03/08/2026
Três coisas para olhar no ECG de uma criança.
O ECG pediátrico é difícil por um motivo específico: a fisiologia normal muda enquanto a criança cresce. No recém-nascido o ventrículo direito ainda domina, e ao longo da infância as forças migram para a esquerda. O mesmo padrão pode ser tranquilizador aos 6 meses e preocupante aos 10 anos.
As diretrizes descrevem essa transição há décadas. O que ninguém tinha feito era medir o quanto ela acerta.
Foi isso que fomos verif**ar. Revisamos 1.637 ECGs de 12 derivações — 349 crianças com cardiopatia congênita confirmada e 1.288 com coração estruturalmente normal — e testamos três marcos de maturação:
1. R maior que S em V6
2. Eixo do QRS entre 0° e +180°
3. V1 conforme a idade — até os 3 anos a R ainda pode superar a S; dos 3 aos 8 ela precisa ceder ou f**ar abaixo de 6 mm; dos 8 em diante a S já deve dominar
Quando as três estão presentes, o traçado é tranquilizador. Quando alguma falha, ele merece uma olhada mais cuidadosa.
Os números: razão de verossimilhança positiva entre 5 e 7,5, e negativa entre 0,31 e 0,38, a depender da faixa etária. A discriminação é melhor justamente nos maiores, quando a regressão das forças direitas já deveria ter terminado.
Vale ser claro sobre o que isso é: uma triagem de dez segundos, não um diagnóstico. Deixamos onda P, segmento ST e onda T de fora de propósito — a pergunta era outra. Quando o traçado é sinalizado, a leitura completa continua obrigatória.
Salve para o próximo ECG pediátrico que aparecer.
📚 de Alencar JN, Costa IR, Monteiro JAM, Furtado JT, Sacre RC, Guerra CB, et al. Age-related ECG milestones for rapid detection of congenital heart disease in children: a diagnostic test accuracy study. J Electrocardiol. 2025;92:154101. doi:10.1016/j.jelectrocard.2025.154101