Psicofarmacodescomplicada

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22/11/2021

O diagnóstico de TOC, pelo DSM-5, é dado pela presença de obsessões, compulsões ou ambas. As obsessões são definidas por "pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que, em algum momento, durante a perturbação, são experimentados como intrusivos e indesejados e que, na maioria dos indivíduos, causam acentuada ansiedade ou sofrimento", com o acréscimo de que "o indivíduo tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens ou neutralizá- -los com algum outro pensamento ou ação".

As compulsões são definidas por "comportamentos repetitivos (p. ex., lavar as mãos, organizar, verif**ar) ou atos mentais (p. ex., orar, contar ou repetir palavras em silêncio) que o indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser rigidamente aplicadas", sendo que "os comportamentos ou os atos mentais visam prevenir ou reduzir a ansiedade ou o sofrimento ou evitar algum evento ou situação temida; entretanto, esses comportamentos ou atos mentais não têm uma conexão realista com o que visam neutralizar ou evitar ou são claramente excessivos".

Muitas vezes estamos falando sobre pensamentos e comportamentos que geram vergonha e dúvidas terríveis a respeito de si mesmo ou de outras pessoas, e sobre uma percepção de que se está preso a algo extremamente doloroso de manejar... Por isso mesmo voltamos ao primeiro posto dessa sequência para perceber e reafirmar: TOC NÃO É ADJETIVO.

22/11/2021

E aqui temos um exemplo muito claro, se alinhando com o que dissemos no post anterior. A associação entre características muitas vezes claramente boas, como ser capaz de ter uma boa organização com a vida, com um diagnóstico psiquiátrico, no caso, o TOC, que por vezes impede a real organização da vida.

Gostar das coisas limpas, ter uma casa organizada, arrumar o guarda-roupa, saber onde se gasta o dinheiro. Nada disso é diagnóstico, apenas uma ou outra característica do indivíduo que pode inclusive fazer muito bem a ele(a).

22/11/2021

Rafael é perspicaz, Isabela tem cabelos longos, Marcos é advogado... Adjetivos ou não, estas são qualif**ações das pessoas, e funcionam como tal sem maiores problemas.

Porém, é muito comum que ouçamos alguns diagnósticos psiquiátricos como se fossem simples adjetivos, ou seja, como se fossem "apenas" uma palavra qualif**adora...

Rafael é "meio Bipolar", Antônio "é TOC", Gabriela é "meio depressiva"... Aqui estamos transformando determinadas características das pessoas em diagnósticos que têm características muito definidas...

Talvez queiramos dizer que Rafael é impetuoso, veemente, que tem alguma intensidade em suas emoções, que Antônio é uma pessoa muito organizada e cuidadosa, ou que Gabriela estava bastante reflexiva nas últimas vezes em que a vi, talvez entristecida por algo.

Quando usamos diagnósticos como qualif**adores, estamos gerando uma série de questões complexas e sofrimento para as várias pessoas envolvidas, seja aquela reduzida a um diagnóstico a que não corresponde, sejam as várias pessoas com diagnósticos muito reais e claros, que vêem o seu sofrimento como sendo usado como um adjetivo tosco para qualif**ar alguém...

O quadro de TOC, por exemplo, se caracteriza por uma série de questões relativas a pensamentos, desejos e imagens obsessivas, intrusivas e indesejadas, ou rituais compulsivos que a pessoa sente a necessidade de praticar, gerando ansiedade e sofrimento, e ocorrendo de forma recorrente, tomando um tempo prolongado do seu dia e lhe causando muito sofrimento. Não tem nada a ver com como a pessoa organiza a mesa, as suas finanças ou o seu calendário.

21/11/2021

O conceito de psicofarmacologia tem relação não apenas com o uso das diferentes medicações para tratamento de diferentes condições, mas abrange questões como as melhores orientações, inclusive não farmacológicas, para pacientes em uso de medicações, e que podem não estar bem cobertas sem esse conhecimento mais específico.

Alguns exemplos:

Como funciona a disfunção sexual associada a alguns antidepressivos? Quais são as orientações mais úteis e que não geram prejuízo à adesão ao tratamento que se pode oferecer a estes pacientes? Esperar adianta? Quando? Em que situações a disfunção pode estar mais relacionada ao quadro de base do paciente e não ao medicamento?

