28/03/2021
Olá!!! O ensaio que está sendo compartilhado hoje, da residente Vanessa Chaves, traz algumas reflexões sobre a escrita e os contextos tecnológicos, reforçando o caráter heterogêneo da língua(gem). Obrigada, Vanessa Chaves, por compartilhar!!!
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"Escrever, hoje"
Em seu artigo “Tecnologia e poder semiótico: escrever, hoje”, Ana Elisa Ribeiro (2015, p. 115, grifos da autora) pondera que a escrita é “histórica e socialmente situada, ou seja, não há a ou uma escrita. Ela é viva e depende de muitas condições, inclusive e principalmente as tecnológicas.” Na contramão do pensamento de Ribeiro (2015), quanto à modalidade escrita, há a presunção de um sistema abstrato de formas linguísticas destituído da expressão dos modos de interação e de sua relação com a sociedade, com a história, com a cultura. Por sua vez, essa concepção vale-se do pressuposto de que haveria uma modalidade de escrita pura, associada à norma padrão, seja à gramática, seja à imagem de seu uso por autores literários consagrados. Por conseguinte, a noção imperativa de língua(gem) encontra-se pautada na noção de língua como um instrumento de comunicação, concebendo-a como um código, capaz de transmitir ao receptor certa mensagem. Dessa forma, essa perspectiva desconsidera o fato de que o modo da existência da língua encontra-se na comunicação discursiva concreta. Desconsidera-se, também, as condições de produção dos enunciados e o contexto social em que estão inseridos.
Para Ribeiro (2015, p. 115), não estamos alheios à história da escrita, “como se ela fosse um modo de fazer que corresse ao largo dos cidadãos”. Propomo-nos como sujeitos na/pela linguagem, na/pela escrita de textos. No processo de escrita, de acordo com o princípio dialógico da linguagem de Bakthin (1997), o escrevente circula por um imaginário socialmente partilhado sobre a língua em suas diversas manifestações e variedades, imaginário que se particulariza em situações específicas e concretas do uso da escrita e que se estende aos diferentes e instáveis modos de conceber a relação escrita/mundo e, inclusive, escrita/fala. Para tanto, o discurso é moldado de acordo com o contexto e a intenção de quem escreve e para quem se dirige – interlocutor. Sendo assim, torna-se, até mesmo, incoerente afirmar que o processo de escrita é imutável e inequívoco, associando-o apenas à modalidade escrita da norma padrão da língua. O sujeito na/pela escrita (inter)age com outro(s) e atua em seu contexto social-histórico. Portanto, este não é “alheio” à história e às transformações da escrita.
A adesão a novas máquinas, a novos modos de produzir texto, a novos gêneros textuais, conforme Ribeiro (2015, p. 115), são “criações sociais, menos ou mais inusitadas, inovadoras, que correm conosco na história da leitura e dos modos de escrever”. O acelerado desenvolvimento tecnológico de nosso tempo provocou mudanças socioculturais, o que inclui novas práticas de escrita. Conforme os computadores e a internet foram se desenvolvendo e se popularizando, começamos a utilizá-los com mais frequência e para os mais diversos objetivos: nos comunicarmos por meio de redes sociais e de e-mails, assistir a séries e filmes, comprar e vender produtor, compartilhar experiências em blogs e vlogs e realizar pesquisas, além de muitos outros. Atualmente, por meio de aplicativos e de redes sociais, enviamos e recebemos mensagens de texto/áudio de forma ágil e instantânea. Há quem diga que, hoje em dia, “ninguém lê mais, ninguém escreve mais. As pessoas perderam o costume de ler e de escrever”. Como afirmar isso se, em meio a um expediente de trabalho, os indivíduos estão disputando a atenção entre a produção escrita de um relatório da empresa e a digitação de um comentário em uma rede social, conforme indica Elgan (2017) no site Idgnow? Seja no meio acadêmico, seja no trabalho, escrevendo uma resenha, ou até mesmo no âmbito pessoal, os indivíduos escrevem e/ou formulam, constantemente, textos escritos e/ou orais.
Considerando o crescente desenvolvimento tecnológico, de acordo com Neilane de Souza Viana (2012, p. 5), “as novas possibilidades de interações pela rede virtual estão influenciando de maneira significativa as formas de escrever”. As condições de escrita vêm ganhando um leque de diversidade semântica, além de contemplar abreviações capazes de expressar amplamente as frases e/ou palavras. Assim, conforme Viana (2012, p. 5), a norma culta padrão está ficando cada vez “menos presente na escrita disseminada, sobretudo nas redes sociais”. A internet quebrou as barreiras geográficas e culturais, e criou, também, um código que, muitas vezes, só os internautas conseguem decifrar. Quem entra na sala de bate-papo, escrevendo palavras com pontuações corretas e colocando os devidos acentos, acaba por “denunciar” que não pertence aquele grupo, ou seja, não está acostumado a utilizar a linguagem da internet.
