Pesquisando

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Apresenta artigos e notas de pesquisa sobre temas que enfatizam a Segurança Pública, crimes, mortes violentas, inclusive homicídios, suicídios e acidentes.

02/11/2019

Casamento e Sobrevivência

King e Reis publicaram, em 2012, uma pesquisa sobre o efeito de estar casado e, também, da satisfação com o casamento, sobre o tempo de sobrevivência após uma cirurgia de ponte de safena.
Como pesquisaram isso? Estudaram 225 pessoas que fizeram essa cirurgia (para não deixar dúvida: “coronary artery bypass grafting” - CABG). Como o tempo conta, analisaram os que fizeram essa cirurgia entre 1987 e 1990. Coletaram dados no momento da cirurgia sobre o estado civil e, um ano depois, sobre a satisfação com o casamento.
E os resultados?
Surpreendentes? Decida você.
Os casados, como um grupo, tinham uma sobrevivência maior. Duas vezes e meia maior. Estatisticamente, o resultado é significativo ao nível de 0,001. Para as homens, a diferença era clara; para as mulheres era preciso ajustar pela idade, mas a significação estatística era menor.
Porém, há casamentos bons, médios e ruins...
Os autores, claro, sabiam disso. E mediram de maneira simples a satisfação com o casamento.
Os resultados confirmam a importância da satisfação com o casamento!
Os muitos satisfeitos tinham uma probabilidade de estar vivos quinze anos depois que era 3,2 vezes maior. São muitos anos de vida parcialmente atribuíveis à satisfação com o casamento.
Há, mais uma vez, diferenças entre homens e mulheres, mas numa direção inesperada: o tamanho do efeito da satisfação com o casamento é maior entre as mulheres (3,9 vezes vs 2,7 vezes), embora a significância estatística fosse menor, devido ao menor número de mulheres na pesquisa.
E agora?
Diga você.

Glaucio Ary Dillon Soares
Saiba mais:

Marriage and long-term survival after coronary artery bypass grafting. Health Psychol. 2012 Jan;31(1):55-62. doi: 10.1037/a0025061. Epub 2011 Ag 22.

02/11/2019

Com quem aprendemos a ser violentos?

Há quase consenso a respeito de que a aprendizagem é essencial para a formação de comportamentos. Muitos comportamentos, bons e ruins, são aprendidos em boa parte.
Aprendidos de quem? Com quem se aprende?
Tomemos um exemplo: comportamentos violentos de homens, sejam adolescentes, maduros ou idosos, para com suas companheiras. Deixo claro que também há comportamentos violentos de mulheres para com seus companheiros, mas não é esse o objeto da nossa análise.
Focando comportamentos específicos, com quem e onde os adolescentes aprendem a ser violentos com suas namoradas?
Aprendem em casa? Com o pai? Com a mãe? Com irmãos? Com colegas, outros adolescentes?
Se com todos, é possível salientar alguns?
Essas foram algumas das perguntas que Arriaga e Foshee tentaram responder.
Começam afirmando que as pesquisas existentes até então mostravam que adolescentes cujos pais e mães eram mais violentos uns com os outros tinham maior probabilidade de serem violentos com suas namoradas, inclusive ficantes. Porém, ter amigos e amigas em relações violentas também aumentava o risco de que tivessem relações violentas.
Qual pesava mais? Dá para saber?
Os autores compararam as informações obtidas de 526 adolescentes que estavam na oitava e na nona séries. As informações vieram de questionários auto-preenchidos. Foram preenchidos duas vezes (para ver mudanças) num período de seis meses.
O que concluíram?
O que é intuitivo: tanto a violência entre pai e mãe, quanto a violência das relações de seus amigos e amigas, aumentam a probabilidade de que entrem em relações violentas.
O que talvez seja inesperado para alguns leitores e leitoras: aumenta também, a probabilidade de que entrem em relações violentas no papel de vítimas.
Tenho duas observações para fazer sobre essa pesquisa: primeiro, é um excelente exemplo de como uma pesquisa pequena e barata pode trazer conhecimentos importantes. Segundo, é necessário saber que é uma pesquisa pequena, com possível seletividade dos que responderam e dos que não responderam ao questionário.
Voltaremos ao tema.
GLÁUCIO SOARES

