Instituto Poimênica

Instituto Poimênica Gilson Santos, Lisboa, Portugal. POIMÊNICA

O vocábulo poimênica originou-se no grego poimen, cujo significado é pastor.

O termo tem como matriz primária a pessoa do próprio Jesus Cristo, que se autocompreendeu como aquele que se entrega e zela por suas ovelhas e delas cuida. Tradicional e sinteticamente, tem sido identificada como cuidado pastoral. Os conceitos Soul Care (inglês) e Seelsorge (alemão) podem ser literalmente traduzidos como “cuidado da alma”, e remontam ao conceito latino cura animarum, que descrevia a solicitude e atribuições no exercício do ministério pastoral, seja no culto ou na catequese. A poimênica pode incluir várias funções em diversas maneiras e situações; particularmente aquelas do aconselhamento pastoral, o qual costuma ser visto como uma dimensão especializada do cuidado pastoral (pastoral care). O INSTITUTO

O i-poimênica tem como alvo apoiar e promover a poimênica cristã, valorizando tanto a dimensão pública quanto a pessoal (privativa) do ministério pastoral. Conteúdo e serviços disponibilizados pela internet
Aconselhamento e Mentoria
Palestras, Conferências e Classes Específicas
Treinamento e Capacitação
Parcerias, Mediações e Fomento

Em sua expressão ampla, pública e jurídica, o instituto constitui-se em albergaria pessoal, familiar, ministerial e profissional de Gilson Santos.

Ulisses já dava a Lisboa uma origem extraordinariamente antiga. Mas, entre os séculos XVI e XVII, alguns eruditos fizera...
25/09/2026

Ulisses já dava a Lisboa uma origem extraordinariamente antiga. Mas, entre os séculos XVI e XVII, alguns eruditos fizeram a história da cidade recuar muito mais: até às primeiras gerações da humanidade depois do Dilúvio.

Na Bíblia, Génesis 10 apresenta Elisa como filho de Javã, neto de Jafé e bisneto de Noé. Na leitura histórica que durante séculos se fez da chamada Tábua das Nações, os descendentes de Noé foram associados aos diferentes povos e regiões do mundo.

Mas há uma distinção fundamental: a Bíblia não diz que Elisa veio à Hispânia, chegou ao Tejo ou fundou Lisboa. Essa história seria construída muitos séculos depois.

No século XVI, João Gorópio Becano procurou harmonizar genealogias bíblicas, autores antigos, mitologia, geografia e nomes de povos e lugares. Na sua reconstrução, publicada em 1580, Elisa avançou pelo Ocidente, chegou ao Tejo e ali estabeleceu uma cidade. Até o nome de Lisboa foi chamado a testemunhar essa antiguidade: uma engenhosa cadeia etimológica pretendia conservar nele a memória do seu primeiro fundador.

A construção alcançou uma forma particularmente desenvolvida em 1652, com Luís Marinho de Azevedo. Ao escrever sobre as fundações e antiguidades de Lisboa, Marinho não precisou expulsar Ulisses da história da cidade. Colocou-o depois de Elisa.

Lisboa passou assim a possuir duas antiguidades sobrepostas. Elisa, descendente de Noé, seria o fundador primordial; Ulisses, herói da Guerra de T***a, chegaria séculos depois, como reedificador da cidade. A tradição bíblica e a clássica passaram a coexistir numa única história.

Marinho chegou mesmo a datar a primeira fundação de Lisboa: 278 anos depois do Dilúvio — 2150 a.C. Não era uma data bíblica, mas o resultado de uma cronologia erudita que sincronizava a cidade com a história universal.

Não há fundamento histórico para afirmar que Elisa fundou Lisboa. Entretanto, se Ulisses dava à cidade uma antiguidade heroica, Elisa permitia fazê-la recuar para além de T***a e do próprio mundo clássico. Ao colocá-lo nas suas origens, aqueles eruditos não estavam apenas a procurar o primeiro fundador: estavam a dar à cidade um lugar nas primeiras páginas da história do mundo depois do Dilúvio.