Em visto disto, considerando o tema desta reflexão “Escrever, hoje”, nesse contexto de emergência de – novas – práticas de escrita, é válido apresentar hipóteses explicativas sobre o chamado “internetês”, uma das práticas letradas em Língua Portuguesa, frequentemente associada a jovens usuários da internet. Em uma primeira aproximação ao tema, o internetês pode ser definido como uma “forma grafolinguística que se difundiu em bate-papos virtuais e comunicadores instantâneos, de forma geral; também em blogs, microblogs e demais redes sociais” (KOMESU; TENANI, 2015, p. 15). Sendo uma comunicação ágil, próxima ao ritmo de fala, o internetês seria uma das práticas possíveis da linguagem, partilhada entre adeptos do computador com acesso à internet. Segundo Komesu e Tenani (2015, p. 22), em comum, as pessoas conectadas têm o propósito de “se aproximar – física, afetiva, simbolicamente – umas das outras num espaço ‘virtual’ por meio do trabalho na linguagem”. Não se trata, simplesmente, de uma “interferência” da fala na escrita, concepção que tem como base oposição entre uma modalidade e outra – práticas orais/faladas versus práticas letradas/escritas –, mas de “modo heterogêneo de constituição da escrita” (KOMESU; TENANI, 2015, p. 22) fundada nas possibilidades que a própria estrutura oferece aos usos que as pessoas fazem do sistema linguístico, no jogo da interlocução social. A visão tradicional da relação fala/escrita pressupõe a interferência da fala na escrita, com a assunção preconceituosa contra as práticas orais/faladas.
A partir de uma concepção de que haveria uma modalidade de escrita pura – associada seja à norma padrão, seja à gramática – e projetada como ideal da escrita, muitos indivíduos tecem críticas ao internetês, indicando que esse fenômeno estaria “assassinando” a Língua Portuguesa. Despreza-se, assim, o fato de que, mais do que possibilitar a transmissão de informações, o sujeito dialoga com o outro, constituindo-se como sujeito na/pela linguagem. No internetês, segundo Komesu e Tenani (2015, p. 639, grifos das autoras), tem-se um “lócus privilegiado de observação da escrita como um modo de enunciação fundado no encontro entre práticas sociais do oral/falado e do letrado/escrito”. Assim, há uma forma de interação social e histórica por intermédio da linguagem, por intermédio da escrita. Para além da dita “deterioração de padrões”, o internetês possibilita a interação instantânea entre os interlocutores e representa a identidade “de um grupo de uma comunidade que quer se reconhecer por elas e por elas ser reconhecido” (KOMESU, TENANI, 2009, p. 628). Por exemplo, quando nosso/a amigo/a digita “Oiiiiii”, incluindo inúmeras vezes a vogal “i”, o esperado é que respondamos aquele cumprimento com a mesma intensidade.
Por fim, escrever, hoje... envolve a interação entre os sujeitos, o diálogo, as trocas discursivas e a constituição do “eu” na e pela linguagem. Para além de conceber a escrita como um conjunto de signos que se combinam de acordo com regras, é fundamental compreendê-la como uma prática social que promove a interação entre os sujeitos e que possibilita a atuação do “eu” como um indivíduo pensante, crítico e questionador na sociedade.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo : Martins Fontes, 1997.
ELGAN, M. Os smartphones estão sugando a sua produtividade. Você abriria mão deles? Disponível em: http://idgnow.com.br. Acesso em: 04 mar. 2021.
KOMESU, F; TENANI, L. Considerações sobre o conceito de internetês nos estudos da linguagem. Linguagem em (Dis)curso, Palhoça, SC, v.9, n. 3, p.621-643, set/dez. 2009.
______________________. O internetês na escola. 1. ed. São Paulo : Cortez, 2015.
RIBEIRO, Ana Elisa. Tecnologia e poder semiótico: escrever, hoje. Texto livre: linguagem e tecnologia, v. 8, n. 1, p. 112-123, 2015.
VIANA, Neilane de Souza. A linguagem escrita na era da tecnologia: investigando a informalidade nas comunicações online. Revista Vozes dos Vales. Minas Gerais, nº 02, ano 1, p. 1-14, out., 2012. "
Por Vanessa Chaves (março de 2021).
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