Saiba mais:
Arriaga X e Foshee V, Adolescent Dating Violence Do Adolescents Follow in Their Friends', or Their Parents', Footsteps?
Journal of Interpersonal Violence
DOI: 10.1177/0886260503260247

21/09/2019

Penso no crescimento rápido do número de sequestros na Venezuela e de como esse "filão" criminoso foi favorecido pela ascensão de Chávez em 1999. Os mecanismos ainda não estão claros:
Clique em cima. Há discrepância no que concerne o início da gestão de Chavez. Passaram de 44 em 1999 a 1.150 em 2011. A exponencial é típica de "filões" que são descobertos por criminosos e/ou de circunstâncias favoráveis ao tipo de crime que passou a ser explorado.
Passando aos homicídios, três fontes estatísticas, o OVV, Provea e Nações Unidas mostram uma clara tendência ao ascenso até 2017.
Nenhuma descrição de foto disponível.
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21/09/2019

Reinventando a Teoria das Janelas Quebradas

A discutidíssima “Broken Windows Theory” está de volta. Através de programas implementados em Chicago pela prefeita que é 1) mulher; 2) negra; 3) eficiente. Tudo o que o nosso prefeito não é.
A reportagem nos fala das iniciativas de Lori Lightfoot, prefeita de Chicago.
A iniciativa começou com dados que demonstraram que as mortes violentas em Chicago eram concentradas em algumas partes da cidade. E com a constatação de que muitas dessas áreas estavam abandonadas, sujas, destruídas, cheias de lixo.
A redução da violência era uma das prioridades da campanha da prefeita.
Usaram conhecimento, viessem de onde viessem. Uma informação importante vinha de outra cidade americana, Filadélfia.
O que houve em Filadélfia?
Pesquisadores constataram que os assaltos a mão armada tiveram uma queda de 29% em uma área extremamente pobre, depois que essa área que retirou prédios abandonados, podou as árvores, plantou árvores, arbustos e grama e mais. A área virou beleza. Calcularam que, se aplicassem o mesmo tratamento a todas as áreas abandonadas, reduziriam as ocorrências com armas de fogo em 350 por ano.
Só que Filadélfia estava sem recursos para peitar esses gastos.
Fizeram, então, uma parceria público-privada.
Em Detroit, simples derrubada de prédios abandonados, alguns dos quais colocavam em risco quem estivesse perto, resultou numa queda de 11% nos assaltos a mão armada.
A prefeita levou esses programas em consideração.
Alan Mallach, pesquisador no Center for Community Progress ampliou as conclusões desses e de outros programas: o embelezamento de áreas abandonadas, tem resultados muito melhores se for feito em conjunto com a criação e expansão de serviços sociais para a população, e programas comunitários que aumentam a participação da população e melhoram sua posição sócio-econômica.
Infelizmente, nosso país está tão doente que muitos leem comunista onde está escrito comunitário. E se dedicam a combater os programas.
A prefeita foi além das iniciativas anteriores baseadas na Teoria das Janelas Quebradas. Ela empregou nas obras de embelezamento pessoas com alto risco de cometer crimes e de serem vítimas deles. Parece que a beleza do local “entrou” nas pessoas, muitas das quais mudaram de vida,
A população local gostou e ajudou a plantar muitas árvores nas áreas abandonadas. Creio que quem já plantou árvores sabe que se cria uma relação com a árvore plantada. O crime e a destruição perdem com isso.

Qual o custo desses programas. Um deles começou com apenas o equivalente a cerca de um milhão de reais, retirados de um total de perto de dez milhões.
Quanto é isso?
O custo das primeiras iniciativas localizadas foram da mesma ordem de grandeza que o anel dado por Cavendish à mulher de Cabral, Adriana Anselmo.
Quanto acham que a isenção do IPTU concedida a mais de quatrocentos templos custará à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro em recursos não arrecadados?

