Marcos Rolim

Marcos Rolim Esta é uma página de luta pelos direitos humanos. Argumentos são bem vindos; agressões, preconceitos, estímulo à violência, não.

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01/08/2026

"A redução da maioridade penal será um novo elemento a reforçar o crime e a violência no Brasil".
Entrevista especial com o prof. Dr Marcos Rolim para o Instituto Humanitas da Unisinos

Faltando poucos meses para a próxima eleição legislativa, um dos temas de campanha já foi adiantado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados: a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta, retomada com frequência no debate público, tem sido defendida por parlamentares que apostam no discurso do encarceramento com o objetivo de conquistar o apoio do eleitorado. “Propor penas mais duras, aumento dos efetivos policiais e aumento das taxas de encarceramento virou uma receita de sucesso eleitoral no Brasil”, afirma Marcos Rolim ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU ao comentar a medida aprovada no mês passado.

Rolim insere-se entre os sociólogos que criticam a falta de horizonte da esquerda e o oportunismo da direita no enfrentamento de problemas sociais. Na avaliação dele, o debate brasileiro sobre a redução da maioridade penal é ideológico. Na área de segurança pública, por sua vez, estabeleceu-se “um impressionante vazio”, acrescenta o entrevistado. “O que construímos nas últimas décadas foi (…) um deserto onde dois discursos se destacam: de um lado os setores mais à direita propondo penas mais graves, mais polícias e mais prisões e, de outro lado, os setores mais progressistas sugerindo que o caminho para a superação da violência e do crime se fará com maior distribuição de renda, acesso à educação etc. Esses dois discursos estão absolutamente equivocados, mas o discurso repressivo é mais simples, promete resultados de curto prazo e manipula o medo e o ódio das pessoas”, pondera na entrevista a seguir concedida por e-mail.

Marcos Rolim defende a construção de políticas públicas baseadas em evidências, reflete sobre a reformulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para casos excepcionais envolvendo adolescentes em crimes graves e comenta o resultado de iniciativas norte-americanas de encarceramento dos jovens no sistema penal. As evidências, menciona, indicam que as chances de reincidências no crime são maiores para jovens julgados como adultos.Confira a entrevista.

IHU – O que explica a aprovação da redução da maioridade penal na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na Câmara dos Deputados no atual contexto sociopolítico do país?

Marcos Rolim – O Brasil não dispõe de políticas de segurança pública efetivas e, no plano nacional, temos um impressionante vazio. Temos algumas poucas experiências exitosas em municípios e alguns programas específicos de sucesso em certos estados. O quadro mais amplo, entretanto, é marcado pela ineficácia, pelo desperdício de recursos públicos, pela violência e pela corrupção policial. O que construímos nas últimas décadas foi, em síntese, um deserto onde dois discursos se destacam: de um lado os setores mais à direita propondo penas mais graves, mais polícias e mais prisões e, de outro lado, os setores mais progressistas sugerindo que o caminho para a superação da violência e do crime se fará com maior distribuição de renda, acesso à educação etc.

Esses dois discursos estão absolutamente equivocados, mas o discurso repressivo é mais simples, promete resultados de curto prazo e manipula o medo e o ódio das pessoas. Por isso, é muito mais eficiente. A esquerda, ao se recusar a enfrentar os desafios na área da segurança, permitiu que a direita hegemonizasse esse campo. A situação fez com que o próprio discurso da direita passasse a ser reproduzido por segmentos mais tradicionais da esquerda que procuram sintonia com a demanda punitiva para não perder apoio eleitoral. Trata-se de mais um exemplo de como a incompetência e a irresponsabilidade costumam se associar com o oportunismo e a covardia.

A esquerda, ao se recusar a enfrentar os desafios na área da segurança, permitiu que a direita hegemonizasse esse campo – Marcos Rolim

Reformulações do ECA
A redução da maioridade penal é um novo capítulo dessa novela de quinta categoria. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabeleceu o tempo máximo de três anos para o cumprimento de medidas em meio fechado. Isso signif**a que, no Brasil, onde adolescentes podem ser encarcerados a partir dos 12 anos, há um limite de duração dessa medida. Como regra geral, isso faz todo o sentido, mas há alguns poucos casos que não. Assim, por exemplo, se um jovem de 16 anos é responsabilizado por matar três pessoas, em circunstâncias absurdas de violência, o ECA diz que ele será colocado em liberdade aos 19 anos. Isso, obviamente, ofende o senso comum de justiça e transmite a noção de que a responsabilização não foi efetiva. Esse é um ponto do ECA que deveria ter sido reformulado há muito tempo. Nesse caso, a Lei seria alterada fixando-se um limite maior para determinados perfis agravados que, repito, são raros. A maioridade poderia ser mantida aos 18 anos, mas, em alguns casos, adolescentes autores de atos especialmente graves poderiam permanecer no sistema socioeducativo por prazos maiores.