Por volta de 254, uma das comunidades cristãs mencionadas na Epístola 67 de Cipriano encontrava-se num lugar particularm...
23/09/2026

Por volta de 254, uma das comunidades cristãs mencionadas na Epístola 67 de Cipriano encontrava-se num lugar particularmente significativo: Emerita Augusta, actual Mérida.

Fundada pelos romanos em 25 a.C., Emerita era a capital da Lusitânia — província que abrangia grande parte do actual território português a sul do Douro e regiões hoje pertencentes ao oeste de Espanha. Centro administrativo, político e judicial, Emerita Augusta era também um importante nó da rede viária do Ocidente peninsular. As suas estradas comunicavam com outros centros da Lusitânia e da Hispânia, alcançando espaços como Olisipo, actual Lisboa, Ebora, actual Évora, e, para norte, Asturica e Legio, respetivamente as actuais Astorga e Leão.

Emerita Augusta. É nesta grande cidade romana que a carta de Cipriano nos permite ver uma igreja.

A inscrição da Epístola 67 dirige-se a Aelio diacono et plebi Emeritae consistenti: «a Aélio, diácono, e à comunidade estabelecida em Emerita».

A fórmula é breve, mas historicamente preciosa. Não documenta apenas cristãos isolados. Há uma comunidade local — a plebs — e um ministro identificado pelo nome e pela função: Aélio, diácono. O restante da carta mostra que Emerita estava também envolvida numa crise episcopal e numa correspondência que ligou as igrejas hispânicas aos bispos reunidos em África.

Não sabemos quando o Evangelho chegou a Emerita, nem quem fundou aquela igreja. A Epístola 67 também não nos permite identificar com segurança qual dos bispos envolvidos na controvérsia, Basílides ou Marcial, ocupava a sua sede. Isto tem sido objeto de debate, com a indicação de Marcial como a mais tradicional. E historiadores leoneses indicam Basílides como bispo de Astorga...

Entretanto, para os nossos fins aqui, a Epístola 67 permite afirmar algo mais sólido.

Em meados do século III, na capital romana da Lusitânia, existia uma comunidade cristã organizada e inserida numa rede eclesial que ultrapassava a própria província. Este é um marco histórico muito relevante.

Cipriano não nos mostra o nascimento do Cristianismo em Mérida. Mostra o momento em que uma igreja já existente na capital da Lusitânia finalmente entra no campo documental.

Irineu de Lyon falara, no final do século II, de igrejas «nas Ibérias». Algumas décadas depois, Tertuliano de Cartago in...
21/09/2026

Irineu de Lyon falara, no final do século II, de igrejas «nas Ibérias». Algumas décadas depois, Tertuliano de Cartago incluía «todos os confins das Hispânias» entre os lugares alcançados pelo Cristianismo. Mas onde estavam essas comunidades? Quem eram os seus ministros? Como se relacionavam umas com as outras?

Por volta de 254, uma carta de Cipriano de Cartago permite-nos aproximar a lupa um pouco mais.

A Epístola 67 nasceu de uma crise nas igrejas hispânicas. Basílides e Marcial, que haviam exercido o episcopado, estavam envolvidos em compromissos considerados graves no contexto da perseguição do imperador Décio. A sua permanência ou restauração no episcopado tornou-se, por isso, objecto de controvérsia. A questão chegou à África através de cartas levadas pelos bispos Félix e Sabino. Cipriano e outros bispos reuniram-se, leram a correspondência e responderam às comunidades da Hispânia.

É então que a geografia cristã peninsular começa a ganhar nomes.

A carta dirige-se às comunidades de Legio, actual Leão, e Asturica, actual Astorga, e a Aélio, diácono, juntamente com a comunidade de Emerita Augusta, actual Mérida. No desenvolvimento da controvérsia aparece ainda Félix de Caesaraugusta, actual Saragoça, apresentado como defensor da fé e da verdade.

