Claudia Chaves

Claudia Chaves

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Esta página é para compartilhar informações, dicas e tudo mais sobre os assuntos, eventos e discussões do grupo dos Sabidos.

O Claudia do Saber é um programa de curadoria de projetos pessoais, que funciona como orientação para vida profissional e pessoal. Damos atenção individualizada, sempre observando as particularidades de cada um para descobrimos como potencializar suas habilidades, seus talentos, sua carreira e seus negócios. Temos encontros semanais em grupo, em que discutimos comportamento, temas relevantes na at

30/05/2026

No Rio tem corrida de rua, corrida de kart e agora tem a gloriosa Surubartona: a única prova “saudável-etílica” onde o alongamento já começa com cerveja estupidamente gelada esperando na linha de chegada. 🍻🏃‍♂️

O Suru Bar, na Lapa, segue firme como um dos points mais gostosos e interessantes da cidade, com um cardápio completamente fora da curva, gente boa, clima debochado e aquela frequência que rende assunto pra semana inteira.

Neste domingo (31), a turma sai de Botafogo rumo ao Suru Bafo, misturando exercício, samba, hidratação “diferenciada” e muito bom humor carioca. 🎶✨

E ainda tem brinde cultural: quem aparecer pode aproveitar a exposição “Cria do Subúrbio: onde se faz caminho”, da artista Nathalia Valerio, um mergulho afetivo nas memórias, cores e personagens do subúrbio do Rio.

Porque no Surubar você sua, bebe, come, vê arte e ainda acha que tá cuidando da saúde. E talvez esteja mesmo. 😉🍺🎨

28/05/2026

Dessa vez, o passeio completo foi na Cinelândia. Começamos no Teatro SESI com “A Pediatra”, seguimos para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro para assistir ao delicioso balé “La Fille Mal Gardée” e terminamos no eterno Amarelinho. Muito mais do que o Domingão do Faustão, ali acontece o verdadeiro domingão do carioca, democrático, cultural, boêmio e absolutamente irresistível.
“A Pediatra” é dessas peças que provam como o grande teatro não precisa de enormes aparatos para conquistar o público. Com poucos elementos em cena e um texto afiado, o espetáculo mergulha nas contradições da mulher contemporânea. Débora Lamm tem uma atuação soberba ao viver uma médica pediatra que não gosta de crianças, insatisfeita com o casamento, envolvida com um amante que lhe desperta desejo, mas incapaz de preencher seus vazios emocionais. Tudo nela parece fora do lugar — e é justamente esse caos interno que move a peça.
Débora conduz a personagem por estados emocionais completamente distintos, tudo junto e misturado, sem nunca perder a densidade. A direção de Inez Viana transforma o romance em teatro pulsante: ação, conflitos, diálogos cortantes, humor, tensão e emoção convivem no mesmo espaço. A empregada, espécie de contraponto da protagonista, vê o mundo de maneira simples, quase espiritualizada, como se tudo fosse missão divina. Enquanto isso, a médica tenta racionalizar a vida pela ciência. Luiz Antônio surge como esse homem inseguro, juvenil, que acaba ressaltando ainda mais a potência cênica de Débora.
Assim, chegamos à conclusão de que teatro, na sua essência, não precisa de enormes aparatos. Precisa de ótimo teatro, como é “A Pediatra”.
Depois da intensidade da peça, atravessar a Cinelândia até o Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi como entrar em outro universo. O Municipal continua com uma programação imperdível. Temos ali alguns dos melhores corpos de baile, coro e orquestra do mundo, além de uma agenda que combina excelência artística com democratização da cultura. Há espetáculos gratuitos e apresentações a preços populares, permitindo que cada vez mais cariocas ocupem aquele espaço monumental. Vale consultar a programação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
E claro que o passeio precisava terminar no Amarelinho. Fui com João Miguel, profundo conhecedor dos gêneros eruditos, daqueles que sabem tudo de ópera, balé e música clássica, mas que não perdem um salgadinho perfeito nem um chope bem tirado. Aliás, o atendimento do Néris e da Jade foi digno de primeiros bailarinos. Fizemos os salgadinhos de fio a pavio: bolinho de feijoada, bolinho de carne seca com catupiry e farofa, bolinho de bacalhau, empadinhas de siri e de camarão com catupiry, pastel de picanha e pastel de queijo. Tudo acompanhado de chope Brahma impecável, caipirinha de caju Salinas, com o incrível canudo de bambu, batidas de bananinha, maracujá, gengibre com mel e até milho verde.
Para fechar a noite, ainda encaramos um clássico filé Oswaldo Ar**ha, com um feijãozinho delicioso, filé de verdade, malpassado, batatas crocantes. E, como adoramos guarnições à francesa, um diferencial de tão boa. Entre teatro, balé, chope e conversa, a Cinelândia prova que é um lugar onde o Rio é o melhor do Rio.



