Impasses da Prática

Impasses da Prática Nosso objetivo é disponibilizar um canal/espaço de acolhimento para a escuta das questões e dificuldades enfrentadas pelos profissionais da educação.

O ponto de partida para este projeto de extensão, criado pelas professoras Lucia Perez e Sandra Albernaz Ambas docentes da Faculdade Federal do Estado do Rio de Janeiro UNIRIO , foi o relato de um professor, recém-graduado em pedagogia pela UNIRIO, que se encontrava desalentado com as dificuldades encontradas no desafiante processo de assumir seu papel de professor em sala de aula. Dada a problemática em torno dos conflitos que surgem na trajetória de vários professores, estamos desenvolvendo um projeto que tem por objetivo disponibilizar um canal/espaço virtual de acolhimento para a escuta das questões e dificuldades enfrentadas pelos profissionais da educação, principalmente esses que estão iniciando sua prática profissional e que entram em ’’choque’’ com a realidade da prática escolar. O trabalho de escutar os conflitos enfrentados por professores será nossa fonte permanente de pesquisa e estudo. Inspirando-nos, primordialmente, nas teorias da psicanálise, trabalhamos com o que podemos chamar de uma escuta sensível, colocando-nos a disposição de escutar a ‘’dor’’ do outro. Buscamos despertar questionamentos pela convocação ao ato de associação, movimento que pode contribuir para que o profissional em crise construa uma elaboração, a partir de sua experiência, saindo da condição de vítima, na busca e luta pela superação de seus conflitos e dificuldades. Pretendemos, com essa pesquisa, levantar dados que convoquem a universidade a trabalhar sobre as dificuldades enfrentadas pelos educadores, tendo como premissa básica que o ato de ouvir os educadores abre possibilidades para que a aposta na educação possa ser permanentemente renovada. Equipe :

Coordenadoras
Lucia Maria de Freitas Perez
Sandra de Medeiros Albernaz

Bolsistas UNIRIO
Ana Cristina Franca Moledo
Paloma Trevizani Salgueiro


Corpo Freudiano
Leila Martins Farias
Márcia Cristina do Nascimento
Roberta Duarte dos Santos
Rubens Braga de Lima
Sonia Regina Magalhães

AMÉLIA COHN*O que está em jogo nessas eleições?15/ 9/ 2026Os tempos andam conturbados. Propositalmente conturbados por a...
16/09/2026

AMÉLIA COHN*
O que está em jogo nessas eleições?
15/ 9/ 2026

Os tempos andam conturbados. Propositalmente conturbados por aqueles que apostam na discórdia, nos privilégios para poucos e na exclusão de muitos, no conflito social e na destruição da ordem democrática. Enquanto isso, o governo Lula e seus aliados apostam em políticas inclusivas, a começar pelos mais vulneráveis, e em medidas econômicas voltadas ao desenvolvimento econômico do país com inclusão social. Isso é óbvio, mas o óbvio não pode ser esquecido. Ensina a história.

Que está em jogo nessas eleições? Nossa sociedade está fraturada, segmentada por distintos interesses de distintos grupos sociais, mas sobretudo por radicalidade daqueles que se utilizam de redes, de púlpitos e do parlamento para a defesa de seus interesses imediatos. Outra obviedade. Mas aí é que reside o pulo do gato.

Na condição de pesquisadora e docente que fez carreira no ensino público e que atuou no movimento da reforma sanitária brasileira e participou do Programa Bolsa Família nos seus dois primeiros anos, sou testemunha de que a busca dos governos Lula sempre foi a de implementar políticas públicas que promovessem a cidadania dos mais vulneráveis, seja na inclusão educacional até o nível universitário, na ampliação do acesso à saúde e à habitação e em programas e políticas econômicas que produzam vagas de trabalho.

Claro que tudo isso sob o torniquete da manutenção da política de juros elevados para pagamento da dívida pública, um dos mecanismos que promovem a financeirização das políticas socias. Mais que isso, num ambiente político que no outro extremo do quadro aprova leis que penalizam menores agredidas sexualmente dificultando acesso a serviços de saúde para interrupção da gravidez, que promovem a violência do sistema de segurança pública e até buscam uma legitimidade social, para além de legal, da prática da “justiça pelas próprias mãos”.