Essa foi a opção, aliás, de muitos outros países na região. No Uruguai e no Chile, esse prazo pode ser de até 10 anos; no Panamá, até 12 anos; no México, limites de até 7 ou 10 anos; na Costa Rica, até 15 anos e na Colômbia, até 8 anos. Nesses países, ao completar 18 anos, os jovens de perfil agravado em cumprimento de medidas em meio fechado seguem nos estabelecimentos socioeducativos, evitando-se, assim, a transferência para presídios de adultos.

Ocorre que a esquerda brasileira nunca concordou com esse caminho, aferrando-se aos termos do ECA. Essa escolha facilitou o caminho da direita na pauta da redução da maioridade penal. Nenhuma surpresa.

IHU – Por que há uma insistência em reduzir a maioridade penal desde a promulgação da Constituição?

Marcos Rolim – Propor penas mais duras, aumento dos efetivos policiais e aumento das taxas de encarceramento virou uma receita de sucesso eleitoral no Brasil. A equação é simples: pessoas atemorizadas pelo avanço do crime e vítimas indignadas com o sofrimento a que foram expostas se inclinam facilmente em direção a medidas punitivas. Essa dinâmica envolve todas as classes sociais, mas é especialmente signif**ativa entre as populações mais pobres porque os pobres são as vítimas mais comuns de muitos crimes. Os ricos temem a violência e o crime, mas estão muito mais protegidos. Então, o sujeito é candidato a algum cargo e percebe que se começar a repetir que “bandido bom é bandido morto” aumentará sua votação. O que parece atualizar aquela máxima de que, todo dia, um malandro e um otário saem de casa.

Propor penas mais duras, aumento dos efetivos policiais e aumento das taxas de encarceramento virou uma receita de sucesso eleitoral no Brasil – Marcos Rolim

Receitas ideológicas
O ponto é que não se constrói uma solução consistente para qualquer problema real com receitas ideológicas, mas com diagnósticos competentes e políticas públicas baseadas em evidências. Direita e esquerda debatem o tema da maioridade penal há décadas com base em ideologias. Nenhum dos campos ancora suas posições em evidências científ**as que são, no mais, amplamente desconhecidas.

Direita e esquerda debatem o tema da maioridade penal há décadas com base em ideologias – Marcos Rolim

Nos Estados Unidos, por exemplo, várias iniciativas de tratar adolescentes com prisão foram aplicadas. Um dos programas de maior apoio popular por lá ficou conhecido como Scared Straight. A ideia era a de “dar um susto” em adolescentes que haviam cometidos atos infracionais, fazendo com que eles passassem curtos períodos em prisões de adultos. Uma revisão sistemática Campbell de Petrosino e colaboradores (2013) analisou nove Estudos Clínicos Randomizados (RCTs), com 946 jovens em oito jurisdições por um período de 25 anos. Os resultados mostraram que o programa é muito eficiente para aumentar o crime (odds ratio [probabilidade] de 1,72 de reincidência para participantes X grupos de controle).

O programa reforçou a identidade delinquente dos jovens, agenciou a aprendizagem social com os condenados adultos e estimulou a admiração pelos presos mais violentos; normalizou o cárcere como “destino” e aumentou a dessensibilização dos jovens pelas punições. As evidências mostram que a chance de reincidir é, aproximadamente, duas vezes maior para quem foi julgado como adulto do que para quem permaneceu no sistema juvenil. Muito bem, é essa bela porcaria que o Congresso Nacional acaba de aprovar.

As evidências mostram que a chance de reincidir é, aproximadamente, duas vezes maior para quem foi julgado como adulto do que para quem permaneceu no sistema juvenil – Marcos Rolim

IHU – Que alternativas poderiam impedir o ingresso e o envolvimento dos jovens menores de 18 anos no mundo do crime?

Marcos Rolim – Há muitos programas e iniciativas que produzem resultados impressionantes de prevenção, afastando jovens de alternativas criminais em todo o mundo. Um dos estudos mais conhecidos é o Perry Preschool Project, experimento randomizado conduzido em Michigan, nos EUA, a partir dos anos 1960 com crianças afrodescendentes de 3 a 4 anos em situação de pobreza. O acompanhamento longitudinal, com quatro décadas de dados, mostrou reduções estatisticamente signif**ativas em prisões e condenações até os 40 anos de idade, tanto para homens quanto para mulheres.