22/05/2026

Três atrizes entram em cena com a elegância de quem conhece o palco — e a vida. Os figurinos deslumbrantes de Karen Brusttolin dialogam perfeitamente com o belo cenário assinado pela premiada Natália Lana, criando, desde o início, uma atmosfera sofisticada, afetiva e acolhedora. Aos poucos, sem exageros ou fórmulas fáceis, “Uma Vida de Amizade” conquista justamente pela delicadeza com que aborda temas tão humanos e universais.
O texto de Gustavo Pinheiro mergulha nos laços profundos que unem três mulheres completamente diferentes entre si, mas inseparáveis pela memória e pela história compartilhada. No reencontro anual dessas amigas, surgem conversas tipicamente femininas — amor, sexualidade, maternidade, envelhecimento, menopausa, família e carreira — conduzidas de maneira natural, divertida e profundamente emocionante. O passado glamouroso em Paris, quando dividiram um apartamento como modelos, funciona como elo afetivo e também como contraste para as mulheres que se tornaram hoje.

Silvia Pfeifer, Adriana Garambone e Helena Fernandes entregam interpretações maduras, precisas e cheias de nuances. Silvia constrói uma Gilda aparentemente conciliadora e segura, mas que revela fragilidades tocantes em algumas das cenas mais confessionais da montagem. Adriana Garambone vive Yasmin com charme, humor e certa instabilidade emocional, além de brilhar nos solos musicais apresentados à capela, embalados pela sensível trilha de Rodrigo Penna. Já Helena Fernandes interpreta Renée com elegância rígida e olhar crítico constante, conduzindo com coerência as transformações emocionais da personagem.
A direção de Fernando Philbert demonstra absoluto domínio na condução de atrizes com personalidades cênicas tão fortes. Seu olhar experiente entende as diferenças entre as personagens e permite que cada uma encontre seu espaço dentro do jogo teatral. O equilíbrio entre drama e comédia acontece de forma orgânica, sem rupturas, fazendo o espetáculo transitar entre o riso e a emoção com rara fluidez. “Uma Vida de Amizade” é, acima de tudo, um hino à amizade feminina. Um espetáculo sobre o tempo, as marcas invisíveis da maturidade e as questões que atravessam mulheres de diferentes trajetórias. Entre risos, memórias e confissões, a peça lembra que certas amizades sobrevivem justamente porque acolhem mudanças, dores e imperfeições. Uma montagem elegante, sensível e profundamente humana.

Conversamos com Silvia Pfeifer, também produtora da peça:
1 – A peça tangencia sua experiência como modelo?

Eu interpreto uma ex-modelo, que hoje é dona de um buffet. Claro que existe uma proximidade, porque vivi isso na juventude, convivendo muito de perto com outras modelos. Mas essa é apenas uma pequena camada da peça. Ela fala muito mais sobre os questionamentos atuais do universo feminino e sobre mulheres maduras, que já têm uma história para contar. São reflexões sobre realização, frustrações, coisas resolvidas — ou não — entre amigas. É um grande papo entre amigas, costurado pelo afeto.