Quando um paciente interrompe abruptamente uma medicação, ou f**a um dia sem tomar, os sintomas podem levá-lo a crer que está “dependente” da medicação. Muitos profissionais são levados a ter também essa idéia, e com isso acabam não sabendo como oferecer as melhores recomendações e formas de lidar com isso. Isso na verdade se chama “síndrome de retirada”, e não tem nenhuma relação com o conceito de dependência. Estar adequadamente embasado para oferecer as melhores orientações e realmente ajudar o paciente torna necessário entender de verdade como isso funciona.

E podemos prosseguir pelo ganho de peso associado a medicação, por realmente entender quando um paciente está ou não tendo benefícios no tratamento que está realizando, e por aí vamos nós, em uma infinidade de temas que não caberia no post.

21/11/2021

Quando do lançamento do DSM-5 não faltaram matérias dizendo que o manual faria com que todas as pessoas fossem consideradas doentes, “patologizando” o mundo, mas... será que isso realmente faz sentido?

Existem alguns motivos pelos quais eu não acredito nisso... E vou falar um pouco sobre alguns deles:

O primeiro é contextual... Todo psicólogo e psiquiatra já recebeu em uma festa ou encontro social a pergunta: “Você está me analisando?”, e embora a resposta seja “Sim, estou pensando no que faz com que você se preocupe com isso e considerando fortemente sair de perto de você” (brincadeira, rs), o fato é que assim como NÃO estamos fazendo terapia ou avaliações de saúde mental em festas, o DSM-5 também não serve para isso. Ele tem duas funções básicas, e são elas (1) pesquisas clínicas e (2) avaliar alguém que ativamente foi levado (no caso de uma situação de urgência absoluta) ou procurou (em todos os casos) um serviço de saúde mental.

O segundo se baseia até mesmo nos critérios diagnósticos presentes no manual. Para quase todas (ou todas) as categorias diagnósticas está sempre presente um item sine qua non, ou seja, absolutamente necessário para o diagnóstico, e é geralmente escrito de uma forma parecida com essa: “Os sintomas causam sofrimento clinicamente signif**ativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”.

Isso basicamente signif**a que é necessário prejuízo para que haja diagnóstico, e dessa forma não seria razoável a idéia de que uma categorização pudesse se dar sem que o problema que se visa categorizar esteja presente.

Categorizar melhor signif**a facilitar o tratamento, tornar mais fácil o desenvolvimento de protocolos de cuidado e tornar esse mesmo cuidado mais embasado em evidências mais amplas e de melhor qualidade. Isso ajuda a termos melhores tratamentos, farmacológicos e psicoterápicos, com melhor eficácia e menos intervenções desnecessárias.

21/11/2021

Depois de alguns posts de apresentação da página, vou contar mais sobre mim e sobre a idéia da página. Sou Alexandre Cintra, médico psiquiatra (). Sou natural de Ribeirão Preto, e me formei e fiz a minha residência na USP Ribeirão. No meu último ano de residência me apaixonei pela Terapia Cognitiva, e resolvi fazer a especialização e a proficiência no CTC Veda. Fiz também os cursos de manejo de depressão e ansiedade no Beck Institute, e outros cursos e workshops em outros locais.

Desde 2014 estou em São Paulo, SP, e aprendi a chamar essa cidade de lar. Tenho meu consultório desde aquele ano, e faço os meus atendimentos em psiquiatria clínica e em psicoterapia de adolescentes e adultos. Sou professor em algumas matérias de cursos de pós-graduação e sou aluno de alguns cursos também.

Sobre esse projeto em particular, ele se iniciou há vários anos quando a , da , me chamou para dar uma aula sobre psicopatologia e semiologia para os seus alunos de neuropsicologia. A reação da turma me deixou empolgado, e depois de mais uma aula, dessa vez com o tema da psicofarmacologia, para o , a pedido do querido amigo , ficou mais uma vez clara a forma pela qual os profissionais estavam receptivos a estes conteúdos.

Dito isso, resolvi montar um curso e uma página, para tentar um processo de troca entre pessoas / profissionais de vários matizes, e passar um pouquinho da forma como a psiquiatria enfoca alguns temas. Muitos pacientes requerem tratamentos farmacológicos, e é importante que as outras pessoas que os assistem entendam a racionalidade desses tratamentos, e saibam ter o melhor contato e oferecer as melhores soluções para que as pessoas possam ser cuidadas o mais integralmente possível.