O Nurse-Family Partnership, desenvolvido por David Olds, consiste em visitas domiciliares de enfermeiras a gestantes de primeira gravidez, de baixa renda, até os dois anos de vida da criança. Os três ensaios clínicos randomizados originais (Elmira, Memphis e Denver) mostraram signif**ativa redução de prisões e melhora em indicadores de negligência e maus-tratos. Em regra, revisões sistemáticas sobre prevenção seletiva mostram um padrão importante: programas para jovens em conflito com a lei centrados em elementos repressivos ou punitivos tendem a ser inef**azes, enquanto programas que fortalecem vínculos sociais positivos de jovens em risco (controle social informal e de apoio) tendem a funcionar.

Revisões sistemáticas sobre prevenção seletiva mostram um padrão importante: programas para jovens em conflito com a lei centrados em elementos repressivos ou punitivos tendem a ser inef**azes, enquanto programas que fortalecem vínculos sociais positivos de jovens em risco tendem a funcionar – Marcos Rolim

As pessoas interessadas no tema podem acompanhar mais de perto os registros de eficiência de diferentes programas de prevenção acessando o Blueprints for Healthy Youth Development, da Universidade do Colorado Boulder, que certif**a programas como “Promissores”, “Modelo” ou “Modelo+”, conforme padrões rigorosos de evidência experimental, e o CrimeSolutions, do Instituto Nacional de Justiça dos EUA (National Institute of Justice), que classif**a programas por nível de evidência e é atualizado com regularidade.

IHU – Como as práticas punitivistas interferem e dificultam a implementação de outras medidas para recuperar jovens adolescentes envolvidos com o crime?

Marcos Rolim – A demanda punitiva no Brasil faz com que os gestores públicos na União, nos estados e nos municípios nem sequer cogitem investir em programas de prevenção social, especialmente programas de prevenção terciária (voltados a jovens que já se envolveram com o crime) porque precisam de voto e não possuem a coragem cívica necessária para bancar o debate diante de uma opinião pública hostil.

O fato é que há uma série de dinâmicas que pioram o prognóstico para jovens envolvidos com o crime quando eles são tratados como se fossem adultos e passam a cumprir penas em estabelecimentos prisionais. Quando definimos a idade da maioridade penal, estamos decidindo apenas em que sistema os condenados serão recebidos: se no socioeducativo ou no prisional. A escolha dessa maioria irresponsável e ignorante que coloniza o Parlamento brasileiro foi a de encaminhar jovens a partir de 16 anos com perfil agravado para o sistema prisional. Ou seja, o que o Congresso decidiu foi desistir da socioeducação. Essa escolha conta hoje, no Brasil, com o apoio da maioria dos eleitores, o que também não surpreende, porque a esquerda, com raras exceções, desistiu de travar esse debate há muito tempo.

O que o Congresso decidiu foi desistir da socioeducação – Marcos Rolim

Resultados
O que iremos colher por conta dessa decisão é uma precipitação dos vínculos criminais desses jovens encaminhados aos presídios de adultos; uma ruptura muito mais séria dos seus vínculos familiares e escolares; uma socialização com pares mais experientes no crime, seguido pelo aumento das taxas de reincidência e do número de jovens violados sexualmente nas prisões. Tudo isso produzindo maior estigma social após cumprimento das penas; ou seja: dificultado a reinserção social. Em síntese, a redução da maioridade penal será um novo elemento a reforçar o crime e a violência no Brasil.

O pacote do “modelo Bukele”Marcos Rolim Extra Classe - Sinpro/RSLideranças políticas brasileiras e aventureiros da extre...
25/07/2026

O pacote do “modelo Bukele”
Marcos Rolim

Extra Classe - Sinpro/RS

Lideranças políticas brasileiras e aventureiros da extrema direita têm invocado a experiência de El Salvador como “modelo” de segurança pública a ser seguido. A referência é ao governo de Nayib Bukele (foto), que introduziu o chamado régimen de excepción decretado em março de 2022. O autocrata suspendeu garantias constitucionais básicas e autorizou a prisão em massa de supostos integrantes de gangues. As imagens de milhares de homens de cabeça raspada, encarcerados em condições que lembram campos de concentração, circularam pelo mundo e, claro, conquistaram admiradores. Vale examinar mais de perto o tema.

