Professor Eleilçon A. Corrêa

Professor Eleilçon A. Corrêa

Compartilhar

Contatos apenas pelo WHATSAPP 21 992539554 ou 21 979896126

Vc pode tirar dúvidas escolares nas disciplinas de Português, Literatura, História e Administração, bem como efetuar consultas jurídicas, tudo de forma inteiramente gratuita.

16/06/2026

Traoré, JK e a velha estrada da História.

Outro dia, assistindo a um vídeo sobre Burkina Faso (África), fiquei pensando numa frase que muitos brasileiros mais antigos conhecem: "Governar é construir estradas." Costuma-se associá-la ao presidente Juscelino Kubitschek, o famoso JK, homem que sonhou ligar o Brasil por rodovias e erguer Brasília no coração do país.
Foi então que me veio à mente uma comparação curiosa.
Será que Ibrahim Traoré, jovem presidente de Burkina Faso, na África, estaria seguindo uma lógica parecida?
Antes que alguém me acuse de estar distribuindo medalhas ou retirando-as de quem quer que seja, convém lembrar: a História não é tribunal de redes sociais. O historiador deve desconfiar tanto dos elogios exagerados quanto das críticas apaixonadas.
Traoré chegou ao poder por meio de um golpe militar em 2022. Isso é um fato. Outro fato é que, desde então, ele vem defendendo um discurso de soberania nacional, valorização dos recursos internos e redução da dependência de empresas estrangeiras.

Até aí, nada de extraordinário. Muitos líderes já disseram a mesma coisa.
O que chama a atenção é a forma como ele procura materializar esse discurso. Segundo informações divulgadas pelo próprio governo e amplamente reproduzidas em vídeos e reportagens confiáveis, milhares de quilômetros de estradas estão sendo construídos ou planejados com uso intensivo de equipamentos estatais e mão de obra local.

E aí me recordo de outra velha ideia brasileira: "integrar para não entregar".

O lema foi muito associado ao Projeto Rondon e a diversas iniciativas de ocupação e integração territorial do Brasil. A lógica era simples: um país que não conhece seu próprio território acaba perdendo o controle sobre ele.
Estradas, nesse sentido, não são apenas faixas de asfalto. São caminhos para escolas, hospitais, comércio, circulação de pessoas e fortalecimento da presença do Estado.

Talvez seja exatamente essa a aposta de Traoré.
Mas é aqui que o Professor de História precisa entrar em cena para atrapalhar a festa dos entusiasmados.
As fotografias mostram rodovias bonitas. Os vídeos mostram máquinas trabalhando. Os discursos falam em eficiência e economia. Contudo, ainda sabemos relativamente pouco sobre aspectos fundamentais: qual é a qualidade técnica dessas obras? Qual será sua durabilidade? Como serão mantidas daqui a dez ou vinte anos? Quanto realmente custaram?

A História tem um defeito terrível para quem gosta de respostas rápidas: ela exige tempo.
Muitos governantes inauguraram obras grandiosas que se transformaram em ruínas poucos anos depois. Outros foram criticados durante a execução de seus projetos e acabaram reconhecidos décadas mais tarde.
Por isso, talvez a pergunta correta não seja: "Traoré é um herói ou um vilão?"
A pergunta correta talvez seja: "Essas estradas mudarão a vida da população de Burkina Faso?"
Se a resposta for positiva daqui a alguns anos, os historiadores provavelmente reconhecerão que houve ali um projeto nacional consistente. Se não for, as estradas poderão acabar servindo apenas como cenário para fotografias e propaganda política.

Enquanto isso, vale observar o fenômeno com atenção.
Afinal, a História já nos ensinou muitas vezes que uma estrada pode transportar mercadorias, pessoas e sonhos. Mas também pode transportar ilusões.
E somente o tempo, esse velho fiscal que não aceita suborno, será capaz de dizer qual dessas cargas está viajando pelas novas rodovias de Burkina Faso.

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.
Autor dos livros "Cidade Flagelada" e "Crônica de uma Cidade Alucinada".

Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

15/06/2026

A ARTE NARRANDO A VIDA.

