A palavra Candace tem sua origem no título dinástico, o qual importantes governantes femininas marcaram presença na História da África antiga e foi escolhido para servir de referência ao projeto como reconhecimento do papel importante da mulher no processo de preservação e difusão da memória da ancestralidade de matriz africana na realidade do povo negro no Brasil. Tal influência ainda é força motriz em boa parte das culturas africanas na atualidade. Candaces ganha um novo significado. Já não representa só as mulheres soberanas do Reino de Meroe, cujo ventre determinava a sucessão dos futuros soberanos e governavam com todos os poderes de administração civil e militar. Mas as várias mulheres negras contemporâneas que lutam por seus direitos de ter uma representação positiva, pela compreensão, respeito e valorização da sua história.
É por meio das atuais Candaces, que ainda podemos ter acesso a muitos dos valores civilizatórios africanos presentes no nosso cotidiano: circularidade, oralidade, religiosidade, corporeidade, musicalidade, memória, ancestralidade e cooperativismo. Tudo isso zelosamente preservado por centenas de anos. Conhecimentos transmitidos de geração a geração e que sobrevivem porque a ancestralidade sempre dialoga com a modernidade e se revigora. É dentro dessa perspectiva que se pretende desenvolver o valor do sentimento de pertencimento do indivíduo para com o bem cultural, aproximação dos seus significados e consequentemente preservação da sua identidade. O Projeto Candaces: Identidade e Beleza foi colocado em prática no dia 01/09/2012, data da primeira oficina, cuja patronesse é uma importante liderança negra da cidade do Rio de Janeiro Vanda Maria Ferreira. O projeto se propõe não só ensinar a produção do turbante, mas pensar sobre as subjetividades que definem a identidade do ser negro indo do micro, cidade do Rio de Janeiro; ao macro, descendentes das várias Áfricas fora do continente africano (Diáspora Negra). A parte teórica do projeto data do período da graduação em História pela Universidade Gama Filho em 2004 e foi enriquecida ao longo dos anos com as especializações realizadas nas Universidades Cândido Mendes (2009) e Federal Fluminense (2012), sempre com a perspectiva da leitura de como o indivíduo e comunidade expressavam o seu modo de ser e estar no mundo através das manifestações do corpo. O turbante é utilizado como ponte para analisar a realidade da utilização da cultura simbólica africana como ferramenta de produção de conhecimento histórico, resgate e manutenção da memória e da identidade do grupo social de descendência africana. Ainda como elemento artístico, o turbante produz beleza ao seu usuário. e com seus formatos, texturas e coloridos, contagia o seu observador pelo seu refinamento estético. O legado do projeto é valorizar o saber fazer africano. Apostando na ideia do empoderamento do indivíduo negro através do conhecimento e trabalhar a desnaturalização, desconstrução, dos estereótipos que dificultam sua inclusão social no Brasil.