22/09/2017
[Aulas de amanhã canceladas]
Não há escolha.
Poucas frases são tão repetidas, recitadas e replicadas quanto a de que “não há escolha”. Vidas inteiras são definidas pelas escolhas que não existem.
As escolhas começam a sumir já no nascimento. Dependendo do CEP da maternidade, do salário dos pais, da cor da pele do recém-nascido muitas escolhas já se perdem pelo caminho.
Quando um tiro solitário mata uma pessoa, todas as escolhas que ela ainda tinha desaparecem. Quando um tiro solitário se transforma numa guerra surda, as pessoas se escondem para que nenhuma bala leve as poucas escolhas que ainda têm.
O governo mandou seus soldados para a Rocinha. Os soldados, sem escolha, seguem um governo que também diz que não tem escolha. Devem matar um traf**ante que, também sem escolha, mata e morre.
Ao redor disso tudo, um mundo de gente se esconde, porque não tem escolha. Afinal, morrer não é uma opção.
Na semana passada, liberamos os nossos alunos mais cedo do que o usual. Tomamos essa decisão porque a maioria dos alunos e voluntários do núcleo PUC mora na Rocinha. Entre a segurança deles e as nossas aulas simplesmente não havia escolha.
Cancelamos nossas aulas de amanhã. De novo. Colocar adolescentes em risco não é uma opção. Simplesmente, não há escolha.
Quem conhece a gente, sabe: o projeto é mais do que concurso. A gente está lá para pensar outra forma de ensinar - mais democrática, mais afetuosa, mais crítica. O que a gente faz é muito sério pra gente; por isso, cancelar aulas é muito, muito sério.
Mas a gente não teve escolha. Não tem nada a ver com "vontade", com "esforço"; tem só a ver com humanidade. É questão de sobrevivência.
Mas sobreviver não pode ser o suficiente. A gente acredita numa possibilidade pelo diálogo. Que falar sobre racismo e violência na sala de aula é criar consciência e dar voz à dor de quem sofre com isso. Que a atuação política é fundamental para efetuar mudanças reais. Que diante de toda violência - do Estado ou do tráfico ou da raça ou da grana ou ambos – existe uma pessoa que a enfrenta.
A gente sofre com o que está acontecendo na Rocinha. Nossos alunos, nossos voluntários, nossas famílias. Todos sofrem.
Mas é a nossa pedagogia, nossa teimosia em olhar para os alunos e ver neles uma outra possibilidade, que nos leva a construir, hoje e sempre, uma possibilidade.
Porque diante do mundo, não há escolha senão insistir.