Este é o ponto: de um lado, políticas que valorizam e promovem a vida; de outro, propostas que promovem e banalizam a morte, promovem o interesse imediato sem projeto a médio e longo prazo. De um lado, o interesse imediato, de outro o interesse geral, público, garantindo vida para as próximas gerações.

Terceira obviedade: como diz Gabriel, o meu companheiro, da arquibancada eu marco todos os gols. No campo da disputa política a coisa é mais complicada. Então, embora muita coisa pudesse ter sido melhor realizada, isso de modo nenhum pode apequenar ou anular o quanto se avançou na construção de um ambiente democrático e das políticas sociais desde 2003, com Lula, e o quanto se conseguiu destruir desse avanço em apenas seis anos durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Daí o alerta: a construção de uma ordem democrática é demorada, requer coragem, paciência, persistência e luta. E em democracias ainda em construção como a nossa, conquistas na ordem democrática facilmente podem ser desconstruídas e substituídas pela ordem dura e excludente do autoritarismo social e político.

Nesse ambiente de tentativa de uma “togada” que ameaça as instituições democráticas e republicanas na base da ordem democrática, no nível nacional basta um mergulho nos programas de governo dos dois candidatos com maior intenção de votos à Presidência da República. O programa de governo de Lula enfatiza a inclusão social, o desenvolvimento econômico articulado ao desenvolvimento social e, mais que tudo, as políticas públicas de corte social articuladas à formação de cidadãos.

Não se trata apenas da expansão e aprofundamento dos programas e políticas públicas atuais, mas dessas políticas como vetores fundamentais de crescimento e desenvolvimento econômico. É o caso dos investimentos no complexo econômico e industrial da saúde, incorporados à concepção de promoção de crescimento e soberania nacional no setor da saúde. No programa são detalhados subsegmentos de atuação para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) com o objetivo de ampliar a efetivação de seus princípios e diretrizes. Importante ressaltar que não só a saúde da mulher vem destacada – em todos os seus ciclos de vida – como também a expansão da saúde bucal.

Quanto à saúde bucal, é interessante apontar seu aspecto simbólico. Em 1989 participei da elaboração do livro São Paulo: trabalhar e viver, coordenado por Vinicius Caldeira Brandt, publicado pela Editora Brasiliense e financiado pela Comissão de Justiça e Paz de São Paulo. Na ocasião busquei dados sobre acesso ela enquanto política pública, e eram estarrecedores. Nada mais coerente: ainda na transição democrática conservadora, depois de décadas de ditadura, saúde bucal não era importante nem ganhava prioridade. pois não havia políticas de segurança alimentar, e muito menos espaços de expressão dos mais vulneráveis.

Nesse sentido, é significativo que o programa Lula dê destaque à saúde bucal para que os mais vulneráveis socialmente, até muito recentemente calados pelo poder em nossa história, possam ter voz, serem ouvidos e escutados, e possam desfrutar dos programas de combate à pobreza, inclusão social e segurança alimentar. Destaque à saúde bucal simboliza aqui não só a concepção de saúde integral dos indivíduos que orienta o programa de saúde de Lula, como sobretudo a dimensão da construção da cidadania, do bem viver, do viver com dignidade.

Finalmente mais um ponto de destaque, dentre tantos outros, no programa de Lula: a forma como aborda a saúde mental. É dada ênfase à continuidade das propostas da Reforma Psiquiátrica, com expansão dos Centros de Atenção Psicossocial e da Rede de Atenção Psicossocial enquanto instituições públicas e comprometidas com modelos de atenção não confinantes.

Enquanto os pontos aqui destacados revelam a cidadania e a vida como eixo estruturante do programa do futuro governo Lula, o oposto ocorre na proposta de governo do seu oponente mais próximo nas intenções de voto. É um programa que não detalha suas propostas, sempre genéricas e formuladas como grandes intensões de realização sem explicitar como praticá-las.

Assim, do lado diametralmente contrário ao programa de governo de Lula, o programa de governo do candidato da família Bolsonaro parte do eixo estruturante do Estado mínimo. Afirma que “apenas administrar carências é comodismo”, e depois é evasivo, sem apresentar como atingir e implementar propostas próprias. A utilização do termo “carências” aqui é central. Políticas de combate à pobreza e à desigualdade social, em decorrência, constituiriam ações que levam a uma dependência do Estado.

