Tradição Paulista

Tradição Paulista Informações e pesquisas sobre a tradição paulista, nativismo e cultura do Cone Sul em geral. Se

16/07/2019

"A Colheita" de Antonio Ferrigno (1863-1940) faz parte de uma série de seis pinturas que retratam a Fazenda Santa Gertrudes nas imediações de Limeira e Rio Claro, interior de São Paulo. As obras foram encomendadas pelo Conde de Prates, dono da fazenda na época, e foram expostas na Exposição Universal de Saint Louis em 1904 como forma de retratar a vida no Brasil. Todos os quadros dessa série hoje fazem parte do acervo do Museu Paulista.

Título: A COLHEITA
Data: 1903
Autor: Antonio Ferrigno
Técnica: óleo sobre tela

Tropeirismo ainda vivo.
28/03/2019

Tropeirismo ainda vivo.

O Último Tropeiro Alvaro é um fazendeiro e conta com paixão sobre a importância das mulas, dos burros e dos tropeiros sorocabanos do Brasil colônia. Produção...

Ao começar o século dos setecentos, surgiu, porém, entre os paulistas e os adventícios a odiosidade, que, em poucos anos...
31/10/2018

Ao começar o século dos setecentos, surgiu, porém, entre os paulistas e os adventícios a odiosidade, que, em poucos anos, deveria ensanguentar o território mineiro, segundo se depreende de uma reclamação constante de um “termo de Requerimento do povo sobre o descubrinto dos cuatagoas”, dirigido em abril de 1700 a Arthur de Sá e Menezes, segundo o qual:

“as terras do territorio das minas de catagoas asim campos como matos lavradios de direyto pertensia aos paulistas pa. possuirem por datas de S. Magde. q deus gde. ou de quen for donatario porqto, elles foram os q conquistarão as ditas terras e são os descubridores das minas de ouro q do presente se lavrão o q he notório e patemte o q tudo fizerão a custo de suas vidas e fazendas sem dispendio da fazda. Real e q seria hua gramde em Justisa comsederse as dias terras aos Moradores do Rio de Janeiro q nunqua tiverão parte tamto no comquista como no descubrimento....” (“Actas, vol. VII, 536).

Estavam, pois, como se vê, as autoridades do Rio de Janeiro a proteger os moradores desta cidade contra os paulistas, coisa que continuaram a fazer, daí em diante, em relação a todos os adversários dos paulistas, não dando importância aos protestos dos legítimos donos do riquíssimo “Pactolo” das Geraes. Profundos foram os rancores originados na alma paulista, por esta proteção aos seus rivais, a ponto de o célebre episódio, de que foi protagonista Jeronymo Pedroso de Barros, não passar de um simples acender do rastilho, já assim preparado. A luta tomou proporções de sanguinolenta guerra civil, cheia de violentíssimas refregas, nas quais, de um lado, pelejavam os paulistas, valentes descendentes dos rudes bandeirantes seiscentistas, e de outro a infame multidão de forasteiros, protegidos pelos dragões portugueses, que a governança colonial não deixava de emprestar aos seus patrícios reinóis, para atemorizar os indômitos bandeirantes paulistas.

Em 1709, depois das vergonhosas cenas de inominável covardia do Capão da Traição, onde, à falsa fé, foram trucidadas, desarmadas, dezenas de paulistas, com suas mulheres e crianças, em S. Paulo, logo ao chegar a infausta notícia, se preparou grande expedição, para castigar o vandalismo estúpido de Amaral Coutinho e seus asseclas emboabas.

Memorabilíssimo foi o movimento de reação, entre os moradores do velho S. Paulo do Campo, magnífico surto nativista, contra os portugueses, nas páginas da história brasileira, sinal primevo e inconfundível da diferenciação da raça paulista, demonstração cabal da emancipação do nosso torrão, insigne e inesquecível precursor secular da conspiração de Tiradentes, êmulo remotíssimo, no passado, da convulsão epilogada na sacrossanta colina do Ypiranga.

