29/11/2020
Excelente texto 👏👏👏👏👏
Crianças e Adolescentes na Pandemia-
A Volta às Aulas é apenas uma questão do Estado?
Com uma vida inteira dedicada à avaliação neurológica e do neurodesenvolvimento de crianças e adolescentes, me surpreende a superficialidade e a passividade com que a comunidade acadêmica, a mídia e os órgãos estatais vem tratando as consequências graves sobre a saúde, física mental e cognitiva das crianças e adolescentes afastadas das aulas presenciais por mais de 200 dias devido a pandemia do coronavírus.
Quadros de depressão, ideação suicida, crises de ansiedade generalizada, episódios de pânico, violência doméstica, estafa parental (para variar sobrecarga maior das mulheres que assumem para si o ônus das tarefas escolares junto à necessária continuidade profissional presencial ou em home-office), além da acentuação da alienação digital das crianças e adolescentes com adição a jogos e internet, por falta de alternativas lúdicas, são algumas das queixas diárias que abordamos no dia a dia dos consultórios neurológicos e psiquiátricos. Sem falar na falta de orientação e planejamento de programas de ensino a distancia totalmente desvinculados das condições neurobiológicas, sociais, familiares e cognitivas das crianças, tanto com desenvolvimentos típico e principalmente nos casos atípicos como as crianças com deficiência intelectual, dislexia, discalculia, transtorno do espectro autista, transtornos psiquiátricos, que necessitam inclusão, tutoria e parceria contínua de redes interdisciplinares para além dos limites da escola.
Se a necessidade de isolamento social para diminuir o contágio, risco de morte de suscetíveis é uma realidade global que envolve investimento, planejamento e medidas restritivas regulamentadas e inspecionadas a escola não pode ser vista apenas na sua condição de localidade institucional regulada pelo Estado, mas como epicentro crítico para a reflexão, diálogo e troca, na interface família e comunidade, onde conhecimentos, diálogo, experiências cognitivas e lúdicas são o fundamento vivo de na formação de pessoas críticas, não apenas informadas mas que se apropriam do conhecimento com autonomia, criatividade e autoria de pensamento. O período do ensino infantil, é a fase de maior plasticidade cerebral e comportamental, onde a criança treina seu corpo, seus sentidos (visão, audição, percepção táctil, proprioceptiva incluindo o movimento. É também um dos período dos mais sensíveis para o desenvolvimento da percepção do outro, do sentido de solidariedade e empatia. Nesta fase, a criança, a partir da percepção sensorial, modela e esculpe esquemas motores e executivos que dão corpo e linguagem orgânica ao aprendizado, o que em neurociência denominamos de cognição corporif**ada (embody cognition). De que maneira a falta de tutores, parques, arte, contadores de estórias, atividades corporais e esportivas tem impacto negativo, às vezes de maneira permanente sobre o neurodesenvolvimento saudável, é um questionamento importante que precisa ser respondido por aqueles que pregam a permanência de escolas e creches fechadas sem esquemas alternativos para as crianças e para pais estafados e sem alternativas, o que se agrava nas classes sociais mais desfavorecidas que não tem uma pasárgada (casa de campo ou no litoral) para diminuir o confinamento dos corpos e mentes de seus filhos pequenos. A educação digital neste período também é absolutamente inef**az pois as crianças nesta fase ainda não tem amadurecimento das estruturas neurais de sustentação da atenção, o que torna o estímulo online não apenas pernicioso, com pessoas cantando, pulando enquanto crianças pequenas perplexas ignoram um show de horrores de adultos infantilizados que para dizer o mínimo é surrealista. A pré-escola é um período fundamental na consolidação dos pré-requisitos para alfabetização, importante para que a criança se aproprie de processos simbólicos fundamentais para a construção de sua identidade linguística, racional e reflexiva. De que maneira a falta de estímulos adequados ou a substituição de plataformas de ensino, fundamentadas na estrutura sonora das palavras (alfabetização fônica), é amputada ou simplif**ada pelos processos digitais que dão ênfase para a imagem das palavras e para o imediatismo, acentuado pela rapidez do processamento de máquina (no qual o visual impera sobre o auditivo). Se os nossos jovens no Ensino Médio já estão mais familiarizados com a interface digital, a necessidade de troca com pares e de atividades esportivas compartilhadas são fundamentais para o equilíbrio psicológico dos adolescentes em uma fase que biologicamente se tornam mais entediados e desafiantes. A expressão de transtornos internalizantes (ansiedade, depressão, fenômenos dissociativos) e externalizantes (agressividade e transtorno opositor) neste período de pandemia tem assumido prevalências para dizer no mínimo alarmantes.
Neste sentido, profissionais de saúde e educação, sociedade civil, comunidade de pais zelosos, terceiro setor responsável, devemos nos posicionar pela questão da agenda educacional como prioridade e lançar à sociedade alternativas viáveis de troca, convivência presencial responsável, para além da interface digital, ainda pouco acessível a população de baixa renda. Até o momento o Estado tem-se mostrado passivo, alheio a questões que não interferem no jogo medíocre de poder populista e canhestro. Um Estado embrutecido, que desvaloriza a educação e a cultura de seu povo, alimenta-se e perpetua-se pela desinformação. É preciso dar um basta.
A questão da Escola é uma prioridade da comunidade brasileira, de cidadãos conscientes de que as transformações necessárias para modif**ar este mundo depende do preparo educacional de nossas crianças, que terão que se preparar através da cultura, parcerias e também da alfabetização digital, para lidar com as adversidades e desafios deste mundo em transformação, o que exige proatividade, conhecimento, respeito à ciência e à cultura e oportunidade de pertencimento. Nossa apatia, embora compreensível, é neste momento absolutamente nociva para o fortalecimento da identidade cultural, mental e cognitiva de nossos filhos.
Mauro Muszkat