19/11/2012
Porque os bilíngues são mais inteligentes
Tradução do artigo de Yudhijit Bhattacharjee para o New York Times (25/03/2012), por Graça Fusquine
Falar duas línguas (ou mais) tem benefícios práticos óbvios, num mundo cada vez mais globalizado. Entretanto, em anos recentes cientistas começaram a mostrar que as vantagens de ser bilíngue são muito maiores e fundamentais do que apenas ser capaz de conversar com um grande número de pessoas. Ser bilíngue, na verdade, faz você ser mais inteligente. Pode ter profundo efeito em seu cérebro, melhorando suas habilidades cognitivas nao relacionadas com a linguagem e, inclusive, protegendo-o dos efeitos da demência na velhice.
Esta maneira de ver o bilíngualismo é muito diferente do pensamento que predominou durante o século XX, quando pesquisadores, educadores e legisladores das políticas educacionais consideravam uma segunda língua como uma interferência, cognitivamente falando, que prejudicava o desenvolvimento acadêmico e intelectual de uma criança.
Eles nao estavam de todo errados sobre a interferência: existem amplas evidências de que num cérebro bilíngue ambos sistemas de linguagem são ativos, mesmo quando ele está usando apenas uma linguagem, desta forma criando situações nas quais um sistema obstrui o outro. Porém estas interferências, de acordo com os novos achados dos pesquisadores, não são uma desvantagem, mas uma bençao disfarçada. Isto força o cérebro a resolver conflitos internos, dando à mente um exercício que fortalece seus músculos cognitivos.
Pessoas bilíngues parecem ser mais aptas do que as que falam apenas uma língua na resolução de quebra-cabeças mentais. Num estudo de 2004 feito pelos psicólogos Ellen Bialystok e Michelle Martin-Rhee, foi pedido a crianças bilíngues e monolíngues de pré-escola que classificassem os círculos azuis e quadrados vermelhos apresentados em uma tela de computador em duas caixas digitais - um marcado com um quadrado azul e outro marcado com um círculo vermelho.
Na primeira tarefa , as crianças tinham que classificar as formas por cor, colocando os círculos azuis na caixa marcada com o quadrado azul e os quadrados vermelhos na caixa marcada com o círculo vermelho. Ambos os grupos realizaram a tarefa com a mesma facilidade. A seguir foi pedido que classificassem por formas, o que é mais complicado, pois requer colocar as imagens numa caixa com uma cor conflitante. As crianças bilíngues foram muito mais rápidas na solução da tarefa e não mostraram dificuldades, ao contrário das monolíngues.
A evidência coletiva de vários estudos deste tipo sugere que ser bilíngue melhora o que se chama de função executiva do cérebro – um sistema de comando que direciona o processo de atenção que usamos para planejar, resolver problemas e realizar várias outras tarefas mentais. Estes processos incluem ignorar distrações e permanecer focado, trocando a atenção voluntariamente de uma coisa para outra e manter informações em mente - como lembrar-se de uma sequência de direções durante a condução de um veículo.
Por que a luta entre dois sistemas de linguagem simultaneamente ativos melhora estes aspectos cognitivos ? Até recentemente os pesquisadores pensavam que a vantagem bilíngue resultou principalmente de uma capacidade de inibição que foi aperfeiçoada pelo exercício de um sistema de linguagem suprimido: essa supressão, pensava-se, poderia ajudar a treinar a mente bilíngüe para ignorar distrações em outros contextos.
Mas esta explicação parece ser cada vez mais inadequada, uma vez que estudos têm mostrado que os bilíngües têm melhor desempenho do que as monolíngues, mesmo em tarefas que não requerem a inibição.
A principal diferença entre bilíngues e monolíngues pode ser mais básica : uma grande capacidade para monitorar o ambiente. “Bilíngues têm que trocar de língua muito rápido- você pode falar com seu pai em uma língua e com sua mae em outra” – diz Alberto Costa, pesquisador da Universidade de Pompeu Fabra, na Espanha. “Isto requer ficar atento às mudanças à sua volta, da mesma maneira em que você monitora tudo à sua volta quando dirige.”
Em um estudo comparando bilíngues em Alemao e Italiano com monolíngues em Italiano em tarefas de monitorar o ambiente, Alberto Costa e seus colegas concluíram que as pessoas bilíngues não só se saíram muito melhor como seus cérebros mostraram muito menos atividade na área responsável pelo monitoramento, mostrando que eles são muito mais eficientes.
A experiência bilíngue parece influenciar o cérebro desde a infância até a velhice ( e existem razoes para acreditar-se que isto aplica-se igualmente a quem aprende uma segunda língua na idade adulta ).
Em 2009 Agnes Kovacs, da Escola Internacional para Estudos Avançados, em Trieste, na Itália, conduziu um estudo com bebês de 7 meses expostos a duas línguas desde o nascimento, comparados com outros da mesma idade criados num ambiente de uma única língua. No início era apresentado aos bebês um audio e depois mostrado um marionete em um lado de uma tela. Os dois grupos aprenderam a olhar para este lado da tela antes do marionete aparecer. Mas numa sequência de te**es posterior, quando o marionete começou a aparecer no lado oposto da tela, os bebês expostos a um ambiente bilíngue rapidamente voltaram seu olhar antecipatório à chegada do marionete para a nova direçao, enquanto que os outros bebês nao.
Os benefícios do bilingualismo também se estendem para os “anos de crepúsculo”. Num recente estudo com 44 idosos bilíngues em Inglês-Espanhol, cientistas sob a orientação do neuropsiçólogo Tamar Gollan, da Universidade da California, San Diego, concluíram que indivíduos com alto grau de bilíngualismo – medido por avaliação de proficiência em cada língua – eram mais resistentes do que outros ao começo de demência e outros sintomas de Alzheimer’s : quanto maior o grau de bilíngualismo, mais tardio o começo destas doenças.
Ninguém nunca duvidou do poder da linguagem, mas quem imaginaria que as palavras que ouvimos e as sentenças que falamos poderiam ter tamanho impacto em nossos cérebros?
O artigo original pode ser acessado aqui: http://www.nytimes.com/2012/03/18/opinion/sunday/the-benefits-of-bilingualism.html