17/08/2025
“Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro…”
“Vem, vem, vem pra rua vem, contra o machismo…”
“Ei, se liga seu machista, a América Latina vai ser toda feminista…”
“Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser…”
“Se o Papa fosse mulher, se o Papa fosse mulher, se o Papa fosse mulher, o ab**to seria legal. Seria legal e seguro, seria legal e seguro…”
“Educação não é mercadoria…”
As frases que abrem a apresentação desse Dossiê, fazendo aqui a função de epígrafe, vez ou outra (re)aparecem na forma de lampejos de tempos vividos diante dos absurdos, fabricados em sistemas de opressão neoconservadores com fins eleitoreiros, com que fomos nos deparando e enfrentando aos nossos jeitos, nas ruas, nas escolas, nas universidades e por onde a vida pede passagem. Produzindo enfrentamentos coletivos de grupos minorizados, nos juntando aos movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos que não transformaram nossas existências em “povos a serem exterminados”, afirmamos na coragem do viver, sendo quem somos e o que podemos ser, outros sentidos para o mantra “ninguém soltando a mão de ninguém”, “mexeu com uma, mexeu com todas”.
Com nossos corpos pretos, de bichas, de sapatas, de putas, de travestis, de macumbeiras, de periféricos, de professoras, estudantes, de pais e mães e de outros tantos cidadãos comprometidos com as pautas dos direitos humanos e que não abrem mão de uma educação crítica e implicada com o bem viver, nos fortalecemos na esperança coletiva e na crença de ser possível inventarmos um futuro mais justo e equânime para todas as pessoas.
Diante das opressões vividas e sentidas com o corpo inteiro, alguns mais do que outros, a rua era/é e precisa ser o palco público onde nos encontramos, para mostrar ao mundo nossa indignação e vulnerabilidade coletiva. E um de nós, porque ama a vida pública vivida nas ruas com outros e outras ainda se lembra dos cartazes com o seguinte dizeres. “A formiga com raiva da barata, votou no inseticida. Morreram todos, inclusive o grilo que se absteve do voto”. A raiva da formiga diante dos processos violentos com os quais estamos vivendo é uma força bem diferente da raiva enquanto condimento que nos faz seguir adiante na certeza de um outro futuro é possível. A raiva da formiga, faz pacto com o facismo, com o ressentimento, com a vingança e com a necropolítica. Ainda que seja isso, esse cartaz também não nos deixa esquecer que não existe neutralidade no mundo. Ocupamos o mundo sempre de modo posicionado. E é por isso, que aqui entendemos que a violência vivida por um corpo em sua precariedade, não diz somente sobre uma vida. Logo, se nada fizermos, se perdermos a nossa capacidade de nos indignar e de termos raiva, enquanto força biófila, logo, sem ao menos nos darmos conta, a violência que a princípio é colocada sobre um corpo, se distribuirá como força necrófila sobre toda a população.
E para isso, quem manipula o medo e a fraqueza diante dos privilégios da norma, o faz transformando grupos minorizados em forças capazes de macular a pureza das crianças, das famílias tradicionais e de um povo. E em torno disso, projetos de educação, de saúde, de cultura, de equidade, de distribuição de renda e conhecimentos descolonizados, comprometidos com uma vida em seu direito de diferir, desde onde se encontra em sua singularidade são colocados em escanteio e passa a ser usado contra seus usuários.
Cada um/uma de nós que se coloca em conversação com esta apresentação conseguirá sem muitas dificuldades enumerar uma lista de horrores, que talvez diante de tanta coisa vivida no eixo gênero, sexualidade e raça e suas intersecções, se faça necessário, para que a gente siga compreendendo que o show de horrores pode ainda nos surpreender com outros tantos absurdos.
Começaremos, de onde nos encontramos tomando notas, da capacidade de produção de maldade, de pânico moral e de efeitos sobre populações minorizadas diante os sistemas de opressão. Talvez o primeiro absurdo que nos chega à mente é o famigerado discurso (produção de realidade) via fake news que circulou na população em torno das “mamadeiras de pirocas” que seriam distribuídas na educação infantil pelos pervertidos de plantão (nós professores).
Com essa linha de raciocínio não podemos esquecer, que na última década, o Brasil vivenciou uma série de ataques sistemáticos a políticas feministas, antirra***tas e de promoção aos direitos de pessoas LGBTQIA+, que produziram impacto substantivo tanto nos espaços institucionais quanto no imaginário social, fazendo estagnar ou até mesmo retroagir um conjunto amplo de políticas públicas de direitos humanos que vinham, ainda que precariamente, sendo implementadas no país.