O importante seria a prosperidade e a acumulação de patrimônio. Vale dizer, ações para a qualificação da população para o mercado. Assim, na saúde o objetivo consiste em aprofundar a política de saúde (e isso, mediante a privatização da gestão dos serviços de saúde como vem ocorrendo em massa no estado de São Paulo tendo consequências desastrosas no modelo e na conscientização da saúde como um direito cidadão).

E a proposta da saúde mental? Fala-se em ampliação da rede de serviços, mas sem mencionar como fazê-lo. E o exemplo antirreforma saúde mental está aí como seu antípoda: as comunidades terapêuticas que sem a necessária regulação e o necessário monitoramento praticam o confinamento precário e violento dos doentes mentais, ao invés de indicar ações de tratamento e de reinserção na sociedade.

Nesse programa chamam a atenção não só a proposta de uma redução drástica do gasto público (com impactos não calculados nos gastos públicos a não ser “cortes”), com cálculos não fundamentados, como nas ações de cuidado às pessoas não autônomas custarem 8,5% do PIB, ou nas propostas para a educação.

Neste caso, ao mesmo tempo que se propaga “uma educação orientada para o conhecimento e livre de doutrinação político-partidária respeitando a liberdade de consciência e o papel das famílias”, e que “escola é um lugar de aprender a pensar”, propõe-se a ampliação das escolas cívico-militares que estariam associando disciplina (militar) com desempenho e dedicando aos alunos com altas habilidades (para o mercado) um atendimento especial.

Contradição em termos nessa proposta: já pesquisas mostram que essas escolas, dirigidas por quadros não formados em pedagogia, mas na área militar, têm menor rendimento pedagógico do que as demais. Por outro lado, a prática da disciplina militar já traz consigo uma ideologia – a de uma ordem e hierarquia já estabelecidas, obediência sem questionamentos –, incompatíveis com o lema de “aprender a pensar”, substituindo-o por “aprender a obedecer”.

Não bastasse isso, uma rápida leitura dos títulos do índice desse programa já aponta a proposta truculenta e anticidadã do que seria esse governo antipetista e antidemocrático. Na área trabalhista, a proposta é a regra do “negociado sobre o legislado”; ou quadruplicar a primeira pena para quem rouba celular e ampliar a rede carcerária, na velha concepção de que combater a violência significa produzir mais prisões; e coisas como a castração química para estupradores. E por aí vai a lista de horrores. Tudo isso remunerado por orçamentos elaborados por resultados. Como estamos na área social, para não falar das reformas políticas e institucionais, dentre elas do STF, e claro de extinguir a reeleição, talvez para tentar garantir o retorno do genitor à cadeira presidencial.

O que cimenta e tece tudo isso é não só uma concepção arraigada e radicalmente neoliberal, mas a criação de uma ou várias redes de cuidado, já que o “Estado não pode assumir [o cuidado] mas pode dividir com ela [a família]” esse cuidado”. Propõe-se então uma Rede Nacional de Cuidado, que se entende como compondo a prestação dos cuidados – não especificados quais e como – à sociedade. O termo “cuidado” exige precaução: como no texto todo desse programa não aparece a palavra cidadão, ele estaria destinado às famílias tidas como uma massa composta por unidades indiferenciadas, público alvo de ações do Estado para formar seus componentes enquanto perfis de mão de obra demandadas pelo mercado. Este é que com sua batuta impiedosa determina e define as ações estatais.

Quanto à razão para votar em Fernando Haddad, os motivos são os mesmos para o voto em Lula. Os programas de governo federal e estadual são coerentes entre si, com ênfase nas políticas públicas forjadas pelas matrizes fundantes da justiça social e dos direitos sociais. As políticas de saúde e educação são tidas como estruturantes das ações, bem como o destaque à segurança pública.

A incorporação da Inteligência artificial nas ações do Estado é feita com moderação, mas sem inibições, fazendo com que a prática profissional humanizada (o cuidado enquanto reconhecimento do direito ao acesso a bens públicos essenciais) não seja substituída pela informatizada. A valorização dos profissionais do setor público é pressuposto da qualidade da oferta pública de serviços, a educação em tempo integral é valorizada e a segurança pública é priorizada como área de atuação que demanda coordenação estadual.