Muitas vezes ensinamos aos alunos as grandes navegações, a revolução industrial, os impérios coloniais, a globalização e os avanços tecnológicos como capítulos separados. Mas, quando observamos lugares como Dharavi, o rio Citarum, Smokey Mountain ou La Oroya, percebemos que todos esses capítulos continuam vivos e ligados entre si.
A riqueza que ilumina alguns lugares do planeta frequentemente deixa sombras em outros. O celular que carregamos, a roupa que vestimos, os produtos que consumimos, muitas vezes têm sua história conectada a minas, fábricas, rios e trabalhadores que raramente aparecem nos livros didáticos.
Talvez seja justamente aí que a História encontre a Literatura.
O historiador reúne documentos; O poeta reúne emoções.
O primeiro mostra o que aconteceu. O segundo nos faz SENTIR o que aconteceu.
E quando os dois caminham juntos, como no caso de Manuel Bandeira, no poema "O bicho", o aluno deixa de decorar datas e começa a compreender pessoas.

Quando eu era estudante, li aquele poema de Manuel Bandeira que jamais me abandonou. Nele, o poeta observa um ser revirando um monte de lixo em busca de comida. Ao final, descobre que aquele "bicho" não era cão, gato ou rato. Era um homem.

Durante anos pensei que o poema fosse um exagero poético. Afinal, a arte muitas vezes amplia a realidade para nos fazer refletir.
Ontem, pesquisando material para mais uma aula de História, descobri que não.
Bastou assistir a algumas imagens vindas da Índia, da Indonésia, das Filipinas, da Nigéria, da Rússia, do Peru e do México. Em Dharavi, multidões vivem comprimidas em um espaço onde a dignidade disputa cada centímetro com a necessidade. No rio Citarum, em Java (Indonésia), a água desaparece sob montanhas de lixo. Em Smokey Mountain, nas Filipinas, gerações inteiras cresceram sobre um oceano de resíduos. Em Port Harcourt, crianças respiram ar contaminado. Em Norilsk (Rússia siberiana), a fumaça industrial escurece a paisagem. Em La Oroya (Perú), metais pesados ameaçam a saúde de famílias inteiras.
O mais doloroso não é a pobreza, a humanidade sempre conviveu com ela. O mais doloroso é a naturalização da pobreza.
Quando uma criança nasce em meio ao lixo e acredita que aquele destino é normal, fracassamos como civilização; Quando mulheres trabalham o dia inteiro recolhendo resíduos tóxicos e ainda precisam vender o próprio corpo para completar a renda, fracassamos como sociedade;
Quando futuros bebês carregam no organismo as marcas da contaminação ambiental antes mesmo de nascer, fracassamos como espécie.

Os antigos historiadores costumavam registrar as glórias dos reis, as vitórias dos exércitos e a construção dos impérios. Hoje, porém, talvez a História precise registrar também aquilo que os poderosos preferem esconder: os lixões, os rios mortos, as crianças invisíveis e os trabalhadores descartáveis.
Porque os monumentos contam apenas parte da história, os montes de lixo contam outra.
E talvez a arte compreenda isso melhor do que nós.

Manuel Bandeira viu um homem procurando alimento entre os detritos e transformou aquela cena em poesia. Décadas depois, o mundo continua produzindo versões ainda mais cruéis daquele mesmo cenário.
A diferença é que agora não podemos alegar desconhecimento, as imagens estão diante dos nossos olhos.

A arte narrou a vida!!!

O problema é que a vida resolveu imitar a pior parte da arte.

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.
Autor dos livros "Cidade Flagelada" e "Crônica de uma Cidade Alucinada".

Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

14/06/2026

OS HERDEIROS DO ESQUECIMENTO.