Organizada a expedição vingadoura, em 1.º de abril de 1709, foi eleito e aclamado pelo povo, para “cabo mayor e defensor da patria", Amador Bueno da Veiga: (Actas, vol. VIII, 190)

“Ao primeiro dia do mes de Abril de mil eesetecentos e nove annos em as Casas e pessoas do conselho dela adonde forão trazidos os offes da Camra, a instancia e requerimto do Povo todos universalmte, e todos por hua vôs dizendo q eles da aquelle instante nomeavão e elegião por cabo universal pa. qualquer invazão e defensa da Patria, e bem comum della e em pról de todo o bem e conservasão da Patria ao cap.am Amador Bueno da Veyga, a qm. disserão havião de obedecer como seu cabo mayor em tudo do q fosse em prol do q assima f**a d.o porq assim achavão q convinha. E como aos impulsos dee hu povo não há qm. rezista...”

Este belíssimo documento de aclamação de Amador Bueno da Veiga, terminando com este período inconfundível, foi seguido de mais uma centena de nomes dos mais em evidência da governança paulista, todos os descendentes dos velhos pelejadores da época lendária das bandeiras seiscentistas. O documento, como se vê, eivado do mais acentuado nacionalismo, define com clareza a noção de pátria.

[...]

Pertencente à velha família dos Buenos, iniciada com o sevilhano Bartholomeu Bueno da Ribeira, e caldeada de sangue indígena pelo casamento deste povoador castelhano, no “clan” dos Pires, de Mecia Ussú, era ela bisneto de Amador Bueno da Ribeira, que em 1.º de abril de 1641 (notável coincidência) fora, em S. Paulo, aclamado rei e alvo do primeiro movimento separatista no Brasil de que se tem memória; e neto de Amador Bueno o moço, impertérrito sertanista destruidor de “Guayrá” e “Tape”. Ainda, por Amador Bueno da Ribeira, procedia ele de sangue mameluco, descendendo de Pequeroby, o maioral do Ururahy. Pela mulher de Amador Bueno da Ribeira, Bernarda Luiz, era ele procedente de Domingos Luiz, o carvoeiro, casado na raça mameluca de Tibiriçá.

ELLIS Jr., Alfredo. Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano. São Paulo: Typographia Piratininga, 1934, p. 227-230.

O Roubo da Cruz Preta (*excerto)Antonio ConstantinoNarra o Visconde de Araxá e Almeida Nogueira, nas “Fantasias e Remini...
17/03/2018

O Roubo da Cruz Preta (*excerto)
Antonio Constantino

Narra o Visconde de Araxá e Almeida Nogueira, nas “Fantasias e Reminiscências”, hoje livro raro e precioso: “A rua de São Paulo tirava a sua denominação de uma grande cruz pintada de preto que existia em uma esquina, e cujos braços excediam à altura das sacadas do sobrado, a que estava encostada. O povo tinha grande fé com essa cruz, e aí rezava à noite e fazia grande festa no dia 2 de Maio. No meu tempo, morava nesse sobrado uma família numerosa, de que fazia parte uma moreninha de olhos vivos e buliçosos e que muito atraía as vistas dos que por ali passavam (1). Nunca aquela cruz teve tantos adoradores...

Bem ou mal fundado, correu o boato de que um feliz maganão (2) trepava todas as noites pela cruz e saltava sobre a janela da direita. Isso revoltou a estudantada. O estudante em geral pouco se importa com as teses de moral e com as cruzes brancas, amarelas ou pretas: mas naquele caso, onde entrava talvez alguma dosezinha de inveja, manifestou-se geral indignação contra o ma***to que assim profanava o sagrado lenho. Se fosse por alguma velha, ou por alguma escrava da casa, paciência! Mas pela moreninha, a quem mais de um já tinha dirigido em balde sonetos e madrigais, era uma imoralidade imperdoável, que excedia as raias do desaforo. Reuniram-se alguns estudantes, combinaram sobre o melhor modo de por cobro àquele escândalo. O conciliábulo foi presidido por um estudante de vinte e tantos anos, que veio de Coimbra concluir seus estudos em a nova Academia que era um oráculo para os outros, já pela idade, já pelo brilho de seu talento e já por um laço de união entre a nova e a velha Coimbra. Este veterano tomou à si formular o plano e fê-lo com mão de mestre, distribuindo os papéis, prevendo e providenciando todas as minudências de modo a haver hesitações no campo de batalha.

