24/08/2017
OBSERVAÇÕES PARCELADAS SOBRE O PLANO PARA A VILA NAVAL E SANTO AMARO - 1
Em alguns debates que temos tido sobre o Plano para a Vila Naval e Santo Amaro, e lá na própria audiência pública de anteontem, rola uma insistência de que "temos que reconhecer os avanços do plano", as ~~inovações~~ (sic). Aí citam um punhado deles: a exigência de uso misto, a limitação de estacionamento, a cobrança de outorga onerosa (a exigência de pagamento para construir além de certo ponto).. Mas vamos ver as novidades:
1. A ideia de que uso misto, fachada ativa etc. é bom para gerar vitalidade urbana e diminuir a necessidade de carro para deslocamentos etc. vem lá de Jane Jacobs, anos 1960, QUASE SESSENTA ANOS ATRÁS, no livro Morte e Vida das Grandes Cidades.
2. Um livro seminal de denúncia da legislação que favorece o excesso de oferta de estacionamento e, por consequência, estimula o uso do carro é o The High Cost of Free Parking, de Donald Shoup, lançado em 2005, doze anos atrás, mas quase ontem para um poder público que se renova praticamente na velocidade dos dogmas do Vaticano. Mas a idéia de que não tem solução para a mobilidade senão desestimulando o uso do carro já está, pelo menos, no livro Stuck in Traffic, de Anthony Downs, lançado em 1992!
3. E a outorga onerosa, nossa! É um instrumento que tem suas origens em Porto Alegre, no final dos anos 1970, começou a ser usado com mais intensidade em Curitiba nos anos 1990, e que já estava *previsto* no plano diretor do Recife de 1991! Há vinte e seis anos que se prevê a possibilidade de exigir um pagamento do empreendedor para verticalizar (adensar) além de certo ponto, como forma de arrecadar fundos para investimento em infra-estrutura e moradia social, e que não se cobra! A gente perdeu a chance de usar esse instrumento em todo boom imobiliário da primeira década desse século, ou seja, perdeu a chance de fazer com que parte do lucro das empreiteiras fosse partilhado para benefício da sociedade. E, mais recentemente, a Prefeitura se recusou a adotar a outorga no caso do Estelita. Agora, só porque já tá feio demais continuar a gerar valor em cima da cidade, sobrecarregando a infra-estrutura, sem repartir nada, é que se vem falar em outorga. Mas já chega muito muito tarde, depois que as construtoras já deixaram de contribuir com centenas de milhões de reais para a cidade.
Ou seja, são "avanços" que já chegam muito tarde, que não fazem mais do que a obrigação de um órgão de planejamento que não queira passar (mais) vergonha, que fazem o urbanismo do Recife finalmente chegar aos anos 90, mas que, no fundo, ainda não colocam em questão o modelo de cidade que fundamenta a proposta para a Vila Naval. Muito do que é vendido como qualidade urbana do projeto beneficia o próprio empreendimento privado, gera valor para o próprio empreendedor. Basta pensar no grande parque na frente dos prédios. Só que cabe a pergunta: quem se beneficia desses "avanços"? Para quem é esse modelo de cidade proposto?