25/10/2023
O ᴵCINEMA BASTARDOᴵ DE SCORSESE NO ÂMAGO DA HISTÓRIA DE HOLLYWOOD
Por Juan Droguett
«Assassinos da lua das flores» é o mais recente filme de Martin Scorsese (2023), adaptação do livro de não ficção ᴵKillers of the Flowers Moon: The Osage murders and the birth of the FBIᴵ do jornalista David Grann (2017), acerca dos assassinatos de índios nativos que ocorreram nesse condado de Oklahoma nos Estados Unidos, inícios da década de 1920. ᴵLua das floresᴵ designa a abundância dos depósitos de petróleo e a chegada da primavera após um inverno frio e rigoroso na América do Norte. O roteiro, Scorsese o escreve junto a Eric Roth (roteirista de ᴵForrest Gumpᴵ) e à direção de arte convoca grandes estrelas.
O longa-metragem apresenta a Ernest Burkhart (Leonardo DiCaprio), que acaba de voltar da guerra e precisa fazer carreira. Chega por convite do seu tio, William Hale (Robert de Niro), um poderoso homem de negócios influente na região. No primeiro encontro f**a claro o caráter criminal de ambos, iniciando a matança encoberta, conhecida historicamente como o ᴵreinado do terrorᴵ. Portanto, é de se esperar muita violência, assassinatos, sofrimentos e crueldades anunciadas já no título.
Entretanto, o humor hibridiza bem traços indeléveis da comédia negra com mafiosos num ambiente de faroeste. O tom solene e respeitoso do diretor é para expor fatos reais, mas as falas dos dois protagonistas são hilariantes, fazendo sentido porque neste caso, a história é demencial. Nessa mesma linha, o drama romântico, absolutamente retorcido situa Mollie Burkhart (Lily Gladstone), uma Osage cauta e comedida é templo de serenidade e dignidade, apresentada como uma esfinge indígena que esconde sob sua imagem austera um vendaval de indignação e amor passional. Seu objeto de carinho o foca no seu esposo, tipo de poucas luzes, veterano de guerra que se deixa manipular; um monstro hipócrita e cobiçoso que por trás da pátina de benfeitor, oculta um impiedoso homicida.
Na hora de esculpir esta magníf**a história, o diretor recorre a uma mudança de paradigma, em que o Monte Rushmore (ícone do poder nacional) do cinema ianque, historicamente ocupado por um cinema oficialista e edif**ante, passa a ser conquistado por um filme bastardo.
COMENTÁRIOS DE OSAGE:
Para escrever sua própria história, o cinema estadunidense tem apelado a duas vias paralelas: a primeira, a mais célebre imortaliza mitos, limpando e polindo asperezas de uma nação marcada, desde suas origens, pelo signo da violência. Exemplos referenciais desta vertente, títulos como: ᴵO nascimento de uma naçãoᴵ de D.W. Griffith, que converte em heróis a membros do Ku Klux Klan, ou ᴵNo tempo das diligênciasᴵ de John Ford, até chegar a ᴵLincolnᴵ de Steven Spielberg. Uma segunda vertente, a menos reputada, tenta boicotar a leitura épica da História da Nova Inglaterra ou dos Estados Unidos do Norte (no sentido mais nativo), colocando no foco de suas sórdidas pulsões no coração de uma nação que assiste, dia após dia, a sua auto aniquilação a mãos do racismo, a busca do benefício pessoal e o culto às armas.
Nesta outra estirpe cinematográf**a cabe incluir títulos tais como ᴵOuro e maldiçãoᴵ de Eric von Stroheim, ᴵO tesouro de Sierra Madreᴵ de John Huston ou as escuras aulas de história de Paul Thomas Anderson, sobretudo em: ᴵSangue Negroᴵ e ᴵO Mestreᴵ. Enquanto o cânone fílmico tende a reconhecer o valor da primeira vertente, esquecendo e marginalizando a segunda, as coisas parecem estar mudando.
O envolvente trabalho da mise-en-scène e a montagem frenética de Martin Scorsese, realiza um exercício de depuração estilística, sem nenhum floreio audiovisual. Não há lugar para o preciosismo decorativo num filme que prescinde da ironia e da sátira para dissecar, com pulso firme e detalhe extremo, a praga de assassinatos da troupe dos homens brancos dispostos a tudo para roubar dos nativos os direitos sobre suas terras, banhadas a petróleo.
Renunciando à nostalgia e glamour, Scorsese abraça uma escrita franca, direta, porém nada concisa. Decidido a denunciar a barbárie histórica, não tem escrúpulos em representar a execução de uma nativa em dose dupla: através de um testemunho oral, no contexto de um juízo, e depois por meio de aterrorizantes e desnudos planos gerais.
• Martin Scorsese em ᴵAssassinos da lua das floresᴵ utiliza o personagem de Ernest interpretado por DiCaprio para se assomar ao semblante mais podre e intolerante do povo estadunidense, e num gesto à Pasolini, consegue extrair uma luz enceguecedora da mais sinistra escuridão. Pode um espantalho ignorante tomar consciência da dimensão dos seus atos? É possível que a fronteira entre a estupidez, maldade e capacidade de amar seja mais tênue do que queremos imaginar?
Esta obra é uma prova veemente da sabedoria de Scorsese, um cineasta que olha as profundidades do espírito humano liberado da tentação do moralismo. Tal sabedoria se irmana com o gesto revoltado de quem olha o passado com ira, e trabalha em favor de um presente e um futuro mais justos