09/02/2016
Historiador Roberto Catarino
Possui graduação em ECONOMIA - FACUDADE DE CIENCIAS HUMANAS DE FRANCISCO BELTRÃO (1995),. Tem experiência na área de História, com ênfase em História, Grad
09/02/2016
03/02/2016
Os Santos Padres da Igreja
hamamos de «Padres da Igreja» (Patrística) aqueles grandes homens da Igreja, aproximadamente do século II ao século VII, que foram no Oriente e no Ocidente como que «Pais» da Igreja, no sentido de que foram eles que firmaram os conceitos da nossa fé, enfrentaram muitas heresias e, de certa forma foram responsáveis pelo que chamamos hoje de Tradição da Igreja; sem dúvida, são a sua fonte mais rica. Certa vez disse o Cardeal Henri de Lubac:
«Todas as vezes que, no Ocidente tem florescido alguma renovação, tanto na ordem do pensamento como na ordem da vida – ambas estão sempre ligadas uma à outra – tal renovação tem surgido sob o signo dos Padres.»
Gostaria de apresentar aqui ao menos uma relação, ainda que incompleta, desses gigantes da fé e da Igreja, que souberam fixar para sempre o que Jesus nos deixou através dos Apóstolos.
Em seguida, vamos estudar um pouco daquilo que eles disseram e escreveram, a fim de que possamos melhor conhecer a Tradição. [...]
S. Clemente de Roma (†102), Papa de Roma (88 - 97)
Santo Inácio de Antioquia (†110)
Aristides de Atenas (†130)
São Policarpo de Esmira (†156)
Pastor de Hermas (†160)
Aristides de Atenas (†160)
São Hipólito de Roma (160 - 235)
São Justino (†165)
Militão de Sardes (†177)
Atenágoras (†180)
São Teófilo de Antioquia (†181)
Orígenes de Alexandria (184 - 254)
Santo Ireneu (†202)
Tertuliano de Cartago (†220)
São Clemente de Alexandria (†215)
Metódio de Olimpo (sec.III)
São Cipriano de Cartago (210-258)
Novaciano (†257)
São Atanásio de Alexandria(295 -373)
São Efrém - (306 - 373), diácono, Mesopotânia
São Hilário de Poitiers - bispo (310 - 367)
São Cirilo de Jerusalém, bispo (315 - 386)
São Basílio Magno, bispo (330 - 369) - Cesaréia
São Gregório Nazianzeno - (330 - 379), bispo
São Ambrósio - (340 - 397), bispo, Treves - Itália
Eusébio de Cesaréia (340)
São Gregório de Nissa (340)
Prudêncio (384 - 405)
São Jerônimo ( 348 - 420), presbítero Strido, Itália
São João Cassiano (360 - 407)
São João Crisóstomo - (349 - 407), bispo
São Agostinho - (354 - 430), bispo
Santo Efrém (†373)
Santo Epifânio (†403)
São Cirilo de Alexandria - (370 - 442), bispo
São Pedro Crisólogo - (380 - 451), bispo, Itália
São Leão Magno (400 - 461), papa de Roma - Toscana, Itália
São Paulino de Nola (†431) - Sedúlio (sec V)
São Vicente de Lerins (†450)
São Pedro Crisólogo (†450)
São Bento de Núrcia (480 - 547)
São Venâncio Fortunato (530-600)
São Ildefonso de Toledo (617 - 667)
São Máximo Confessor (580-662)
São Gregório Magno (540 - 604), Papa de Roma
São Ildefonso de Sevilha (†636)
São Germano de Constantinopla - (610-733)
São João Damasceno (675 - 749), bispo, Damasco
Neste capítulo vamos apresentar um pouco daquilo que esses grandes Padres da Igreja escreveram; isto nos ajudará a compreender melhor o que é a Sagrada Tradição da Igreja. Veremos de onde vem a fonte de tudo aquilo que cremos e vivemos na Igreja [...]
São Clemente de Roma (†102), Papa (88-97), foi o terceiro sucessor de São Pedro, nos tempos dos imperadores romanos Domiciano e Trajano (92 a 102). No depoimento de Santo Ireneu “ele viu os Apóstolos e com eles conversou, tendo ouvido diretamente a sua pregação e ensinamento”. (Contra as heresias)
Santo Inácio de Antioquia (†110) foi o terceiro bispo da importante comunidade de Antioquia, fundada por São Pedro. Conheceu pessoalmente São Paulo e São João. Sob o imperador Trajano, foi preso e conduzido a Roma onde morreu nos dentes dos leões no Coliseu. A caminho de Roma escreveu Cartas às igreja de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna e ao bispo S. Policarpo de Esmirna. Na carta aos esmirnenses, aparece pela primeira vez a expressão “Igreja Católica”.
Aristides de Atenas († 130) foi um dos primeiros apologistas cristãos; escreveu a sua Apologia ao imperador romano Adriano, falando da vida dos cristãos.
São Policarpo (†156) foi bispo de Esmirna, e uma pessoa muito amada. Conforme escreve Santo Irineu, que foi seu discípulo, Policarpo foi discípulo de São João Evangelista. No ano 155 estava em Roma com o Papa Niceto tratando de vários assuntos da Igreja, inclusive a data da Páscoa. Combateu os hereges gnósticos. Foi condenado à fogueira; o relato do seu martírio, feito por testemunhas oculares, é documento mais antigo deste gênero (publicado neste livro).
Hermas (†160) era irmão do Papa São Pio I, sob cujo pontificado escreveu a sua obra Pastor. suas visões de estilo apocalíptico.