Ela é vista como objeto de ações organizadas estrategicamente e não de produção de equipamentos de combate à violência. Já afirmava o mestre Paul Singer, em 1981 no livro Prevenir e curar, que é um enorme equívoco medir o sucesso das ações de combate à violência pelo número de prisões realizadas (punição) e não por ações de prevenção, o mesmo se prestando à saúde: o aumento da rede de serviços de saúde é essencial, no entanto o mesmo vale para políticas e programas (econômicos e sociais) que combatam efetivamente os determinantes sociais da exposição tão desigual da população aos riscos de adoecer.

Com Fernando Haddad no governo estadual de São Paulo e Lula na presidência o SUS e as políticas sociais serão fortalecidas e aprofundadas, numa composição entre desenvolvimento econômico e social inclusiva. O mercado exclui, dada sua própria natureza; em sociedades tão injustas e socialmente tão desiguais, cabe ao Estado democrático prover e ofertar esses serviços essenciais.

Isso significa aprimorar os programas e políticas já existentes apontando-as para o futuro e não para a volta aos períodos do passado recente que redundaram em desconstrução dos avanços na área social como, em decorrência, nas mortes durante a pandemia e na queda violenta da cobertura vacinal, num Brasil reconhecido nacionalmente pela eficiência do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Mas, enquanto a gestão municipal de Fernando Haddad (2013-2016) enfrentou, por exemplo, a questão da Cracolândia de forma exitosa no que diz respeito à adesão e reinserção dos drogaditos ao programa “De Braços Abertos”, a gestão de Tarcísio de Freitas no governo do estado desbaratou de forma violenta a concentração dessa população, não promoveu nenhuma política de reinserção social dessas pessoas e propõe para revitalização do centro paulistano a mudança da sede do governo estadual para a área central.

Na prestação de serviços básicos propõe a privatização, tal como feito com a Sabesp, de outros setores, sem especificar quais nem o montante de recursos envolvidos, e pasme-se: na educação propõe a incorporação pelos curricularistas (os que formulam os currículos escolares, termo até então inédito para mim) da Inteligência artificial.

E dado o vertiginoso aumento da violência contra as mulheres durante seu governo, propõe programas para seu combate, e demais programas como vouchers para creches para as mães poderem trabalhar, e incentivos para as mães empreendedoras para que elas possam prosperar. E, claro, não mais recursos para o sistema público de saúde estadual, mas sim a atualização de um Tabela SUS Paulista (vale dizer, aumentar a remuneração do setor privado paulista da saúde).

E para arrematar, informatizar todos os serviços e o acesso a eles em nome de facilitação para o indivíduo consumidor, sem levar em conta que somos um país em que 1% dos mais ricos detêm 37,3% da renda nacional, segundo dados disponibilizados de forma resumida pela Oxfam.

Assim, a questão do voto, daqui a menos de um mês, não reside em escolhas entre alternativas razoáveis. Mas sim entre uma que respeita e leva em conta os cidadãos brasileiros, a ordem e as instituições democráticas, as formas civilizadas de convivência e a construção da possibilidade do bem viver para a grande maioria da população, e outra que desrespeita a vida, proclama a morte – direta ou indireta – daqueles que não rezam por sua bíblia, ou quiçá mesmo pela pontaria de sua arma ou caneta. Aqueles que votam por uma ordem democrática que respeita a justiça, ou por outra que prega a justiça feita com as próprias mãos.

Eis razões que demonstram que votar em Lula e Haddad é votar pela democracia e pela vida, pelo direito de bem viver!

*Amélia Cohn, socióloga, é professora aposentada da Faculdade de Medicina da USP, docente do Programa de Mestrado em Direito da Saúde da UNISANTA. Autora, entre outros livros, de Cartas ao presidente Lula: Bolsa Família e direitos sociais (Azougue Editora).

[ aterraeredonda.com.br ]

27/08/2026

A IMPRENSA QUER ELEGER FLAVIO BOLSONARO

Vamos ser claros.

Há dois projetos de país em curso: um democrático e outro capaz de destruir qualquer veleidade de construção de uma Nação minimamente civilizada.

Uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro criaria o seguinte cenário:

Subordinação total aos Estados Unidos, na condição de colônia.

Significaria abrir mão de qualquer propósito de industrialização, de avanço tecnológico e de políticas de inclusão. A lógica colonial é a extração de riquezas e de matérias-primas (terras raras, alimentos sem processamento, minérios) para processamento nos Estados Unidos.

Significa fechar definitivamente o mercado de trabalho para os filhos da classe média, com a extinção de postos na engenharia, na indústria e no comércio e destruir as políticas de inclusão dos filhos das classes pobres. Diplomas e cursos universitários não garantirão mais empregos de qualidade.