Embora tenham tomado corpo em múltiplos espaços sociais, essas ofensivas miraram e seguem mirando especialmente a educação, organizando ataques violentos direcionados a professoras, principalmente as professoras trans e travestis, as pesquisadoras e gestoras comprometidas com a construção de uma perspectiva crítica e com o enfrentamento às diferentes formas de discriminação e desigualdade que marcam a sociedade brasileira. A despeito do ambiente de censura e terrorismo ideológico que se instalou em escolas e universidades nos últimos anos, um conjunto amplo de profissionais de educação resistiu, insistiu e persistiu, desenvolvendo ações pedagógicas que propunham um debate cientificamente fundamentado e politicamente engajado sobre questões de gênero, sexualidade e raça.
As práticas de professores e professoras implicadas com os grupos minorizados e suas vidas, sendo práticas engajadas, resistentes e por se saberem práticas políticas, sabem a favor do que estão e contra o quê estão!
Essas práticas feita com condimentos de uma resistência corajosa e criativa produziu ricas e potentes práticas educativas, que confrontaram e seguem confrontando um ambiente político e institucional hostil. E não nos faltam por este país a fora, experiências que precisam ser mostradas, contadas, narradas, visibilizadas para seguir afirmando que a resistência antecede o poder e que nossos passos vêm de longe.
De nossos lugares, por onde a vida acontece e com a educação, afirmamos e afirmaremos em todos os dias de nossas vidas, que “não voltaremos ao armário”. Bom lembrar com essas palavras finais, que o armário não funciona apenas para as questões que nos são caras aqui que é a identidade. Nossas opções políticas e epistemológicas também são convocadas a entrarem no armário. Por não sermos mais as mesmas, lhe avisamos que não cabemos no armário. Por sermos multidão, força da multidão, quebramos suas portas e colocamos fogo nos sistemas de opressão que insistem em (re)construí-los.
Reconhecendo a importância de visibilizar essas práticas, é que de forma corajosa, propusemos esse Dossiê, dedicado especialmente à divulgação de trabalhos que registrassem e analisassem as múltiplas formas de resistências colocadas em curso por educadoras e educadores em um momento de avanço e consolidação de um ambiente reacionário no Brasil.
Se, como campo acadêmico, passamos os últimos anos dedicados a investigar as características do reacionarismo brasileiro, a nós, pareceu mais do que nunca necessário voltarmos nosso olhar para aqueles e aquelas que, apesar deste ambiente hostil, resistem na promoção de práticas pedagógicas em gênero, sexualidade e raça que miram uma transformação social através da educação.
E assim fizemos a chamada para esse Dossiê.
Quando nos colocamos a pensar a forma que teria esse Dossiê, acreditávamos que teríamos por companhia, pessoas inconformadas com algumas histórias que se buscam afirmar como (in)verdades se colocariam na rua e em praça pública com a gente! E assim foi feito e vocês responderam ao nosso convite.
Gente de todo jeito e de todos os cantos desse país profundo apareceu para nos dar as mãos nesse modo bonito de afirmar a vida com a educação.
A escrita, como bem gostamos de afirmar, tem função política. Através dela e com ela, contribuímos para a expansão de possíveis, para dar passagem a experiências bonitas que precisam ser narradas e para o aditamento do fim do mundo como tantas vezes nos ensinou Ailton Krenak.
O convite para conosco seguir caminho recebeu trabalhos de diferentes áreas, na forma de artigos, ensaios e relatos de experiência, que analisaram políticas e práticas educacionais em gênero, sexualidade e raça e consideraram o contexto reacionário presente no país nos últimos anos.
Ficamos extremamente felizes com a quantidade de pessoas corajosas que se colocaram nesse processo com a gente nesse Dossiê.
Com esse trabalho coletivo, seguimos afirmando que histórias importam. Principalmente as histórias que são feitas por sujeitos encarnados e que apresentam, por não poder ser de outros modos, a força política da escola pública e as práticas criativas e corajosas que são promovidas pelos sujeitos resistentes que constroem a educação brasileira.
Ocupar a escola e a educação nesse país é um ato de resistência e com vocês seguiremos entoando esta canção.
A vocês, companheiros e companheiras de escritas, o nosso muito obrigado!.
E, a você pessoa que nos lê, fabricando microrevoluções como pirilampos, lhe fazemos um convite, vem pra rua com a gente, diante do que nos encontramos, com os acordos de entreguismos da riqueza do povo brasileiro, sabemos, porque não somos ingênuos que seguiremos, em todos os cantos desse país, entoando, para quem tem ouvidos de ouvir, que
“A nossa luta, é todo dia. contra o machismo, racismo e LGBTFOBIA”
https://periodicos.furg.br/divedu/issue/view/925