Didaquè (ou Doutrina dos Doze Apóstolos) é como um antigo catecismo, redigido entre os anos 90 e 100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia. Traz no título o nome dos doze Apóstolos. Os Padres da Igreja mencionaram-na muitas vezes. Em 1883 foi encontrado um seu manuscrito grego.
São Justino (†165), mártir nasceu em Naplusa, antiga Siquém, em Israel; achou nos Evangelhos “a única filo proveitosa”, filósofo, fundou uma escola em Roma. Dedicou a sua Apologias ao Imperador romano Antonino Pio, no ano 150, defendendo os cristãos; foi martirizado em Roma.
Santo Hipólito de Roma (160-235) discípulo de santo Irineu (140-202), foi célebre na Igreja de Roma, onde Orígenes o ouviu pregar. Morreu mártir. Escreveu contra os hereges, compôs textos litúrgicos, escreveu a Tradição Apostólica onde retrata os costumes da Igreja no século III: ordenações, catecumenato, batismo e confirmação, jejuns, ágapes, eucaristia, ofícios e horas de oração, sepultamento, etc.
Melitão de Sardes (†177) foi bispo de Sardes, na Lídia, um dos grandes luminares da Ásia Menor. Escreveu a Apologia, dirigida ao imperador Marco Aurélio.
Atenágoras (†180) era filósofo em Atenas, Grécia, autor da Súplica pelos Cristãos, apologia oferecida em tom respeitoso ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cômodo; escreveu também o tratado sobre A Ressurreição dos mortos, foi grande apologista.
São Teófilo de Antioquia (†após 181) nasceu na Mesopotâmia, converteu-se ao cristianismo já adulto, tornou-se bispo de Antioquia. Apologista, compôs três livros, a Autólico.
Santo Ireneu (†202) nasceu na Ásia Menor, foi discípulo de são Policarpo (discípulo de são João), foi bispo de Lião, na Gália (hoje França). Combateu eficazmente o gnosticismo em sua obra Adversus Haereses (Refutação da Falsa Gnose) e a Demonstração da Preparação Apostólica. Segundo são Gregório de Tours (†594), são Irineu morreu mártir. É considerado o “príncipe dos teólogos cristãos”. Salienta nos seus escritos a importância da Tradição oral da Igreja, o primado da Igreja de Roma (fundada por Pedro e Paulo).
Santo Hilário de Poitiers (316-367), doutor da Igreja, foi bispo de Poitiers, combateu o arianismo, foi exilado pelo imperador Constâncio, escreveu a obra Sobre a Santíssima Trindade.
São Clemente de Alexandria (†215) Seu nome é Tito Flávio Clemente, nasceu em Atenas por volta de 150. Viajou pela Itália, Síria, Palestina e fixou-se em Alexandria. Durante a perseguição de Setímio Severo (203), deixou o Egito, indo para a Ásia Menor, onde morreu em 215. Seu grande trabalho foi tentar a aliança do pensamento grego com a fé cristã. Dizia: “Como a lei formou os hebreus, a filo formou os gregos para Cristo”.
Orígenes (184-254) Nasceu em Alexandria, Egito; seu pai Leônidas morreu martirizado em 202. Também desejava o martírio; escreveu ao pai na prisão: “não vás mudar de idéia por causa de nós”. Em 203 foi colocado à frente da escola catequética de Alexandria pelo bispo Demétrio. Em 212 esteve em Roma, Grécia e Palestina. A mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Mammae, chamou-o a Antioquia para ouvir suas lições. Morreu em Cesaréia durante a perseguição do imperador Décio.
Tertuliano de Cartago (†220), norte da África, culto, era advogado em Roma quando em 195 se converteu ao Cristianismo, passando a servir a Igreja de Cartago como catequista. Combateu as heresias do gnosticismo, mas se desentendeu com a Igreja Católica. É autor das frases: “Vede como se amam” e “ O sangue dos mártires era semente de novos cristãos”.
São Cipriano (†258) Cecílio Cipriano nasceu em Cartago, foi bispo e primaz da África Latina. Era casado. Foi perseguido no tempo do imperador Décio, em 250, morreu mártir em 258. Escreveu a bela obra Sobre a unidade da Igreja Católica. Na obra De Lapsis, sobre os que apostataram na perseguição, narra ao vivo o drama sofrido pelos cristãos, a força de uns, o fracasso de outros. Escreveu ainda a obra Sobre a Oração do Senhor, sobre o Pai Nosso.
Eusébio de Cesaréia (260-339) bispo, foi o primeiro historiador da Igreja. Nasceu na Palestina, em Cesaréia, discípulo aí de Orígenes. Escreveu a sua Crônica e a História Eclesiástica, além de A Preparação e a Demonstração Evangélicas. Foi perseguido por Dioclesiano, imperador romano.
Santo Atanásio (295-373), doutor da Igreja, nasceu em Alexandria, jovem ainda foi viver o monaquismo nos desertos do Egito,onde conheceu o grande Santo Antão(†376), o “pai dos monges”. Tornou-se diácono da Igreja de Alexandria, e junto com o seu Bispo Alexandre, se destacou no Concílio de Nicéia (325) no combate ao arianismo. Tornou-se bispo de Alexandria em 357 e continuou a sua luta árdua contra o arianismo (Ário negava a divindade de Jesus), o que lhe valeu sete anos de exílio. São Gregório Nazianzeno disse dele: “O que foi a cabeleira para Sansão, foi Atanásio para a Igreja.”
Santo Hilário de Poitiers (316-367), doutor da Igreja, nasceu em Poitiers, na Gália (França); em 350 clero e povo o elegiam bispo, apesar de ser casado. Organizou a luta dos bispos gauleses contra o arianismo. Foi exilado pelo imperador Constâncio, na Ásia Menor, voltando para a Gália em 360, fazendo valer as decisões do Concílio de Nicéia. É chamado o “Atanásio do Ocidente”.Escreveu as obras Sobre a Fé, Sobre a Santíssima Trindade.