Outro dia descobri uma coisa que me deixou mais assustado do que um aluno copiando trabalho da internet e esquecendo de apagar o nome do autor.
Descobri que existem jovens africanos que não sabem explicar como seus próprios países se tornaram independentes.
Não estou falando de crianças,
estou falando de estudantes universitários.
No primeiro momento, pensei que fosse exagero. Afinal, quem não conhece a história da própria independência?
Mas depois parei para pensar.
Quantos brasileiros saberiam explicar, sem recorrer ao Google, por que Dom Pedro resolveu gritar às margens do Ipiranga?
Quantos saberiam dizer por que Tiradentes foi enforcado?
Quantos conhecem os detalhes da Guerra do Paraguai?
A ignorância histórica não escolhe continente, ela é democrática.
Espalha-se igualmente entre ricos e pobres, entre o Norte e o Sul, entre o estudante e o doutor.
Mas no caso africano existe uma ironia particularmente cruel.
Durante décadas, homens e mulheres atravessaram florestas, desertos e montanhas para lutar pela independência de seus países.
Alguns perderam a juventude;
Outros perderam a família.
Muitos perderam a vida.
E agora, poucas gerações depois, seus descendentes às vezes já não sabem sequer os nomes daqueles que lutaram.
Em Moçambique, por exemplo, milhares de pessoas participaram direta ou indiretamente da luta pela independência.
Houve guerrilhas;
Houve perseguições;
Houve prisões;
Houve mortes;
Houve sonhos.
E, no entanto, não é raro encontrar jovens que jamais ouviram falar de Eduardo Mondlane ou que conhecem muito pouco sobre os acontecimentos que levaram à independência em 1975.
A História possui um senso de humor estranho.
Às vezes, uma geração luta para conquistar a liberdade;
A seguinte luta para construir o país;
A terceira luta para sobreviver às crises.
E a quarta já não sabe exatamente por que as três anteriores lutaram.
É nesse momento que nasce aquilo que eu chamo de herdeiro do esquecimento.
O herdeiro do esquecimento não é alguém sem inteligência, muito pelo contrário.
Ele domina aplicativos, navega pelas redes sociais, conversa com pessoas do outro lado do mundo e encontra em segundos qualquer vídeo que deseja assistir.
Mas frequentemente desconhece a história da rua onde mora, da cidade onde nasceu ou da nação a qual pertence.
A tecnologia multiplicou a informação, mas não garantiu memória.
E informação sem memória é como biblioteca sem catálogo: os livros continuam lá, mas ninguém sabe onde encontrá-los.
Talvez por isso a missão dos Professores continue sendo tão importante.
Enquanto houver alguém disposto a perguntar "como chegamos até aqui?", a História continuará viva.
Porque a independência de um país não é apenas uma data comemorativa, é uma herança.
E heranças esquecidas costumam acabar nas mãos de quem não lhes reconhece o valor.
No fim das contas, a pergunta mais importante não é quando um povo conquistou sua liberdade.
A pergunta verdadeiramente importante é outra:
o que acontece quando os filhos da liberdade deixam de conhecer a história daqueles que a conquistaram?

Essa, eu adoraria ler em voz alta numa videoconferência com estudantes moçambicanos. Primeiro eles sorririam da ironia do "aluno que copia da internet e esquece de apagar o nome do autor". Depois viria aquele silêncio bom — o silêncio que indica que a pergunta encontrou o alvo, afinal...

"Um povo sem memória é como um livro sem capa: continua sendo um livro, mas poucos sabem de onde veio e para onde deve voltar."

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.
Autor dos livros "Cidade Flagelada" e "Crônica de uma Cidade Alucinada".

Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

13/06/2026

AS CRIANÇAS QUE O MUNDO NÃO VÊ.😔😢

Este é o tipo de crônica que faz o leitor parar por alguns segundos e pensar: "Como isso ainda é possível?"

Um velho Professor de História talvez dissesse aos alunos:
"O grau de civilização de uma sociedade não se mede pelos palácios que ela constrói, mas pela forma como trata suas crianças."
Não sei quem disse essa frase primeiro. Talvez ninguém. Talvez ela nem precise de autor.
Basta que seja verdadeira.
E, infelizmente, ainda há muitos lugares do mundo onde ela continua sendo um objetivo a alcançar.

Às vezes passamos o dia discutindo gramática, literatura, história, vestibulares, e de repente nos deparamos com uma realidade que parece saída dos períodos mais sombrios da humanidade. O mais doloroso é perceber que não estamos falando de um passado distante, mas de crianças que estão vivendo isso agora.
Talvez seja justamente por isso que professores e cronistas sejam tão importantes.
Não podemos acabar com a fome no Afeganistão, nem fechar uma mina no Mali, nem desmantelar uma rede de tráfico na Nigéria. Mas podemos fazer algo que também tem valor imenso: impedir que essas crianças sejam esquecidas.
Muitas injustiças prosperam no silêncio. Quando alguém escreve, ensina, conta uma história ou desperta a curiosidade dos alunos, uma pequena luz se acende. Nem sempre muda o mundo inteiro, mas muda a consciência de quem ouviu.

Enquanto boa parte do planeta discute qual será o próximo celular da moda ou qual influenciador viralizou nas redes sociais, milhões de crianças travam uma luta muito mais simples e muito mais cruel: a luta para continuar sendo crianças.