2 – A peça reúne três mulheres muito diferentes entre si. Foi fácil encontrar harmonia?

O Gustavo Pinheiro já trouxe personagens muito bem delineadas e teve a sensibilidade de incorporar algumas características pessoais nossas, o que ajudou bastante. Mas também tivemos que buscar muitas coisas novas. Não foi algo automático. O Fernando Philbert foi essencial nesse processo, com a sensibilidade dele para encontrar o tom certo do texto, a forma mais verdadeira de dizer aquelas falas. A peça fala muito sobre afeto e amizade, então precisava soar real.

3 – O sucesso em Portugal surpreendeu vocês?

Foi uma surpresa, sim. Sabíamos que os portugueses gostam muito dos atores e textos brasileiros, além da enorme comunidade brasileira que vive lá. Mas era a estreia da peça, então não tínhamos ideia de como o público reagiria. Tivemos sessões extras em duas cidades, teatros grandes lotados… foi realmente emocionante. Acho que a identif**ação acontece porque falamos sobre temas universais: maternidade, profissão, relações amorosas, amizade, etarismo, envelhecimento. O afeto é universal.

4 – O que é mais importante para a mulher hoje: independência, autoestima ou liberdade de escolha?

Tudo isso está interligado. A independência financeira faz parte da liberdade e fortalece a autoestima, claro. Mas isso não signif**a que uma mulher sem independência financeira ou emocional seja menor. Historicamente, as mulheres sempre precisaram correr atrás de respeito e reconhecimento. Quando você reconhece suas próprias conquistas, encontra uma tranquilidade interna muito importante. E isso vale também para quem faz escolhas diferentes. O essencial é respeitar o posicionamento do outro sem tantas cobranças. Autoestima é essa tranquilidade de saber quem você é.

5 – A maturidade muda muito a forma de enxergar a vida?

Sem dúvida. A maturidade traz outro olhar sobre o que realmente importa. Passamos a ter mais respeito por nós mesmas e pelos outros. Quando reconhecemos as escolhas que fizemos e a vida que construímos, ganhamos segurança. A expectativa dos outros deixa de pesar tanto. Continuamos tendo desejos, sonhos e vontades — e isso é ótimo, porque nos mantém felizes, produtivas e vivas. Acho que essa visão mais madura faz muita coisa f**ar melhor.

21/05/2026

No espetáculo Nelson Rodrigues – O Passado Tem Sempre Razão, em cartaz no CCBB Rio de Janeiro, o diretor Carlos Jardim escolhe um caminho inesperado para revisitar o universo rodrigueano. Em vez do dramaturgo escandaloso ou do cronista esportivo, surge Nelson por ele mesmo: o frasista fulminante, dono de observações definitivas sobre amor, futebol, morte, mulheres e a alma brasileira. A montagem constrói um mosaico original e inteligente, que evita o óbvio e aposta na força eterna das palavras do autor.
No centro de tudo está a interpretação monumental de Bruce Gomlevsky. Nelson Rodrigues sempre foi uma figura quase caricatural, marcada por imitações e trejeitos facilmente reconhecíveis. Bruce, porém, vai além da caricatura: transforma Nelson em personagem vivo, humano e profundamente comovente. Enquanto revive episódios dramáticos — o assassinato do irmão Roberto, a tuberculose, a prisão humilhante do filho Nelsinho durante a ditadura — lança ao público as frases imortais que ainda hoje parecem explicar o Brasil. E faz isso sem morbidez, com uma estranha e fascinante vitalidade.