Campo aberto para o crime organizado.

O país paga até hoje o preço da eleição de Jair Bolsonaro. O mercado financeiro foi tomado pelo crime organizado, pela lavagem de dinheiro e pela sonegação. Não se trata de previsão, mas de fatos concretos. Organizações barra-pesadas assumiram o controle do Congresso. E a falta de limites chegou até o Ministro indicado por Bolsonaro para a Suprema Corte.

A família Bolsonaro está intimamente ligada ao crime organizado, seja à milícia do Rio das Pedras, seja às organizações criminosas que ganharam musculatura nos últimos anos. O caso Cláudio Castro é explícito.

O papel da mídia

O segundo ponto a se analisar é o papel da mídia. Nenhum jornalista, repórter, editor, diretor ou dono de grupo de comunicação tem a menor dúvida de que a equiparação do caso Fábio Luís ao de Flávio Bolsonaro é um embuste ciclópico. Pior: se ajudar na eleição de Flávio, se perpetuará através dos tempos, não poupando diretores de redação, colunistas e editores que se lambuzaram com essa tese.

A hecatombe, de ume eventual eleição de Flávio, será atribuída não apenas aos que sujarem as canetas e teclados com essa manobra, mas àqueles que, antes disso, ajudaram a alimentar o ovo da serpente, da Operação Lava Jato.

Pessoal, não é pouca coisa. Se vocês forem bem-sucedidos nessa manobra de colocar uma organização criminosa no comando do país, responderão não apenas perante a opinião pública, mas perante seus filhos e familiares, que pagarão a conta.

Alguns se safarão indo estudar ou buscar empregos melhor qualificados no exterior. Mas a grande maioria pagará a conta dessa enorme irresponsabilidade de burlar a opinião pública em favor de um miliciano.

Há muitos defeitos a se apontar em Lula, embora grande parte de sua inação se deva à falta de condições políticas, num modelo destroçado pela Lava Jato e pelas redes sociais. Mas ele representa o campo democrático — assim como Fernando Henrique representava, bem como Mário Covas, Franco Montoro, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves.

Apoiando Flávio Bolsonaro com essa manobra, vocês estarão jogando no lixo quarenta e cinco anos de luta democrática e de tentativa hercúlea de erguer um país dos escombros de uma sociedade civil destroçada pela ditadura e por séculos de uma República mal formada.

Estamos prestes a ingressar na mais decisiva luta política da história, aquela que marcará o destino do país, como nação autônoma ou como uma possessão dos Estados Unidos, um Porto Rico com mais riquezas minerais.

O mundo atravessa uma mudança estrutural e colocou o Brasil em uma encruzilhada definitiva: a democracia ou a barbárie.

Às vezes minhas filhas indagam quando pretendo parar. Dá um cansaço, um desânimo. Mundo e Brasil enfrentam um momento de ruptura. As novas tecnologias, a desconstrução das sociedades por uma financeirização feroz e, agora, pela extração de riqueza pelas plataformas, trazem uma enorme incógnita pela frente.

Algumas vezes penso que é hora de parar, de largar a luta, preparar o livro de memórias, aproveitar os anos que me restam.

Aí, me lembro da música de Celso Viáfora, e, a exemplo de Charles Laughton em “Testemunha de acusação”, ligo o computador e volto à luta.

“Pois quando tava me arrumando
Pra ir
Bati com os olhos no luar
E a lua foi bater no mar
E eu fui que fui ficando…"

Luis Nassif

17/08/2026

O Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), localizado no Flamengo (Av. Rui Barbosa, 716), precisa com urgência de doações de potes de vidro com tampa plástica (como os de maionese ou café solúvel) para armazenar leite humano doado.

O instituto oferece coleta domiciliar no RJ.

*Como devem ser os potes*

- *Material:* Vidro transparente e resistente.
- *Tampas:* Plásticas e que rosqueiam bem no pote.
- *Modelos comuns:* Potes de café solúvel ou maionese.

*Onde entregar ou pedir coleta:*
Endereço: Av. Rui Barbosa, 716 - Flamengo, Rio de Janeiro - RJ.
- Telefones: 0800 026 8877
- ou (21) 2554-1703.
- WhatsApp: (21) 98508-6576.