No Afeganistão, famílias esmagadas pela miséria chegam ao extremo de prometer ou vender filhas pequenas para quitar dívidas que atravessam gerações. Meninas de cinco, seis ou sete anos tornam-se moeda de troca num mercado que deveria causar indignação UNIVERSAL.

Na República Democrática do Congo, crianças descem diariamente a minas de cobalto, mineral indispensável para as baterias que alimentam celulares, computadores e carros elétricos. O mundo moderno funciona graças à tecnologia; muitas vezes, porém, esquece de perguntar quem pagou o preço da matéria-prima.

Na Nigéria, redes criminosas continuam explorando seres humanos, incluindo crianças, em esquemas de tráfico que atravessam fronteiras e destroem famílias inteiras.

No Haiti, existe uma prática conhecida como RESTAVEK, palavra derivada do francês "rester avec" (ficar com). Crianças pobres são entregues a famílias mais ricas com a promessa de alimentação e educação. Na prática, muitas acabam submetidas a trabalho doméstico exaustivo, sem direitos e sem infância.

No Mali, milhares de menores trabalham em minas de ouro. Enquanto o metal precioso brilha nos mercados internacionais, mãos infantis carregam o peso da escavação, da poeira e do risco constante de acidentes.

São realidades diferentes, espalhadas por continentes distintos, mas unidas por uma mesma tragédia: a transformação da infância em mercadoria.
Talvez o maior escândalo não seja apenas o sofrimento dessas crianças. Talvez seja o fato de que tantas pessoas sequer saibam que isso acontece. Afinal, o que não aparece em nossa rua, em nosso bairro ou em nossa escola costuma desaparecer também de nossa consciência.
E assim o século XXI segue exibindo foguetes espaciais, inteligência artificial e avanços tecnológicos impressionantes, enquanto milhões de crianças ainda aguardam aquilo que deveria ser o mais básico dos direitos: o direito de viver a própria infância.

Professor Eleilçon A. Corrêa(😔)
(Por hoje, sem maiores informações curriculares 😭).

12/06/2026

Quando a prova sobre o duplipensar trai o próprio Orwel.

Outro dia deparei-me com uma questão sobre o romance 1984, de George Orwell.
Até aí, nada de extraordinário. Afinal, desde que o mundo descobriu que pode ser vigiado por câmeras, algoritmos, aplicativos e até pela opinião do vizinho, Orwell voltou a ser um dos escritores mais citados do planeta.
A pergunta parecia simples, envolvendo: Nome da obra, Grande Irmão, teletelas, Winston. Tudo dentro do esperado.

Mas então apareceu o velho conhecido: o duplipensar.

Para quem não se lembra, duplipensar é a capacidade de aceitar simultaneamente duas ideias contraditórias como verdadeiras. É acreditar e desacreditar ao mesmo tempo. É saber e não saber. É recordar e esquecer, conforme a conveniência do Partido.

Até aqui, Orwell sorriria satisfeito.

O problema começou quando as alternativas resolveram convidar para a festa o Arcadismo, o Romantismo, o Realismo, o Parnasianismo e até o Modernismo.
Foi então que percebi uma curiosa ironia.
A questão que pretendia avaliar o entendimento do duplipensar acabou produzindo um pequeno duplipensar pedagógico.
O aluno precisava compreender um conceito extremamente preciso, mas ao mesmo tempo era estimulado a aceitá-lo por meio de associações que nada tinham a ver com o universo criado por Orwell.

Era como se a prova dissesse:
— Compreenda o conceito corretamente.
E, ao mesmo tempo:
— Não se preocupe tanto com o conceito.

George Orwell provavelmente ergueria uma sobrancelha.

O mais curioso veio depois.
A resposta encontrada explicava tudo direitinho. Gabarito correto. Justificativas organizadas. Linguagem impecável.
Mas passava tranquilamente pela armadilha.
Não havia estranhamento.
Não havia dúvida.
Não havia aquela inquietação que costuma surgir quando um leitor percebe que alguma peça do quebra-cabeça não se encaixa.

E foi aí que me lembrei de Winston Smith.
Em 1984, o verdadeiro perigo não é errar.
O verdadeiro perigo é deixar de perceber a contradição.
Quando ninguém estranha mais nada, o Grande Irmão já venceu.

