07/08/2017
CAMARADA MANARINO
Manarino na certidão, é certo, é certeza. Nome de guerra. Aliás, Inspetor Manarino, muito respeito! Baixinho, magro e branquelo, camisa social alva, por dentro da calça de tergal azul-marinho, gravata, circulava por entre as fileiras de jovens prontos a entoar o hino e marchar para as salas. O olhar vagava da fivela de um para o polimento do sapato de outro e depois para uma pernoca mais roliça, fazendo de Manarino um legítimo agente da repressão que vigorava.
Com os desenquadrados, formava uma nova fila, a dos proscritos que, naquele dia, voltariam para casa com uma advertência na caderneta: cabelo comprido, saia justa contra a moral e os bons costumes, camisa sem as divisas de patente. E assim crescia a fileira dos exilados, humilhantemente expostos diante dos colegas.
Porém, onde existe a repressão, há também a resistência: num dia qualquer, o pessoal dos porões, aqueles que ficavam lá no final das filas, começaram a assobiar na hora do hino. Claro, a punição certamente seria dura, uma jubilação, quem sabe, mas valia a pena a transgressão. Desafiado, Manarino enlouqueceu. Subiu enfurecido no bebedouro para tentar rastrear os subversivos, deixando de lado a compostura solicitada pelo cântico. Enquanto se entoava de um povo heroico o brado retumbante, os corações também se exultavam na esperança de que uma pequena poça o fizesse escorregar, caindo de bunda no chão. A concentração foi grande, mas o escorregão não aconteceu, para tristeza das massas.
Por esta e outras, incorporou-se ao nome do inspetor o personagem mandão, linha dura, que tão bem encarnava: Inspetor Mandarino. Foi assim que ficou para muitos, atingidos pelo rigor excessivo, desnecessário, porém alinhado com a época. Dizem que o sujeito era professor de matemática e gente muito boa nas horas vagas. Pena que as horas vagas não faziam a algébrica interseção com o iraniano personagem.
O Manarino, ou Mandarino, como queiram, atingiu seu objetivo pelo caminho da repressão. Poderia ter conseguido este intento por outras vias, como a da camaradagem? Talvez não. Naqueles tempos, ser chamado de camarada dava cana dura, e muito dura.