Bruce Gomlevsky como Nelson Rodrigues Foto Dalton Valério
A direção de Carlos Jardim encontra eco perfeito no cenário de Nello Marrese, uma grande alegoria formada por fitas de antigas máquinas de escrever, instalação que envolve e impulsiona a movimentação de Bruce em cena. A trilha sonora completa o ambiente com precisão delicada, acompanhando as divagações e memórias do texto. Ver Bruce interpretando Nelson é mais do que assistir a um espetáculo: é celebrar a permanência dos grandes talentos brasileiros, daqueles artistas capazes de transformar memória, literatura e teatro em pura emoção.

Cais do Oriente
Totalmente mergulhadas no clima dos anos 50 e 60, eu e minha amiga Denise — embora nascida nos anos 60, italiana de alma e apaixonada pelas grandes tradições — resolvemos começar a noite antes da peça, para absorver com calma todo aquele desfile de talentos e memórias. Escolhemos o Cais do Oriente, um lugar impactante de tão bonito. A mistura do rústico com o arborizado cria uma atmosfera cinematográf**a, quase um cenário pronto para Nelson Rodrigues surgir em alguma mesa. Flores, iluminação, móveis e detalhes impecáveis transformam o espaço em uma experiência visual acolhedora e sofisticada

O atendimento faz tudo f**ar ainda mais especial. Paula, a gestora, orquestra o salão como uma fada elegante e eficiente, enquanto Carlos e Ronaldo, rápidos e extremamente atenciosos, nos fizeram sentir hóspedes privilegiadas de um tempo mais gentil.
Como a proposta da noite era revisitar sabores clássicos, começamos com um pastel de carne-seca, um bolinho de bacalhau corretíssimo e frutos do mar empanados — um verdadeiro must das festas de antigamente. O recheio vinha “saindo pelo ladrão”, como se dizia na época, tão generoso quanto saboroso.
Denise pediu uma tradicional batida de caju e eu fui de Paloma, mistura refrescante de toranja com espumante e sal na borda. No embalo saudável e feliz, dividimos um impecável filé ao poivre, levemente apimentado, com purê de mandioquinha — ou baroa, para os íntimos — e aspargos frescos. Tudo no ponto exato.
E como não queríamos abandonar aquele estado de espírito nostálgico, encerramos a experiência com uma releitura de Romeu e Julieta: pudim de queijo, carregado no queijo como manda a tradição, com calda de goiabada perfeita.
Saímos radiantes, alimentadas pela boa mesa, pela memória afetiva e pela sensação rara de que ainda existem lugares capazes de transformar jantar em acontecimento. E assim, felizes da vida, seguimos para ver Nelson Rodrigues no palco — já completamente entregues ao charme irresistível do passado.

Serviço:
CCBB – Teatro II
Quartas, quintas, sextas e sábados – 19:00
Domingos – 18:00

Cais do Oriente
Endereço: R. Visconde de Itaboraí, 8 – Centro,
De segunda a domingo até as 22:00 horas

18/05/2026

Prepara!
O teatro carioca resolveu lembrar que ainda sabe provocar fila, discussão e emoção. O Festival de Teatro do Rio volta em sua segunda edição, de 29 de julho a 16 de agosto, ocupando os teatros Riachuelo e Total Eenrgies com a promessa rara de juntar espetáculo, pensamento e plateia viva, algo cada vez mais revolucionária no Rio. Depois da estreia lotada no ano passado, o festival cresce sem pose de evento gourmetizado: vem com oficina, bate-papo, encontro e peça capaz de fazer o sujeito sair do teatro olhando diferente até pro motorista do aplicativo. Num tempo em que todo mundo fala ao mesmo tempo, o palco ainda consegue fazer silêncio. Que paz.

Menino dos olhos

E Rodrigo Portella aparece no Festival de Teatro do Rio como quem abre e fecha um livro em grande estilo. Na abertura, dirige o poderoso Grupo Galpão em “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, espetáculo que deixou carioca que não viu na maior deprê. Uma experiência intensa, quase física. No encerramento, muda completamente de tom e mergulha no universo seco, absurdo e genial de Samuel Beckett em “Fim de Partida”, trazendo Marco Nanini de volta ao Rio com Guilherme Weber em atuação ímpar, Helena Ignez e Ary França. Portella faz uma coisa rara: consegue ser popular sem simplif**ar a inteligência. E isso, no teatro e na vida, vale aplauso de pé. Não é mesmo?