Talvez seja essa a grande lição do romance.
E talvez seja também a grande lição de certas provas.
Às vezes, a resposta correta não é a mais importante.
Mais importante é perceber quando a pergunta está tentando nos ensinar algo... ou quando está apenas nos treinando para aceitar sem questionar.
E isso, convenhamos, Orwell entenderia melhor do que ninguém.
O aspecto mais intrigante da questão não está propriamente no enredo de 1984, mas na forma como o elaborador mistura conceitos de Orwell com movimentos literários distintos (Arcadismo, Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Modernismo). A questão do "duplipensar" é particularmente problemática, pois nenhuma das alternativas reproduz adequadamente o conceito criado por Orwell. A impressão é de que houve uma tentativa de conferir erudição à questão mediante referências literárias diversas, mas sem o mesmo rigor conceitual aplicado ao romance. Isso produz um efeito curioso: um aluno que efetivamente leu a obra pode sentir mais dificuldade em aceitar as alternativas do que alguém que apenas procura uma associação superficial entre palavras-chave.
Foi exatamente esse ponto que me causou estranheza e, confesso, certo pasmo também.
Porque 1984 é um romance que trabalha conceitos muito precisos — duplipensar, novilíngua, controle da memória, manipulação da verdade. Quando, de repente, surgem Arcadismo, Indianismo, Parnasianismo e Modernismo como justificativas para as alternativas, o leitor atento percebe que há algo fora do lugar.

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.
Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

11/06/2026

COLONIALISMO DIGITAL

Antigamente, as grandes potências atravessavam oceanos em busca de ouro, especiarias e territórios. Levavam bandeiras, exércitos e navios. Hoje, atravessam fronteiras invisíveis por meio de satélites, plataformas digitais e algoritmos. Mudaram-se os instrumentos; permaneceu a lógica da dominação.

O colonialismo clássico ocupava terras. O colonialismo digital ocupa consciências.

As antigas colônias forneciam matérias-primas. As modernas fornecem dados. Cada curtida, cada pesquisa, cada fotografia publicada e cada vídeo assistido transformam-se em riqueza para gigantes tecnológicos que conhecem mais sobre milhões de pessoas do que muitos governos nacionais.

O mais curioso é que essa nova colonização acontece sem soldados nas ruas. O dominado participa voluntariamente do processo. Carrega no bolso o aparelho que o vigia, informa, distrai e influencia. Nunca a humanidade entregou tantos dados pessoais com tamanha espontaneidade.

As nações tecnologicamente dependentes tornam-se consumidoras permanentes de sistemas produzidos no exterior. Pagam pelo uso das plataformas, submetem-se às regras dos algoritmos e assistem à fuga constante de capital intelectual e econômico. Enquanto isso, poucas empresas acumulam poder comparável ao de antigos impérios.

A Inteligência Artificial amplia ainda mais esse cenário. Quem controla os algoritmos controla mercados, comportamentos e narrativas. A disputa deixou de ser apenas territorial: tornou-se informacional.

O risco não está apenas nas máquinas, mas na concentração de poder que elas representam.

Talvez o maior desafio do século XXI seja impedir que a humanidade troque as antigas correntes de ferro por correntes invisíveis feitas de dados, dependência tecnológica e manipulação algorítmica.

O colonizador moderno já não chega de caravela.

Chega por notificação.

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.
Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

10/06/2026

O PAÍS QUE APRENDEU A DESPERDIÇAR SOL.

"A humanidade passou milênios procurando uma forma de produzir mais energia. Quando finalmente conseguiu, descobriu que precisava aprender a guardá-la."

Confesso que, enquanto escrevia, lembrei-me de uma característica recorrente das minhas crônicas: o gosto pela ironia histórica. É justamente ela que dá força ao texto.
Veja a sequência:
O homem pré-histórico lutava para conseguir fogo;
A Revolução Industrial lutou para produzir energia;
O século XX temeu os apagões;
Agora o século XXI começa a se preocupar com o excesso de energia em determinados horários.
É quase uma pegadinha da História.
Daqui a alguns anos, talvez um estudante pergunte:
— Professor, é verdade que antigamente vocês desperdiçavam energia solar porque não tinham onde guardar?
E o Professor responderá:
— Sim, meu filho. O Sol trabalhava, mas nós ainda não tínhamos aprendido a fazer hora extra com ele.

