22/09/2012
"Em Jacarepaguá"
Depois de completar oitenta anos de idade não sou mais o folião que era em 1949. Mas quando recebi, no começo do ano corrente, o convite dos irmãos Margarida, Glória e Fábio Trindade para falar sobre Gilberto Freyre em Jacarepaguá, o que logo me ocorreu foi à lembrança do carnaval daquele ano, quando o Brasil inteiro cantou a marcha de Marino Pinto, Romeu Gentil e Paquito, gravada pelos Vocalistas Tropicais, que dizia ser Jacarepaguá melhor do que Copacabana e Paquetá.
A marcha falava de Jacarepaguá como um lugar ideal, uma espécie de Pasárgada bandeiriana, onde era possível encontrar muitas mulheres bonitas “para gente namorar”, como diria o poeta. Mas o que encontrei naquela zona administrativa do Rio de Janeiro foi uma instituição modelar de ensino que está completando meio século: o Colégio Senhora da Pena. E como sou apaixonado pela etimologia, pesquisei logo a origem dessa invocação de Nossa Senhora. No dicionário etimológico do erudito Antônio Geraldo da Cunha, aprendi que a palavra pena entrou em nossa língua no século XIII, proveniente do latim pinna, pinnae, através do espanhol peña, que significa rochedo, penhasco, penedo.
Na belíssima cidade portuguesa que é Sintra está o Palácio Nacional da Pena, construído no século XIX pelo rei D. Fernando sobre uma rocha onde havia, desde o século XVI, um convento dedicado pelos Frades Jerônimos a Nossa Senhora da Pena. No alto de Jacarepaguá há um rochedo no qual os primeiros Jesuítas construíram a igreja histórica de Nossa Senhora da Pena, sob cuja proteção, o prof. Jésus e a profª. Stella Matutina Schiavo Mafra Trindade, fiel à origem santíssima deste sobrenome, fundou o Colégio Sra. da Pena e logo depois as Faculdades Int. de Jacarepaguá-FIJ.
A decadência dos estabelecimentos de ensino governamentais tem provocado o aparecimento, em nosso país, de muitas faculdades privadas. Infelizmente, grande número delas existem só para fins lucrativos.
O Colégio Sra da Pena-CSP e as Faculdades Int. de Jacarepaguá-FIJ, não agridem a acidentada e bela topografia local, com suas igrejas históricas de Nossa Senhora da Pena e Nossa Senhora do Loreto. A organização do ensino é modelar, unindo ciências, técnicas e humanidades. A biblioteca é muito bonita, bem equipada e conceito A pelo MEC há anos. Um dos eventos comemorativos do cinqüentenário da fundação do colégio foi a encenação de Casa-Grande & Senzala: homenagem aos 70 anos de publicação da obra clássica de Gilberto Freyre.
O colégio tem uma equipe muito boa e um jovem e competente professor de teatro que faz a ligação entre o ensino técnico e as humanidades. Além de muito fiel ao livro, a encenação revelou excelentes atores e dançarinos. Gilberto Freyre teria se emocionado com a representação teatral, por jovens cariocas, de suas idéias sobre a formação social da família brasileira num regime patriarcal, escravocrata e latifundiária.
Coube-me a honra de encerrar as comemorações com uma conferência sobre aspectos lingüísticos e estilísticos de Casa-Grande & Senzala, autografando, em seguida, para muitos alunos, professores e convidados o meu dicionário Gilberto Freyre de A a Z. Ao recordar, no preâmbulo, a marcha Jacarepaguá - cantada por todo o auditório – comentei um fenômeno que sempre me impressionou: o do grande número de marchas e sambas que surgiam no Rio de Janeiro em cada carnaval, gravadas pelos melhores cantores e conjuntos musicais da era do rádio. Algumas eram poéticas, como Jardineira; outras irônicas, como Sassaricando. Mas nenhuma continha as grosserias das letras de hoje. Uma daquelas marchas – Cidade Maravilhosa, de André Filho, lançada no carnaval de 1935 – tornou-se o hino oficial da cidade do Rio de Janeiro.
Ouso comparar aquele surto anual de marchas e sambas - que nunca mais se repetiu – ao fenômeno conhecido como “milagre grego”: o surgimento na antiga Grécia, de grande número de pensadores, poetas e dramaturgos que enriqueceram a filosofia e a literatura ocidentais. Onde estão todos eles? Como diria Manuel Bandeira, “estão todos dormindo / estão todos deitados / dormindo / profundamente”. O chamado “milagre grego” nunca mais se repetiu. Com exceção do grande poeta moderno Constantino Kavafis, a Grécia de hoje é apenas uma atração turística.
Edson Nery da Fonseca
PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA