáveis por um aumento nos crimes de verão.
O estudo, que foi publicado nesta segunda-feira no jornal Medicina Ocupacional e Ambiental (Occupational & Environmental Medicine), analisou cerca de 5.000 pessoas vivendo em Estocolmo, na Suécia, próximas de uma grande fonte de ruídos — uma estrada, ferrovia ou um aeroporto — por um período de quatro anos. Os pesquisadores informaram que cada aumento de ruído de cinco decibéis por 45 decibéis, um nível comum de ruído em uma casa suburbana silenciosa, estava relacionado a um aumento de 0,08 polegadas na cintura de uma pessoa.
Notícias como essa mostram um mal entendido dos resultados, informa a Dra. Kimberly Gudzune, professora assistente de medicina na Escola de Medicina Johns Hopkins, que não esteve envolvida na pesquisa.
O estudo pode demonstrar uma relação entre o ruído de tráfego e as taxas de obesidade, “Porém, um trabalho muito maior precisa ser desenvolvido antes de dizermos que o ruído do tráfego pode ser o responsável pela ‘pança’”, diz a doutora. Culpar ruas abarrotadas por fazer com que as pessoas ganhem peso mascara fatores subjacentes que podem estar relacionados a viver em um local ruidoso, como pobreza ou altas taxas de criminalidade.
O Dr. Goran Pershagen, um pesquisador do instituto “Karolinska Institutet” na Suécia e autor do estudo, informou em um e-mail que percebeu que muitos dos artigos que leu sobre seu ensaio ofereceram uma representação justa das descobertas e de suas implicações. “No entanto, as notícias geralmente trazem uma mensagem exagerada, que também não é incomum em outras situações”, diz. Ele adiciona que “como com qualquer investigação epidemiológica, deve-se ser cauteloso em tirar conclusões sobre causalidade, com base em um único estudo. Este é o motivo pelo qual somos cautelosos nas interpretações”.
Como uma má interpretação do estudo foi difundida pelo Twitter, o Dr. Daniel Neides, diretor médico e diretor operacional do Instituto de Bem Estar Clínico de Cleveland (Cleveland Clinic Wellness Institute), apontou outro item potencial de alerta. Os autores do estudo oferecem uma variedade de motivos potenciais pelos quais o ruído pode causar ganho de peso, inclusive a possibilidade de que ele interrompe o sono de uma pessoa e causa estresse. O estresse faz com que o corpo produza um hormônio chamado cortisol. Uma produção excessiva do cortisol pode causar o acúmulo de gordura corporal no abdômen. Porém, os autores nunca realmente mediram os níveis de cortisol. Ele adiciona que mesmo se eles tivessem medido os níveis de cortisol, isolar o ruído do tráfego como a causa do aumento hormonal teria sido difícil, porque os níveis de cortisol variam ao longo do dia e podem aumentar, por causa de estresse no trabalho, assim como buzinas altas.
O Dr. Pershagen disse em um e-mail que, embora seu estudo não tenha medido os níveis de cortisol, estudos anteriores que mediram níveis elevados de cortisol na saliva descobriram que ruídos ambientais podem levar a reações de estresse, as quais podem induzir a obesidade abdominal.
“Chamo este estudo de ‘diversão com números’”, disse o Dr. Howard Weintraub, cardiologista do Centro Médico NYU Langone.
Ele aponta que, mesmo se houver uma conexão remota entre a obesidade e o ruído do tráfego, de acordo com os resultados — 0,08 polegadas para cada cinco decibéis — para que uma pessoa com cintura de 36 polegadas esteja em risco de um problema de saúde relacionado ao peso, como diabetes ou hipertensão, ela teria de viver no “marco zero de um show do U2”.