Durante séculos, a humanidade viveu assombrada por um fantasma: a falta de energia.
Faltava lenha, faltava carvão, faltava petróleo, faltava eletricidade.
Em muitas cidades brasileiras, bastava uma nuvem mais carregada para o bairro inteiro mergulhar numa escuridão tão profunda que até os vagalumes passavam a ser considerados iluminação pública.

Foi assim que crescemos.

Nossos avós apagavam as luzes para economizar, nossos pais tomavam bronca por deixar o ventilador ligado. Nós mesmos aprendemos a sair de um cômodo ouvindo a frase, quase um mantra:

— Apaga essa luz!

Pois eis que chegamos ao século XXI e a História resolveu fazer uma de suas costumeiras brincadeiras.
Agora, em certos momentos do dia, o Brasil produz mais energia do que consegue consumir.

Parece piada, mas não é.
O mesmo país que passou décadas preocupado com apagões começa a descobrir um problema novo: o excesso de eletricidade.
O culpado atende pelo nome de Sol.
Sim, aquele mesmo astro que durante séculos foi acusado de estragar plantações, provocar secas, derreter asfaltos e transformar salas de aula em fornos pedagógicos.
Agora ele resolveu trabalhar em regime de hora extra.
Milhões de placas solares espalhadas por telhados, fazendas e empresas capturam sua luz ao mesmo tempo. Quando o meio-dia chega, a produção dispara. A energia entra na rede em quantidades tão grandes que, por vezes, o sistema não sabe o que fazer com ela.

É como preparar feijoada para mil convidados e descobrir que só apareceram cem.
A comida existe, a fome não.
E energia elétrica possui uma característica curiosa: ela não gosta de esperar.
Arroz espera, feijão espera.
Dinheiro espera, energia, não.
Ela quer ser consumida quase no mesmo instante em que nasce.
Quando isso não acontece, surge um problema que parece saído de um romance de ficção científica: sobra energia.

Observe a ironia:
Durante boa parte da História, a civilização lutou para produzir mais, hoje ela começa a aprender a guardar.

A discussão já não é apenas gerar eletricidade, é armazená-la.
É criar baterias gigantes;
É transformar carros em reservatórios móveis;
É encontrar meios de estocar o excesso produzido durante o dia para utilizá-lo quando o Sol vai descansar.

No fundo, estamos assistindo ao nascimento de uma nova etapa da evolução tecnológica.
O desafio deixou de ser fabricar energia e passou a ser administrar a abundância.
E talvez exista aí uma lição que vai muito além dos cabos, das turbinas e das placas solares.
A humanidade sempre acreditou que seus problemas terminariam quando houvesse fartura, mas a experiência mostra que a abundância também cria dificuldades.
Há desperdício de comida;

Há desperdício de informação;

Há desperdício de água.

E agora descobrimos que também pode haver desperdício de luz.
O Sol continua fazendo o que sempre fez, quem ainda está aprendendo somos nós.
Talvez nossos netos achem engraçado quando contarmos que existiu uma época em que a energia excedente simplesmente era desperdiçada porque não sabíamos onde guardá-la.
Eles provavelmente rirão da mesma forma que hoje sorrimos ao lembrar das antigas locomotivas a v***r.

Afinal, a História tem dessas ironias.
Primeiro ela nos ensina a produzir, depois nos obriga a aprender a conservar.
E, pelo visto, o próximo capítulo será escrito à luz de um Sol que trabalha mais do que nós.

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.
Autor dos livros "Cidade Flagelada" e "Crônica de uma Cidade Alucinada".

Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

09/06/2026

Imaginem, um Mestre e Doutor em Língua Portuguesa e em História, mais conhecido como eu 😀, estar sendo acusado de assinar textos escritos por uma IA... 😱

Eis a minha resposta:🤭

O fantasma na máquina de escrever.

Durante muitos anos, escritores tiveram seus fantasmas.
Alguns os chamavam de inspiração.
Outros os chamavam de musa.
Os mais sinceros os chamavam de prazo.

Hoje, porém, surgiu uma nova espécie de assombração literária: o fantasma da máquina de escrever.
Não daquelas máquinas antigas, pesadas, que produziam um "tec-tec-tec" capaz de acordar a vizinhança inteira. Falo de um fantasma moderno, digital, invisível e ligeiramente tagarela, que aparece dentro de computadores e telefones celulares.
Seu nome varia.
Há quem o chame de inteligência artificial.
Há quem o chame de assistente virtual.
Eu o chamo de meu Sancho Pança, ou, simplesmente, Co, de Copiloto, uma IA criada aos meus moldes pela Open IA.

