24/01/2024
"Philos", do grego, diz respeito a uma simpatia mútua, como uma amizade. Vinicius era filósofo, palavra que, como se sabe, é formada por "sofia" e "philos", referenciando aquele que é amigo da sabedoria. Ele, no entanto, não era amigo apenas da sabedoria (embora certamente discordasse de quem o dissesse sábio). Era, foi e será in memoriam, sempre, amigo, fraterno, caloroso e vibrante no íntimo das pessoas todas que, como nós fomos, foram abraçadas por sua presença generosa.
Como um prisma, deste ser uno, matizes vários emergiam da luz da vida que nascia dele e lhe era digida por nós, também amigas dele: filósofo e artista — cantor, instrumentista, compositor, poeta —; cientista e crítico literário; curioso e maravilhado; líder e professor. O que, no entanto, o diferencia deste sólido geométrico é que dele víamos mais à medida que mais éramos dele próximos e ele de nós. Prisma telescópico!
Foi observador na vida, mas não da vida. Enquanto a observava curiosamente, a experimentava, fruindo do novo, do fresco e desconhecido. Portanto, a morte, mesmo de um mestre seu, como novidade, não lhe encurvaria nem turvaria a visão e as emoções. Aguçaria e manteria seu ímpeto de conhecer, seria ainda mais respeitoso.
Esta curiosidade levava-o para o "marginal", para o potencial artístico mesmo nas manifestações mais desprezadas socialmente. Assim, sua visão sobre a arte era inspiradora. Crítico, em busca de toda e toda a qualidade existente. Em toda obra, via o que veem os físicos numa pedra no topo de uma montanha: energia potencial acumulada, bastando que o movimento da leitura interessada desencadeie toda esta força! Mais uma vez, sua perspectiva diferenciava-se do fenômeno que realizava: quanto "mais baixo" da sociedade, quanto mais ignorado, maior era o potencial, o seu quê latente! Evidência deste interesse, dissertou, no mestrado, sobre obra pouco conhecida de Sérgio Sant'anna, e desenvolveu, no doutorado, sobre Adoniran Barbosa, artista de samba, gênero ainda menos reconhecido do que deveria!
De coração tão puro, foi através do seu olhar que pudemos enxergar cores nunca vistas em nós mesmos. Coração puro, empático, MUNDANO. Seu MUNDANO, terreno, humano, se opunha ao sacro, ao etéreo e inalcançável, ao pudico, ao limitado, ao tradicional, ao conservador, ao receoso! Seu MUNDANO é acessível e democratizante, corajoso, desafiante, do presente!
Ao encontrar as pessoas, nos cumprimentava: "Eis o homem! Pessoa brilhante, simpática, alegre, amorosa! Artista, leitor, escritor!"; "Eis a mulher! Pessoa fiel, criativa, pulsiva! Estudante, pensadora, criadora!". A cada encontro, fazia questão de nos lembrar o que de bom via em nós! Tinha medo de que nos esquecêssemos?!
Era prova de atitude tão sua, que foi capaz de multiplicar em nós: guiar nossa visão ao todo, a outras perspectivas, a percebermos a simplicidade no "complexo", a complexidade no "simples"; a perceber o belo no "feio". Era adversário das aparências, determinado às essências. Sua guia, como líder e orientador nosso, respeitava quem éramos, conduzia-nos ao debate franco, não nos apartava de nós mesmos, incentivava a autoconfiança e o amor próprio. Com ele, nos tornávamos mais philíacos conosco, uns com os outros, com a arte, com o mundo (a raiz da palavra "MUNDANO").
Completo, assim foi, com sua voz tão marcante. Não sabia, não poderia, mas certamente João Cruz e Sousa sonhava com alguém como Vinicius, com seu timbre, vibração musicalmente grave, ao falar das "vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos violões, vozes veladas, [que] vagam, nos velhos vórtices velozes, dos ventos, vivos, vãs. vulcanizadas.". E é vero: sua voz carregava a temperatura e a maciez sólida que só a intimidade de que é feito o magma tem.
Exemplar. Por tudo, repetimos ou buscamos repetir, algumas na condição de trabalhadoras da arte, algumas na condição de professoras, algumas noutras ocupações, a sua ética de respeito à autonomia e de revelação das potências, sua guia expansiva, seu realismo crítico, seu afeto sincero e honesto, sua dedicação incansável. Esta última é de notar: passando bem, passando mal, chovendo ou ensolarado o dia, Vinicius fazia e construía festivais de música, festivais de quadrinhos, festivais de cultura surda, concursos literários, slams, saraus, tendas culturais, formaturas e ricas coisas mais outras.
Por isso, que nós integrantes do Arte Mundana, apesar de ainda muito abaladas com o seu falecimento na noite de ontem, agradecemos a sorte de ter tido um professor que não foi só um professor, foi um amigo, um cara que enxergou as nossas potencialidades e nos fazia acreditar nelas.
Mas, como nada é de graça, e ele nos lembrava disso diuturnamente: uma dúvida, um pedido? 15 reais!
Parte agora, com todas as pessoas em débito com ele!
Autoria do texto: Arte Mundana, nas pessoas de Pedro de Oliveira Rodrigues, Nath Biston, Caio Pimpinato, Luana Alves, Joyce Borba, Gabi Belchior e Larissa Costa.
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