Mas a carta revela mais do que cidades. Nela encontramos bispos, um presbítero, um diácono e comunidades designadas como plebes. Encontramos sucessão episcopal, disciplina, deslocação de ministros e correspondência entre igrejas.

E a rede ultrapassava a Península. Enquanto as comunidades hispânicas procuravam o parecer dos bispos reunidos em África, Basílides recorrera anteriormente a Estêvão, bispo de Roma.

A Epístola 67 não nos conta como o Evangelho chegou à Hispânia. Mostra-nos algo historicamente diferente: em meados do século III, já existiam ali igrejas organizadas, capazes de fazer circular cartas, ministros e controvérsias entre a Hispânia, Cartago e Roma.

Portanto, com Cipriano de Cartago temos a evidência clara de um marco muito importante: As igrejas da Hispânia começam finalmente a ganhar nomes, rostos e relações.

PARA QUE A VIDA NÃO SEJA EM VÃO"Como podemos viver diante do SEENHOR para que a nossa vida não termine em vão?Exposição ...
19/09/2026

PARA QUE A VIDA NÃO SEJA EM VÃO

"Como podemos viver diante do SEENHOR para que a nossa vida não termine em vão?

Exposição por Gilson Santos no vídeo a seguir:

Que fazia Aquiles, o maior guerreiro grego da Guerra de T***a, escondido num mosteiro de mulheres às portas de Lisboa? D...
18/09/2026

Que fazia Aquiles, o maior guerreiro grego da Guerra de T***a, escondido num mosteiro de mulheres às portas de Lisboa? Durante séculos, uma tradição respondeu: esperava, sem o saber, que Ulisses viesse buscá-lo.

Homero não contou esta história. O episódio desenvolveu-se no mundo grego: para impedir que o filho partisse para T***a, Tétis teria escondido Aquiles entre as mulheres da corte do rei Licomedes, na ilha de Esquiro. Ali, disfarçado, seria descoberto por Ulisses.

Mas lendas também viajam e a geografia pode mudar. Já no poeta latino Estácio, no século I, Tétis imagina conduzir o filho para além dos mares conhecidos, até às regiões extremas do Oceano. Séculos depois, leitores medievais explicariam esse lugar como remotíssimo e associado ao ocaso dos astros. Na Península Ibérica, a viagem acabou por alcançar o extremo ocidental da Europa: primeiro Portugal e o Algarve; depois, um lugar preciso junto de Lisboa.

Achelas — a actual Chelas — já existia e possuía um mosteiro feminino muito antes de ser associada a Aquiles. No século XIV, porém, esse lugar real entrou na matéria troiana.

Uma Crónica troiana galega, concluída em 1373, conta que Licomedes era rei em Portugal e que uma das suas filhas era abadessa de um mosteiro chamado Achelas. Tétis fez conduzir Aquiles para “a parte do Ocidente” e colocou-o naquele mosteiro. Até que chegou Ulisses, encontrou o herói e o levou para a guerra.

A história permaneceu. Em 1522, João de Barros voltou a colocar Aquiles em Chelas e integrou a lenda na construção humanista das antiguidades portuguesas. Entretanto, a outra célebre tradição fazia do próprio Ulisses o fundador de Lisboa. A olisipografia aproximaria ainda esse universo troiano de Palas ou Minerva e das antigas origens da cidade.

Não nasceu tudo de uma única lenda. Histórias de proveniências diferentes convergiram sobre Lisboa.

Assim, na geografia imaginada da cidade, T***a ficou surpreendentemente próxima: Aquiles escondia-se em Chelas; Ulisses veio buscá-lo; e aquele que partiu levando o jovem herói seria também lembrado como fundador de Lisboa.

Aquiles nunca esteve em Chelas. Mas a antiga lenda de que esteve faz parte da história cultural de Lisboa.