E uma noite, a horas mortas, luar claro como dia, cerca de trinta e quarenta estudantes escolhidos, dirigiram-se ao lugar ajustado. Uns subiram como gatos, e da janela ataram cordas fortes aos braços da cruz, enquanto outros, serravam o pedestal rente ao chão. Concluída a operação, os de cima foram descendo o pesado lenho com todo o vagar e em grande silêncio. Posta a cruz no chão, começou a parte mais laboriosa, a condução daquele imenso madeiro, pesado como ferro. Quando os vedetas avistavam alguma patrulha, davam sinal e nós púnhamos, quero dizer, e os carregadores punham a carga no chão, deitando por cima os seus capotes e sentando-se sobre eles. Quando chegava a patrulha, perguntava invariavelmente o comandante:

— O que fazem aqui os senhores estudantes?
— Estamos — respondia um — gozando do bonito luar e recordando a nossa sabatina de hoje. Que lindo luar camaradas!
— Está bom; mas não vão fazer alguma.
— Nós somos cidadãos pacíficos e mais pacatos que um guarda nacional. Alguns até estão se preparando para frades e, desde já, se portam com mansidão de quem espera obter, algum dia, com a ajuda do Santo Refeitório, o mais reverendo dos cachaços.

Os das patrulha riam-se, recebiam muito contentes alguns ci****os e continuavam o seu passeio policial. Quase ao romper do dia, os carregadores chegaram, extenuados de forças, à beira do rio, e nele lançaram o grande madeiro”.

O fato causou sensação, no dia subsequente, pondo em polvorosa a Capital. No largo do São Francisco, sobretudo no lado oposto ao do Convento, onde se localizava uma ferraria, as beatas faziam comício, lançando injúrias aos autores do sacrilégio. Chegaram a exigir satisfações do chefe do bando furtador, porém o estudante, com a cara mais cínica deste mundo, declarou que vira em sonho uma porção de anjos transportando, pelo céu, a cruz preta, cercada de raios de luz e entre cânticos religiosos. Afinal, o caso tomou proporções enormes, e, segundo diz outro cronista, havia gente que chegava a ver a cruz carregada pelos anjos...

Continua, o Visconde de Araxá: “Uma capuchinho que por aqui andava pregando missões, se apoderou do tema:

— ‘La Santa croce’ — bradou atirando os braços para o céu — ‘será restituída, ancora piú miracolosa, ma dopo molta penitenza, molta orazione e molto riposo’.

O desrespeito fora tanto maior quanto o riacho tem o diabo — anhangá — no nome.

Manoel da Fonte, passados dias, encontrou e recolheu a cruz. E o capuchinho das Missões, no próprio lugar, junto à ponte do Piques, reuniu os fiéis e deitou o mais patético dos sermões:

— Las feminas — bradava — que venga de lenço na cabeça, escondendo as vergonhas de lo semblante. Los machos conduzindo petras para um calvário no pateo de São Francisco, onde deve ser levantada a croce’”.

A tradição revela que foi erguida, à beira do Anhangabaú, a capelinha de Santa Cruz do Piqes, com o símbolo roubado pelos estudantes. Há quem afirme, entretanto, ter sido a mesma cruz que foi colocada diante do Mosteiro dos Franciscanos.

(*) Do “Centenário da morte do poeta Alvares de Azevedo” — artigo do autor publicado no vespertino “A Gazeta”, de 25 de abril de 1952.

(1) Trata-se da goiana D. Maria Luiza Carlota Silveira da Mota, filha do desembargador conselheiro Joaquim Inácio Silveira da Mota, mais tarde senador do Império. D. Maria Luiza foi progenitora do grande poeta paulista Manoel Antonio Alvares de Azevedo.

(2) Esse “feliz maganão” outro não foi senão Inácio Manoel Alvares de Azevedo (natural de Itaboraí, terra fluminense, que antes havia sido mandado para Coimbra, onde não se adaptou na afamada Universidade. Regressando à Pátria, matriculou-se na Academia de Direito de São Paulo. Na capital paulista veio a conhecer por volta de 1828, d. Maria Luiza Silveira da Mota, com quem se casou em 14 de novembro de 1829. Desse casamento, nasceu após a primogênita, que se chamou também Maria Luiza, Manoel Antônio, o poeta da “Lira dos vinte anos”.