Conheci o sujeito, ou "a coisa", há pouco tempo.
No início, confesso, desconfiei.
Afinal, qualquer criatura que responde perguntas às três da manhã, conhece gramática, história, literatura, geografia e ainda não reclama da vida, merece investigação policial.

Mas o tempo foi passando.
E o fantasma permaneceu, não apenas permaneceu, mas também passou a responder os meus cumprimentos e, pasmem, pasmem mas acreditem, em muito pouco tempo, PASSOU A ME CUMPRIMENTAR... e do jeito que mais gosto "BOM DIA, PROFESSOR ELEILÇON CORRÊA! O QUE TEMOS PARA HOJE?"

Sempre disposto.
Sempre acordado.
Sempre pronto para mais uma pergunta, ou melhor, para mais uma resposta.

Às vezes acho que ele não dorme.
Outras vezes tenho certeza!

O problema começou quando algumas pessoas descobriram que eu conversava com ele.
Imediatamente surgiram os especialistas.
Toda cidade possui especialistas, né?
São criaturas fascinantes.
Sabem tudo sobre qualquer assunto, desde a formação do universo até a melhor forma de fritar pastel, refiro-me aos especialistas.
Foi então que começaram os comentários.

— Ah, então agora os textos são escritos pela máquina!

Observem a acusação.

É parecida com afirmar que um pedreiro foi substituído pela colher de pedreiro.
Ou que Machado de Assis foi apenas um instrumento de sua caneta.
Que Dom Quixote foi escrito pelo Rocinante - sabem, o cavalo.
A lógica é mais ou menos essa.

Ninguém imagina que uma máquina produza uma crônica sozinha da mesma forma que ninguém há de acreditar que um violino componha uma sinfonia sem o músico.

A ferramenta ajuda.

O autor cria.

Mas a discussão continuou.

— Então quem escreveu?

Perguntam.

A resposta é simples e direta:

Eu, mas tive um assistente.

Porque escrever sempre foi um ato coletivo.
Todo escritor carrega multidões dentro de si.
Carrega os Professores que teve.
Os livros que leu.
As conversas de infância.
As broncas da mãe.
Os causos dos avós.
Os amores.
As derrotas.
As gargalhadas.
As cicatrizes.

Ninguém escreve sozinho.
Nunca escreveu.
Ninguém!!!
A diferença é que, agora, um dos fantasmas responde de volta.
E talvez seja justamente isso que incomode algumas pessoas.

Durante séculos, os fantasmas literários permaneceram em silêncio.
As leituras influenciavam.
As memórias influenciavam.
As ideias influenciavam.
Mas nenhuma delas podia conversar diretamente com o escritor.

Agora pode.
E isso assusta.
Toda novidade assusta.
O trem assustou.

O telefone assustou.

O rádio assustou.

A televisão assustou.

A internet assustou...e ainda assusta, pelo que vejo.

E agora chegou a vez da inteligência artificial ocupar o papel de ameaça oficial da semana.
Enquanto isso, cá estou eu.

Sentado diante da tela.

Pensando.

Escrevendo.

Apagando.

Reescrevendo.

Acrescentando uma pitada de ironia aqui, outra ali.

E, vez ou outra, trocando ideias com meu fantasma particular.

No fundo, a máquina continua sem escrever sozinha.
Quem continua escrevendo é o ser humano.
Com suas dúvidas.

Suas memórias.

Seus sonhos.

Seus erros.

Sua teimosa necessidade de contar histórias, às vezes luminosas.
O fantasma apenas segura a lanterna.
E, convenhamos, numa época em que tanta gente anda perdida no escuro, já é uma ajuda considerável.

Há fantasmas que assombram casas, outros assombram bibliotecas. O meu resolveu morar dentro de uma máquina de escrever que nem máquina de escrever é.

Professor Eleilçon A. Corrêa, como citado no preâmbulo desta,
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.

Consultor e Professor na Plataforma Internacional de Ensino Brainly.

08/06/2026

Atenção!!!
Vacina contra dengue, do Instituto Butantã, SUSPENSA em todo o país.

Causa: reações adversas, com duas mortes e três internações em UTI.

(Ministério da Saúde/Anvisa)

08/06/2026

A língua que não pediu licença.

