15/09/2026
E se a eloquência não servisse apenas para convencer, mas também para manipular?
Em O Bem-Amado, Odorico Paraguaçu domina a palavra. Seu discurso pomposo, exagerado e aparentemente erudito cria uma aura de autoridade que frequentemente encobre interesses particulares. Ele não precisa necessariamente apresentar argumentos sólidos: basta construir uma narrativa capaz de impressionar e conquistar aqueles que o escutam.
Tema de redação — UERJ
«A eloquência como instrumento de manipulação em uma sociedade vulnerável à desinformação»
"Em O Bem-Amado, de Dias Gomes, a retórica de Odorico Paraguaçu evidencia como o domínio da linguagem pode se transformar em instrumento de poder. Por meio de discursos grandiloquentes, o prefeito de Sucupira constrói uma aparência de autoridade que lhe permite obscurecer contradições e conduzir a percepção coletiva conforme seus interesses. Tal mecanismo se torna ainda mais eficaz em contextos nos quais o acesso à educação, à informação de qualidade e à formação crítica é limitado, uma vez que indivíduos privados desses instrumentos podem encontrar maior dificuldade para identificar falácias, questionar discursos de autoridade e distinguir argumentos consistentes de meras estratégias de persuasão. Nesse sentido, a ignorância não deve ser compreendida como característica inerente ao indivíduo, mas como uma vulnerabilidade social que pode ser agravada pela desigualdade educacional e explorada por aqueles que controlam a narrativa pública. A permanência desse fenômeno no Brasil contemporâneo demonstra, portanto, que quando a capacidade de questionar é enfraquecida, a palavra de quem fala mais alto pode facilmente se sobrepor à verdade do que é dito."
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores atualidades de Odorico: ele não representa apenas quem manipula pelo discurso, mas também uma sociedade que, sem ferramentas para questioná-lo, acaba participando da própria manipulação.
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