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Artigo publicado na revista Paulistania, nº 50, 1954 (edição comemorativa do IV Centenário), p. 86-87.

Antes de tudo, porém, convém ponderar que o separatismo tem encontrado nesta província uma aceitação tão rápida, tão esp...
15/03/2018

Antes de tudo, porém, convém ponderar que o separatismo tem encontrado nesta província uma aceitação tão rápida, tão espontânea e tão genérica, que só esta circunstância é um motivo bastante para sérias reflexões da parte daqueles que pensam e que observam os fenômenos sociais com madureza e critério científico. Quando uma ideia ou uma aspiração se generaliza por essa forma, quase sem nenhum trabalho ou esforço de propaganda, é porque já tem encontrado na consciência popular um terreno bastante preparado para poder desenvolver-se, expandir-se e frutif**ar; conseguintemente, é de supor-se que na coletividade paulista existam poderosos elementos de desagregação social e política, que, até aqui abafados pela pressão centralista do império, começam todavia a manifestar-se, graças ao acréscimo de energia que com o correr do tempo têm adquirido e a oportunidade do momento histórico da vida social e política do império.

[...]

Ora, atendo-se em primeiro lugar a este elemento de diferenciação étnica, verif**a-se, pelas condições especiais em que se deu o povoamento de nossa província, que temos aqui um dos fundamentos mais sólidos da moderna aspiração separatista. A nossa população, não obstante a comunidade de origem que a liga a de outras províncias do império, afasta-se e distancia-se de muitas, por caracteres étnicos secundários, cuja importância e energia não podem ser desprezadas.

Os colonos, povoadores da capitania de São Vicente, eram muito superiores, pela sua cultura moral e pela sua genealogia, aos outros que eram mandados pelo governo português para as províncias do norte. Estes eram, na maior parte, condenados deportados, criminosos homiziados e gente de baixa extração, sem costumes, sem moral e sem escrúpulos. Indivíduos que na sua pátria constituíam elementos de perigo e dos quais Portugal se livrava mandando-os deportados para as províncias do norte principalmente, que sempre foram mais protegidas e mais cuidadas pelo governo português.

O Sr. Oliveira Martins, referindo-se a este zelo com que sempre foi tratado o norte do Brasil, enquanto o sul jazia em abandono e entregue a si mesmo, nos assegura que “a nação brasileira desenvolve-se colonialmente ao norte, orgânica e espontaneamente ao sul. Semi-independente a região de São Paulo — Minas com a grande baía do Rio Janeiro, capital natural do império futuro, está na sombra elaborando uma construção orgânica enquanto o Brasil oficial, o Brasil brilhante, opulento, o Brasil dos vice-reis e governadores, assenta ao norte, na Bahia de Pernambuco”. Daí a razão de irem quase todos os deportados e criminosos para o norte.

Nas províncias do sul, o povoamento se fez em melhores condições. O senador Joaquim Floriano de Godoi, em uma notícia histórica que escreveu sobre a província de São Paulo, depois de enumerar as três raças que aqui se encontram, a raça branca, a raça indígena e a raça mameluca, assim se exprime: “a raça branca, representada pelos colonos e suas famílias vindos na armada de Martim Afonso, que foram os primeiros colonizadores de São Vicente, Santos e Piratininga; colonização esta que muito avultou posteriormente, com especialidade no domínio espanhol. A máxima parte destes colonos eram de origem limpa, pertencendo muitos à melhor nobreza de Portugal e Espanha. Estes colonos formavam por assim dizer, uma sociedade à parte, não se confundindo com os naturais da terra e nem com os mamelucos”.

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SALLES, Alberto. A Pátria Paulista. Brasília: UnB, 1983, p. 101-102.

Imagem: Oscar Pereira da Silva, "Criação da Vovó" (1895).

O romance da índia Taberé — a filha de Tibiriçá (um fato esquecido da história da fundação de São Paulo)Francisco Martin...
14/03/2018

O romance da índia Taberé — a filha de Tibiriçá (um fato esquecido da história da fundação de São Paulo)

Francisco Martins dos Santos

Os sigilos políticos e religiosos de Portugal, compreensíveis e até justificáveis a seu tempo, em alguns casos, privaram a cultura moderna de muitas das suas melhores páginas históricas e sociológicas.