No início do século III, Tertuliano incluía a Península na extensa geografia alcançada pelo Cristianismo. Mas a sua afir...
16/09/2026

No início do século III, Tertuliano incluía a Península na extensa geografia alcançada pelo Cristianismo. Mas a sua afirmação merece um olhar mais atento. Ao passar do Norte de África para o Ocidente, ele não escreve simplesmente «Hispânia». A expressão utilizada na obra Adversus Iudaeos é Hispaniarum omnes termini — «todos os confins das Hispânias».

Cada palavra importa. Hispaniarum está no plural: «das Hispânias». Não sabemos se Tertuliano pensava especificamente nas divisões provinciais romanas, por isso convém conservar o plural sem lhe atribuir mais do que a fonte permite. Omnes, porém, é inequívoco: «todos». E termini, «confins», retoma a linguagem bíblica que orienta o argumento: a mensagem que alcança os «confins da terra».

Seria excessivo concluir daí que toda a Península estivesse cristianizada ou que existissem igrejas em cada cidade. Tertuliano escreve num contexto apologético e emprega uma linguagem deliberadamente abrangente. Mas seria igualmente inadequado reduzir a frase a simples recurso retórico.

O próprio autor explica o que pretende dizer. Depois de enumerar as regiões alcançadas, afirma que «em todos esses lugares reina o nome do Cristo que já veio». E acrescenta algo ainda mais concreto: «em todos esses lugares habita o povo do nome de Cristo». Não fala, portanto, apenas de viajantes ou de uma mensagem que tivesse passado por esses territórios. A linguagem de um «povo» que «habita» aponta para uma presença cristã colectiva e residente.

É aqui que o testemunho de Tertuliano acrescenta uma nova peça à nossa história. Por volta de 180, Irineu já falara de igrejas estabelecidas «nas Ibérias». Algumas décadas depois, Tertuliano apresenta a presença cristã como suficientemente disseminada para falar de «todos os confins das Hispânias».

Ainda não sabemos onde estavam essas comunidades, quem eram os seus líderes ou como o Evangelho ali se estabelecera. Para isso, a documentação permanece silenciosa. Mas esse silêncio começará em breve a romper-se com Cipriano de Cartago.

Tertuliano não nos oferece um mapa das igrejas peninsulares, mas mostra que, no início do século III, o Cristianismo já fazia parte da geografia reconhecível das Hispânias.

Cerca de duas décadas antes, por volta de 180, Irineu de Lyon já mencionara igrejas estabelecidas «nas Ibérias». Agora, ...
14/09/2026

Cerca de duas décadas antes, por volta de 180, Irineu de Lyon já mencionara igrejas estabelecidas «nas Ibérias». Agora, no início do século III, Tertuliano, outro nome crucial ao período patrístico, oferece-nos, a partir de Cartago, ao Norte de Áfica, outro testemunho sobre a expansão cristã no extremo ocidental do mundo romano.

Um dos primeiros grandes escritores cristãos de língua latina, Tertuliano escreveu provavelmente entre 200 e 210 uma obra conhecida como Adversus Iudaeos. Nela, argumenta que Jesus era o Messias anunciado pelos profetas. Uma das evidências apresentadas por ele é justamente a expansão da fé cristã entre as nações. O que fora anunciado, afirma ele, «vemos que já se cumpriu». E pergunta: «Em quem mais creram todas as nações, senão no Cristo que já veio?»

Para demonstrá-lo, Tertuliano percorre o mundo conhecido. Parte de povos mencionados por Lucas em Actos 2 — partos, medos, elamitas e habitantes da Mesopotâmia —, mas não se limita à geografia bíblica. Amplia a lista em direcção ao mundo do seu próprio tempo.

É então que o seu testemunho se torna particularmente interessante. Tertuliano menciona povos do Norte de África, avança pelo Ocidente e chega às Hispânias, às Gálias e até à Bretanha. Sobre esta última, utiliza uma expressão notável: havia «lugares dos Bretões inacessíveis aos Romanos, mas submetidos a Cristo».

