16/05/2026
Eu frequento cinema de rua, ouço rádio, vou à cafés e esta semana São Paulo perdeu - de uma tacada só - a Rádio Eldorado, ouvida pelos "melhores ouvintes" e a sala de cinema e o Café Fellini na Augusta, meu preferido.
Tenho me queixado da cidade feia, pouco acolhedora, que vem perdendo seus espaços de encontro populares, teatros demolidos.
A cidade cada vez mais dá medo, celulares roubados, zumbis (seriam seres humanos?) que andam pela rua ignorando a presença dos outros e que se assustam quando falamos com eles, - sim, eu falo com estranhos.
Ou, olham como fazem as pessoas no interior, com olhar que mede o outro de cima a baixo.
Que dó, São Paulo.
Perdeu seu ar cosmopolita para expor sua essência conservadora, arreganha sua goela preconceituosa e normativa sobre nós, sua sanha de gentrificação.
Saudade de quando éramos coloridos, alegres, deselegantes e discretos. Era andar pela Roosevelt e se maravilhar.
O mais assustador, entretanto, é que se continua a agir como se nada estivesse acontecendo, gente pedindo nas calçadas de Higienopólis, a praça do Patriarca tomada por pessoas em situação de rua, a rua Direita toda arregaçada, prédios novos pra todo lado sem telas de segurança e orientação de passagem de público.
Espaços verdes desaparecendo, mulheres seguem sendo mortas nos arredores de parques e metrôs.
Uma lógica perversa rege o perder o direito à cidade, não somos um coletivo, não somos sujeitos com direitos, só deveres, o da obediência - dependendo da cor, do bairro desobediência leva à morte.
Impera na cidade a lógica da especulação imobiliária, padecemos de privatizações. Bairros explodem
Uma cidade que nos anos 80 foi visitada por Foucault, pensem...
Tem um limite para aturar feiúra, violência, desconforto e descaso? A crise que se abate sobre a cidade não é só ética, é estética.
Foi uma semana difícil, tantas perdas, agradeço a compreensão pelo desabafo, sei bem que existem oásis de resistência.