Assim é que, enquanto as conveniências reais, de ordem política escondiam fatos relativos à exploração do Atlântico sul, à costa africana, as ilhas portuguesas e ao Brasil, as conveniências eclesiásticas, de ordem religiosa, escondiam fatos relativos à gente e às populações, aos povoadores e até às línguas ou dialetos, tanto metropolitanos como coloniais.

Jaime Corteão, historiador ilustre, a quem São Paulo muito acertadamente entregou a organização e a direção das coisas de História nas festas de seu quarto Centenário de fundação, comentando tais sigilos ou alguns deles, há quase vinte anos, terminava assim os seus comentários:

“As bases de caráter oficial, sobre que até aqui se tem escrito a História dos descobrimentos, só com as maiores reservas se podem aceitar, porque esconderam deliberadamente uma grande parte do esforço nacional. Impõe-se a publicação de edições críticas das nossas crônicas, a começar pela de Guiné, assim como dos inúmeros documentos inéditos dos arquivos nacionais e estrangeiros que auxiliem a decifrar uma nova história portuguesa. ‘Para além da epopeia cantada por Camões, há outros lusíadas ocultos’”.

Signif**ativo, como se vê, e já em 1787, em nossa “História de Santos”, dizíamos nós que essas palavras era o ACUSO do escritor português às mutilações e censuras sofridas por todos os trabalhos oficiais e não oficiais do Reino sobre os Descobrimentos, verdadeiros cortes ao corpo da verdade, inimiga dos sigilos das antigas Côrtes e das suas conveniências de toda ordem.

Tais sigilos entretanto, e infelizmente, fora além dos Descobrimentos, atingiram pelo menos dois séculos de colonização, e só agora vão sendo devassados e desfeitos, pela pesquisa liberal, razão por que, a tantos homens de hoje, principalmente aos que não estudam e aos que se aferram aos velhos postulados sectários, aprecem exageros tantos fatos que se vão revelando e que na opinião e no desejo de tanto, seria melhor que nunca fossem revelados.

Em que prese a existência da importante obra do jesuíta Serafim Leite, obra que não escapou a lacunas, a história dos jesuítas no Brasil, é também uma das histórias particulares mais falhas, porque foi, exatamente, uma das mais atingidas pela chamada “polícia” religiosa, ou seja, pelos sigilos, daquela segunda espécie apontada, e todos sabem que a história dos jesuítas em nosso país, representa uma grande parte da História Geral do Brasil, durante os dois primeiros séculos (1550 a 1750), daí se concluindo que tais falhas, por isso mesmo, passaram à nossa História, aumentando-lhe o manquitolismo... roubando-lhe a parte mais bela, a mais humana, a mais romântica, a mais apaixonante, de todo aquele vasto período.

É o caso dos degredos e do primeiro povoamento, como já temos demonstrado em artigos anteriores: é o caso das relações de Ramalho e seus judeus povoadores, com os jesuítas e a formação de São Paulo, como ainda recentemente historiamos e documentamos; é o caso de Pero Corrêa em São Vicente; é das adesões jesuíticas aos holandeses, já anteriormente tratado por nós; é o do segundo Manoel da Nóbrega no Rio de Janeiro, descrito em livro Vivaldo Coaracy; é o caso da língua portuguesa, verif**ado com a sua primeira história escrita, do insuspeito Duarte Nunes do Leão. Desembargador do Reino, e de tudo isso afinal, que anda aparecendo esparsamente, pela pesquisa e pelo respigamento dos historiadores liberais modernos e que não consta nem da nossa História Geral, nem da História particular de cada setor interessado.

Pois é também o caso do Irmão Pedro Dias, um dos fundadores da nossa gloriosa Cidade de São Paulo, ao lado de Manoel da Nóbrega, Anchieta, Manoel de Paiva, Tibiriçá, Caiubí, e tantos outros companheiros menores, caso que nunca vimos discutido ou divulgado, apesar de tão importante na história da formação da família paulista e do processo de fusão da raça portuguesa com a raça brasilíndia que produziria a parte melhor das nossas antigas populações, do “lastro humano” que propulsionaria a terra das “bandeiras” e dilataria o Brasil.

