03/05/2023
Alguns esclarecimentos sobre o estudo das preposições em alemão. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a dificuldade desse tópico não está apenas no uso das preposições em si, mas sim nas condições pelas quais um estrangeiro entra em contato com elas, sempre e sobretudo dependendo de qual idioma ele provém.
Falantes de português, ou seja, pessoas normalmente sem familiaridade com estruturas como a declinação e os três gêneros, terão que aprender a pensar nesses termos para utilizá-las. Coisa que não se aplica a um russo ou a um árabe, por exemplo.
Já a dificuldade adicional faz parte da própria língua e dessa cultura em geral: ela é excessivamente precisa e complexa. Assim, por exemplo, enquanto no português temos apenas uma forma de designar um lugar (“em”) e no inglês temos três (“in”, “on”, “at”), em alemão temos cinco (“in”, “an”, “auf”, “bei”, “zu”).
Como em toda língua, o uso delas é uma convenção que obedece à lógica só até certo ponto. Então, por exemplo, sua articulação por acusativo ou dativo realmente permite distinguir entre movimento (Ich fahre auf die Kanarien Inseln) ou estaticidade (Ich bin auf den Kanarien Inseln), assim como entre “in” e “auf” realmente existe a distinção entre estar dentro de algo (Ich gehe ins Restaurant), sobre algo (Der Bleistift steht auf dem Tisch), ou dentro de um espaço circunscrito mas não necessariamente fechado (Ich war auf dem Park). Mas o motivo pelo qual se diz Ich bin in Lübeck, Ich war am Strand ou Ich arbeite bei Siemens, embora cada uma dessas preposições designe, nesses casos, cidade, proximidade das águas e nome próprio, é no fundo inexistente. É assim porque é assim. E pronto.
Isso leva a um problema, que também tem a ver com a condição dessa língua no mundo, a de ser conhecida, mas muito peculiar e de difícil aprendizado só pelo simples contato. Ela precisar contar, portanto, com a falta de familiaridade durante o aprendizado. E a consequência disso para o estudo das preposições é que existem diferentes escolhas metodológicas para gerar essa mínima exposição informada necessária.
Uma das soluções do Deutsch als Fremdsprache (Alemão para não nativos) é, assim, introduzir as preposições sem explicações em diálogos, propagandas, textos turísticos e só aos poucos expor sua lógica. Outra é ensinar desde o começo exaustivamente o funcionamento de cada uma delas de acordo uma categorização das situações e posições (nomes de cidades, diferentes partes de uma casa, estar nas cercanias de algo, estar em um lugar elevado, estar em um lugar plano e aberto, estar em um lugar fechado, estar em um lugar circunscrito etc.). Nenhuma delas é ruim, mas, na minha opinião, é preciso utilizar todas desde o começo, sempre destacando seus limites.
Enfatizo aqui a ideia de limite. Ou seja, se por um lado a exposição inconsciente aos textos ajuda a ir criando vivências com o idioma e as categorizações ajudam a compreender sua lógica, é preciso mostrar também, por exemplo, que a designação de um lugar circunscrito aberto ou fechado para se utilizar “in” ou “auf”, apesar de funcionar muitas vezes, se torna arbitrária em uma língua que obriga a dizer, ao mesmo tempo, Der Hausmeister ist im Hof (O senhorio está no pátio) e Der Schulmeister ist auf dem Schulhof (O inspetor está no pátio da escola).
Além disso, é preciso lembrar que esse uso varia historicamente e que as placas com letras Fraktur em tavernas que dizem, com uma piscadinha camponesa para turistas, Zum Averbachs Keller (No porão de Auerbach) ou Zum Altdorfen Hof (“Em um quintal de vilarejo”) são uma alusão a um uso arcaico e peculiar do “zu” nesses lugares (afinal em ambos os lugares diríamos hoje “in” ou se quiséssemos indicar o lugar específico, "bei", não “zu”).
Üben Sie eine halbe Stunde am Tag und Sie sind auf dem Weg zu (bescheidenen) Triumph.