26/12/2022
O Conto de Natanael
Era véspera de Natal. Natanael, que fora caseiro toda vida, cedo levantou para assistir à missa. Após a saída dos fiéis, então só, foi até a caixa de doação em que um envelope depositou. Ele ansiava pelo seu presente, a chegada dos três filhos para o feriado. O mais velho, Gaspar, era um militar condecorado. O segundo, Baltasar, era um próspero empresário, e o terceiro, Melchior, músico prestigiado. Mas o pai não via a grandeza dos filhos aos olhos do mundo, entristecia-se ao vê-los não buscarem o verdadeiro tesouro.
_ Oh! - dizia ele - Não percebem que o seu tesouro é uma tesoura que separa o espírito do corpo, corta os corações e perfura a alma?
Após o entusiasmo da chegada, não demorou muito para que o filho mais velho, disciplinado e metódico que era, percebesse no quarto do pai um canhoto de cheque sobre a mesa. O valor: R$100.000,00. A descrição: Doação.
_ Não pode ser! - pensou Gaspar. Meu pai enlouqueceu!
Discretamente num canto ali da sala, liderou a opinião dos irmãos sobre a descoberta. Mutuamente convictos da inquisição, decidiram salgar a sobremesa:
_ Como está a poupança, Pai? - perguntou Baltasar.
_ Eu a doei. Respondeu o pai.
_ Quanto? - perguntou Melchior.
_ Não muito. Respondeu Natanael enquanto comia o último pedaço de pudim.
_ Acha que somos tolos? O canhoto de seu cheque revelou a sua imprudência. Não sabes que dar em excesso é prodigalidade? Esqueceu do vício descrito na parábola do filho pródigo? Por essa eu não esperava! - irrompeu Gaspar com um soco na mesa.
_ E quem foi o bem-aventurado receptor? - questionou Baltasar.
_ Dei como oferta na Igreja - disse o pai.
Gaspar ergue-se como num pulo, demonstrando toda a sua insatisfação e repulsa pela postura do pai e pensou enquanto retirava-se: “Será que está doente? Com Alzheimer ou algo do tipo?”
Em posse da irresponsabilidade de causa desconhecida, resolveram procurar o Padre da paróquia para explicar a situação e reaver a doação. Os três irmãos chegaram juntos à Igreja, no exato momento da transubstanciação em que o pão, ao ser erguido pelas mãos do sacerdote, tornava-se o Corpo de Cristo. Não fizeram reverência, apenas aguardaram. Ali mesmo na sacristia buscaram o diálogo:
_ Padre, somos filhos de Natanael e viemos pedir-lhe a consideração de nos devolver o cheque de doação por ele ofertado hoje. Entendemos que houve um engano no valor.
_ Sejam bem-vindos a casa de Deus. Eu sou o Padre José. Compreendo a situação. Mas para que seja mantida a ordem natural das coisas, ficarei contente em entregar diretamente ao doador, pois a mão que doa deve ser a mesma que recebe. Ele não sabe que vocês estão aqui, sabe?
Nenhum dos três ousou responder ou discordar. Deram as costas em silêncio numa pequena forma de protestar. Mas Gaspar tinha um plano B. Homem influente que era, solicitou ajuda a um amigo juiz que emitiu uma procuração dando ao filho mais velho poder para agir em nome do pai, mas como já era tarde, o inconveniente ficou para ser resolvido no Natal.
De volta à humilde casa, encontraram o avô, ao lado da lareira, lendo Um Conto de Natal do autor Charles Dickens aos três netos: Pedro, Tiago e João. A mesa farta e posta pelas gentis noras, a música natalina ao fundo, Natanael viu-se feliz por todos estarem ali, fez o sinal da cruz e comeram enquanto lembravam das ricas histórias de infância dos três improváveis homens bem sucedidos.
Amanheceu, e em posse de seus direitos estatais, Gaspar e seus irmãos puseram-se a procurar o Padre na Igreja, mas sem êxito. Lembraram que a morada do Padre estava ali perto. Ao chegar, observaram pela janela que o Padre e Natanael estavam juntos de joelho. Exitantes, bateram à porta, pois supunham que o pai estava sob efeito de algum tipo de manipulação mal intencionada.