Santo Efrém, o Sírio (†373) doutor da Igreja é considerado o maior poeta sírio, chamado de “a cítara do Espírito Santo”. Nasceu em Nísibe, de pais cristãos, por volta de 306, deve ter participado do Concílio de Nicéia (325), segundo a tradição, com o seu bispo Tiago. Foi ordenado diácono em 338 e assim ficou até o fim da vida. Escreveu tratados contra os gnósticos, os arianos e contra o imperador Juliano, o apóstata. Escreveu belos hinos e louvores a Maria.
São Cirilo de Jerusalém (†386), doutor da Igreja, Bispo de Jerusalém, guardião da fé professada pela Igreja no Concílio de Nicéia (325). Autor das Catequeses Mistagógicas, esteve no segundo Concílio Ecumênico, em Constantinopla, em 381.
São Dâmaso (304-384), Papa da Igreja, instruído, de origem espanhola, sucedeu o Papa Libério que o ordenou diácono; obteve do Imperador Graciano o reconhecimento jurisdicional do bispo de Roma. Mandou que S. Jerônimo fizesse uma revisão da versão latina da Bíblia, a Vulgata. Descobriu e ornamentou os túmulos dos mártires nas catacumbas, para a visita dos peregrinos.
São Basílio Magno (329-379), Bispo e doutor da Igreja, nasceu na Capadócia; seus irmãos Gregório de Nissa e Pedro, são santos. Foi íntimo amigo de S. Gregório Nazianzeno; fez-se monge. Em 370 tornou-se bispo de Cesaréia na Palestina, e metropolita da província da Capadócia. Combateu o arianismo e o apolinarismo (Apolinário negava que Jesus tinha uma alma humana). Destacou-se no estudo a Santíssima Trindade (Três Pessoas e uma Essência).
São Gregório Nazianzeno (329-390), doutor da Igreja – nasceu em Nazianzo, na Capadócia, era filho do bispo local, que o ordenou padre; foi um dos maiores oradores cristãos. Foi grande amigo de São Basílio, que o sagrou bispo. Lutou contra o arianismo. Sua doutrina sobre a Santíssima Trindade o fez ser chamado de “teólogo”, que o Concílio de Calcedônia confirmou em 481.
São Gregório de Nissa (†394) foi bispo de Nissa, e depois de Sebaste, irmão de São Basílio e amigo de São Gregório Nazianzeno. Os três santos brilharam na Capadócia. Foi poeta e místico; teve grande influência no primeiro Concílio de Constantinopla (381) que definiu o dogma da SS. Trindade. Combateu o apolinarismo, macedonismo (Macedônio negava a divindade do Espírito Santo) e arianismo.
São João Crisóstomo (354-407) ( = boca de ouro), doutor da Igreja, é o mais conhecido dos Padres da Igreja grega. Nasceu em Antioquia. Tornou-se patriarca de Constantinopla, foi grande pregador. Foi exilado na Armênia por causa da defesa da fé sã. Foi proclamado pelo papa S. Pio X, padroeiro dos pregadores.
São Cirilo de Alexandria (†444) Bispo e doutor da Igreja, sobrinho do patriarca de Alexandria, Teófilo, o substituiu na Sé episcopal em 412. Combateu vivamente o Nestorianismo (Nestório negava que em Jesus havia uma só Pessoa e duas naturezas), com o apoio do papa Celestino. Participou do Concílio de Éfeso (431), que condenou as teses de Nestório. É considerado um dos maiores Padres da língua grega, e chamado o “Doutor mariano”.
São João Cassiano (360-465) recebeu formação religiosa em Belém e viveu no Egito. Foi ordenado diácono por S. João Crisóstomo, em Constantinopla, e padre pelo papa Inocêncio, em Roma. Em 415 fundou dois mosteiros em Marselha, um para cada s**o. São Bento recomendou seus escritos.
São Paulino de Nola (†431) nasceu na Gália (França), exerceu importantes cargos civis até ser batizado. Vendeu seus bens, distribuindo o dinheiro aos pobres, e com sua esposa Terásia passou a viver vida eremítica. Foi ordenado padre em 394, em 409 bispo de Nola.
São Pedro Crisólogo (†450) (= palavra de ouro) bispo e doutor da Igreja – foi bispo de Ravena, Itália. Quando Êutiques, patriarca de Constantinopla pediu o seu apoio para a sua heresia (monofisismo - uma só natureza em Cristo), respondeu: “Não podemos discutir coisas da fé, sem o consentimento do Bispo de Roma”. Temos 170 de suas cartas e escritos sobre o Símbolo e o Pai – Nosso.
Santo Ambrósio (†397), doutor da Igreja, nasceu em Tréveris, de nobre família romana. Com 31 anos governava em Milão as províncias de Emília e Ligúria. Ainda catecúmeno, foi eleito bispo de Milão, pelo povo, tendo, então recebido o batismo, a ordem e o episcopado. Foi conselheiro de vários imperadores e batizou santo Agostinho, cujas pregações ouvia. Deixou obras admiráveis sobre a fé católica.
São Jerônimo (347-420), “Doutor Bíblico” – nasceu na Dalmácia e educou-se em Roma; é o mais erudito dos Padres da Igreja latina; sabia o grego, latim e hebraico. Viveu alguns anos na Palestina como eremita. Em 379 foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino de Antioquia; foi ouvinte de São Gregório Nazianzeno e amigo de São Gregório de Nissa. De 382 a 385 foi secretário do Papa S. Dâmaso, por cuja ordem fez a revisão da versão latina da Bíblia (Vulgata), em Belém, por 34 anos. Pregava o ideal de santidade entre as mulheres da nobreza romana (Marcela, Paula e Eustochium) e combatia os maus costumes do clero. Na figura de São Jerônimo destacam-se a austeridade, o temperamento forte, o amor a Igreja [...].
