18/02/2026
Legitimidades em disputa: uma leitura sociológica sobre a Grande Rio e o efeito Virgínia
O debate recente em torno da presença de Virgínia Fonseca como rainha de bateria na Grande Rio reacendeu uma discussão antiga no Carnaval: afinal, o que legitima alguém a ocupar um posto simbólico em uma escola de samba?
Escrevo a partir de um lugar assumidamente parcial. Desfilei pela Grande Rio e, quando decidi integrar a escola, em novembro/dezembro do ano passado, estava completamente alheia a qualquer polêmica envolvendo a influenciadora. Meu primeiro impulso, confesso, foi aderir à visão mais clássica: aquela que valoriza a trajetória comunitária como principal critério de legitimidade.
No entanto, a experiência concreta de frequentar barracão e quadra duas vezes por semana ampliou meu olhar. O ponto de inflexão veio de um comentário simples, mas revelador: a amiga de 15 anos do meu filho disse que estava torcendo pela escola justamente por causa da Virgínia. Ali percebi que havia algo sociologicamente relevante acontecendo.
O Carnaval sempre operou com uma forte legitimidade comunitária, construída pela história, pelo pertencimento e pela dedicação de quem faz a escola o ano inteiro. Essa continua sendo a espinha dorsal do samba e não deve ser relativizada.
Mas o cenário contemporâneo adiciona outras camadas. A presença de uma figura com enorme alcance digital produz uma legitimidade de projeção: novos públicos se aproximam, jovens passam a acompanhar a escola e a marca da agremiação ganha visibilidade fora dos círculos tradicionais do samba.
Há ainda uma dimensão pragmática, frequentemente silenciada, mas real: a sustentabilidade. O desfile é uma operação cultural complexa e cara. Quando visibilidade e capacidade de investimento ajudam a viabilizar o espetáculo, surge uma legitimidade ligada ao fortalecimento institucional.
Nenhuma dessas legitimidades anula a outra. Elas coexistem, por vezes em tensão. A controvérsia, portanto, não é apenas sobre uma pessoa, mas sobre qual modelo de pertencimento queremos priorizar em um Carnaval cada vez mais profissionalizado e midiático.
Minha leitura, construída a partir da vivência recente na escola e da observação dess