07/03/2025
DORIAN GRAY ÀS AVESSAS !
Luiz Guilherme (Turma de 1972)
Escrito em 3 de Março de 2005
Ufa ! Terminei !No silêncio noturno do escritório da LOCUS, em Botafogo, essa exclamação me lembrava que já passava da hora de ir para casa. Caminhando pela rua São Clemente, já deserta à 01:00h da manhã de uma quarta-feira, passei em frente ao Colégio e parei para refletir um pouco sobre o que tinha acabado de fazer.Alguns meses haviam transcorrido céleres desde a decisão de encarar de frente o problema. Os orientais dizem que não há o que temer quando deixamos de nos preocupar com o futuro e nos concentramos no que tem que ser feito no presente, mas sempre fico com uma sensação estranha quando se trata de refazer algo que ficou no passado. Por que fazê-lo ?Parado ali, olhando as grandes janelas laterais do prédio do Colégio Santo Inácio, que é ainda mais belo visto de lado do que de frente, minha mente se deixou levar pelos sons intrincados de “Quadros de uma exposição”, de Mussorgsky, e a lembrança inquietante do retrato de Dorian Gray às avessas: envelhecemos enquanto nossos retratos no quadro f**am ainda mais “jovens”. Ao contrário do personagem de Oscar Wilde, que permanecia eternamente jovem enquanto a imagem do seu retrato envelhecia sem parar.Lá dentro do Colégio, em todos os corredores, há uma foto de cada um de nós, ex-alunos, ainda frangotes, insuspeitos do que viríamos a aprontar quando saíssemos para o mundo real, e cheios de alegria e esperanças. As fotos, assim como nós, também sofrem a passagem do tempo, mas nelas a nossa imagem permanece jovem. O CSI reescreve Wilde e, ao mesmo tempo, funciona como uma pirâmide transformando seus filhos em ícones prontos a serem “zoados” pelas gerações posteriores ! Assim fizemos com nossos antepassados e assim fazem nossos filhos e netos ao passarem pelos quadros de formaturas das turmas a exclamar: “aquele cabeludo ali é o meu pai !”A primeira imagem é a que f**a. Mas, e depois de 30 anos sem ver a grande maioria da turma ? Surge uma nova primeira imagem. Surgiu a idéia do crachá para a festa de comemoração dos trinta anos da turma. Nunca havia ido a uma festa levando também, estampada no peito, a minha cara de 30 anos atrás ! Mas sem dúvida isso facilitou muito o reconhecimento mútuo da turma, além de massagear o ego de todos nós fazendo-nos sentir mais jovens. A festa, no Clube Marimbás, estava ótima!E foi quando veio a decisão: porquê não fazê-lo ?Trinta anos atrás, também não tínhamos muito dinheiro e coube-me a responsabilidade de fotografar toda a turma de 1972, além de professores e homenageados, a preço de custo. Foi uma experiência interessante, capturar em filme cada um de nossa turma. A estética era a da época, misturando os enormes cabelos dos homens, todos dentro do mesmo “smoking” com a bermuda ou “jeans” boca-de-sino-com-galão, que não aparecem na foto, com os penteados anos 70 das meninas. Levei para o colégio o meu equipamento: fundo infinito, refletores,2/2“umbrella”, tripé, Nikon F e montei um pequeno estúdio improvisado na sala dos professores. À noite, revelava e ampliava no laboratório que mantinha em um quarto de empregada da casa dos meus pais. Completado o trabalho, entreguei os negativos para cada um dos colegas e professores. O quadro ficou pronto com o trabalho do Professor Zaluar, que fez a concepção artística.Como não há o que resista à passagem do tempo, da umidade e dos implacáveis cupins, o quadro sentiu esses 30 anos mais do que nós. Para ele não tem SPA, academia nem Botox. Urgia uma plástica reconstrutora !Foi o que decidimos fazer com os recursos que sobraram da festa de 30 anos e, para mim, tornou-se o objeto de preocupação das horas vagas nos últimos meses. Na impossibilidade de recuperar os negativos, precisei digitalizar todas as fotos.. Como toda boa obra de igreja, acabei seguindo a filosofia do “jaqueismo”: “Já que vou ter que retocar algumas, porque não retocar todas?” “Já que vou ter que retocar todas, porque não melhorar o fundo ?” “Já que vou melhorar o fundo, não custa melhorar os nomes.”O trabalho não era pouca coisa: 195 fotos, com três tarefas iguais para cada uma: trocar o fundo cinza por um branco, retocar as imagens em nível de detalhe (o contraste, a luz, um lábio borrado, uma sombrancelha perdida...) e ainda refazer os nomes. Pronto: horas vagas preenchidas ! Consultas ao Livro dos 100 anos em busca dos nomes completos e corretos. E assim foram se passando as horas, os dias e... os meses !!!O grande amigo Aloysio Junqueira (72) foi o companheiro nessa jornada, colaborando, questionando e incentivando para que chegássemos ao melhor resultado possível. A cada rodada do “bisturi digital”, enviava um CD para que ele pudesse apreciar o trabalho com olhos menos cansados do que os meus. Aloysio acabou descobrindo um talento oculto para o retoque e uma paciência oriental ao não se conformar com quatro fotos particularmente problemáticas, nas quais não consegui o resultado que queria e “joguei a toalha”: Fernando Aragão, Lavinia Aragão, Sylvia Porto e o meu primo Eduardo Mayer. Estas fotos precisaram ser quase totalmente reconstruídas, pois acabaram colando no vidro ou com a tinta da assinatura no verso borrando e f**ando visível pela frente.Muito ajudou também meu filho menor, Marcos Luiz Laux de Albuquerque Mendonça (6a série, turma 65), quedeu conta de um terço do trabalho, ou seja, algo como 65 fotos, e quase me levou à loucura fazendo tudo super-rápido. Cheguei a me arrepender de não ter “terceirizado” tudo com ele ! Uma passada no Studio Oficina da Rua Bambina me deixou horrorizado: os profissionais cobram R$ 300,00 por foto para fazer o mesmo serviço!!! O total, no nosso caso, daria a bagatela de R$ 58.500,00 !!!Privilégio nosso fazer a custo zero! Foi uma experiência única revisitar os rostos de cada um de nós e gastar um tempo com o olho no passado. Um passado saudoso, que agora ficou mais fácil de reconhecer. Assim como os amigos que não via há tanto tempo. E f**a aqui a sugestão, para todos os ex-alunos: mesmo que o quadro de formatura da sua turma ainda não esteja precisando de uma plástica, vale a pena guardar uns minutos de algum dia mais modorrento para revisitar os corredores do Colégio e reencontrar-se com a sua foto e as dos seus amigos e professores. Com certeza, boas lembranças virão e, quem sabe você não descobre mais alguma coisa que não sabia sobre o seu próprio passado ?
P.S.: As fotos retocadas estão nos álbuns "Alunos" e "Professores".