Santo Epifânio (†403), Nasceu na Palestina, muito culto, foi superior de uma comunidade monástica em Eleuterópolis (Judéia) e depois, bispo de Salamina, na ilha de Chipre. Batalhou muito contra as heresias, especialmente o origenismo.
Santo Agostinho (354-430), Bispo e Doutor da Igreja - Nasceu em Tagaste, Tunísia, filho de Patrício e S. Mônica. Grande teólogo, filósofo, moralista e apologista. Aprendeu a retórica em Cartago, onde ensinou gramática até os 29 anos de idade, partindo para Roma e Milão onde foi professor de Retórica na corte do Imperador. Alí se converteu ao cristianismo pelas orações e lágrimas, de sua mãe Mônica e pelas pregações de S. Ambrósio, bispo de Milão. Foi batizado por esse bispo em 387. Voltou para a África em veste de penitência onde foi ordenado sacerdote e depois bispo de Hipona aos 42 anos de idade. Foi um dos homens mais importantes para a Igreja. Combateu com grande capacidade as heresias do seu tempo, principalmente o Maniqueísmo, o Donatismo e o Pelagianismo, que desprezava a graça de Deus. Santo Agostinho escreveu muitas obras e exerceu decisiva influência sobre o desenvolvimento cultural do mundo ocidental. É chamado de “Doutor da Graça”. São Leão Magno (400-461) - Papa e Doutor da Igreja - nasceu em Toscana, foi educado em Roma. Foi conselheiro sucessivamente dos papas Celestino I (422-432) e Xisto III (432-440) e foi muito respeitado como teólogo e diplomata. Participou de grandes problemas da Igreja do seu tempo e pôde travar contato pessoal e por cartas com Santo Agostinho, São Cirilo de Alexandria e São João Cassiano, que o descrevia como “ornamento da Igreja e do divino ministério”. Deixou 96 Sermões e 173 Cartas que chegaram até nós. Participou ativamente na elaboração dogmática sobre o grave problema tratado no Concílio de Calcedônia, a condenação da heresia chamada monofisismo. Leão foi o primeiro Papa que recebeu o título de Magno (grande). Em sua atuação no plano político, a História registrou e imortalizou duas intervenções de São Leão, respectivamente junto a Átila, rei dos Hunos, em 452, e junto a Genserico, em 455, bárbaros que queriam destruir Roma.
São Vicente de Lérins (†450) Depois de muitos anos de vida mundana se refugiou no mosteiro de Lérins. Escreveu o seu Commonitorium, “ para descobrir as fraudes e evitar as armadilhas dos hereges”.
São Bento de Núrcia (480-547) nasceu em Núrcia, na Úmbria, Itália; estudou Direito em Roma, quando se consagrou a Deus. Tornou-se superior de várias comunidades monásticas; tendo fundado no monte Cassino a célebre Abadia local. A sua Regra dos Mosteiros tornou-se a principal regra de vida dos mosteiros do ocidente, elogiada pelo papa S. Gregório Magno, usada até hoje. O lema dos seus mosteiros era “ora et labora”. O Papa Pio XII o chamou de Pai da Europa e Paulo VI proclamou-o Patrono da Europa, em 24/10/1964.
São Venâncio Fortunato (530-600) nasceu em Vêneto na Itália, foi para Poitiers (França). Autor de célebres hinos dedicados à Paixão de Cristo e à Virgem Maria, até hoje usados na Igreja.
São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja - Nasceu em Roma, de família nobre. Ainda muito jovem foi primeiro ministro do governo de Roma. Grande admirador de S. Bento, resolveu transformar suas muitas posses em mosteiros. O papa Pelágio o enviou como núncio apostólico em Constantinopla até o ano 585. Foi feito papa em 590. Foi um dos maiores papas que a Igreja já teve. Bossuet considerava-o “modelo perfeito de como se governa a Igreja”. Promoveu na liturgia o canto “gregoriano”. Profunda influência exerceram os seus escritos: Vida de São Bento e Regra Pastoral, usado ainda hoje.
São Máximo, o confessor (580 - 662) nasceu em Constantinopla, foi secretário do imperador Heráclio, depois foi para o mosteiro de Crisópolis. Lutou contra o monofisismo e monotelismo, sendo preso, exilado e martirizado por isso. Obteve a condenação do monotelismo no Concílio de Latrão, em 649.
Santo Ildefonso de Sevilha (†636) doutor da Igreja. Considerado o último Padre do ocidente. Bispo de Sevilha, Espanha desde 601. Em 636 dirigiu o IV Sínodo de Toledo. Exerceu notável influência na Idade Média com os seus escritos exegéticos, dogmáticos, ascéticos e litúrgicos.
São Germano de Constantinopla - (610-733) Bispo - Patriarca de Constantinopla (715-30), nasceu em Constantinopla ao final do reinado do imperador Heracleo (610-41); morreu em 733 ou 740. Filho de Justiniano, um patriciano, Germano dedicou seus serviços à Igreja e começou como clérigo na catedral de Metrópolis. Logo depois da morte de seu pai que havia ocupado vários altos cargos de oficial, pelas mãos do sobrinho de Herácleo, Germano se consagrou bispo de Chipre, o ano exato, porém, de sua elevação é desconhecido.
