17/05/2020
“MUITOS SERÃO CHAMADOS, POUCOS SERÃO ESCOLHIDOS”
(Jesus)
Imagine que você esteja coordenando a formação de uma equipe de guarda-vidas para uma praia dessas e que um dos candidatos te diga: “Quero ser salva-vidas. Não sei nadar.”
Como assiiiimm?!
A realização de um trabalho exige aptidão para o mesmo trabalho, correto?
“Sou cirurgião, tenho Parkinson, minhas mãos tremem.”
Você entrega o teu apêndice?
Eu não.
Um esclarecimento: O coordenador da equipe de guarda-vidas não precisa perguntar ao afogado se ele sabe ou não sabe nadar. O salvamento tem que ser indiscriminado! Mas o salvador tem que dispor de habilidades. Há uma diferença entre o que se espera da pessoa a ser socorrida (a rigor, nada) e o que se espera da pessoa que socorre: Condição para poder socorrer.
Concordou até aqui?
Que bom.
Uma liderança religiosa TEM QUE SABER o que pretende para o trabalho sob a sua responsabilidade. Lideranças religiosas não podem atirar à esmo. Se não houver foco, propósito, projeto, direção definida... não serve para liderar. E se a liderança tem consciência de sua própria intenção, vai acolher em sua “equipe” pessoas que sejam habilitadas para (e afinizadas com) tal intenção. Se o líder quer o rumo do Norte, mas formou uma equipe que ama o Sul, selecionou mal. Liderança deficiente.
Em Umbanda, meu Norte, lidamos, vou dizer assim, com dois tipos de “público”:
Temos o pessoal da Assistência; irmãs e irmãos que buscam em nossas casas um parâmetro, uma referência... um socorro. Por favor, EU NÃO QERO SUPERIDENTIFICAR ESSAS PESSOAS COM A ANALOGIA DOS AFOGADOS que mencionei parágrafos acima, mas é fato que não são poucas as pessoas que nos buscam como um último recurso; e, não esqueça, quando se trata de socorrer, nenhuma exigência é feita ao socorrido. O socorro é indiscriminado, tem que ser. As portas de uma casa umbandista estão abertas, sem seleção, a quem quer que busque ajuda.
Lá vai clichê: “Fazer o bem sem olhar a quem.”
Mas...
Quem quer fazer o bem vai ter que ser olhado, sim.
Um trabalho exige aptidão de quem pretende realizá-lo. E aí vem o segundo “público”; o Corpo Mediúnico.
Os médiuns de uma casa umbandistas são a efetiva “equipe” da liderança; e se a liderança sabe o que quer, espera-se que saiba, terá que selecionar um grupo de trabalho que esteja apto à cooperação com tal propósito. Assistência a gente não seleciona; Corpo Mediúnico, seleciona, sim.
O problema, segundo penso, é que os nossos critérios de seleção são muito rasos. Regra geral, o que esperamos dos médiuns que trabalham sob a nossa orientação é que sejam... médiuns! Não faz animismo, não dá ekê, ponto riscado confirmou, ótimo; seja bem-vindo! Se não fugir da faxina depois da gira, melhor ainda!
Quase não nos importamos com o aparelhamento ÉTICO do rapaz que quer entrar para a casa. Quase nos esquecemos de saber que tipo de marido é o cara que recebe o Pai Benedito. Quase não questionamos o porquê de a moça da Sete Saias ser uma filha tão chata. E isso é grave! Em Umbanda, a “habilidade” ética é tão inegociável quanto as mãos firmes do cirurgião.
Queremos médiuns perfeitos? Nããããooo!
Queremos médiuns que estejam rigidamente comprometidos com o projeto de aperfeiçoarem-se!
Quem é o médium que “sabe nadar”? É aquele que genuinamente ama o ser humano. Entenda o que pretendo comunicar: Ser médium é fácil, nós já nascemos assim; difícil é amar as pessoas. Por isso, a propósito, muita gente desiste. E o que eu não entendo é tanta gente que não ama as “gentes” formando o Corpo Mediúnico de uma casa de fé.
Quem não ama as pessoas que vê não amará a Aruanda que não vê. (1João 04: 21 – paráfrase)
“Aaahhh, mas eu sou sacerdote, eu não posso discriminar...”
Errado, irmão. Você não discrimina a Assistência, mas o Corpo Mediúnico que você lidera tem que ser selecionado. Que energia espiritual você quer para o trabalho que te coube? A qualidade do Corpo Mediúnico sob a tua coordenação vai definir o sucesso ou...
Os tempos são estranhos, sabe? Hoje, além de saber se o ponto riscado confirma e se o “caboco” não trepa no Santo, penso que algumas perguntas eticamente importantes deveriam ser feitas aos “candidatos à vaga de guarda-vidas”:
- Você é contra ou a favor da pena de morte?
- Você pensa que pessoas marginais, bandidos, têm direito à defesa, a um julgamento justo e, se condenadas, têm a obrigação de cumprir suas p***s, ou acha que poderiam ser sumariamente executadas?
- Nessa época de pandemia, você guarda com cuidado as precauções da quarentena, ou segue vivendo normalmente, sem levar a sério o risco de ser contagiado... ou de contagiar outras pessoas?
- Você apoiaria um projeto social, ou familiar, ou político, ou empresarial baseado em objetivos discriminadores e descomprometido com os direitos e a dignidade das minorias?
As respostas a tais perguntas distinguem com acurácia quem realmente ama o humano de quem ap***s dá de ombros e pergunta: E daí?
Assistência? A gente acolhe, sem discriminação.
Mediunidade? É vocação, é chamado.
Corpo Mediúnico? É seleção, é escolha.
Usei a primeira pessoa do plural em alguns momentos, mas não sou zelador. Um monte de gente pensa que eu sou. Me chamam de Pai, me pedem a benção e tals. Sempre que posso, explico: Não sou zelador.
Mas se eu fosse, se eu fosse...
As respostas àquelas perguntas definiriam cristalinamente bem quem trabalharia ou não sob a minha responsabilidade.
“Filho, faz uma coisa: Pega lá o fio de contas que você esqueceu na última gira e procure outro Terreiro. Comigo você não trabalha. Na minha casa você não fica.”
Liderança... Sacerdócio.
Marcos Andrade é professor de História e de Filosofia. Também é compositor e artista plástico. Recentemente, lançou pela Editora Metanoia, selo Namastê, o livro A Fé Ainda Me Leva. Mas o que ele gosta mesmo de dizer é que é médium de Rei Congo.