Curtinha
Gosta de peça que termina rapidinho? Pois o microteatro finalmente ganha endereço fixo no Rio, na Acaso Cultural, em Botafogo. Peças de quinze minutos, salas pequenas, clima intimista e sessões contínuas. Cultura rápida, inteligente e sem perder a alma. À frente está Alexandra Plubins, que viveu o formato na Espanha e agora traz essa experiência aos cariocas. Em maio, a literatura brasileira ganha versões rápidas, criativas e cheias de alma, com a voz luxuosa de Claudio Mendes e pelo ótimo figurino de Wanderley Gomes. Vá sem pressa. Pós-sol
No Rio, existe um horário sagrado do pós-praia em que muita gente troca o bar pelo teatro. “Deu Match”, em cartaz às 17h30 no Teatro Cândido Mendes, entra perfeitamente nesse clima leve de fim de tarde carioca. Com humor e delicadeza, a peça fala sobre amor, maturidade, aplicativos de relacionamento e os recomeços possíveis depois dos 50. Deborah Kalume conduz encontros desastrosos e situações divertidamente reais, entre desejos, solidão e liberdade. No final, dá vontade de aplaudir como se faz diante do pôr do sol em Ipanema. Nada mais carioca.

Duplinha da boa
Tem dupla que funciona melhor que terapia: Lasanha e Ravioli estão de volta aos palcos cariocas com “Lasanha e Ravioli em Cinderela” e “Lasanha e Ravioli em Pinocchio”, sábados e domingos no Teatro Glaucio Gill. As palhaças misturam conto de fadas, bastidores teatrais e trapalhadas deliciosas numa montagem que diverte crianças e adultos sem precisar fazer esforço. Entre máscaras, bonecos e gargalhadas, Ana Barroso e Monica Biel lembram que rir junto ainda é uma das formas mais bonitas de afeto. Coisa boa. Espanhóis no Rio
Ver a Compañía Antonio Gades ao vivo é dessas experiências que fazem o sujeito entender que existem espetáculos — e existe arte em estado bruto. A lendária companhia espanhola retorna, em junho, ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro trazendo “Bodas de Sangre” e “Suite Flamenca”, obras que transformaram o flamenco numa explosão de drama, beleza e precisão. Cada movimento parece nascer da alma e terminar direto no peito da plateia. Arrebatador. Balada da louca
Em “Elogio da Loucura”, no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, Leona Cavalli confirma sua alta qualidade como atriz. Desde outras temporadas, é a melhor Blanche DuBois que já vi por nossas plagas. A direção de Eduardo Figueiredo transforma filosofia, ironia e delírio numa experiência elegante, intensa e assustadoramente atual. Vá ver.

Das páginas ao palco
Renato Carrera é desses diretores inventivos que fazem o caminho contrário do habitual: transforma conto em dramaturgia. Em cartaz no Oi Futuro Flamengo, “Diabólica Vingança”, com contos inéditos de Nelson Rodrigues, mergulha em paixões tortas, desejos sombrios e tragédias inevitáveis, território onde Nelson continua absolutamente contemporâneo. Ao lado de Andreza Bittencourt e Dani Ornellas, Carrera confirma um olhar cênico elegante e inquieto. O moço é danado.

17/05/2026

Quando Gustavo Gasparani escolhe chamar seu novo musical de “Espelho Mágico”, o título já funciona como síntese perfeita do que se vê em cena: um espetáculo que devolve ao público a imagem de um Brasil inteiro — contraditório, emocionante, popular, afetivo e profundamente reconhecível. Em cartaz no Teatro Riachuelo, a montagem é muito mais do que uma celebração da TV Globo. É um retrato sentimental da cultura brasileira através das imagens, músicas, personagens e histórias que atravessaram gerações.