São João Damasceno (675-749) Bispo e Doutor da Igreja - É considerado o último dos representantes dos Padres gregos. É grande a sua obra literária: poesia, liturgia, filo e apologética. Filho de um alto funcionário do califa de Damasco, foi companheiro do príncipe Yazid que, mais tarde o promoveu ao mesmo encargo do pai, ministro das finanças. A um determinado tempo deixou a corte do califa e retirou-se para o mosteiro de São Sabas, perto de Jerusalém. Tornou-se o pregador titular da basílica do Santo Sepulcro. Enfrentou com muita coragem a heresia dos iconoclastas que condenavam o culto das imagens. Ficaram famosos os seus Três Discursos a Favor das Imagens Sagradas.
A Primeira Cruzada e os novos estados da Terra Santa (1096 - 1099 - 1143)
1095, começos: Aleixo I Comneno, imperador bizantino, envia uma embaixada ao papa Urbano II, para lhe pedir ajuda.
1095, Primavera O papa Urbano II inicia a sua viagem a França.
1095, 18 de Novembro: Abertura do Concílio de Clermont.
1095, 26 de Novembro: Urbano II lança o seu apelo à Cruzada.
1096, Abril: Partida da Cruzada popular dirigida por Pedro, o Eremita, e Gautier Sans Avoir. Massacres de judeus na Renânia.
1096, 6 de Julho: Concílio de Nimes: Urbano II confia a Raimundo de Saint-Gilles o comando de uma das expedições à Terra Santa.
1096, 1 de Agosto A Cruzada popular chega a Constantinopla.
1096, Verão: Partida da Cruzada dos barões (Godofredo de Bulhão; Raimundo IV conde de Toulouse; Boemundo de Tarento; Estêvão conde de Blois; Tancredo de Hauteville e Roberto II conde da Flandres). O imperador alemão, Henrique IV, e o rei de França, Filipe I, estando excomungados, não puderam dirigir a Cruzada.
1096, 21 de Outubro: As tropas turcas e búlgaras do sultão de Niceia, Kilij Arslan, aniquilam a Cruzada popular na Anatólia. Pedro, o Eremita escapa ao massacre e foge para Constantinopla.
1096, 23 de Dezembro: Chegada de Godofredo de Bulhão a Constantinopla. O imperador de Bizâncio exige, e obtém, após muitas recusas, a promessa de restituição das terras e das cidades retomadas aos muçulmanos, e a aceitação da sua suserania sobre as novas conquistas.
1097, fim de Abril: O exército dos barões abandona Constantinopla, passando para a Ásia Menor.
1097, Maio: Tiro cai nas mãos dos Fatimidas do Egipto.
1097, Junho: Tomada de Niceia pelos cruzados, restituída a Bizâncio.
1097, 1 de Julho: Vitória franca contra o sultão turco de Iconium (Konya), em Dorileia.
1097, 13 de Setembro: Os cruzados dividem o exército em dois forças em Heracleia.
1097, 20 de Outubro: Chegada dos cruzados a Antioquia, e começo do cerco.
1097, 15 de Novembro: Balduíno de Bolonha abandona o campo dos cruzados e toma a direcção de Edessa, devido ao pedido de apoio do príncipe arménio da cidade.
1098, Fevereiro: Os Bizantinos abandonam o cerco de Antioquia. Balduíno chega a Edessa.
1098, Março: Balduíno de Bolonha proclama-se príncipe de Edessa, após a morte de Thoros, príncipe arménio, que lhe tinha pedido ajuda e o tinha adoptado. Funda assim o primeiro Estado Latino do Oriente.
1098, 3 de Junho: Tomada de Antioquia pelos Cruzados. Boemundo I de Tarento, chefe dos normandos da Itália meridional, recusa devolvê-la aos bizantinos e proclama-se príncipe de Antioquia.
1098, 4 de Junho: Os cruzados são cercados em Antioquia por um exército de socorro, comandado por Kerbogha, enviado pelo Sultanato seljúcida da Pérsia.
1098, 14 de Junho: Pedro Bartolomeu descobre a Santa Lança debaixo das lajes de uma igreja de Antioquia.
1098, 28 de Junho: Os cruzados de Antioquia derrotam as forças sitiantes muçulmanas.
1098, 26 de Agosto: Os Fatimidas ocupam Jerusalém.
1098,12 de Dezembro: Os cruzados apoderam-se de Maarat An Noman, na Siria. A população é massacrada e a cidade destruída.
1099, 13 de Janeiro: Os Francos retomam a sua marcha para Jerusalém.
1099, 2 de Fevereiro: O exército passa por Qal'at-al-Hosn, o futuro Krak dos Cavaleiros.
1099, 7 de Junho: O exército franco chega a Jerusalém.
1099, 13 de Junho: Primeiro assalto à cidade, sem qualquer preparação prévia, que falha.
1099, 10 de Julho: Assalto a Jerusalém. A muralha circundante é atravessada.
1099, 15 de Julho: Conquista de Jerusalém pelos cruzados. Massacre da população muçulmana e judia.
1099, 12 de Agosto: Os Francos derrotam os Egípcios em Ascalon, na costa mediterrânica, a norte de Gaza.
1099, 22 de Julho: Eleito rei de Jerusalém pelos barões, Godofredo de Bulhão só aceita o título de defensor do Santo Sepulcro.
1099, 1 de Agosto: Arnoul Malecorne, patriarca de Jerusalém. É substituído em 31 de Dezembro por Daimbert, bispo de Pisa, legado do papa.
1100: Acordo comercial entre Veneza e o Reino Franco de Jerusalém.
1100, 18 de Julho: Morte de Godofredo de Bulhão. Balduíno de Bolonha, irmão de Godofredo, príncipe de Edessa, é coroado primeiro rei de Jerusalém em Belém, no dia 25 de Dezembro.