GLÁUCIO SOARES

16/09/2019

Estou preocupado com o crescimento de uma extrema direita dentro do catolicismo no Brasil. Uma parte significativa da população brasileira mergulhou num estado de decepção profunda com o PT, a esquerda no poder, e seus maiores símbolos, Lula e Dilma. Os católicos não são exceções. Muitos foram, com armas e bagagens, para o lado do Bolsonaro. É uma opção legitimada pelas eleições.
O que me preocupa é que um segmento desse grupo de católicos não tem defesas contra as fakenews fabricadas por defensores do Bolsonaro. Estar “do lado” do Bolsonaro é condição suficiente para que endossem qualquer afirmação. E girem, circulem, informações falsas - algumas absurdas.
Minha percepção é de que esse grupo, economicamente, se situa nas faixas médias e altas da classe média, mas com educação muito limitada, capacidade analítica e senso crítico muito, muito baixos.
O que mais me preocupa, portanto, não é que gostem de Bolsonaro, mas que não saibam se defender da barragem de fakenews produzida por alguns dos grupos que o apoiam. E que, inocentemente, se transformem em peças dos mecanismos que espalham boatos e tentam incuti-los na população brasileira.
Uma das mais recentes, postada por pessoa pia, sem malícia, com boas intenções, é absurda:

“Pedrinha encontrada na AMAZÔNIA e já em uma ONG para ser enviada ao exterior: um diamante de 2 e meia toneladas. Entende porquê Bolsonaro está defendendo o país? Cacique Rauni morando em Paris e dono de una ONG. Quanto vale esse diamante??????? E os petistas bravos com o Presidente. Isto explica bem.”

Diamante de mais de duas toneladas???
Quem compartilha esse tipo de afirmação não tem noção do que sejam diamantes. Para informação dos interessados, o maior diamante já encontrado no mundo é o Cullinan, encontrado no início do século passado, que pesava 621 GRAMAS.
Aceito que há uma certa irresponsabilidade da parte de quem compartilha semelhante asneira porque esse boato está listado e descrito em Boatos.org., mas as vejo mais como vítimas.
Antecipando críticas, creio que também há setores com baixa capacidade analítica compartilhando irresponsavelmente boatos contra Bolsonaro, seu governo e sua família.
Mais preocupante, para mim, é que pessoas como essa estão sendo sugadas para uma luta interna dentro da Igreja Católica. Essa cisão existe e o lado tradicional, da extrema direita, é internacional e joga muito pesado.

Gláucio Soares

01/08/2019

Em 1954, há mais de meio século, Françoise Sagan publicou um livro chamado Bon Jour Tristesse. Fez sucesso e virou filme. Sei que David Niven foi um dos atores. Independentemente do livro e do filme, o nome pegou e virou uma frase de direito próprio.
Todos temos manhãs tristes, uns mais frequentemente, outros menos. E acenamos tristemente para a tristeza.
Hoje foi um dia assim. Tive que me despedir de um sonho, de ir a um país que amo e participar dos Encontros de duas instituições importantes para mim.
Recebi um convite lindo, carinhoso, generoso. Entretanto, não poderei ir. O marcador de um câncer de lenta evolução com o qual convivo há muito tempo cresceu muito, dobrando em três meses. Eu terei que voltar a um tratamento que funcionou muito bem comigo, mas que tem muitos efeitos colaterais, inclusive cardiovasculares. Talvez tenha contribuído para o AVC que tive, cujo aniversário é em dez dias.
O convívio muito agradável e recente com filhos, netinhos e netinhas, com noras e com minha esposa me fez sentir feliz e útil. Viver é preciso. Voltarei ao tratamento e já marquei consulta com o “meu” oncólogo que me acompanha há dez anos... em Nova Iorque. Irei no início de outubro. As viagens de longa duração não são mais prazerosas para mim. Com a velhice, parei de curti-las. Chego estropiado. E aumentam o risco. Não há como fazer duas dessas viagens - quatro, considerando que são ida e volta, em dois meses. Tive que renunciar ao meu amado México, à minha vida profissional, a tantos amigos, companheiros dessa caminhada na direção da América Latina que estarão lá, pressionado pela fadiga, pela opção de viver mais intensamente meus filhos, netinhos, netinhas, esposa, minha família.
Pouco entendem por que frequentemente falo um pouquinho de mim em artigos com conteúdo acadêmico. Talvez muitos não percebam que, no mundo contemporâneo, quase não nos comunicamos de peito aberto. Viramos cebolas. Para chegar ao noumenon de nós mesmos temos que tirar, uma casca depois da outra, pelar, pelar, pelar. Impomos e somos impostos matrizes de comunicação com os demais que estão cheias de limites, de regras arbitrárias. No mundo acadêmico é pior. Não somos pessoas, somos personas que seguem e atuam num palco imaginário de acordo com um script. Somos humanos, mas negamos nossa humanidade. Somos pessoas, mas negamos que sejamos pessoas. É feio. As camadas das cebolas impedem que suas emoções se toquem. Está em todo lugar. Deixamos de ser solidários para ser solitários.