*Coleta em casa:*
O instituto pode buscar os potes na sua residência na cidade do Rio de Janeiro.

29/07/2026

Michelangelo, Sculpture of David. Anatomical details - the veins, tendons, and natural posture of the hand.

MARCELA MARINA PAGANO Deputada argentina que se elegeu por partido de Milei escreve carta histórica a Lula e pede descul...
29/07/2026

MARCELA MARINA PAGANO
Deputada argentina que se elegeu por partido de Milei escreve carta histórica a Lula e pede desculpas em nome do seu povo
28/ 7/ 2026

“O que foi dito não representa a República Argentina”

Buenos Aires, 26 de julho de 2026
Ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil
Senhor Luiz Inácio Lula da Silva
Palácio do Planalto — Brasília, D.F.

Senhor Presidente:

Escrevo-lhe na minha condição de Deputada da Nação Argentina, isto é, como integrante de um dos três poderes do Estado que, em nosso sistema republicano, expressa de maneira direta e imediata a vontade do povo. Não falo em nome do Estado argentino: a condução das relações exteriores cabe ao Poder Executivo, e não pretendo usurpar qualquer competência. Falo em nome da parcela do povo argentino que me confiou sua representação e atrevo-me a dizer, em nome de uma maioria silenciosa que viu com vergonha e dor a forma como, nos últimos tempos, foi tratada a nação amiga que o senhor preside.

Venho lhe pedir desculpas.

Faço isso com o desconforto de quem pede desculpas por algo que não cometeu, mas com a convicção de que há silêncios que acabam se tornando consentimento. Um país que se cala diante da ofensa feita em seu nome torna-se, com o tempo, autor dessa ofensa. Não é o meu caso, e não quero que seja o da Argentina.

I. A distinção que nossos povos sempre souberam fazer.

Permita-me começar pelo essencial. Um Estado não é um governo, e um governo não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos.

O que foi dito não representa a República Argentina. Não representa a sua tradição diplomática, uma das mais antigas e respeitadas do continente. Não representa a sua Chancelaria, seu Congresso, suas províncias de fronteira, seus industriais, suas universidades nem as suas famílias. Representa um homem em um determinado momento. É lamentável — digo isso sem rodeios — o papel institucional que o Presidente da Nação Argentina desempenhou nesse episódio, porque a investidura não é propriedade de quem a exerce: é um empréstimo que o povo faz e que exige moderação.

Mas também sei, Senhor Presidente, que o senhor conhece essa distinção melhor do que ninguém. O senhor foi operário antes de ser presidente; conheceu a fome antes dos palácios; conheceu a prisão e dela saiu sem rancor para governar para todos. Percorreu o mundo e a história em medida suficiente para não confundir uma ofensa pessoal com uma política de Estado.

II. Da rivalidade à fraternidade: duzentos anos de aprendizado.

Nossa amizade não foi um presente da geografia. Foi uma construção trabalhosa e, justamente por isso, tem valor.

Nascemos em lados opostos. Fomos as fronteiras móveis de dois impérios que disputaram durante séculos a foz do Prata: desde Tordesilhas até a fundação da Colônia do Sacramento, desde o Tratado de Madri até as campanhas na Banda Oriental. Fomos, depois da independência, adversários em uma guerra que terminou, em 1828, com a criação de um Estado-tampão entre ambos. E também compartilhamos a memória incômoda de uma aliança bélica sobre a qual a história americana tem sido severa — e com razão.

Entrado o século XX, a rivalidade assumiu a forma de uma corrida naval: o Brasil lançou seus encouraçados, e a Argentina respondeu com os seus. Dois países pobres, com povos que careciam de escolas e hospitais, gastando fortunas em blindagens destinadas a apontar umas para as outras. É a imagem mais eloquente do que acontece quando duas nações irmãs escolhem a desconfiança.

E então começamos a aprender.

Aprendemos em 1979, quando a disputa pelo aproveitamento do rio Paraná — Itaipu e Corpus —, que durante anos pareceu insolúvel, encontrou seu caminho no Acordo Tripartite. Dois países que discutiam a água descobriram que a energia compartilhada rendia mais do que o litígio.