A queda nos homicídios em El Salvador é real. Ninguém com responsabilidade intelectual pode ignorá-la. O problema está em compreender o que a produziu e a que preço. As estatísticas oficiais mostram que a redução da violência letal no país começou após 2015, o ano mais violento da história recente salvadorenha, e se intensificou a partir de 2019, quando Bukele assumiu a presidência. O regime de exceção, eufemismo para ditadura, só veio em março de 2022. Se a queda já estava ocorrendo no período anterior, a que se deve atribuí-la?

A resposta mais incômoda para os admiradores do modelo foi revelada, com documentação incontestável, pelo jornalismo investigativo do El Faro, o mais importante veículo independente de El Salvador. A publicação obteve cópias de vários relatórios oficiais do próprio sistema penitenciário salvadorenho, confirmando dezenas de reuniões secretas entre funcionários do governo Bukele e líderes das gangues MS-13 e Barrio 18 desde junho de 2019. Os documentos, produzidos pela inteligência penitenciária do próprio governo, revelam que o acordo incluía redução de homicídios em troca de benefícios carcerários e apoio eleitoral (El Faro, setembro de 2020). Em 2025, um documentário produzido em parceria com o Frontline da PBS entrevistou líderes do Barrio 18 que confirmaram o pacto e que escaparam do país com a cumplicidade do governo (PBS Frontline, abril de 2026).

Quando esse pacto se rompeu, em março de 2022, após um fim de semana com mais de 80 homicídios, que investigações do El Faro atribuem à ruptura do acordo, Bukele respondeu com a ditadura. O que se seguiu é documentado por organizações como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch: mais de 84 mil pessoas foram presas até dezembro de 2024 (dado do próprio governo salvadorenho). Ao menos 132 morreram sob custódia estatal até março de 2023, sem que tivessem sido condenadas, a maioria com evidências de tortura e tratamento cruel (Anistia Internacional, 2023). Organizações de direitos humanos documentaram mais de 6,4 mil denúncias de violações e o próprio governo admitiu ter liberado oito mil presos por não terem qualquer relação com gangues. A ONG Socorro Jurídico Humanitário, por seu turno, estima que cerca de 30 mil detidos podem ser inocentes (El Diario de Hoy, 2026).

Este é o primeiro custo do modelo: o sofrimento humano em escala, mas há desdobramentos cujos efeitos só serão percebidos nos próximos anos. A prisão massiva, sem qualquer programa de tratamento penal, em condições que a própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos classificou como aviltantes, tende a produzir o efeito oposto ao desejado a médio e longo prazos. A Criminologia acumulou décadas de evidências mostrando que o encarceramento sem reabilitação não reduz a reincidência, ao contrário, tende a aumentá-la, especialmente quando o detento é exposto à violência sistemática e ao convívio compulsório com lideranças criminosas mais experientes.

O segundo custo é ainda mais grave, porque afeta a todos, não apenas aos que passam pelas prisões. Governos que suspendem o devido processo legal para “combater o crime” não estão apenas mudando a forma como tratam suspeitos. Estão desfazendo a arquitetura jurídica que protege qualquer pessoa de qualquer arbítrio estatal. O régimen de excepción salvadorenho não é um episódio excepcional, tornou-se permanente, renovado mês após mês pela Assembleia controlada por Bukele. O mesmo presidente que dissolveu o Poder Legislativo com apoio militar em 2021, destituiu membros da Suprema Corte, alterou a Constituição para viabilizar sua reeleição, proibida pelo texto original. O que está sendo vendido como “política de segurança” é, na verdade, um pacote bem maior. E nesse pacote a democracia é a primeira variável de ajuste.

Isso tem uma implicação direta para quem acredita que o modelo poderia ser replicado no Brasil para atingir apenas criminosos. O ponto é que a lógica da exceção não funciona assim. Um governo que pode prender sem provas, que pode suspender garantias constitucionais por decreto, que pode destituir juízes que não lhe convenham, esse governo pode fazer isso com qualquer pessoa ou grupo que represente um obstáculo aos seus planos. Ontem, os membros de gangues; hoje, os críticos, os jornalistas, os advogados de direitos humanos. Não se trata de especulação, é exatamente o que está acontecendo em El Salvador, onde a diretora da Socorro Jurídico Humanitário se encontra exilada no México após sofrer perseguição por documentar violações de direitos (Diario El Mundo, 2026).