Quando Manoel da Nóbrega chegou a São Vicente, vinha com ele um noviço, descendente de judeus portugueses ou “cristãos-novos”, de pele muito branca e certamente de bom aspecto físico — o Irmão Pedro Dias.

[...]

Ao mesmo tempo, as ordens religiosas e principalmente a Companhia de Jesus, que tinha uma origem profundamente ibérica e que se fundara quando mais acesas iam as perseguições religiosas do reinado de D. João III, se encheram de descendentes semitas, acolhendo verdadeiras legiões de moços daquela origem, fugidos às sanhas reais ou populares, às perseguições, à discriminação racional, então imperantes nos dois países peninsulares, alguns desolados e desconsolados pela perda dos pais, sacrif**ados àquelas perseguições, outros encaminhados pelas próprias famílias cristãs que os criavam desde pequeninos (tirados às suas mães por imposição da lei), outros mais enojados da Humanidade, e outros ainda vendo nisso a possibilidade de esconderijo e refúgio, além da possibilidade (apenas dissimulada, como se viu tantas vezes) de viver bem, de emigrar e de reconquistar um dia a liberdade integral, cômoda, fácil e segura, nas colônias em que se desenvolva a catequese, e para onde mais cedo ou mais tarde, certamente iriam.

Por uma dessas razões e não decerto por vocação, Pedro Dias aparecera integrado à companhia de Jesus e vieram ter ao Brasil, à Bahia, e em seguida a São Vicente, enviado depois aos trabalhos da catequese em Santo André e em todo o planalto de Piratininga, ao lado de José de Anchieta, noviço como ele.

Como teria tido início o romance de Pedro Dias e Terebé? O fato social e histórico está documentado, faltam-nos apenas os detalhes, mas acreditamos que tudo aconteceu assim:

Logo após os primeiros contatos dos jesuítas de Manoel da Nóbrega com Tibiriçá, na velha Piratininga e depois na nova Santo André, Terebé, se encantara com o Irmão Pedro Dias, um dos poucos “brancos” bonitos da turma jesuítica. A princesa piratiningana viu-o e amou-o, desejando para si aquele formo “abaré” sem coroa, cuja brancura ainda mais se realçava a seus olhos, posta em permanente contraste com o negror da sua roupeta. Seu raciocínio era simples, primário, como o de uma criança. Terebé vira com que facilidade os portugueses que ali chegavam se uniam com as brasilíndias, por escolha própria ou escolhidos por elas, requisitados em nome das “boas relações” ou da “boa vizinhança”, como diríamos agora, e às vezes com mais de uma, pela mesma razão ou em nome da necessidade de povoamento do país... Por que não poderiam também ela — a filha de Tibiriçá, a irmã de Bartira, a princesa — escolher o seu homem entre os que chegavam? Que noção poderia ela ter do signif**ado daquela sotaina ou dos votos pessoais que ela envolvia? Em seu egoísmo ingênuo, não procurou pois indagar, se lhe era lícito, se podia ou se devia ousar a conquista daquele português, desejo-o para si, apontando-o ao pai, como quem deseja um objeto ou (na melhor das hipóteses) como quem ama empolgadamente, sem atenção às circunstâncias materiais ou morais.

Tibiriçá (naquela altura com 60 anos presumíveis) devia ter alguma noção do sacerdócio católico, porque seu convívio com os portugueses de Ramalho, já vinha de longe, e, desde 1500, pelo menos, já convivia ele com Lonardo Nunes, o “abaré-bebé”, a quem seus brasilíndios naquele mesmo ano, tinham ajudado a construir a capelo de Santo André, antes de se transferirem para o novo sítio piratiningano escolhido por Nóbrega.

É pois estranho o que se passou pouco após a fundação da cidade de São Paulo ou durante a fundação: é estranho que Tibiriçá houvesse acolhido o desabafo amoroso da filha, prestando-se a transmitir a Manoel da Nóbrega o seu desejo, apontando o noviço Pedro Dias, e pedindo-o em casamento para Terebé, como aconteceu.

A interpretação atual é que, Pedro Dias já estava inclinado para aquele amor, já mantinha as suas simpatias declaradas pela filha do príncipe piratiningano, sem o que não poderia ser “negociado”, não teria adquirido o “estado de graça” necessário à realização do sacramento, o que era muito levado em conta por Nóbrega, e não poderia casar-se com Terebé, por maior que fossem o interesse da religião e a conveniência do Estado, ou fosse, da colonização vicentina e brasileira.