Pois essa cebola aqui acordou triste. Não tenho vergonha nem medo de emoções. Sinto falta dos companheiros e companheiras de caminhada. Mas não há caminho. Como disse o poeta: “no hay camino. El camino se hace caminando”.

Gláucio Soares

01/08/2019

Nossa, a responsabilidade do Vovô

Pedi ao meu netinho, Danny, de oito anos que fizesse a prece de agradecimento antes da refeição.
Contritamente, juntando as palmas das mãos, aquela criança de oito anos agradeceu o alimento, pediu a Deus para que eu ficasse vivo mais um tempo, em seguida pediu que Deus atendesse os que têm fome e ajudasse os moradores de rua. Tudo espontaneamente, na hora, sem ter sido instruído a dizer isso ou aquilo.
Aprendi muito com o que aquela criança disse, em inglês.
Começo, de maneira egocêntrica, por mim e os avôs e as avós do mundo.
Há uma ampla bibliografia que mostra a influência que avôs e avós têm (e, em muitos casos, poderiam ter mais) sobre netinhos e netinhas. Por um lado, o aumento da esperança de vida significa mais idosos disponíveis; por outro lado, o crescimento da percentagem de famílias nas que pai e mãe trabalham, o crescimento dos divórcios e separações que dissolvem casamentos e famílias, assim como o número crescente de mães solteiras, significa um aumento da demanda pela participação, pela ajuda, de avôs e avós. Pequeninhos e suas mães e pais, que precisam dos velhinhos e velhinhas, e velhinhos e velhinhas que precisam de serem precisados.
Ann Buchanan estudou esses processos na Grã Bretanha. A pesquisa abrangeu mais de mil e quinhentas crianças. Os dados confirmaram o que muitos suspeitavam: netinhos e netinhas cujos vovôs e vovós participavam ativamente da sua criação tinham menos problemas emocionais e comportamentais do que as crianças cujos avôs e avós não participavam por qualquer razão. As mais frequentes eram indiferença, distância física e/ou psicológica e morte.
Buchanan analisou e reanalisou esses dados, concluíndo que, contrariamente ao mito, os vovôs também contam, além da boa influência das avós. Usualmente, mas não exclusivamente, as contribuições de vovôs e vovós são diferentes. As vovós são mais presentes no acolhimento, no carinho, no afeto, e os vovôs na educação, no aconselhamento e nas atividades físicas.
Lembro: “mais” não significa “só”. Vovós também ajudam da maneira mais comum entre os vovôs e vice-versa.
Buchanan e, segundo creio, muitos outros, reclamam que embora exista muito conhecimento, esse conhecimento não se materializou em políticas públicas. Na Grã Bretanha, avôs e avós não têm direitos em relação a netos e netas.
Em verdade, há muitos exemplos, tristes exemplos, de como mães e pais odeiam o cônjuge e sua família mais do que amam seus filhos e filhas. Proíbem o contato dos filhos com os avôs e avós, além do cônjuge.
O resultado: crianças sem “vô” ou “vó” e avôs sem netinhos e netinhas. Vitória do Ódio sobre o Amor.
Voltando ao meu netinho...
Pais e mães são importantes atores intermediários para o contato entre essas duas gerações separadas pelo tempo. Há quase um ano tive um AVC e muitos temeram que eu estivesse me despedindo dessa vida. Meus filhos com seus próprios filhos e filhas, e um nora, me alertaram para o fato de que eu era o único avô que sobrava. Os outros morreram. Viver era preciso.
Nossa, que responça!
Mas estou aqui e continuo presente na vida deles. Não há mérito. Veio fácil. O amor já estava dentro de mim. E não faz bem somente para os netinhos e netinhas: faz muito bem para mim também.
Quando vejo beleza física (eu amo a natureza) agradeço a Deus ter colocado dentro de mim a capacidade de ver beleza. O que poderia ser um conjunto de granitos escuros, mataria verde e líquido azul, para mim é o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro continua lindo...a despeito da cambada de governadores e prefeitos que temos tido.
Quando olho meus netinhos e netinhas e sinto amor, agradeço a Deus por colocar o Paráclito dentro de mim. A capacidade de amar não tem preço.
Danny me ensinou muitas coisas. Uma delas é que faz muito mais sentido ter menos preocupação com as coisas feias da política e curtir mais os seres lindos que são nossos netinhos e netinhas.
Vamos todos, rumo à curtição!