A comparação é poderosa. Roma possuía o maior império daquele mundo, mas o seu domínio encontrava fronteiras. Para Tertuliano, o reino de Cristo ultrapassava-as. A expansão do Cristianismo tornava-se, assim, argumento cristológico: o Messias já viera, e povos distantes já confessavam o seu nome. A geografia servia-lhe como evidência do cumprimento das antigas promessas acerca das nações.

Mas há um lugar nessa enumeração que nos interessa especialmente. Ao percorrer o extremo ocidental, Tertuliano não diz simplesmente que o Cristianismo chegara à Hispânia. A sua expressão é mais abrangente: Hispaniarum omnes termini — «todos os confins das Hispânias».

O que uma afirmação tão expressiva permite realmente concluir sobre a presença cristã na Península no início do século III? Esta é a pergunta que consideraremos a seguir.

Quando Homero cantou Odisseu, provavelmente no horizonte do século VIII a.C., Lisboa não fazia parte do mundo do seu her...
11/09/2026

Quando Homero cantou Odisseu, provavelmente no horizonte do século VIII a.C., Lisboa não fazia parte do mundo do seu herói. A Odisseia não conhece Olisipo, o Tejo ou a Lusitânia. Mas já contém a personagem que, muitos séculos depois, Lisboa faria sua.

Odisseu — Ulisses, para os Romanos e para nós — é um dos grandes heróis da imaginação ocidental. Rei de Ítaca, combateu em T***a e passou dez anos tentando regressar a casa. Se Aquiles encarna sobretudo o guerreiro e a glória, Ulisses é o homem da viagem, da inteligência e da sobrevivência.

A sua força não está apenas nas armas. Está na mêtis: a inteligência astuciosa que percebe as circunstâncias, encontra saídas e vence onde a força não basta. E está no nóstos, o regresso. Ulisses atravessa o mar, enfrenta perigos, conhece terras, cidades, povos e costumes — mas viaja procurando o caminho de volta a Ítaca.

Era uma personagem de extraordinária potência para uma cultura que viria a fazer do mar e da viagem elementos centrais da sua própria representação. Portugal não recebeu de Homero a lenda da fundação de Lisboa. Recebeu da tradição clássica o herói que, através de uma longa história de apropriações, acabaria colocado nas origens da cidade.

E em Lisboa essa apropriação adquiriu uma força simbólica singular. Voltada para o estuário do Tejo e para o Atlântico, a cidade fez do viajante grego o seu fundador mítico. Séculos mais tarde, quando Portugal se projectou pelos oceanos, a antiga associação ganhou uma força nova.

Camões percebeu-a magnificamente. Em Os Lusíadas, Ulisses é o «sábio Grego», um dos grandes navegadores antigos que os Portugueses haveriam de superar. Mas é também o fundador de Lisboa. E é precisamente do «porto da ínclita Ulisseia» que partem as naus de Vasco da Gama.

Lisboa não estava na Odisseia. Mas o herói que um dia faria seu já estava inteiro ali: o homem que atravessa o mar, conhece outros mundos, vence pela inteligência e nunca esquece o caminho de regresso.

A criança não é um ser indefinido ou moralmente neutro. Também não é um adulto em miniatura, nem apenas fruto do ambient...
10/09/2026

A criança não é um ser indefinido ou moralmente neutro. Também não é um adulto em miniatura, nem apenas fruto do ambiente em que cresce. A criança nasce com uma estrutura inata — uma constituição dada por Deus — que deve ser compreendida à luz de três verdades fundamentais, das quais decorre uma visão robusta, esperançosa e prática da infância.

Cada criança carrega a dignidade de ter sido criada à imagem e semelhança do Criador. Desde cedo manifesta capacidades relacionais, afetivas, cognitivas e espirituais. Ela foi feita para conhecer, amar, confiar e refletir algo do caráter de Deus em sua forma própria de ser criança. Essa verdade chama pais, educadores e cuidadores ao respeito e ao encorajamento da criança como um ser digno de atenção verdadeira e formação intencional.

