As eleições presidenciais e estaduais de 2014 trouxeram à vista aspectos da conjuntura política brasileira que impõem análises mais detalhadas e cuidadosas que ajudem a compreender a dinâmica em curso, as forças atuantes, as disputas que estão em jogo e para onde apontam essas tensões. Do ponto de vista político, o horizonte de valores do campo das esquerdas – igualdade, solidariedade, sustentabilidade, justiça social, controle sobre o capital, liberdade de informação - tem sido contestado tanto pela direita tradicional como por grupos que ocuparam posições de centro. As denúncias de corrupção têm fortalecido visões autoritárias que desqualificam em bloco as atividades político-partidárias e desacreditam os valores que sempre orientaram a atuação pública do campo da esquerda. Do ponto de vista social, a mobilidade que reduziu a proporção de pobres e miseráveis no país parece não ter sido bastante para,de modo definitivo, afastar desses grupos o fantasma da vulnerabilidade nem para traduzir sua presença no campo político com a adesão aos valores que demarcam o campo da esquerda. Do ponto de vista econômico, os desdobramentos da crise econômica de 2008 fortaleceram a concentração do capital, modificaram o cenário mundial fragilizando a capacidade das economias emergentes de fazer frente a essas consequências. No Brasil a disputa do sentido, tamanho e direção dos ajustes impostos levaram à constituição de uma equipe econômica de governo com perfil conservador, colocando em risco processos importantes como a política de valorização do salário mínimo, garantia dos direitos dos trabalhadores e a distribuição de renda e riqueza. Neste cenário, a concentração da mídia nas mãos de poucos grupos de orientação política conservadora e reacionária restringe a liberdade de opinião e de expressão, oferecendo visões unilaterais dos desafios e conquistas recentes. Emergem na sociedade com maior força e visibilidade valores e práticas conservadores e arcaicos que reagem a conquistas em diversos campos como os direitos das mulheres, das populações LGBT, dos povos indígenas, as políticas cotas e ações afirmativas, entre outros. O cenário é de incertezas quanto ao futuro e de convicção de que no presente está se encerrando um ciclo político, econômico e social cujos resultados positivos podem ser derrotados no desenrolar da luta que se anuncia para o novo quadriênio. É preciso conhecer melhor e compreender a dinâmica que se dá entre a sociedade e o estado no Brasil: nem o estado será o condutor autônomo de processos de mudança necessários em favor de maior igualdade, liberdade e respeito a direitos, nem a sociedade estará indiferente a esses processos, ora atuando para deter, ora para incentivar avanços tendo em vista um horizonte de valores do campo da esquerda. Os temas a serem tratados nos debates devem ter a característica de contribuírem para a compreensão dos processos em que “a estrutura se revela na conjuntura”, de modo a permitir a visão de dinâmicas estruturais da sociedade brasileira em tempos de (in)determinação da política. No debate inicial ficou claro que as lutas por “reformas de base” dos anos 60 ainda tem atualidade: reforma agrária, reforma tributária, reforma política, reforma urbana, entre outras. Na escolha dos temas, levar em conta a atualidade, pertinência e capacidade de mobilizar pessoas para o debate a reflexão.