14/03/2018
O romance da índia Taberé — a filha de Tibiriçá (um fato esquecido da história da fundação de São Paulo)
Francisco Martins dos Santos
Os sigilos políticos e religiosos de Portugal, compreensíveis e até justificáveis a seu tempo, em alguns casos, privaram a cultura moderna de muitas das suas melhores páginas históricas e sociológicas.
Assim é que, enquanto as conveniências reais, de ordem política escondiam fatos relativos à exploração do Atlântico sul, à costa africana, as ilhas portuguesas e ao Brasil, as conveniências eclesiásticas, de ordem religiosa, escondiam fatos relativos à gente e às populações, aos povoadores e até às línguas ou dialetos, tanto metropolitanos como coloniais.
Jaime Corteão, historiador ilustre, a quem São Paulo muito acertadamente entregou a organização e a direção das coisas de História nas festas de seu quarto Centenário de fundação, comentando tais sigilos ou alguns deles, há quase vinte anos, terminava assim os seus comentários:
“As bases de caráter oficial, sobre que até aqui se tem escrito a História dos descobrimentos, só com as maiores reservas se podem aceitar, porque esconderam deliberadamente uma grande parte do esforço nacional. Impõe-se a publicação de edições críticas das nossas crônicas, a começar pela de Guiné, assim como dos inúmeros documentos inéditos dos arquivos nacionais e estrangeiros que auxiliem a decifrar uma nova história portuguesa. ‘Para além da epopeia cantada por Camões, há outros lusíadas ocultos’”.
Signif**ativo, como se vê, e já em 1787, em nossa “História de Santos”, dizíamos nós que essas palavras era o ACUSO do escritor português às mutilações e censuras sofridas por todos os trabalhos oficiais e não oficiais do Reino sobre os Descobrimentos, verdadeiros cortes ao corpo da verdade, inimiga dos sigilos das antigas Côrtes e das suas conveniências de toda ordem.
Tais sigilos entretanto, e infelizmente, fora além dos Descobrimentos, atingiram pelo menos dois séculos de colonização, e só agora vão sendo devassados e desfeitos, pela pesquisa liberal, razão por que, a tantos homens de hoje, principalmente aos que não estudam e aos que se aferram aos velhos postulados sectários, aprecem exageros tantos fatos que se vão revelando e que na opinião e no desejo de tanto, seria melhor que nunca fossem revelados.
Em que prese a existência da importante obra do jesuíta Serafim Leite, obra que não escapou a lacunas, a história dos jesuítas no Brasil, é também uma das histórias particulares mais falhas, porque foi, exatamente, uma das mais atingidas pela chamada “polícia” religiosa, ou seja, pelos sigilos, daquela segunda espécie apontada, e todos sabem que a história dos jesuítas em nosso país, representa uma grande parte da História Geral do Brasil, durante os dois primeiros séculos (1550 a 1750), daí se concluindo que tais falhas, por isso mesmo, passaram à nossa História, aumentando-lhe o manquitolismo... roubando-lhe a parte mais bela, a mais humana, a mais romântica, a mais apaixonante, de todo aquele vasto período.
É o caso dos degredos e do primeiro povoamento, como já temos demonstrado em artigos anteriores: é o caso das relações de Ramalho e seus judeus povoadores, com os jesuítas e a formação de São Paulo, como ainda recentemente historiamos e documentamos; é o caso de Pero Corrêa em São Vicente; é das adesões jesuíticas aos holandeses, já anteriormente tratado por nós; é o do segundo Manoel da Nóbrega no Rio de Janeiro, descrito em livro Vivaldo Coaracy; é o caso da língua portuguesa, verif**ado com a sua primeira história escrita, do insuspeito Duarte Nunes do Leão. Desembargador do Reino, e de tudo isso afinal, que anda aparecendo esparsamente, pela pesquisa e pelo respigamento dos historiadores liberais modernos e que não consta nem da nossa História Geral, nem da História particular de cada setor interessado.
Pois é também o caso do Irmão Pedro Dias, um dos fundadores da nossa gloriosa Cidade de São Paulo, ao lado de Manoel da Nóbrega, Anchieta, Manoel de Paiva, Tibiriçá, Caiubí, e tantos outros companheiros menores, caso que nunca vimos discutido ou divulgado, apesar de tão importante na história da formação da família paulista e do processo de fusão da raça portuguesa com a raça brasilíndia que produziria a parte melhor das nossas antigas populações, do “lastro humano” que propulsionaria a terra das “bandeiras” e dilataria o Brasil.
Quando Manoel da Nóbrega chegou a São Vicente, vinha com ele um noviço, descendente de judeus portugueses ou “cristãos-novos”, de pele muito branca e certamente de bom aspecto físico — o Irmão Pedro Dias.
[...]
Ao mesmo tempo, as ordens religiosas e principalmente a Companhia de Jesus, que tinha uma origem profundamente ibérica e que se fundara quando mais acesas iam as perseguições religiosas do reinado de D. João III, se encheram de descendentes semitas, acolhendo verdadeiras legiões de moços daquela origem, fugidos às sanhas reais ou populares, às perseguições, à discriminação racional, então imperantes nos dois países peninsulares, alguns desolados e desconsolados pela perda dos pais, sacrif**ados àquelas perseguições, outros encaminhados pelas próprias famílias cristãs que os criavam desde pequeninos (tirados às suas mães por imposição da lei), outros mais enojados da Humanidade, e outros ainda vendo nisso a possibilidade de esconderijo e refúgio, além da possibilidade (apenas dissimulada, como se viu tantas vezes) de viver bem, de emigrar e de reconquistar um dia a liberdade integral, cômoda, fácil e segura, nas colônias em que se desenvolva a catequese, e para onde mais cedo ou mais tarde, certamente iriam.