Atendidos, Gaspar se pronunciou com peito erguido e voz de leão, como se defendesse a criança que via em seu pai:
_ Padre, viemos aqui reaver a doação. Tenho aqui uma cópia de um mandado judicial que me outorga esse poder. Sinto muito pai, mas creio que não estás percebendo o óbvio aqui.
_ Diga-me você? - inquiriu o pai.
_ Não vês que este homem abusa de sua boa vontade e lhe manipula a dar mais do que deveria? - disse o filho empreendedor.
_ É Natal, meus amigos, tempo de generosidade - disse o Padre. Não criamos caso por conta disso, eis aqui o envelope com o cheque. Fiquem em paz.
Os filhos sentiam-se felizes em proteger o pai. Natanael sentia-se constrangido pela abordagem dos filhos e solicitou perdão ao sacerdote, beijou sua mão, pediu a benção e retirou-se para celebrar seu último Natal em família.
Dali uma semana, véspera de ano novo, o telefone dos três filhos tocou. Era o aviso da hospitalização de Natanael. Abandonaram as festas à beira mar e avançaram para um relevo maior. No hospital, os médicos disseram que o caso fora súbito, que deveriam se despedir do pai que, no leito, já não contava com lucidez.
Abatidos e mesmo sem fome foram ao refeitório, passaram pela capela onde viram o mesmo Padre e uma mulher de joelhos. Eles ouviram os sussurros de choro, mas não entraram. Depois do lanche, voltaram ao leito, onde encontraram novamente com os dois que rezavam. Melchior foi o primeiro a se manifestar estendendo a mão ao Padre saudando-o e dizendo:
_ Agradecemos sua visita Padre, e sobre nosso último encontro, espero que não haja ressentimentos.
_ De modo algum, meu filho. Como vocês estão? - gentilmente perguntou o Padre.
_ Surpresos - disse Gaspar.
_ Permitam-me apresentar-lhes - disse o Padre. Esta é Maria. Maria, esses são os três filhos de Natanael: Gaspar, Baltasar e Melchior. Maria ajoelhou-se em lágrimas aos pés dos três, que comovidos, tentaram consolá-la enquanto a erguiam.
_ Perdoem-me - disse Maria, não fui capaz de agradecer seu pai pessoalmente. Não fosse ele, meu filho Emanuel não estaria mais aqui, pois ele carecia de um procedimento muito caro e a doação chegou na quantidade exata e no momento derradeiro. Orei muito para que Deus tocasse o coração de uma alma generosa que pudesse nos estender a mão. A minha fé foi tão grande quanto minha inconveniência em persuadir o Padre a me contar o nome do benfeitor. Sei que de alguma forma Natanael sabe, mas digo a vocês com toda a força do meu coração o meu obrigado. Que Deus retribua tamanha generosidade, pois Emanuel nasceu de novo e sempre estará comigo e convosco.
Quando Maria encerrou sua fala, os batimentos cardíacos de Natanael pararam, então foi a vez dos três homens ajoelharem-se perante o maior homem que haviam conhecido. A mesquinhez foi substituída por humildade. O tempo deixou de existir, os sentidos de perceber, e nenhuma palavra seria capaz de traduzir a paz que estava ali. Seria aquela experiência atemporal uma pequena amostra do céu?
Os médicos e enfermeiros chegaram para oferecer os últimos procedimentos e pediram para aguardarem na capela. Maria despediu-se e foi descansar no quarto do filho que receberia alta no dia seguinte e estava um andar abaixo. O Padre entregou-lhes um envelope em frente ao sacrário, conforme instrução de Natanael. Era um bilhete que dizia assim:
“Amados filhos, ser o pai de vocês foi motivo de grande alegria em minha vida. Vocês são a dádiva de Deus para mim. Sempre rezei e continuarei rezando por vocês. Não entendam esse bilhete como um pedido, na verdade, ele é um presente. Rogo que reconheçam o tesouro diante de vocês. É Aquele em cuja presença espero estar agora e em cuja companhia suplico apreciarem o resto da vida. Rogo que desfrutem da verdadeira riqueza na Terra. Eis que estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Com amor. Papai.”
Gaspar, Baltazar e Melchior ajoelharam-se diante do Sacerdote e do Sacrário e entregaram o presente que Natanael por anos ansiava e rezava receber: o coração convertido de seus filhos. Era meia noite, ouviram-se os estouros dos fogos, mas não era apenas um ano novo, era vida nova.
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