GLÁUCIO SOARES
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01/08/2019

Quando ensinei em MIT, nos idos de 1968, tive a honra de ter, entre os alunos, alguns que deixariam marca na Ciência Política Brasileira, como Fabio Wanderley Reis, que estudava em Harvard, Antonio Octavio Cintra e Amaury de Souza, que estudavam em MIT mesmo. Bruno Reis, o nosso querido e inspirador Bruno Reis, era, literalmente, um bebê. Eu morava no célebre 100 Memorial Drive, à beira do Rio, em andar privilegiado, com visão fantástica do Charles River. Era possível ir, pela beira do rio, da área de MIT para a área de Harvard e vice-versa. Encontrei, nesse espaço, a família Reis com Bruninho no carrinho aproveitando o sol, ausente em longos períodos do ano. Estávamos em Cambridge, do outro lado do rio de Boston.
A área de Boston, como um todo, oferece aos seus estudantes muitas “economias externas”. Há um grande número de instituições de ensino superior de qualidade na área metropolitana, algumas separadas das outras somente pelo Charles River. Não são, apenas, as conhecidíssimas Harvard e MIT. Há a Boston University, Boston College, Brandeis etc. Ao todo, na última contagem, eram 52 instituições universitárias. Das 52, 49 não têm objetivo de lucro. Quarenta e sete são privadas. Redefinindo de maneira exigente, eram nada menos do que oito universidades dedicadas à pesquisa. E há, também, vinte e duas instituições especializadas. Uma é um conservatório musical, outra se concentra em Oftalmologia etc.
Os números do corpo discente variam muito. Dados de alguns anos atrás, mostram isso: o número de alunos variava de perto de cem na Episcopal Divinity School a mais de trinta mil na Universidade de Boston.
Alunos e alunas de diferentes instituições se comunicam, são amigos, namoram. Professores fazem o mesmo. Porém, o que mais me chama a atenção é a cross-registration, a possibilidade de estudantes de uma instituição seguirem cursos e seminários em outras, recebendo créditos por isso. E, claro, participam de pesquisas. Não obstante, professores que discutiam o mapa educacional de Boston reclamavam de que os estudantes não se beneficiavam tanto quanto poderiam dessa abertura.
Temos, no Brasil, várias áreas metropolitanas que poderiam oferecer uma educação universitária de muito bom nível. Analisando o Rio de Janeiro, há algumas universidades que, juntas, poderiam oferecer benefícios semelhantes ao seus alunos. UFRJ, PUCRJ, UFF, UERJ, FGV e várias outras. Em cada uma dessas áreas podemos formar uma grande universidade. Os alunos de uma, seriam alunos de todas. Meditem sobre o significado da palavra universidade e verão qual é a proposta.
Porém, isso não acontece.
Pior: as universidades são compartimentalizadas, com departamentos estanques, mesmo na mesma área temática. Departamentos que não se comunicam e, às vezes, se hostilizam.
Pior ainda: dentro de departamentos, há formação de cliques e patotas políticas e ideológicas, assim como teóricas e metodológicas, que se rejeitam. Os de uma patota não se beneficiam dos recursos educacionais, cognitivos e laboratoriais, entre outros, das demais patotas.
Pode ser diferente.
Pode ser melhor.
Para sobreviver psicologicamente, tenho a esperança de que os ataques ao conhecimento e à inteligência da parte do atual governo tenham o mérito de unir pesquisadores, professores e alunos que antes se opunham.
Dizem que a esperança é a última que morre...