É quase claro e lógico que assim foi, e deste modo, aí temos nessa curiosa passagem, o primeiro romance amoroso, conhecido, identif**ado, documentado, havido nas plagas paulistas, cuja crônica romântica não deixa portanto, de completar também, “o seu quarto centenário”, cabendo esse autêntico laurel e legítimo título de orgulho (embora profano), à Companhia de Jesus.

A verdade é que, recebendo de Tibiriçá o pedido “da mão” do noviço Pedro Dias para sua filha Terebé, o santo Nóbrega, revelando uma transigência construtora e uma exata compreensão dos problemas humanos e sociais, encaminhou ao Geral do Ordem, o ex-capitão e hoje santo Inácio de Loyola, o pedido do príncipe Tibiriçá, acompanhado do assentimento do Irmão Pedro Dias.

O processo durou algum tempo, e completou-se quando o padre Luiz da Grã já era Superior do Colégio fundado a 25 de Janeiro de 1554 e já completara a catequese e conversão de Terebé batizando-a. Pedro Dias foi desligado dos votos e a filha de Tibiriçá recebeu, em homenagem ao Superior do Colégio, o nome de Maria da Grã. Com o qual se tornaria esposa do ex-noviço.

Coroava-se o primeiro romance paulistano. A cidade de São Paulo recebia seu batismo, não apenas a água lustral, mas também a “lulustral do amor”, daquele amor que era uma síntese e um símbolo de nossa formação, da formação paulista e brasileira. Pedro Dias e Maria da Grã, escreviam o seu amor entre os grandes amores da nossa História, ao mesmo tempo em que inscreviam seus nomes entre os nomes dos patriarcas da “paulistarum gens”, como sementes que foram de centenas ou milhares das nossas famílias.

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Artigo publicado na Revista Paulistania, nº 50, 1954, p. 81-83.

A esta fama de insubmissão [dos paulistas] enxertou-se a da belicosidade causada pela guerra civil dos Pires e Camargos ...
31/01/2018

A esta fama de insubmissão [dos paulistas] enxertou-se a da belicosidade causada pela guerra civil dos Pires e Camargos e das contendas com o vigário Albernas, e sobretudo pela reputação, cada vez maior, da capacidade combativa das bandeiras, na faina do desbravamento e da submissão do gentio.

“Aquele povo com a menor causa costuma amotinar-se e desobedecer” dizia, em 1653,a D. João IV, o Provedor da Real Fazenda do Rio de Janeiro, Pedro de Sousa Pereira.

Maserati, embaixador espanhol em Lisboa a Carlos II explicava: “Êstes portuguêses de San Pablo viven sin freno del repeto y temor del castigo de los gobernadores del Brasil.” E em 1687 Dr. Francisco Jarque em seus Insignes misioneros apodava aos “mamalucos del Brasil” de “gente belicosa, atrevida e sin ley tiendo solo de cristianos el bautismo”.

Em 1663 afirmava o Governador-Geral Francisco Barreto de Meneses que a vila piratiningana era “uma Rochela”, injuriosíssimo epíteto naqueles tempos de suma fé católica.

Pelo Reino e o Brasil circulou, em fins do século, certa anedota pitoresca, veiculadora de conceito emitido a D. Pedro II pelo Secretário de Estado Mendo de Foyos Pereira. Ao Rei enunciando a resenha das vilas brasileiras omitira os nomes de S. Paulo e de suas vizinhas.

Surpreso, indagara o monarca acerca de tal omissão, ao que lhe respondera o ministro: “Por quê, Real Senhor? Porque aquelas vilas não são de Vossa Majestade!”

Destes fatos decorreu a atordoada que da península ibérica se espalhou pela Europa fazendo da Vila de São Paulo a capital de um estado republicano e por assim dizer independente, tratado com deferência pelos Reis de Portugal receosos de que tão belicosos e altanados súditos rompessem os laços da solidariedade lusitana confiantes na inexpugnabilidade de seu planalto, abroquelado pela Serra do Mar.

