02/12/2019
o carnaval chegou
pela porta
minha mãe ainda preparava
o almoço com
o avental cheirando a
alho
eu tenho ranço de alho
desde que o Ulysses
com y
me fez colocar um dente inteiro na
boca e mastigar sem
enrugar a cara
quando eu tossia minha mãe também
me dava alho para gripe
goela abaixo
mas o alho
só de tempero serve para mim
o carnaval chegou porque aquele
mocinho fantasiado de mulher
maravilha
apoiou a cerveja no muro
de casa e derrubou a garrafa toda
quebrou e caiu
bem no jardim de rosas
vermelhas
da minha mãe
— o que vocês estão fazendo aí?
minha mãe saiu enxugando a mão
no avental
de alho
— desculpa, senhora
o rapaz com aquela faixa de
estrela na cabeça
e a bunda de fora estava
desconcertado não pela bunda
e o olhar dele chegava
a se encolher como um beijo
que pretende ser um beijo
e nunca foi
minha mãe
que não estava nos piores
dias porque conseguiu
arrumar aquele cano furado
da cozinha
deu um sorriso para o rapaz
um sorriso?
eu estava encostado na porta
esperando o oco acontecer
mas minha mãe surpreendeu
ainda perguntou
se queriam água enquanto
catava vidro nas pétalas
— deixa que eu te ajudo, senhora.
a música do Dorival
cantava no fundo
e os confetes e
trompetas
acho que chama trompeta
aquilo
passavam pela rua
e são felizes mesmo
as pessoas nesse tal de
carnaval
o rapaz perguntou se minha mãe queria um pouco de purpurina
e ela sorriu
de novo
minha mãe sorriu duas vezes
a última vez
que
vi isso acontecer
foi quando o pai
ainda era vivo e trouxe
o alfinete que ela pediu
para comprar na mercearia
do Seu Ulisses
o pai do Ulysses com y
o segundo sorriso não lembro
mas não foi para mim
minha mãe voltou para o rumo da porta
— já para dentro
me puxou pelo ombro
e o olho dela brilhava
de
Purpurina.
02/12/2019
Quando perdemos o contato com a essência da inteireza vem uma sensação de que nada é, que a vida passa e corremos atrás dela como quem tenta pegar um pano no vento. Mas dentro se sabe que tudo é inteiro, que basta estar na escuta, ouvir um certo zunido que vem em apertos ou solturas de um coração. Não há escrita pela metade, não há palavra com meio dizer. Há palavras vazias ou palavras inteiras. Para dotar uma palavra de inteireza é preciso ser nu, é preciso não se preocupar com os olhos que miram o seu ser em pedaços. Ir para dentro, tocar a ardência e deixar que ela venha com o teu todo e o todo é imperfeito e belo como uma queda em câmera lenta no amor.
02/12/2019
Pra lembrar que a escrita, essa belezinha, se dá na escrita...e no amor, e na dor e no chuveiro, é claro. Pode também acontecer com o corpo deixado em uma rede e o pensamento no tempo que balança, mas não como uma espera de algo que chega e sim como uma entrega ao mundo. Escrever é viver e estar atento ao que se vive. Pegar a palavra não para domá-la, mas para se envolver com ela. Se envolver a tal ponto que não se sabe o que é palavra e o que é veia.
02/12/2019
É o olhar, meu bem...
que te salva
daquele escuro.
02/12/2019
Sem medo
das estrelas, amor!
02/12/2019
Era
de
amor
que
se
falava
naqueles
tempos
de
ontem.
02/12/2019
Isabelle Borges, fundadora da POAMA, é escritora, educadora e comunicadora de uma vida mais apaixonada, poética e criativa. Formada em licenciatura e mestra em psicologia do desenvolvimento humano, há 10 anos se dedica a trabalhos sobre a subjetividade e criação humana. Foi professora de grandes instituições federais, trabalhou formando educadores, crianças e jovens em todo país. É também co-autora do projeto “Olhos Raiz'', que circula pelo Brasil, unindo imagem e escrita na preservação de histórias. Criadora do método S.E.N.T.I.R, ajuda as pessoas a acreditar em sua criatividade e a descobrir uma forma de viver uma vida mais ampla, com mais sentido e disponível a ser quem se é. Acredita que escrever é um território líquido. Um sair dos contornos. Um desconhecer para encontrar.
Gosto de ver as pessoas de corpo inteiro, sendo toda a poesia que cabe em si." ()
02/12/2019
A POAMA é uma escola de memória itinerante que surge para estimular uma escrita viva, a comunicação e o ato de habitar o mundo. Em encontros individuais ou em grupos, nas empresas, escolas, nos parques, nas nuvens ou a beira mar, nos jogamos na missão de encontrar corações, despertar beleza e catar verbos-estrela. Ajudamos as pessoas a se sentirem seguras, confiantes e inspiradas para apresentar sua escrita no mundo, para se comunicar com mais empatia e acessar o campo de amor e cuidado nas relações. É para despertar olho no olho, valorizar as memórias e o sentir.
Embora a escrita seja a linha mestra, é um cuidado, sobretudo, com a descoberta de si. Entendemos que escrever desvenda lugares ainda não tocados e que isso é uma forma mais potente de coexistir. Partimos da crença profunda na potência criativa humana, na valorização das memórias e na capacidade de sentir para transformar. Quem passa por aqui aprende através do acontecer dos sentidos e de provocações poéticas que permitem a magia sair da pele.
POAMA vem do lugar da poesia com amor. Poesia da vida, poesia do cotidiano. Por aqui se caminha em direção a um propósito maior: dar respiro a algo que pulsa. ✨