Essa página será aos poucos recheada de conteúdo de alta qualidade a respeito de vários diagnósticos em psiquiatria e sobre psicofarmacologia, de forma pensada e programada para informar, ajudar e sanar dúvidas, além de servir à divulgação do curso que se iniciará agora em 2022, em parceria com o CTC Veda.

13/11/2021

A noradrenalina é uma substância química natural no corpo que atua como hormônio do estresse e neurotransmissor (uma substância que envia sinais entre as células nervosas).

Como parte da resposta do corpo ao estresse, a norepinefrina afeta a maneira como o cérebro presta atenção e responde aos eventos. Ele também pode fazer o seguinte:

- Aumentar a freqüência cardíaca
- Desencadear a liberação de glicose (açúcar) no sangue
- Aumentar o fluxo sanguíneo para os músculos

Como neurotransmissor no sistema nervoso central, a norepinefrina aumenta o estado de alerta e a excitação, e acelera o tempo de reação.

Foi demonstrado que a noradrenalina desempenha um papel importante no humor e na capacidade de concentração de uma pessoa.

Alterações relacionadas à noradrenalina podem levar a condições como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), depressão e transtornos ansiosos.

13/11/2021

A serotonina é mais um tipo de neurotransmissor, um tipo de substância química que ajuda a transmitir sinais de uma área do cérebro para outra. Embora a serotonina seja produzida no cérebro, onde desempenha suas funções principais, cerca de 90% de nosso suprimento de serotonina é encontrado no trato digestivo e nas plaquetas sanguíneas.

Devido à ampla distribuição de suas células, acredita-se que ele influencie uma variedade de funções psicológicas e outras funções do corpo. Grande parte das células cerebrais é influenciada direta ou indiretamente pela serotonina, incluindo aquelas relacionadas ao humor, desejo e função sexual, apetite, sono, memória e aprendizagem, regulação da temperatura e comportamentos sociais.

Em termos de função corporal, a serotonina também pode afetar o funcionamento do sistema cardiovascular, músculos e vários elementos do sistema endócrino.

Um desequilíbrio nos níveis de serotonina pode influenciar o humor de uma forma que leva à depressão. Os possíveis problemas incluem baixa produção de células cerebrais de serotonina, falta de locais receptores capazes de receber a serotonina produzida, incapacidade da serotonina de atingir os locais receptores. Se alguma dessas falhas bioquímicas ocorrer, os pesquisadores acreditam que ela pode levar à depressão, bem como ao transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade, pânico e até mesmo excesso de raiva.

Uma teoria sobre como a depressão se desenvolve centra-se na regeneração das células cerebrais - um processo que alguns acreditam ser mediado pela serotonina e que continua ao longo de nossas vidas.

13/11/2021

A dopamina é um tipo de neurotransmissor. O seu corpo o produz, e o seu sistema nervoso o usa para enviar mensagens entre as células nervosas. É por isso que às vezes é chamado de mensageiro químico.

A dopamina desempenha um papel importante na forma como sentimos prazer, e também é uma grande parte de nossa capacidade humana de pensar e planejar.

Ela nos ajuda a focar, a nos esforçarmos e a encontrar coisas interessantes.

É difícil apontar uma única causa para a maioria dos transtornos e desafios de saúde mental, mas vários deles estão ligados a muita ou pouca dopamina em diferentes partes do cérebro.

Alguns exemplos:

Esquizofrenia. Alguns dos seus sintomas, como as alucinações e delírios, são causados pelo excesso dessa substância em certas partes do cérebro. A falta dela em outras partes pode causar diversos sinais, como falta de motivação e desejo.

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Algumas pesquisas mostram que pode ser devido à falta de dopamina em algumas regiões do cérebro, e as medicações usadas para o seu tratamento tendem a melhorar esse problema, que parece ter causas genéticas.

Uso indevido e dependência de dr**as. Dr**as como a co***na podem causar um aumento grande e rápido de dopamina no cérebro, o que satisfaz em grande medida o sistema natural de recompensa.

Porém, a forma pela qual esse sistema é estimulado leva à dependência, com uma alteração desse sistema que faz com que o usuário busque cada vez mais a droga, tenha cada vez mais problemas, e perca o gosto pelas coisas que costumavam ser prazerosas.

Além disso, as alterações nos sistemas dopaminérgicos se relaciona a alguns aspectos da depressão e esse neurotransmissor tem papéis importantes no controle de movimentos, na dor e na lactação.

12/11/2021
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