GLÁUCIO SOARES

26/07/2019

A INTOLERÂNCIA FRENTE AO CONHECIMENTO E À CIÊNCIA

Para mim, a afirmação de que “quando eu ouço falar em intelectuais, eu pego a minha arma” simbolizava a intolerância em relação à inteligência e à cultura. Lembrava-me, vagamente, de ter lido, há muito tempo, que foi um líder nazista, talvez Himmler, que a proferiu. A expressão não era exatamente essa, mas “quando ouço a palavra cultura busco a minha arma”. Desconfiando da exatidão da minha memória, pesquisei. O autor não foi um dos políticos ou militares do nazismo, e sim Hanns Johst (1890 – 1978), um escritor, teatrólogo e poeta nazista. Virou slogan para muitos ativistas de extrema direita nazista.
A intolerância por pessoas, profissões e instituições que premiam a inteligência, a ciência, o conhecimento e a cultura, é uma das marcas características de personalidades patologicamente autoritárias e de governos com vocação ditatorial. Aconteceu na Alemanha nazista; aconteceu e acontece em outros regimes e lugares, de direita e de esquerda. Pode estar acontecendo no Brasil.
A História pode ajudar a evitar a repetição de seus próprios erros. A redução dos gastos com as universidades, as restrições à Ciência e à pesquisa científica, a possibilidade de reduzir a CAPES e o CNPq à nulidade, o afastamento de estudiosos e “experts” das funções de assessoria, inclusive sem remuneração, acendem uma luz vermelha. Personalidades patologicamente autoritárias estão confundindo governo com estado e redefinindo oposição ao governo, ou até a algumas políticas do governo (mas não a outras), como traição ao estado brasileiro. Confusão perigosíssima que cruza todo o mapeamento ideológico, de Stalin a Hi**er. Milhões morreram em consequência dela.
F**a o aviso.

GLÁUCIO SOARES

24/07/2019

Uma corrida silenciosa entre a vida e a morte

Há uma corrida silenciosa entre a vida e a morte. Nossas vidas podem depender dessa corrida. Harris, Thomas, Fisher e Hirsch publicaram, há alguns anos, um artigo chamado Murder and Medicine - The Lethality of Criminal Assault 1960-1999, sobre a letalidade das armas.

De que trata? Trata da letalidade das armas mais mortais, as chamadas de assault weapons. A letalidade delas aumentou muito; afinal, são feitas para matar e a tecnologia da morte “progrediu”. Progrediu no projétil, no combustível, na arma. Mata mais. Essa é a letalidade abstrata, técnica. Porém, a letalidade estatística caminhou no sentido oposto – diminuiu. Estatisticamente, mais pessoas atingidas por projeteis de assault weapons sobreviveram nos últimos anos do que há muitos anos. Por que?
É um paradoxo. Como explicá-lo?