Aprendemos em 1982, e nós, argentinos, não esquecemos nem esqueceremos jamais. Quando a Argentina rompeu relações com o Reino Unido, foi a República Federativa do Brasil que assumiu a representação dos interesses argentinos em Londres. Na hora mais sombria da nossa história contemporânea, quando enterrávamos nossos filhos no Atlântico Sul, o Brasil esteve ao nosso lado. Não com declarações: com fatos. Há dívidas que um país nunca quita, e essa é uma delas. Eu a reconheço hoje, em nome dos que a lembram e dos que a ignoram.

Aprendemos, sobretudo, em 1985. Quando ambas as nações recuperaram as suas democracias, Raúl Alfonsín e José Sarney encontraram-se em Foz do Iguaçu, sobre a ponte que leva o nome de Tancredo Neves, e assinaram a Declaração que deu início à integração. Aquilo não foi um acordo comercial: foi uma decisão civilizatória. Dois países que haviam passado um século e meio medindo forças decidiram que a sua segurança nunca mais dependeria da fraqueza do outro.

Dali surgiu o Programa de Integração e Cooperação Econômica de 1986, o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento de 1988 e uma obra que o mundo inteiro estuda e que nenhum outro par de nações conseguiu realizar: a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC). Dois Estados com programas nucleares avançados renunciaram voluntariamente à desconfiança mútua e se abriram à inspeção recíproca. Ninguém nos impôs isso. Nós decidimos. Em um planeta que hoje volta a falar a linguagem da proliferação e da ameaça, a ABACC continua sendo o melhor argumento moral que a América do Sul pode apresentar ao mundo.

E dali surgiu, em 1991, o Tratado de Assunção. O Mercosul, com todas as suas imperfeições — que são muitas e que, como legisladora, não me cabe dissimular —, é a tradução institucional de uma ideia simples: o destino dos nossos povos se decide junto, ou não se decide.

Esse é o patrimônio, Senhor Presidente. Duzentos anos para passar dos encouraçados às inspeções recíprocas. Nenhuma frase pronunciada no calor de um momento pode ter autoridade para dilapidá-lo.

III. Porque somos parceiros: a economia dos fatos.

Quem acredita que as relações internacionais são uma questão de simpatias ideológicas jamais examinou uma planilha de comércio exterior.

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina. Não um entre muitos: o primeiro.

Nosso intercâmbio bilateral é medido em dezenas de bilhões de dólares anuais e sustenta uma rede produtiva que nenhuma outra relação externa consegue reproduzir.

E aqui está o ponto decisivo, aquilo que distingue o Brasil de todos os demais destinos: é o mercado que compra da Argentina aquilo que a Argentina fabrica. Para outros mercados vendemos grãos, minerais e energia; bens valiosos, mas que não exigem operários qualificados, engenheiros nem cadeias de fornecedores. Ao Brasil vendemos automóveis, autopeças, máquinas agrícolas, produtos químicos e plásticos, alimentos industrializados, medicamentos. Vendemos, em suma, trabalho argentino com valor agregado.

A indústria automobilística é o exemplo mais evidente: a esmagadora maioria dos veículos que a Argentina exporta tem um único destino, e esse destino é o Brasil. Cada operário de Córdoba, Zárate, El Palomar ou Santa Fé tem seu emprego ligado a essa corrente. Quando a relação bilateral esfria, não é uma abstração diplomática que esfria: esfriam linhas de montagem, desligam-se turnos, esvaziam-se os refeitórios das fábricas.

E trata-se de um comércio de mão dupla. A Argentina também é um mercado central para a indústria brasileira, para sua produção de bens de capital e de consumo durável. Somos, um para o outro, aquilo que nenhum parceiro extrarregional pode ser: o cliente que compra manufaturas, o vizinho que compra trabalho.

A isso se somam a passagem fronteiriça terrestre mais movimentada da América do Sul, em Paso de los Libres-Uruguaiana; uma integração energética construída ao longo de décadas; e o fato, nada desprezível, de que os argentinos são, ano após ano, o principal contingente de visitantes estrangeiros do Brasil, enquanto milhões de brasileiros escolhem nossas montanhas e nossas cidades.

IV. E por que, além disso, somos irmãos.

Mas seria mesquinho reduzir tudo isso a um balanço comercial. Há algo que vem antes dos números.