1100-1101: Cruzadas de socorro. Cruzada lombarda (1) dirigida pelo arcebispo de Milão, Anselmo du Buis, Raimundo de Saint-Gilles, Estêvão-Henrique, conde de Blois, Estêvão, conde da Borgonha e o primeiro oficial do Santo Sepulcro, Conrado. Cruzadas de Nevers (2) e da Aquitânia (3). Nenhuma delas consegue atravessar a Ásia Menor, sendo sucessivamente vencidas por uma coligação dos diferentes potentados turcos da Anatólia.
1101, Março: Tancredo de Hauteville, um dos chefes da primeira Cruzada, abandona Jerusalém regressando ao Ocidente por Antioquia.
1101, 17 de Maio: Os Francos tomam Cesareia.
1102: Raimundo de Saint-Gilles toma Tortosa.
Vitória de Balduíno em Ramla.
1103: Início do cerco de Trípoli pelos Francos.
1104, 7 de Maio: Derrota dos Francos em Harran: Balduíno du Bourg é feito prisioneiro. Paragem do avanço da Cruzada na Mesopotâmia, que se dirigia para Mossoul, no rio Tigre.
1104, 26 de Maio: Os cruzados tomam Acre com a ajuda de uma esquadra genovesa.
1105, 28 de Fevereiro: Raimundo de Saint-Gilles morre em Mont-Pèlerin, durante o cerco de Trípoli. É sucedido por Bertrand de Saint-Gilles.
1105-1113: Os «Assassinos» redobram de actividade.
1108: Conflito entre Tancredo e Balduíno du Bourg a propósito da restituição de Antioquia a este último.
1109, Julho: Trípoli cai na mão dos Francos. O conde Bertrand conquista finalmente a cidade de que é titular.
1110: Conquista do Castelo Branco (Safita) e do Krak dos Cavaleiros.
1111: Mawdud, emir ortoqida de Mossul, ataca os Francos, e massacra a população de Edessa quando esta se dirigia para a margem ocidental do rio Eufrates.
1113: Bula do papa Pascoal II reconhecendo oficialmente a ordem do Hospital de São João de Jerusalém.
1115: Conquista pelos francos do castelo de Shawbak (Montréal), a sul do Mar Morto.
1118: Morte do imperador Aleixo Comneno; a sua filha Ana começa a redacção da Alexíada.
1118, Abril: Morte de Balduíno I; sucede-lhe Balduíno du Bourg.
1119: Batalha de «Ager sanguinis» (do campo de sangue). O emir el Ghazi, de Diyarbakir aniquila o exército franco de Antioquia, pertp de Atareb.
1119-1120: Nove cavaleiros ocidentais fundam, em Jerusalém, a Milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo (Futura Ordem do Templo).
1123, 29 de Maio: Os Egípcios são derrotados em Ibelin pelo primeiro oficial do rei, Eustáquio Garnier, regente do reino durante o cativeiro de Balduíno II.
1124, 7 de Julho: Tomada de Tiro pelos cruzados.
1129, Janeiro: Concílio de Troyes: a Ordem do Templo é oficialmente reconhecida pelo papa Honório III.
1129, 18 de Junho: Zinki instala-se em Alepo; faz apelo à Jihad contra os Francos.
1131, 14 de Setembro: Morte de Balduíno II; Foulques V, de Anjou, rei de Jerusalém.
1135: O Hospital de São João de Jerusalém transforma-se em ordem militar.
1142: O Krak dos Cavaleiros é cedido aos Hospitalários de São João.
1143, 25 de Dezembro: Zinki, atabaque de Alepo e de Mossul, toma Edessa.
10/01/2016
A Quarta Cruzada:
a cruzada bandida de 1204
O papa João Paulo II, seguindo sua política de reaproximação com as demais religiões organizadas da Terra, em cerimônia realizada no Vaticano no final de novembro de 2004, devolveu as santas relíquias de mártires da Igreja Cristã Ortodoxa ao patriarca ecumênico. Relíquias estas que haviam sido roubadas do interior da Igreja de Santa há 800 anos passados, por ocasião do saque a que soldados cristãos, embarcados em Veneza, haviam submetido à cidade de Constantinopla. Episódio vergonhoso da cristandade que somente acelerou ainda mais a separação das duas igrejas, a católica e a ortodoxa, situação que se prolonga por oito séculos.
Nos primeiros anos do século 13, Constantinopla, a capital do Império Bizantino, orgulhava-se de ser vista como a cidade mais rica do mundo. Dizia-se que 2/3 da riqueza universal passava pelo seu amplo porto e pelas mãos dos seus comerciantes, ativos em meio a uma fervilhante população de um milhão de habitantes. Era um exagero. Mas não era o fato dela ser, para inveja de Roma, a cidade cristã que mais acumulara relíquias sagradas. Desde que o imperador Constantino, convertido à fé de Cristo, fizera dela, no ano de 330, a sede da nova religião, seus funcionários espalhados por boa parte da Ásia Menor não cessaram mais de remeter-lhe todo e qualquer tipo de lembrança que pudesse estar relacionada a Cristo e aos Apóstolos.
Assim, em poucos anos, Constantinopla tornou-se um imenso bazar do sobrenatural. Até a Verdadeira Cruz, encontrada por Helena, a mãe de Constantino, e sagrada por Macário, o patriarca de Jerusalém, estava exposta na Catedral de Santa (Hagia ). A isso somavam-se os santos ossários, relicário composto pelos restos de mártires do cristianismo. Entre eles, o de São João Crisóstomo, morto em 407, orador assombroso, justamente apelidado de "o boca-de-ouro", inimigo da imperatriz Eudoxia.
Por isto, a cidade hospedava um sem-fim de peregrinos vindos de todos os cantos do Ecúmeno cristão, e que, ultrapassando a Porta Dourada, despejavam rios de dinheiro no comércio local.