A resposta reside na evolução paralela da tecnologia da vida. Em primeiro lugar, o atendimento imediato, no local, por pessoal chamado de para-médico, evoluiu, salvando vidas. As ambulâncias, que antes só serviam para transportar feridos, também evoluíram, são mais equipadas, permitindo cuidados aos feridos que, antes, só estavam disponíveis nos hospitais. A rapidez do atendimento é fundamental e se correlaciona negativamente com a letalidade. Quanto mais rápido for o atendimento, menor a percentagem dos pacientes que morrem.
A rapidez do atendimento não depende, apenas, de ambulâncias mais equipadas e de pessoal mais treinado: depende, também, de fatores culturais, políticos e cívicos. Melhorias no trânsito permitem maior rapidez no atendimento. Depois de algumas administrações mais competentes, o trânsito flui melhor. O civismo também contribui, por exemplo, com os motoristas abrindo espaços para as ambulâncias. Em culturas com baixo nível de civismo, isso não se dá e alguns tentam, inclusive, se aproveitar da rota rápida aberta pela ambulância ou pelo carro de bombeiros. Vemos isso no Brasil.

Alguns leitores devem estar se perguntando se esse nível mais elevado e funcional de cultura cívica existe de verdade no mundo. Existe, mas não é igual em todos os lugares: é mais desenvolvido e funcional em alguns países do que em outros e, dentro do mesmo país, em umas regiões do que em outras. Juntas, essas variáveis formam estruturas de risco que se repetem ano trás ano. Devido a essa estabilidade estrutural, nos permitimos afirmar, por exemplo, que, com os dados disponíveis até poucos anos atrás, a taxa de mortes violentas de homens jovens e maduros (menos de 65 anos) na Rússia era nove vezes a de Israel e doze vezes a da Grã-Bretanha.

Essa estabilidade afeta todas as mortes violentas. Por exemplo: as taxas de mortalidade por dez mil veículos. Ano trás ano, os estados com taxas mais altas estão no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste.

Após a chegada ao hospital, há melhorias que ajudaram a elevar a percentagem dos que sobreviveram sobre o total dos atingidos. A criação de centros especializados de trauma, a disponibilidade de equipamento muito mais sofisticado e o atendimento por pessoal mais competente, contribuem para reduzir a taxa de mortalidade. Infelizmente, as mudanças nos hospitais não sempre para melhor: há decadência também, às vezes consequências de más administrações, às vezes muito afetados por altos níveis de corrupção, às vezes a triste consequência do colapso econômico de um país. Infelizmente, no Brasil, esses processos estão em todos os lugares.

Esses processos cruzam nossa existência. Somos afetados pelas velocidades com que chegam a nós. Infelizmente, a transferência da tecnologia da morte talvez seja mais rápida do que a da vida. Leva menos tempo comprar uma arma mais letal do que equipar hospitais e ambulâncias e treinar melhor o pessoal do atendimento e da emergência.