Gasparani encontra uma solução dramatúrgica extremamente inteligente ao transformar Alfredo — alter ego do próprio autor, vivido com enorme segurança e carisma por Marcos Veras — no eixo condutor da narrativa. O personagem, encarregado de criar um musical sobre os 60 anos da Globo, entra em colapso diante da grandiosidade da missão. É então que surge Nossa Senhora das Oito, espécie de entidade-memória inspirada em Janete Clair, interpretada com delicadeza, humor e emoção por Eliane Giardini. Ao lado da criança que representa Alfredo, o espetáculo cria uma ponte afetiva imediata com a plateia: todos nós estamos ali representados, diante da televisão, revivendo pedaços da própria vida.

E é justamente nesse trânsito entre memória individual e memória coletiva que “Espelho Mágico” encontra sua maior força. O espetáculo tem uma cara absolutamente brasileira. A linguagem escolhida por Gasparani bebe diretamente no Teatro de Revista, no humor popular, na música, na televisão e no imaginário nacional para mostrar o Brasil, sua gente, sua arte, sua cultura, suas vitórias e até mesmo suas tristezas. É emoção atrás de emoção. Risos que surgem espontaneamente diante de personagens inesquecíveis, lágrimas discretas provocadas pela lembrança de um tema musical, de uma novela, de um momento histórico compartilhado diante da tela.

Os quadros se alternam com fluidez impressionante. Há uma carpintaria cênica sofisticada que mistura esquetes, grandes números musicais, vídeos e cenas emblemáticas da dramaturgia televisiva brasileira. O destaque f**a para a deliciosa releitura de A Grande Família, um dos momentos mais engraçados e afetuosos da montagem. Enquanto os números musicais embalam a narrativa, o telão projeta imagens que atravessam décadas de televisão e memória afetiva. Forma-se uma verdadeira galeria de sucessos. Aos poucos, a experiência de estar no teatro se mistura à sensação íntima de estar em casa, sentado diante da televisão em um lugar privilegiado da sala.

Visualmente, a montagem também impressiona. Os figurinos assinados por Marília Carneiro e Patricia Muniz são exuberantes e recriam personagens icônicos da televisão brasileira sem cair na caricatura fácil. Há um refinamento estético que respeita a memória desses personagens e, ao mesmo tempo, dialoga com a teatralidade do musical. O cenário, concebido pelo Studio Curva e Marieta Spada, merece aplausos especiais pela capacidade de se transformar constantemente: ora estamos dentro de programas históricos da televisão brasileira, ora mergulhamos na casa de Alfredo — nome que, aliás, presta homenagem a Dias Gomes, marido de Janete Clair. Tudo acontece com fluidez, criando espaços amplos que permitem ao numeroso elenco executar com vigor e precisão a ótima coreografia de Alonso Barros.

E que elenco. São 32 artistas em cena entregando energia, versatilidade e um impressionante domínio de múltiplas linguagens — canto, dança, humor e interpretação. O espetáculo ganha dimensão épica justamente porque consegue manter unidade estética mesmo diante de uma profusão de referências, personagens e épocas.
Espelho Mágico vai muito além de ser um musical. É um momento raro em que nos encontramos com o melhor de nós: a nossa brasilidade em estado de glória. É impossível falar da vida brasileira nos últimos 60 anos sem mencionar a TV Globo e todos os seus programas, personagens e transmissões que fizeram história e entraram nas casas e na memória afetiva da imensa maioria da população do país. Gustavo Gasparani compreende isso perfeitamente e transforma essa herança em um espetáculo vibrante, emocionante e profundamente popular — no melhor sentido da palavra.

Gustavo Gasparani é daqueles que podemos chamar de monstro do teatro. É ator, direito, autor, dança e canta, interpreta comédia e drama com igual talento. Aqui a nossa conversa.

