13/08/2026
Falar em “Brasil” é sempre difícil. Já virou lugar-comum dizer que existem muitos “Brasis”, mas não deixa de ser verdade. Somos profundamente diversos na paisagem, nas condições socioeconômicas, na demografia, nos valores e nas experiências de vida.
Gostei de ler O Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, justamente porque o livro ajuda a enxergar um pouco melhor essa diversidade, a partir de diferentes dimensões da sociedade brasileira.
Um aspecto em particular me chamou a atenção: a proposta de construir uma classificação de gerações a partir da experiência brasileira e dos resultados da pesquisa que deu origem ao livro.
Estamos acostumados a utilizar categorias como Geração Silenciosa, Baby Boomers, Geração X, Millennials e Geração Z. Eu mesma recorro com frequência à tipologia utilizada pelo Pew Research Center. São referências úteis, mas construídas, em grande medida, a partir da experiência histórica norte-americana.
Em O Brasil no Espelho, o autor propõe olhar para os acontecimentos que marcaram a formação das diferentes gerações no Brasil e construir uma tipologia a partir dessa experiência. Surgem, assim, a Geração Bossa Nova, a Geração Ordem e Progresso, a Geração Redemocratização e a Geração.Com.
Achei a proposta interessante porque ela levanta uma questão que vai além da classificação geracional: até que ponto as categorias e lentes analíticas que importamos para interpretar a sociedade brasileira conseguem efetivamente capturar nossa experiência histórica e nossa realidade atual?
Isso não significa abandonar classificações internacionais, que continuam sendo muito úteis, inclusive para comparações entre países, mas complementá-las com lentes construídas a partir da nossa própria trajetória. (E isso serve também para sustentabilidade e ESG, aliás).
Que bom que há tanta gente boa estudando o Brasil. Se existem muitos “Brasis”, precisamos também de diferentes lentes para compreendê-los.
Vale a leitura.