24/12/2023
O Studiolo deseja a todos e a todas um Feliz Natal!
Natividade. Encáustica sobre madeira, século VI. Monte Sinai, Mosteiro de Santa Catarina
A Natividade de Cristo é um dos temas mais difundidos na história da arte, sendo representado já desde os primeiros séculos da era cristã – como a pintura mural na catacumba de Priscilla, em Roma. Um dos exemplos mais antigos é o ícone preservado no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, que nos apresenta a cena de acordo com a tradição iconográfica consolidada:
O que primeiro chama atenção é o fato do nascimento ocorrer em uma gruta, e não em um estábulo. Embora não haja menção a isso nos textos escriturais, essa tradição remonta aos primeiros séculos e, simbolicamente, antecipa o túmulo em que Jesus será sepultado após a crucificação.
Na parte superior do painel vemos quatro anjos; três deles apontam para a Estrela de Belém ao centro, colocada sobre um facho de luz que, vindo do céu, segue até o Menino Jesus. O quarto anjo, voltado para baixo, parece gesticular em direção a três homens que se encontram na faixa mediana da pintura, como se quisesse lhes chamar a atenção para a estrela no céu – são os Reis Magos.
Na parte central do painel encontra-se Maria que, deitada, apresenta o Menino Jesus na manjedoura. Ele está envolto em faixas, aludindo à sua futura Paixão, e é observado pelo boi e pelo b***o – sua presença no nascimento de Cristo refere-se à profecia de Isaías 1, 3: “O boi conhece o seu possuidor, e o a**o, o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento”. Ao lado da manjedoura, vemos os três Reis Magos que se aproximam, trazendo os presentes para a criança.
Por fim, na faixa inferior da pintura temos os pastores com seu rebanho, e vemos São José em meditação – o Protoevangelho de Tiago afirma que, após o nascimento, ele deixa a gruta angustiado e em dúvidas.
Ao lado de José, por fim, vemos duas aias que banham o Menino Jesus, que aparece, portanto, duas vezes. Esse detalhe iconográfico indica que Jesus teria realmente nascido como homem, e não simplesmente surgido como um ser humano (conforme defendiam algumas correntes heréticas dos primeiros séculos). Afinal, todo parto implica humores e a necessidade de higienização do recém-nascido. Gerado, portanto, e não criado, conforme recitado no Credo.
A Natividade de Cristo foi representada seguindo esse modelo tanto no Oriente como no Ocidente. Na Europa ocidental, a gruta eventualmente foi substituída pelo estábulo, e a cena foi gradualmente se tornando mais naturalista e afetiva – de que é exemplo o afresco da Natividade pintado por Giotto na Capela Scrovegni no início do século XIV. A iconografia muda radicalmente no Ocidente em meados do século XV, com a difusão das visões de Santa Brígida da Suécia. Nas igrejas ortodoxas, o tema continua sendo representado do modo tradicional até a contemporaneidade.
Referências:
KALOKYRIS, Constantine D. “The Erasure of the Bathing Scene from Some of the Frescoes of the Holy Mountain”. https://www.academia.edu/35757089/The_Erasure_of_the_Bathing_Scene_from_Some_of_the_Frescoes_of_the_Holy_Mountain_1
LOURENÇO, Frederico. Evangelhos apócrifos: Gregos e latinos. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2023
https://www.orthodoxroad.com/nativity-icon-explained/
https://www.christianiconography.info/nativity.html