1 – Como você equilibrou concepção, direção e dramaturgia?
Eu acho assim: quando me chamam para fazer uma peça, começo estudando muito o tema para entender de que forma vou contar aquela história. No caso de “Espelho Mágico”, a ideia veio da produtora, mas a maneira de desenvolver o tema parte de mim. Enquanto pesquiso e escrevo, o diretor também começa a viajar junto com o autor, embora quem conduza esse momento seja o autor. Depois, com números musicais criados, vou para a sala de ensaio e me permito mudar coisas do texto. Quando chegam coreógrafo, iluminador, figurinista e atores, novas ideias aparecem e eu gosto dessa troca. Aí adapto o que for preciso, porque o teatro é vivo e feito em parceria. O autor acaba sendo a força motriz, quem dá o ponto de partida para inspirar todo mundo.

2 – De onde vem essa brasilidade profunda no que você faz?
Eu me identifico profundamente com a pluralidade da nossa cultura e com essa brasilidade. A música brasileira é tão rica que, embora eu adore os musicais americanos, sinto um compromisso de criar uma identidade nacional para o teatro musical. Faço isso desde os primeiros roteiros de shows, no fim dos anos 1990. Se a gente não fizer o nosso teatro musical brasileiro, quem vai fazer? Um musical com a nossa dança, nossa música e nossa cultura. Fafá de Belém, por exemplo, reuniu carimbó, MPB e a história do país em um musical totalmente brasileiro e nortista. Já trabalhos como Sambrá, Ben Sertanejo e Zeca Pagodinho exploram outros Brasis, com estilos musicais muito diferentes. Mesmo quando fui para universos mais distantes, como Montgomery Clift ou Shakespeare, busquei questões universais sem perder o olhar brasileiro. Eu gosto dessa busca constante pela nossa identidade cultura.

3 – Você acumula dramaturgia, direção artística e concepção geral. Como você organiza esse processo criativo para que tudo dialogue e mantenha unidade em cena?
Eu vou passo a passo: começo pela pesquisa, depois escrevo e, já na escrita, muitas vezes imagino a cena para desenvolver na direção. Na peça da Fafá de Belém, por exemplo, números como o Boto e o Círio de Nazaré já estavam escritos daquele jeito, mas ganharam novas camadas no encontro com o elenco. Em “Espelho Mágico”, como o humor é essencial, precisei muito da contribuição e da verve cômica de cada ator. Acho que a peça deu certo justamente por esse encontro, porque eles também se tornaram donos da cena. Vou respeitando cada etapa, e isso me ajuda a dar conta de tantas funções.

4 – Em algum momento você percebeu que precisava dirigir também para não “perder” o espetáculo no caminho?
Com certeza, a primeira peça que quis dirigir foi Mimosas, porque eu sabia exatamente o estilo que queria e também porque dirigir ampliava meu mercado de trabalho. Eu já dirigia shows e resolvi experimentar um musical — e deu muito certo. Dividi a direção com Sergio Modena, mas a concepção já vinha do texto. Isso abriu caminhos para eu viver de teatro escrevendo, dirigindo e atuando. Os diretores das minhas peças, como João Fonseca e Daniel Herz, eram amigos que respeitavam minha visão, assim como eu respeitava as sugestões deles. Era sempre uma troca criativa muito rica.

5 – Apesar de ter uma assinatura autoral muito forte, você também consegue entrar no universo de uma ideia proposta por um produtor…
Olha, quando o tema não parte de mim, ele vem como provocação. “Bem Sertanejo”, “Sambrá”, “Fafá de Belém” e até o projeto da Globo foram temas sugeridos por produtoras, mas a forma de contar sempre parte de mim. Eu vou para casa e fico pensando como narrar aquela história, porque o que me interessa é a criação. Nunca gostei de apenas executar uma ideia já concebida por outra pessoa. Em Fafá de Belém, por exemplo, pensei em três planos: a infância em Belém, a carreira e a mulher atual, ligada às questões da Amazônia. Já em “Espelho Mágico”, sobre os 60 anos da Globo, quis usar o teatro de revista e criar um alter ego meu em cena para dar liberdade dramatúrgica. Eu aceito temas que tenham relação comigo e me instiguem criativamente. Depois de escrever, gosto de dirigir minhas próprias ideias, porque sinto que elas chegam mais inteiras ao palco.