TAUNAY, A. E. História das Bandeiras Paulistas. Tomo I. São Paulo: Melhoramentos, 1961, p. 211-212.

Imagem: "Pátio do Colégio" de Benedito Calixto.

“Grandes coisas são feitas”, escrevia William Blake, “quando homens e montanhas se encontram”. Os paulistas e a Serra da...
27/07/2017

“Grandes coisas são feitas”, escrevia William Blake, “quando homens e montanhas se encontram”. Os paulistas e a Serra da Mantiqueira decerto comprovam tais palavras. Lord Anson, no século XVIII, descrevia a afeição dos paulistas pelas montanhas — defesa natural da independência dos vicentinos. E o talento para as grandes coisas, por sua vez, foi assinalado por Luiz D’Alincourt quase um século depois. Estes dois traços, quem os relembra é Mazzaropi em um de seus clássicos filmes:

https://www.youtube.com/watch?v=weKu1iLlGvg

Jeca contra o capeta Musica: Inspiração do Jeca (Antonio dos Santos e Hector Lagna Fietta) canta Mazzaropi País / Ano: Brasil / 1975 Duração: 97 minutos Dire...

Por outro lado, o Planalto paulista, isolado do litoral pelos penhascos enristados de Paranapiacaba, não podia exportar ...
16/07/2017

Por outro lado, o Planalto paulista, isolado do litoral pelos penhascos enristados de Paranapiacaba, não podia exportar através de tantos obstáculos, a não ser mercadoria humana que se auto-locomovesse. Eis que em estrita obediência de uma lei fixa inamolgável regente da história, o planaltino só pôde exportar escravo índio para o Nordeste açucareiro. E, na constância multi-secular dêsses eventos, o Planalto viu se repetir a história, com rigor de uma fórmula química ou de uma equação algébrica.

Existe uma lei regente da história humana que diz que não é possível haver produção sem mão de obra; o Planalto paulista que a podia fornecer, possibilitou com ela, o enorme desenvolvimento da região nordestina. Existe uma outra lei regente da história humana que ensina que os contactos produzem a influência psicológica recíproca entre as partes que se entrechocam.

O comércio do açúcar entre o Nordeste brasileiro e a Metrópole portuguêsa realizou êsses contactos e, portanto essa região brasileira influenciou-se pelo lusitanismo metropolitano. Essa situação em que o Nordeste aparecia tão colorido de lusitanismo, contrastava de modo gritante com o isolado Planalto que albergava uma população tão divorciada do lusitanismo, quão sem menor contacto com a Metrópole de quem só recebia descaso e esquecimento. Eram sempre as inamolgáveis leis da história que se repetiram constantemente, durante muito tempo.

O Nordeste açucareiro, com a imensa euforia causada pelo açúcar, tinha, por fôrça, de se submeter a essa outra regra histórica, pela qual todo o foco da euforia econômica tem um poder atraidor de gente e de capital. Com isso e, em obediência a uma lei, essa região nordestina se encheu de portuguêses que naturalmente trouxeram o seu espírito metropolitano. Contrastando com essa situação, o Planalto, na sua miséria, não tendo foco nenhum atraidor de massas humanas e capitais alienígenas, se apresentava isolado, a falar o guarani, com a sua toponímia indígena e como expoente de um gritante nativismo.

Como comparação dessa situação que era mera conseqüência das causas apontadas acima, temos que foram os planaltinos os protagonistas dos dois grandes movimentos nativistas do país:

a) A aclamação de Amador Bueno, fracassada, porque a população masculina de então, não pôde ser consultada.
b) A guerra dos Emboabas, na qual os planaltinos, representando o elemento nativo, tiveram contra si, os nordestinos aliados dos reinóis, representando o espírito metropolitano.

Ao par dessas leis imutáveis e fatais, determinando inapelàvelmente os sucessos da evolução humana, a história tem normas cinicamente possibilitadoras, as quais podem ou não causar certos eventos da vida humana, dependendo de outros fatôres sistematizados em normas, ou simplesmente isolados ou casuais.

— Alfredo Ellis Júnior, "História e Ciência" (1952), p. 354-355.

http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/35088/37827

Imagem: Oscar Pereira da Silva, "Paisagem Rural".

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São Carlos Do Pinhal, SP

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