30/03/2021
Mas há coisas que, mesmo depois de terem acontecido, continuam a acontecer. Sim, é sim, concordo. Foi o que pensei, tão logo a sentença em questão me tomou: sim, é sim, concordo. Em sua carta para os filhos, Júlia escreve isso e escreve mais. Muito mais. Escreve, por exemplo, sobre quão desesperadora é a busca pela palavra certa. E ela existe? A palavra certa, no caso. Existe? Como escrever sobre a imagem que vai e volta, vai e volta, imagem que insiste em escapar das letras, não cola, não cola, como escrever? Escrevendo: eu fui estuprada. A mãe de vocês, Antonia e Martim, foi estuprada. Essa violência sem tamanho forma o eixo de “Vista Chinesa” (2021), romance de Tatiana Salem Levy (). O título remete ao local, no Rio de Janeiro de 2014, Rio da Copa e das Olimpíadas e da euforia e do agora o futuro chega, na mata desse Rio, local onde a protagonista é estuprada em uma tarde de terça-feira. Júlia, a arquiteta, a que não era ainda mãe dos gêmeos, a personagem, a vítima baseada em uma mulher gente de carne e osso e coragem. A brutalidade central da trama aconteceu, na Vista Chinesa de fato, com uma amiga da autora. E, desse horror, Tatiana cria uma mulher que é uma e tantas todos os dias. Elas, as Júlias, Júlias que foram correr, elas existem e continuam existindo. São parágrafos curtos, de sacudir coração apertado. São parágrafos maiores, de vírgulas que têm a exata razão de estarem ali, domínio total do ritmo que mais me fascina na ficção: o ritmo de uma mulher que se põe a elaborar. Vai e volta, vai e volta, como imagem, o tempo vai e volta: ora no antes, ora no momento brutal; ora no agora enunciado, ora na viagem para o México; ora com a polícia (que só quer achar um culpado qualquer), mais um suspeito, outro e outro, ora no parto. Em um jogo de distensão e espasmo da palavra (a palavra certa?), a escritora ergue alguém que se faz dona da própria história. A obra traz não apenas o abominável (em nada suavizado, em nada posto embaixo das folhas), mas também a possibilidade de vida depois de se ter ficado cara a cara com o mal. A possibilidade de existir – a mulher e a escrita. Como? Escrevendo: eu estou viva. 💥 . . .