Graças a uma astuta política que combinava diplomacia com grossos subornos, Constantinopla escapou do destino de Roma, ocupada a partir do século 5 por uma maré de bárbaros. O que não podia esperar é acabar sendo invadida por cavaleiros cristãos vindos da Europa, gente da sua mesma fé.
A trama contra Constantinopla
De fato, uma impressionante coligação de forças terminou por desabar sobre a infeliz capital da cristandade oriental no ano de 1204. O Papa Inocêncio III conclamara a nobreza européia a retomar Jerusalém (nas mãos de Saladino, desde 1187), o imperador do Sacro Império queria a submissão da cidade para fazer dela um Império latino, os barões franceses viram-na como um fabuloso butim antes de seguir na cruzada e, por último. O doge de Veneza, Enrique Dándolo, um enérgico octogenário, desejava eliminá-la como rival comercial e açambarcar-lhe o grande mercado asiático controlado por ela.
E tudo começara quando os cavaleiros cruzados - liderados por Balduíno, Conde de Flandres, e por Bonifácio, Marquês de Montferrant -, pegos sem dinheiro com suas tropas acampadas na ilha do Lido, em Veneza, tiveram que aceitar o desvio da nobre missão sugerido pelo doge Dándolo. Ao invés de resgatarem Jerusalém por uma incursão pelo Egito, como era o plano original, aceitaram incursionar contra Constantinopla para pagar as dívidas à Veneza (mais de 30 mil marcos de prata). Como primeira missão, foram constrangidos a retomar para Veneza o porto de Zara, no litoral Adriático (hoje na Croácia e que havia sido ocupada pelo rei da Hungria, um cristão).
O pretexto a que se prenderam, tanto os nobres franceses como seus sócios venezianos, que formavam o grosso da expedição de mais de 150 navios e galeras - a justificativa que encontraram para que cristãos atacassem uma metrópole cristã -, em total desvirtuamento com o espírito da cruzada (que era combater o Islã para controlar os Santos Lugares), era reparar a injustiça feita com o príncipe Alexis Angelos, que tivera seu pai, o basileu Isaac II, deposto e preso por um irmão, que entronara-se no Palácio Bucoleon como Alexis III (o príncipe bizantino Alexis Angelos prometera mundos e fundos aos cruzados, quando estes por fim o colocaram no poder, por ocasião da primeira conquista da cidade, em 17 de julho de 1203, ele deu-se conta que não podia pagá-los, visto que o tesouro real estava vazio ).
O cronista desta infeliz cruzada de bandidos, Geoffrey de Villehardouin, Marechal da Champanha, (autor de Memórias ou Crônica da Quarta Cruzada e a Conquista de Constantinopla), assegurou que nada daquilo fora premeditado. As coisas foram acontecendo ao acaso e os homens deixaram-se envolver pelas obrigações imediatas. Como se dera com os cruzados franceses que, comprometidos a assegurarem 85 mil marcos de prata à Veneza para pagarem os custos da viagem até o Egito, tiveram que, como se viu acima, aceitar uma mudança do roteiro original, pois somente haviam levantado 50 mil marcos de prata, insuficientes para cobrir as despesas do translado de 33.500 soldados e cavalos para o Oriente Médio.
O primeiro passo em falso dado por eles foi ter atendido ao doge Dándolo para que recuperassem Zara, um porto cristão, para Veneza. Cometido o primeiro desvio, seguiu-se um outro, bem maior.
A pilhagem de Constantinopla
«...Como devo eu começar a relatar as proezas cometidas por tais homens nefandos! Arre. As imagens, as quais temos o dever de adorar, foram arremetidas ao chão! Arre, as relíquias dos santos mártires foram atiradas sobre lugares imundos! Foi doloroso ver e com tremor ouvir, o divino corpo e o sangue de Cristo, esparramado .... pelo chão. Eles despedaçaram os preciosos relicários e colocaram os ornamentos que lá continham dentro das suas bolsas e, precursores do Anti-Cristo, usaram as partes remanescentes como taças e copos..... Cristo foi roubado e insultado e Suas roupas divididas por sorteio.... Ninguém pode violar a Grande Igreja ( Hagia ).» Nicetas Choniates - O Saque de Constantinopla, 1204.
Tomada de assalto a cidade pela segunda vez em 12 de abril de 1204, depois de um assédio de poucos dias, latinos e gregos, ambos lados rogando por um empenho salvador de Jesus Cristo, engalfinharam-se pelas ruas e praças da capital, à sombra de impressionantes incêndios que devastavam a cidade. O imperador Alexis IV fugira miseravelmente deixando-a entregue ao despotismo da soldadesca. Tudo foi pilhado e roubado. A catedral de Santa , igrejas, capelas, palácios e edifícios públicos, bibliotecas, livrarias, lojas, os bazares, foram por três dias seguidos arrasados pela fúria desatada das tropas invasoras. Os chefes cruzados e o doge tiveram dificuldade em encontrar três igrejas ainda inteiras para poderem usá-las como local da partilha do enorme espólio. Isto numa cidade onde não havia rua sem uma capela. Poucas vezes assistira-se na história uma inversão tão completa de objetivos: a luta pela fé tornara-se uma enorme operação de banditismo, os cruzados viraram facínoras.
Niceta Chroniates, o historiador grego que testemunhou o desastre, assegurou que "nem meretrizes, nem pecadores com suas culpas, nem os ministros das fúrias ou os servos do demônio, nem mesmo os envenenadores... insultaram a Cristo e o trono do Patriarca (chefe da Igreja Ortodoxa)" de um modo tão obsceno e profano como eles o fizeram. Em valores atuais ainda é impossível calcular-se o montante do roubo promovido pelos cavaleiros cristãos. Seguramente as jóias e o ouro seriam avaliados em bilhões de dólares (*).