Gláucio Ary Dillon Soares

20/07/2019

A REPRESSÃO CONTRA O CONHECIMENTO

Vimos, recentemente, ações contrárias à inteligência e ao conhecimento, como a nomeação de incompetentes para o Ministério da Educação, a redução de recursos para a universidades, as artes, a pesquisa e mais.
Nesses últimos anos, particularmente, no atual governo, vemos um formato novo de perseguição à inteligência e ao conhecimento, desta vez com autoria de organizações políticas e ideológicas que atuam através de repetições ameaçadoras de postagens e mensagens, através de blots. Desconvidar Sérgio Abranches e Miriam Leitão, que participariam de uma Feira de Livros, foi um ato simbólico porque notório, mas é preciso não esquecer que a perseguição à inteligência é um costume das ditaduras, da direita e da esquerda.
Foi assim na ditadura militar, bem aqui no Brasil.
Durante a ditadura foram cassados professores universitários, cientistas e intelectuais.
O que eram as cassações? A proibição de exercer a profissão em instituições públicas (e às vezes privadas também), incluindo a perda dos direitos políticos por tempo determinado.
As ditaduras variam entre si e, internamente, no tempo e no espaço na mesma ditadura. As cassações variaram muito no tempo: 85 foram cassados entre 1964 e 1965; somente 4 em 1966 e 1967, e nada menos que 168 de 1968 a 1973. A partir de 1974, com o inicio da administração Geisel, reduziram-se as diversas formas de repressão, inclusive a perda de trabalho por parte de cientistas, intelectuais e professores universitários. O padrão de “ondas punitivas”, sublinhado por Marcus Figueiredo, a forma seguida no tempo pelas cassações de políticos, também se aplicou aos cientistas e professores universitários, correspondendo, inicialmente à fúria punitiva pós-golpe e, posteriormente, a momentos de desequilíbrio entre moderados e radicais no próprio governo militar, com predominância dos últimos.
Durante o início do governo militar, foram punidos mais de 40 professores ao ano; em 1966 e 1967, menos de dois ao ano; crescendo novamente a fúria punitiva após o AI5 , em fins de 1968, quando um pouco menos de 40 foram punidos anualmente. Não obstante, a punição explícita foi somente uma das formas de controle da atividade profissional de cientistas e professores universitários. O número de prejudicados foi, possivelmente, muito maior, devido à lentidão e rigidez do “processo de credenciamento político”, prévio a qualquer contratação. Os candidatos a cargo publico de importância, incluindo o de professor universitário, foram obrigados a passar por um extenso crivo, do qual a avaliação política e ideológica era parte importante.
Somente quando os ministros, reitores e dirigentes de empresa, decidiam assumir pessoalmente a responsabilidade por uma contratação, cujo processo estava retido devido às longas averiguações de ordem política, ou devido a outros obstáculos, é que a contratação era realizada antes do término das averiguações. Quem contratava antes do fim do longo processo assumia a responsabilidade pelos atos do contratado. Muitos dos dirigentes de instituições, mais temerosos ou mais débeis, evitavam se arriscar, esperando a conclusão do “credenciamento político” que, geralmente, era efetuado pelo SNI, através das suas subdivisões, DSI, no nível ministerial e ASI, no nível das universidades. Com isto, qualquer problema que pudesse derivar de uma contratação de pessoa que fosse uma inimiga ativa do regime, o reitor, diretor, etc estaria eximido de culpa, uma vez que o atestado de pureza ideológica havia sido exarado pelas autoridades competentes dos órgãos de segurança política. Creio que o número de professores e cientistas que foram prejudicados sem que tivessem qualquer participação política foi muito grande, maior, talvez, dos que receberam um parecer negativo, devido à lentidão de todo o processo. As universidades perderam muitos cientistas e intelectuais de peso, inclusive para instituições congêneres localizadas no exterior. Era inviável pretender que alguém, com fácil colocação no mercado internacional de trabalho, aguardasse muitos meses e, em alguns casos, alguns anos para ser contratado por uma universidade ou instituição de pesquisa.
Assim, as universidades e instituições de pesquisa e planejamento, pagaram um alto preço devido ao inchaço do estado de segurança nacional e à instalação do processo de peneira política e ideológica através de um aparelho examinador que não estava habilitado para tal. Paradoxalmente, quando Geisel reduziu o pessoal das ASI e DSI, sem, não obstante, eliminar este procedimento antidemocrático, aumentou dramaticamente a relação entre processos de averiguação e pessoal disponível. Houve, portanto, um alto preço pago pelas instituições de ensino e pesquisa devido às desmesuradas exigências político-burocráticas do estado de Segurança Nacional. É contraditório que um regime que se dizia partidário da modernização, da competência e da eficiência, terminasse com altos níveis de burocratização e ineficiência, emperrado pelas suas exigências político-burocráticas.
No topo das instituições dedicadas ao ensino e à pesquisa encontramos muita variação nos níveis de decência e de coragem, ou de seus antônimos.
Foram tempos de terror, que muitos dos que assistem, passivamente, à reedição de um estado de segurança nacional e, o que é pior, de uma sociedade repressiva, não viveram.
Espero que não leiam Brecht somente depois que chegar a sua vez.

GLÁUCIO SOARES

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