Por uma dessas razões e não decerto por vocação, Pedro Dias aparecera integrado à companhia de Jesus e vieram ter ao Brasil, à Bahia, e em seguida a São Vicente, enviado depois aos trabalhos da catequese em Santo André e em todo o planalto de Piratininga, ao lado de José de Anchieta, noviço como ele.
Como teria tido início o romance de Pedro Dias e Terebé? O fato social e histórico está documentado, faltam-nos apenas os detalhes, mas acreditamos que tudo aconteceu assim:
Logo após os primeiros contatos dos jesuítas de Manoel da Nóbrega com Tibiriçá, na velha Piratininga e depois na nova Santo André, Terebé, se encantara com o Irmão Pedro Dias, um dos poucos “brancos” bonitos da turma jesuítica. A princesa piratiningana viu-o e amou-o, desejando para si aquele formo “abaré” sem coroa, cuja brancura ainda mais se realçava a seus olhos, posta em permanente contraste com o negror da sua roupeta. Seu raciocínio era simples, primário, como o de uma criança. Terebé vira com que facilidade os portugueses que ali chegavam se uniam com as brasilíndias, por escolha própria ou escolhidos por elas, requisitados em nome das “boas relações” ou da “boa vizinhança”, como diríamos agora, e às vezes com mais de uma, pela mesma razão ou em nome da necessidade de povoamento do país... Por que não poderiam também ela — a filha de Tibiriçá, a irmã de Bartira, a princesa — escolher o seu homem entre os que chegavam? Que noção poderia ela ter do signif**ado daquela sotaina ou dos votos pessoais que ela envolvia? Em seu egoísmo ingênuo, não procurou pois indagar, se lhe era lícito, se podia ou se devia ousar a conquista daquele português, desejo-o para si, apontando-o ao pai, como quem deseja um objeto ou (na melhor das hipóteses) como quem ama empolgadamente, sem atenção às circunstâncias materiais ou morais.
Tibiriçá (naquela altura com 60 anos presumíveis) devia ter alguma noção do sacerdócio católico, porque seu convívio com os portugueses de Ramalho, já vinha de longe, e, desde 1500, pelo menos, já convivia ele com Lonardo Nunes, o “abaré-bebé”, a quem seus brasilíndios naquele mesmo ano, tinham ajudado a construir a capelo de Santo André, antes de se transferirem para o novo sítio piratiningano escolhido por Nóbrega.
É pois estranho o que se passou pouco após a fundação da cidade de São Paulo ou durante a fundação: é estranho que Tibiriçá houvesse acolhido o desabafo amoroso da filha, prestando-se a transmitir a Manoel da Nóbrega o seu desejo, apontando o noviço Pedro Dias, e pedindo-o em casamento para Terebé, como aconteceu.
A interpretação atual é que, Pedro Dias já estava inclinado para aquele amor, já mantinha as suas simpatias declaradas pela filha do príncipe piratiningano, sem o que não poderia ser “negociado”, não teria adquirido o “estado de graça” necessário à realização do sacramento, o que era muito levado em conta por Nóbrega, e não poderia casar-se com Terebé, por maior que fossem o interesse da religião e a conveniência do Estado, ou fosse, da colonização vicentina e brasileira.
É quase claro e lógico que assim foi, e deste modo, aí temos nessa curiosa passagem, o primeiro romance amoroso, conhecido, identif**ado, documentado, havido nas plagas paulistas, cuja crônica romântica não deixa portanto, de completar também, “o seu quarto centenário”, cabendo esse autêntico laurel e legítimo título de orgulho (embora profano), à Companhia de Jesus.
A verdade é que, recebendo de Tibiriçá o pedido “da mão” do noviço Pedro Dias para sua filha Terebé, o santo Nóbrega, revelando uma transigência construtora e uma exata compreensão dos problemas humanos e sociais, encaminhou ao Geral do Ordem, o ex-capitão e hoje santo Inácio de Loyola, o pedido do príncipe Tibiriçá, acompanhado do assentimento do Irmão Pedro Dias.
O processo durou algum tempo, e completou-se quando o padre Luiz da Grã já era Superior do Colégio fundado a 25 de Janeiro de 1554 e já completara a catequese e conversão de Terebé batizando-a. Pedro Dias foi desligado dos votos e a filha de Tibiriçá recebeu, em homenagem ao Superior do Colégio, o nome de Maria da Grã. Com o qual se tornaria esposa do ex-noviço.
Coroava-se o primeiro romance paulistano. A cidade de São Paulo recebia seu batismo, não apenas a água lustral, mas também a “lulustral do amor”, daquele amor que era uma síntese e um símbolo de nossa formação, da formação paulista e brasileira. Pedro Dias e Maria da Grã, escreviam o seu amor entre os grandes amores da nossa História, ao mesmo tempo em que inscreviam seus nomes entre os nomes dos patriarcas da “paulistarum gens”, como sementes que foram de centenas ou milhares das nossas famílias.
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Artigo publicado na Revista Paulistania, nº 50, 1954, p. 81-83.