Dado que o príncipe Alexis fora morto por estrangulamento nos começos de 1204 e o outro imperador fugira, deixando o trono vago, os gregos, além de se verem espoliados pelos cruzados, foram obrigados a avassalarem-se a um monarca estrangeiro, um francês. Num parlamento formado por apenas 12 votantes (o número dos apóstolos), os cruzados elegeram Balduíno, Conde de Flandres como o novo rei de Constantinopla. Com o titulo oficial de Imperator Romaniae, ele foi coroado em 16 de maio de 1204 na Catedral de Santa , formado-se deste modo o Império Latino do Oriente. Situação que se estendeu até 1261, quando Miguel VIII Paleólogo, derrubando Balduíno II, o derradeiro monarca latino, conseguiu recuperar o controle da cidade de volta para os gregos.
Por um bom tempo, de 1204 a 1261, a cristandade então conheceu a existência de três impérios romanos: o Sacro Império no Ocidente; o Império Latino em Constantinopla e seus arredores; e a continuidade do Império Bizantino nas partes gregas e orientais.
O assalto à Constantinopla e a orgia de violência que se seguiu, ocorrido há 800 anos atrás, envenenou para sempre as relações entre os dois hemisférios da cristandade: o ocidental e o oriental. É esta brecha irreparável que o papa João Paulo II tentou diminuir devolvendo os santos ossários ao Patriarca ortodoxo.
(*) É de difícil entendimento para o homem dos nosso dias a obsessão dos cruzados europeus pelas relíquias. Ocorre que, talvez mais ainda do que o ouro, elas eram importantíssimas não só devido ao seu peso simbólico que os ligava a Cristo ou à Terra Santa, mas também pelo valor material delas. Uma relíquia qualquer posta em exposição numa igreja ou numa capela de uma pequena cidade européia atraia levas de visitantes, o que significava dinheiro para todos os moradores da localidade. Relíquias, por vezes, rendiam bem mais do que ouro ou rubi.
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FONTE:
Educaterra
O cronograma da IV Cruzada
1198: O Papa Inocêncio III proclama a 4.ª cruzada, que será pregada por Foulques de Neuilly e dirigida por Bonifácio I de Montferrat e Balduíno IX de Flandres.
1200 Verão: Os barões reunidos em Compiègne nomeiam seis representantes, entre os quais Godofredo de Villehardouin, para negociar com a República de Veneza o transporte dos cruzados até à Terra Santa.
1201 Início: Tratado entre os cruzados e a República de Veneza, para o transporte de 33.500 combatentes até à Palestina, por 85.000 marcos de prata.
1201 24 de Maio: Thibaud III de Champagne morre. A 4.ª cruzada perde um dos seus principais chefes.
Agosto Bonifácio, marquês de Monferrat, é escolhido para comandante da expedição.
1202 Verão: cruzados chegam a Veneza. Os combatentes e o dinheiro não são suficientes para cumprir o tratado acordado no ano anterior. O doge veneziano Enrico Dándolo propõe a tomada da cidade de Zara, como pagamento do transporte dos cruzados.
Novembro: Conquista e pilhagem de Zara na costa ocidental dos Balcãs, na Dalmácia.
1203 Janeiro: Os cruzados recebem uma embaixada de Aleixo Ange, filho do imperador bizantino destronado Isaac ll. Em nome daquele propõem aos cruzados que reponham o basileus no trono em troca de uma ajuda financeira e material para prosseguir a cruzada.
17 de Julho: Primeira conquista de Constantinopla. O Imperador Isaac ll é restaurado.
1 de Agosto: Aleixo Ange é proclamado imperador associado, com o nome de Aleixo IV, e pede aos cruzados que prolonguem a sua estadia por mais um ano, para fortalecer a sua posição.
1203-1204 Inverno: As relações entre Francos e Bizantinos degradam-se sensivelmente, devido à falta de cumprimento do prometido por Aleixo IV.
1204 Fevereiro: Assassínio de Aleixo IV, sendo o pai deste afastado. Aleixo Doukas «Murzuphle», faz-se proclamar imperador, mas também não cumpre as promessas feitas aos cruzados por Aleixo IV.
12 de Abril: Segunda tomada de Constantinopla pelos Francos. Pilhagem da cidade e massacre da população.
9 de Maio: Balduíno IX da Flandres é eleito imperador do Oriente. Torna-se Balduíno I de Constantinopla, dando origem ao Império Latino do Oriente.
1205 Abril: Morte de Amaury ll, rei de Jerusalém. Maria, filha de Isabel e de Conrado de Montferrat torna-se rainha. Devido a só ter 14 anos, a regência é confiada ao seu tio João de Ibelin, senhor de Beirute.
1210 14 de Setembro: João de Brienne casa com Maria de Monferrat, rainha de Jerusalém. A 3 de Outubro o casal é consagrado enquanto rei e rainha de Jerusalém na catedral de Tiro.
1212 Cruzada das crianças: Milhares de rapazes e raparigas embarcam em Marselha. Os armadores dirigem-nos para Alexandria onde são vendidos como escravos.
Uma coligação de forças cristãs vindas de todos os estados hispânicos, derrota os muçulmanos na Batalha de Navas de Tolosa. O reino almóada da Hispânia, existente desde 1145, desaparece.
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FONTE:
AAVV, As Cruzadas (1096-1270), Lisboa, Pergaminho, 2001
Tate, George, L'Orient des Croisades, Paris, Gallimard («Découvertes»), 1991
Heers, Jacques, O Mundo Medieval, Lisboa, Edições Ática, 1976
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