O olhar de parte da população brasileira sobre as favelas e periferias urbanas costuma ser carregado de representações e estigmas que dificultam uma compreensão ampla da realidade social das populações que ali vivem. Visões distorcidas podem direcionar, de maneira imprecisa, as políticas públicas e os investimentos privados nestes espaços. O nPeriferias, novo grupo de pesquisa do IEA, propõe pesqu
isar temas relacionados a estas regiões com o objetivo de produzir trabalhos que tenham impacto social e desenvolvam novas teorias e conhecimentos. Idealizado pela ativista Eliana Sousa Silva após seu período como titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, o grupo terá coordenação tripla: além de Silva, serão também responsáveis a professora e pesquisadora Gislene Aparecida dos Santos e o coordenador acadêmico da Cátedra, Martin Grossmann. Segundo os coordenadores, o grupo terá uma dinâmica de atuação e produção de conhecimento singular, e por isso, necessária. “Hoje, por mais que haja projetos e estudos voltados a compreender essas questões e a dinâmica das cidades buscando eliminar os efeitos da exclusão e da vulnerabilidade, raras são as investigações que tomam como agentes propositores as pessoas oriundas das periferias”, explicam no projeto de pesquisa do nPeriferias, apresentado e aprovado pelo Conselho Deliberativo do IEA no dia 3 de dezembro. Na visão do grupo, as pesquisas que tomam a periferia como objeto de estudos “não costumam ter o cuidado fundamental de envolver, em suas elaborações e desenvolvimento, os sujeitos periféricos”. Por isso, seu diferencial será investigar as periferias por meio das vozes destas pessoas, “constituindo-se como um espaço de formação de intelectuais, lideranças e pesquisadores oriundos da periferia”. Periferia ampliada
O conceito de “periferia” adotado pelo grupo transcende a dimensão meramente geográfica de localização urbana. “Verdadeiras complexidades formadas por diversidades, pluralidades, singularidades, desigualdades e paradoxos”, segundo os coordenadores, as periferias também têm um entendimento simbólico, que inclui determinados grupos sociais, como mulheres, indígenas, negros, LGBTs+, imigrantes e refugiados. Mesmo que eventualmente localizados em espaços centrais da cidade, “são dimensionados como periféricos por processos múltiplos de exclusão e opressão”. O grupo também irá considerar a relação entre humanos e animais como fundamental nos contextos das periferias. Além de atentar-se às violências e estigmatizações sofridas por estes grupos, os integrantes do nPeriferias também pretendem analisar outros tipos de violência que ocorrem nas periferias, “em particular as que envolvem a atuação de grupos civis armados e a presença do Estado, através de polícias que atuam a partir de um paradigma que viola direitos básicos das populações das periferias”. Entre os outros aspectos que o grupo pretende se debruçar, estão as relações desiguais entre homens e mulheres e alta incidência de violência contra as mulheres, assim como as dificuldades enfrentadas por idosos e pessoas com deficiências nestas regiões, considerando “sua condição de vulnerabilidade e exclusão do acesso aos bens, serviços e direitos”.