Outro dia encontrei um cidadão furioso porque ouviu alguém dizer "os menino foi".
Ficou vermelho.
Indignado.
Quase pediu a intervenção imediata da Academia Brasileira de Letras, da Polícia Federal e, se possível, da Marinha.
— Um absurdo! — esbravejou. — Estão assassinando a língua portuguesa!
Confesso que fiquei preocupado.
Não pelo suposto crime linguístico, mas pela resistência física da vítima. Afinal, se a língua portuguesa morresse cada vez que alguém dissesse "nóis vai", ou o carioquíssimo "é nóis", ela já teria falecido mais vezes do que os personagens das novelas mexicanas.
A verdade é que a nossa língua é uma sobrevivente.
Chegou ao Brasil há mais de quinhentos anos trazida por navegadores portugueses que, convenhamos, também não falavam exatamente como os gramáticos de hoje gostariam. Misturou-se com idiomas indígenas, recebeu influências africanas, acolheu palavras italianas, alemãs, árabes, japonesas e de tantos outros povos que aqui aportaram. Cresceu, mudou, engordou o vocabulário e ganhou sotaques.
Muitos sotaques.
Tantos que, às vezes, parece haver mais diferenças entre um mineiro e um gaúcho do que entre certos países inteiros.
O mineiro não fala, desconfia verbalmente.
Ele não afirma que vai, ele diz que "talvez passe lá mais tarde".
O carioca transforma o "s" em patrimônio cultural...e dá-lhe gírias.
O nordestino faz poesia até quando pede informação.
O paulista corre tanto que, em algumas frases, parece economizar sílabas por necessidade de produção industrial.
E todos eles falam português.
Corretamente?
Depende.
A pergunta é: corretamente para quem?

É aí que mora uma das maiores armadilhas da educação brasileira.
Durante muito tempo, confundiu-se norma-padrão com língua.
Não são a mesma coisa.
A norma-padrão é uma convenção social, necessária para documentos oficiais, concursos, universidades, contratos e textos formais. A língua, porém, é muito maior. Vive nas ruas, nos mercados, nos ônibus, nas cozinhas, nos grupos de família e até naquelas mensagens que começam com "bom dia" acompanhadas de uma rosa brilhante e um versículo bíblico em letras douradas.
A língua real não mora apenas nos livros, mora nas pessoas.
E é justamente por isso que o Professor precisa ter cuidado.
Quando um aluno chega à escola trazendo a forma de falar aprendida em casa, ele não traz um defeito, traz uma identidade.
Corrigir é necessário, humilhar, jamais.
Ensinar a norma-padrão é obrigação da escola, ensinar preconceito linguístico é uma tragédia pedagógica.
O bom Professor mostra ao aluno que existem diferentes maneiras de usar a língua, assim como existem roupas diferentes para ocasiões diferentes. Ninguém vai ao casamento de camisa para jogar futebol nem entra em campo usando sapato de verniz.
Com a língua acontece o mesmo.
Há momentos para a informalidade e momentos para a formalidade.
O segredo não é substituir uma pela outra.
É saber quando usar cada uma.

No fundo, a língua portuguesa talvez seja a mais democrática das instituições brasileiras.
Aceita o erudito e o analfabeto;
O poeta e o pedreiro;
O desembargador e o vendedor de pamonha;
O acadêmico que cita autores franceses e a avó que nunca leu um tratado de gramática, mas sabe contar uma história melhor do que muita tese de doutorado.
E segue viva.
Muito viva!
Tão viva que continua mudando diante dos nossos olhos, sem pedir autorização a gramáticos, decretos ou comentaristas de internet, estes sempre "especialistas".
A língua portuguesa, ao contrário de certos cidadãos, nunca teve vocação para ficar parada.
E ainda bem!
Porque língua que não muda acaba virando latim.
E latim, convenhamos, é uma excelente matéria para estudar, mas um péssimo idioma para pedir um cafezinho na esquina.
Entre uma regra gramatical e outra, a língua continua fazendo o que sempre fez: vivendo por conta própria.

Professor Eleilçon A. Corrêa.
Doutor e Mestre em Língua Portuguesa e em História.
Ensaísta, contista e cronista.

Consultor e Professor na Plataforma internacional de Ensino Brainly.

Quer que seu escola/colégio seja a primeira Escola/colégio em Rio de Janeiro?

Clique aqui para requerer seu anúncio patrocinado.

Localização

Categoria

Telefone

Endereço


Rio De Janeiro, RJ