Serviço:�Teatro Riachuelo Rio, Centro
Quintas e sextas, às 20h.
Sábados, às 16h e 20h.
Domingos, às 15h.

16/05/2026

Roteiro Completo une teatro e gastronomia em percursos para prolongar a experiência. A proposta é descobrir lugares próximos — muitas vezes acessíveis a pé — para continuar a conversa depois do espetáculo, entre taças, pratos e impressões ainda borbulhando. Porque alguns prazeres não devem terminar quando as cortinas se fecham.
Uh lálá ! Eu sou minha própria mulher e Amèlie Creperie e Bistrot
Dezoito anos depois de seu enorme sucesso, “Eu Sou Minha Própria Mulher”, de Doug Wright, dirigido por Herson Capri, continua arrebatador ao revelar a potência cênica de Edwin Luisi. O ator transforma o que poderia ser um simples monólogo em um mosaico vibrante de personagens, dando vida a mais de quinze figuras distintas com impressionante precisão vocal, corporal e emocional. Cada presença em cena constrói a trajetória de Charlotte von Mahlsdorf, personagem que atravessa a narrativa como símbolo de resistência, memória e delicadeza diante da brutalidade da história.
A montagem emociona ao abordar LGBTfobia, totalitarismo e sobrevivência sem recorrer ao didatismo. Charlotte, tr****ti que sobreviveu ao nazismo e ao pós-guerra, encontra na arte e nos objetos antigos uma forma de preservar humanidade em meio ao horror. A direção de Herson Capri aposta na sutileza dos detalhes, conduzindo Edwin Luisi a uma interpretação de rara entrega e sensibilidade. O colar de pérolas de Charlotte transforma-se em símbolo silencioso contra o preconceito, a violência e a morte. Mais do que contar uma história real, a peça prova como o teatro pode transformar memória em resistência e emoção em algo absolutamente universal.
Dizem os franceses que Deus inventou as crepes para salvar as noites de domingo da melancolia — e talvez exista mesmo algo de espiritual nessa simplicidade feita de farinha, leite, manteiga e afeto. Depois da intensidade de “Eu Sou Minha Própria Mulher” e da atuação arrebatadora de Edwin Luisi, seguir para o Amélie Crêperie et Bistrot parece quase um gesto natural. A casa tem aquele clima francês que mistura charme, aconchego e elegância sem esforço: luz baixa, boa conversa, vinhos impecáveis e a sensação deliciosa de que a noite ainda merece durar mais um pouco.
Há mais de uma década, o Amélie transforma crepes e galettes em experiência gastronômica sofisticada sem perder a alma afetiva da cozinha francesa. Os sarrasins — as tradicionais galettes de trigo sarraceno — chegam à mesa com bordas crocantes, centro macio e recheios que equilibram doce e salgado com rara inteligência. A clássica Île Saint-Louis, com brie, presunto de parma, figos confit, mel trufado e nozes, é dessas combinações que fazem silêncio na mesa por alguns segundos. O steak tartare impecável, os drinques delicados e as sobremesas francesas completam um menu que entende perfeitamente o prazer da permanência.
O Amélie não é apenas um restaurante pós-teatro. É continuação da experiência estética. Um lugar onde comida, memória e conversa se encontram com a mesma delicadeza vista no palco. Entre uma taça de vinho e uma crepe compartilhada, a noite ganha aquele raro acabamento francês: leveza, inteligência e um pequeno sentimento de felicidade difícil de explicar — mas muito fácil de sentir.

12/05/2026

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