25/09/2026
Ulisses já dava a Lisboa uma origem extraordinariamente antiga. Mas, entre os séculos XVI e XVII, alguns eruditos fizeram a história da cidade recuar muito mais: até às primeiras gerações da humanidade depois do Dilúvio.
Na Bíblia, Génesis 10 apresenta Elisa como filho de Javã, neto de Jafé e bisneto de Noé. Na leitura histórica que durante séculos se fez da chamada Tábua das Nações, os descendentes de Noé foram associados aos diferentes povos e regiões do mundo.
Mas há uma distinção fundamental: a Bíblia não diz que Elisa veio à Hispânia, chegou ao Tejo ou fundou Lisboa. Essa história seria construída muitos séculos depois.
No século XVI, João Gorópio Becano procurou harmonizar genealogias bíblicas, autores antigos, mitologia, geografia e nomes de povos e lugares. Na sua reconstrução, publicada em 1580, Elisa avançou pelo Ocidente, chegou ao Tejo e ali estabeleceu uma cidade. Até o nome de Lisboa foi chamado a testemunhar essa antiguidade: uma engenhosa cadeia etimológica pretendia conservar nele a memória do seu primeiro fundador.
A construção alcançou uma forma particularmente desenvolvida em 1652, com Luís Marinho de Azevedo. Ao escrever sobre as fundações e antiguidades de Lisboa, Marinho não precisou expulsar Ulisses da história da cidade. Colocou-o depois de Elisa.
Lisboa passou assim a possuir duas antiguidades sobrepostas. Elisa, descendente de Noé, seria o fundador primordial; Ulisses, herói da Guerra de T***a, chegaria séculos depois, como reedificador da cidade. A tradição bíblica e a clássica passaram a coexistir numa única história.
Marinho chegou mesmo a datar a primeira fundação de Lisboa: 278 anos depois do Dilúvio — 2150 a.C. Não era uma data bíblica, mas o resultado de uma cronologia erudita que sincronizava a cidade com a história universal.
Não há fundamento histórico para afirmar que Elisa fundou Lisboa. Entretanto, se Ulisses dava à cidade uma antiguidade heroica, Elisa permitia fazê-la recuar para além de T***a e do próprio mundo clássico. Ao colocá-lo nas suas origens, aqueles eruditos não estavam apenas a procurar o primeiro fundador: estavam a dar à cidade um lugar nas primeiras páginas da história do mundo depois do Dilúvio.