Há, evidentemente, um caminho alternativo. Ele é mais trabalhoso, mais lento e politicamente menos espetacular. Envolve investimento em policiamento baseado em evidências, programas de prevenção para jovens em situação de risco, tratamento para dependentes químicos, integração de políticas sociais com estratégias de segurança e fortalecimento das instituições de justiça. Esse caminho existe e funciona, como mostram as experiências de Bogotá, Medellín e de alguns municípios brasileiros que reduziram seus indicadores de violência sem suspender direitos. Infelizmente, é um caminho que tende a não despertar o entusiasmo de quem prefere a espetacularização da força à eficácia discreta das políticas públicas consistentes.

Quando lideranças políticas no Brasil falam em “fazer o que Bukele fez”, é preciso perguntar, com toda a clareza: fazer o quê, exatamente? Prender milhares de pessoas sem provas? Construir campos de concentração? Reescrever a Constituição para permanecer no poder? A democracia não é um detalhe do modelo, é exatamente o que o modelo destrói para funcionar.

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24/06/2026

Há 30 anos, perdemos Sérgio Metz, o "Jacaré", amigo e poeta de infinito talento. Na época, escrevi um pequeno texto em Zero Hora, que posto aqui para lembrar de meu amigo:

AGORA SOMOS UM
Zero Hora
20/06/96

Em memória de Luiz Sérgio Metz
Costuma se repetir que a morte é a ausência. Há, entretanto, uma presença impossível na morte repartida nos que f**aram. Luiz Sérgio Metz, o "Jacaré", se repartiu entre nós e já é difícil saber se foi um de nós que morreu ou se morremos um pouco todos nós. Em si mesma, a morte é um não-conceito. Uma palavra que expressa a supressão do conteúdo e que corrói a razão. Diante dela, esgotado o pensamento, resta-nos os subterfúgios. Não se pode compreender a morte pela mesma razão que nos é impossível interrogar o silêncio. Pode-se dizer que a morte é o nada ou mesmo afirmar que ela é menos do que nada. Com Sêneca e com os estóicos, poderíamos repetir que "depois da morte tudo acaba, inclusive a morte" ou, afirmar, como Feuerbach, que "a morte é um fantasma, pois só existe quando não existe". Tudo seria, de qualquer forma, simplesmente inútil. O que verdadeiramente importa é a perda e seu sem-sentido, a dor que se derrama em nós e que nos envelhece e esta estranha sensação de que a morte pode se alojar em nossa alma assim como se fosse a lembrança da injustiça.
Quando morreu Manoel Scorza, Jacaré escreveu um poema belíssimo intitulado "Redoble por Scorza". Onde escreveu versos como: "Escrevem Scorza no barro, nos duzentos dias de chuva/ e Manoel no tijolo, meio índio, meio nada, meio tudo./ Gemada de ovo de cobra/ cisco e cascavel imaginária/ plástica cobra e punhal pulpeiro e reza de traições/ de traídos bugres de lama e revolta... Scorza, raio insepulto/colorado raio de cobre e Peru..." No bilhete que me enviou com o poema, Jacaré disse que quando soube da morte do escritor andino teve uma infinita vontade de agradecer-lhe pelos livros que havia escrito. A vontade que tenho agora, é a de agradecer ao meu amigo pelos livros, pelas letras das canções, pelos panfletos, pelas frases desconcertantes, pelas metáforas encantadas. Afinal, ainda que o mundo não tenha tido tempo de sabê-lo, sei que morreu o maior dos nosso poetas e todos os que conheceram seus textos sabem disso. Não obstante, percebo que a morte do Jaca nos subtrai algo mais do que um talento infinito. O quê perdemos - definitivamente agora - foi a hipótese da reconciliação.
Nós todos, do grupo de Santa Maria, que nos espalhamos entre Baudelaire e Benjamin, já havíamos perdido a sobriedade com a partida do Memo (Adelmo Genro Filho). Nos tiraram, agora, a embriaguez. Nem a filosofia será, para nós, a mesma; nem a poesia terá o mesmo sentido. Não estamos orientados, nem perdidos. Nossos caminhos, simplesmente, não se encontrarão mais. O que restava do nosso contorno se apagou. Estamos irremediavelmente sós, incompreendidos em nossa própria língua, esgrimindo sem espadas; cavalgando, como escreveu Jaca, com os olhos vendados. E nem podemos mais dizer, como Gomercindo, o personagem de "Assim na Terra", que "dois contra a desgraça são quatro!" Agora somos um. Nós e a desgraça.

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Na próxima quinta-feira (12) lanço meu novo livro. Quem estiver em Porto Alegre e se interessar por Justiça Restaurativa será bem vindo!

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