28/09/2021
NOTA DE REPÚDIO
Desigualdade racial “relegada a poucos casos, que têm baixa relevância para a coletividade”?
Esta fala foi sustentada por um conselheiro da OAB-SP na sessão que discutia se a Comissão Especial de Igualdade Racial deveria se tornar permanente, por óbvio que foi voto vencido por 86 a 1.
Dados do IBGE apontam que mais de 54% da população é negra, portanto, esse senso de coletividade e relevância nada mais demonstra o poder que o racismo estrutural exerce diante de pautas que não condiz com o pacto narcísico da branquitude.
O conselheiro ainda em seu voto afirma que a “escravidão começou desde os primórdios da humanidade e que se acometia àqueles que perdiam uma guerra, e não a certas raças, o que faz concluir que a escravidão sempre foi uma distorção pela busca de poder e não uma questão de conflito racial”. Em parte, concordo com o conselheiro na questão da busca pelo poder, como bem descreve Toni Morrison em seu livro “A Origem dos Outros”, muitos atos praticados na época da escravização visto até hoje possuem um cunho de justif**ar as pretensões para sustentar a dominação, assim, separando àqueles que não fazem parte de seu clã. Sendo assim, seus inimigos, postos como deficientes que necessitavam ser dominados. Ora, basta se aprofundar um pouco sobre a história verdadeira do povo negro para entender quem exercia e exerce o poder em vários setores da sociedade desde o Império, a raça é sim um parâmetro para a diferenciação e segregação de pessoas, distribuição de riquezas e tudo isso está relacionado ao poder e à necessidade de controle da máquina estatal.
A única distorção é a tentativa de naturalização do racismo estrutural, como se pessoas negras indiretamente seriam culpadas pelas mazelas sofridas historicamente, ainda que se tenha reflexos atualmente. Conforme o Prof. Silvio Almeida, em seu livro “O que é racismo estrutural”, o racismo enquanto processo político e histórico, consegue fornecer uma explicação racional para a desigualdade racial, baseada na visão filosóf**a e ideológica da inexistência de raças. Contudo, a grande maioria das mulheres negras exercem funções de empregadas do lar, as posições de comando de empresas não são pessoas negres, o poder governamental está nas mãos de homens brancos e a massa da população encarcerada são de pessoas negres.
O conselheiro ainda aduziu que que a população negre teria "excesso de sensibilidade" e estaria usando da luta pela igualdade racial como uma fórmula para "eternizar e acirrar um conflito". Ainda, por mais que a branquitude tentasse estabelecer uma "compensação", a população negre "sempre entenderá que o conflito não pode cessar e que a compensação não foi suficiente". Tais alegações somente mostram o que Berenice Bento há muito já anunciava, a branquitute é um espaço de manutenção de poder que não o quer compartilhar. Deste modo, qualquer ato que demonstre a possibilidade da população negre adentrando a esses espaços, começa a reverberar em um movimento contrário de impedimento e ódio.
Logo, podemos concluir que a negação do racismo e falsa ideologia de democracia racial são sustentadas por discursos da meritocracia, onde o desenvolvimento econômico e político se faz em separado. Nós falaremos por nós, visto este voto vencido onde f**a evidente a importância desta Comissão Especial de Igualdade Racial.
Somos pessoas negres conscientes da premência de se compreender do que é “Consciência Negra” !
Coordenação GEIR”EG”
Grupo de Estudo em Igualdade Racial Esperança Garcia