A criança é marcada pela Queda. A imagem foi corrompida pelo pecado. A natureza humana caiu: razão, vontade, afetos e desejos foram todos afetados. Isso se manifesta desde cedo. A criança não precisa ser ensinada a mentir, resistir ou manipular — ela o faz por inclinação natural. A formação infantil exige mais do que estímulo e afeto: requer correção amorosa, confronto paciente e o trabalho contínuo do caráter. A verdadeira educação lida não apenas com capacidades, mas com inclinações ou pendores.

A graça de Deus, revelada em Cristo e aplicada pelo Espírito Santo, pode transformar a criança desde a tenra idade. Ela pode ouvir, crer, amar, orar, arrepender-se e crescer como discípula. A evangelização das crianças é um ministério necessário. A infância é campo fértil onde a Palavra pode ser semeada com fé e regada com oração.

Essa tríade — imagem, pecado e graça — oferece uma visão integral da infância. Ela evita dois erros perigosos: de um lado, o naturalismo otimista, que enxerga a criança apenas como pura e autossuficiente; de outro, o dualismo desumanizador, que despreza a sua constituição afetiva, relacional e emocional.

Devemos, portanto, reconhecer a dignidade da criação, o realismo da Queda e a esperança da redenção. Pais, mestres e conselheiros, que compreendem essa visão, caminham com os pequenos portadores da imagem divina, necessitados da mesma graça que transforma adultos.

Por volta de 180 d.C., ao defender que a mesma fé apostólica era professada em diferentes regiões do mundo, Irineu de Ly...
08/09/2026

Por volta de 180 d.C., ao defender que a mesma fé apostólica era professada em diferentes regiões do mundo, Irineu de Lyon, representante crucial da era patrística, deixou-nos uma informação particularmente importante sobre o extremo ocidental do Império Romano.

Em sua obra Contra as Heresias, Irineu escreve que nem “as igrejas estabelecidas nas Germânias” crêem ou transmitem algo diferente, “nem [as] nas Ibérias, nem [as] entre os Celtas”. Depois prossegue pelo Oriente, Egipto e Líbia.

A expressão grega merece atenção: ἐν ταῖς Ἰβηρίαις (en taîs Ibēríais) — literalmente, “nas Ibérias”. No século II, Ἰβηρία era uma designação grega corrente da Península que os romanos chamavam Hispania. Existia também uma Ibéria no Cáucaso, razão pela qual o plural exige cautela. Contudo, a leitura atenta da sequência geográfica de Irineu — Germânias, Ibérias, Celtas, antes de passar ao Oriente — torna muito fortemente provável que a referência inclua, e provavelmente designe, o espaço peninsular. A razão exacta do plural permanece incerta, conquanto com várias hipóteses muito razoáveis.

Nada obstante, talvez o dado mais importante esteja noutra palavra: ἐκκλησίαι (ekklēsíai), “igrejas”. Irineu não afirma simplesmente que havia cristãos nas Ibérias. O antecedente da enumeração são “igrejas estabelecidas”, isto é, comunidades capazes de crer e transmitir a mesma fé que ele reconhecia nas demais regiões.

A fonte não nos permite saber onde estavam essas igrejas, quantas eram, quando surgiram ou quem primeiro lhes anunciou o Evangelho. Também não permite afirmar que alguma estivesse especificamente na Lusitânia ou no território do actual Portugal. O silêncio deve ser preservado.

Ainda assim, o avanço documental é notável. Cerca do ano 57, o apóstolo Paulo escrevia aos Romanos manifestando o propósito de seguir para a Hispânia a fim de pregar o Evangelho. Aproximadamente 120 anos depois, Irineu já pressupõe igrejas nas Ibérias.

Entre esses dois testemunhos permanece uma história que conhecemos muito mal. Mas uma mudança pode ser percebida: a Hispânia que aparecia como horizonte missionário no século I surge, no final do século II, dentro da geografia das igrejas cristãs.

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