Há famílias argentinas com sobrenomes brasileiros e famílias brasileiras com sobrenomes argentinos. Há médicos formados em nossas universidades atendendo no Brasil e estudantes brasileiros que se graduam em Buenos Aires, Córdoba e La Plata. Há uma fronteira de mais de mil quilômetros onde a nacionalidade se dilui no cotidiano, onde o chimarrão cruza em uma direção e o café na outra. Há uma música que atravessou o rio sem pedir licença a ninguém. Há uma rivalidade futebolística que é, na verdade, a forma mais honesta e mais alegre que dois povos encontraram para dizer que precisam um do outro.

Não há dois países no mundo que compitam com tanta paixão e, ao mesmo tempo, se queiram com tanta naturalidade.

V. O pedido.

Por isso, Senhor Presidente, este é o coração da minha carta.

Peço-lhe desculpas em nome dos argentinos e das argentinas que não se reconhecem nessas palavras, e que são muito mais numerosos do que se imagina.

E peço-lhe algo mais, apelando à sua experiência, à sua trajetória e à visão geopolítica que o mundo lhe reconhece: deixe isso passar.

Sei o que estou pedindo. Peço magnanimidade, que é a mais difícil das virtudes políticas, porque exige que quem tem razão renuncie a cobrá-la. Mas também sei que a magnanimidade é exatamente aquilo que distingue um estadista de um governante. Os governantes administram agravos; os estadistas administram séculos.

As ofensas de um homem não devem transformar-se na política de um Estado. O agravo de um único dia não deve determinar o rumo de duas nações que levam…

…duzentos anos aprendendo a gostar um do outro. Se isso se cristalizar, não pagará quem o provocou: pagarão o operário da fábrica de autopeças, o produtor das missões fronteiriças, o estudante, o caminhoneiro que cruza a ponte ao amanhecer, o pequeno empresário de ambos os lados do rio. Pagarão pessoas que jamais disseram uma palavra ofensiva contra ninguém.

Nossos povos fizeram bem o seu trabalho. Construíram confiança onde havia desconfiança, integração onde havia fronteira armada, inspeção recíproca onde havia suspeita nuclear. Não permitamos que a imperícia de uma conjuntura desfaça a obra de gerações.

VI. Compromisso.

Não venho apenas pedir. Comprometo-me, no âmbito que me corresponde, a trabalhar pela reconstrução do vínculo: na Câmara dos Deputados da Nação, no diálogo interparlamentar, na agenda do Parlasul e em cada instância em que a diplomacia legislativa possa reparar o que a diplomacia presidencial danificou. Os parlamentos existem, entre outras coisas, para isso: para sustentar os povos quando os governos os descuidam.

A Argentina continuará existindo depois deste governo, assim como o Brasil continuará existindo depois do seu. É a essa Argentina permanente — a de Foz do Iguaçu, a da ABACC, a que não esquece quem a representou em Londres em 1982 — que pertenço e em cujo nome lhe escrevo.

VII. Palavras finais.

Há quarenta anos, dois presidentes apertaram as mãos sobre uma ponte. Nenhum dos dois está mais vivo. Mas a ponte continua ali, e todos os dias por ela passam caminhões carregados de trabalho, ônibus cheios de estudantes, famílias que vão conhecer seus netos do outro lado. Essa ponte é mais forte do que qualquer insulto, porque não foi construída por um governo: foi construída por dois povos que decidiram deixar de temer um ao outro.

Eu acredito, Senhor Presidente, que as nações se conhecem de verdade nas horas difíceis. O Brasil conheceu a Argentina em 1982 e não lhe soltou a mão. Peço que também não a solte agora, quando a ofensa veio, dolorosamente, da nossa própria casa. Os povos nem sempre escolhem os governos que merecem, mas sempre merecem algo melhor do que pagar por seus erros.

Algum dia este episódio será uma nota de rodapé na grande história de nossos dois países. Depende do senhor, em boa medida, que seja apenas isso: uma nota de rodapé. E depende de nós, argentinos que não nos resignamos, demonstrar-lhe que do outro lado do rio continua vivendo o povo irmão de sempre, aquele que chora suas derrotas futebolísticas, celebra seus carnavais e jamais esquece quem o acompanhou quando estava sozinho.

Que Deus guarde o povo brasileiro. Que a história nos encontre, como em Foz do Iguaçu, do mesmo lado da ponte.

Receba, Senhor Presidente, juntamente com minhas desculpas, o testemunho da minha mais alta consideração e do sincero afeto que o povo argentino dedica ao povo brasileiro.

MARCELA MARINA PAGANO
Deputada da Nação Argentina

Endereço

Rio De Janeiro, RJ

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