31/05/2026
Hoje meu filho faz 18 anos. ❤️
E eu sigo sem entender como isso aconteceu tão rápido. Ontem minha casa estava cheia de adolescentes. Comendo, bebendo, falando besteira e rindo alto.
Em vários momentos fiquei olhando aquela cena e pensando que não faz tanto tempo assim que eu estava exatamente no lugar deles. Inclusive foi nessa época que eu namorava o pai dele,
(e provavelmente ele foi concebido após um evento parecido com esse). Agora ele vai ler e fazer cara de nojo 🤢
Talvez por isso seja tão estranho perceber que aquele bebê que tive aos 21 anos está se tornando um homem. Nossa caminhada não foi fácil. Fui mãe solo, pagava trem pra Feevale barriguda, estudava, trabalhava em dois empregos e aprendia a ser mãe enquanto ainda estava aprendendo a ser adulta (spolier: foi difícil demais).
A adolescência dele trouxe um cataclisma na minha vida, veio como um rolo compressor, me colocou frente a frente com a necessidade de quebra de valores inegociáveis pra mim, muitos desafios para nós dois, mas também nos fez crescer.
E se chegamos até aqui, foi porque nunca estivemos sozinhos. Meus pais foram nossa rede de apoio, nosso porto seguro em todas as fases.
O mais estranho de tudo seja perceber que aquele bebê que eu embalei nos braços agora tem 18 anos, enquanto eu ainda me assusto quando lembro que sou a adulta responsável da história. Gente eu sou uma mocinha ainda cheia de sonhos 🤣
Hoje olho para ele com muito orgulho. Não porque tudo foi perfeito, mas porque seguimos juntos, aprendendo, errando, acertando e nos escolhendo estar mesmo que do nosso jeito torto e monossilábico.
Feliz aniversário, filho. Obrigada por crescer comigo.
18 anos de você.
18 anos de nós. ✨
20/05/2026
Hoje, no dia do técnico em enfermagem, penso muito na profissional que fui antes de me tornar enfermeira obstetra. Fui a técnica que aprendeu no caos o que era cuidar de 6 trabalhos de parto sozinha. Que aprendeu a usar chuveiro porque assim elas “gritavam menos” e que na bola o bebê “descia mais rápido”. A técnica que prezava pela dignidade das pacientes. Que montava kit de higiene pra puérpera que não tinha nem sabonete pra tomar banho após o parto. Creme pra pentear, escova… eu sentia prazer em ver elas limpas e cheirosas pra cuidar do seu bebezinho. Sou assim até hoje. A técnica que guardava lanche do plantão pra garantir que nenhuma mulher ficasse com fome depois de horas em TP. A que dava água escondido pras mulheres. Em 2013, no meu último ano como técnica, fiz questão de trabalhar em UTI pediátrica. Queria experiência cuidando de bebês graves porque sabia que isso me daria chão e responsabilidade pra cuidar de bebês saudáveis depois. UTI cardio bebê. Você sabe o que significa cuidar de um pós-operatório cardíaco? E fui também a técnica que caiu de paraquedas num curso de doulas em 2012 e descobriu que praticamente tudo que fazíamos diariamente era violência obstétrica. Aquilo me atravessou profundamente. Doeu. Eu chorei muito. Percebi que já tinha cometido violência sem perceber. Não por maldade. Mas porque era assim que nos ensinavam. Assim “ajudava”. Quando decidi mudar minha assistência, deixei de ser “a querida”. Passei a incomodar. E talvez minha fama de brava venha daí. Eu passei a desconfiar e questionar tudo que achava errado. Mas ainda bem que mudei. E se eu pudesse deixar um conselho para outras técnicas seria: estudem. Não sejam apenas executoras de prescrição. Questionem. Observem. Tentem entender o porquê das coisas. Eu era a técnica que chegava em casa depois do plantão pra estudava o que era Pré-eclâmpsia e DMG. Conhecimento muda assistência. E às vezes muda até a coragem que a gente precisa ter pra transformar o lugar onde trabalha. 💛
Obs: legenda nas fotos tem indireta. Se a carapuça servir pega ela pra ti.
15/05/2026
A experiência humana gira em torno da falha.
Humanos, inevitavelmente, falham.
Um dia eu caí. E a queda foi dolorida porque percebi uma coisa simples: pessoas continuam sendo humanas, mesmo quando colocamos elas num pedestal. Nem médicos. Nem enfermeiras obstetras. Nem doulas. Nem equipes. Nem referências famosas da internet.
Pessoas agem conforme seus valores, seus medos, suas vaidades, seus interesses e suas emoções. São corruptíveis. São imperfeitas. Todos nós somos.
Acho perigoso quando a enfermagem obstétrica começa a funcionar baseada em figuras “intocáveis”. Quando alguém vira uma autoridade moral absoluta. Porque é exatamente aí que a crítica morre. E quando a crítica morre, a enfermagem obstétrica perde sua essência: estar ao lado da mulher, sustentar a fisiologia e manter compromisso com o cuidado antes da hierarquia.
Já me decepcionei com pessoas que eu admirava profundamente. E também sei que, inevitavelmente, já decepcionei pessoas. Porque eu também sou humana.
Isso não me deixou mais amarga (doce eu nunca fui). Mas me deixou mais lúcida.
Hoje eu acredito que a enfermagem obstétrica precisa ser autônoma justamente porque ninguém deveria ocupar um lugar de devoção dentro da assistência. Nem nós mesmas.
Precisamos de pensamento crítico, capacidade de discordar, revisar práticas e sustentar princípios mesmo quando isso desagrada grupos ou pessoas admiradas.
Também precisamos construir relações onde exista espaço real para discussão e reavaliação ao longo do caminho. Porque relações maduras não são aquelas onde nunca há conflito. São aquelas onde existe segurança suficiente para pensar criticamente sem medo de silenciamento.
Aprendi com bell hooks que amor e crítica não são opostos.
A obstetrícia brasileira já é excessivamente construída em relações de poder. Trocar um poder por outro não muda a estrutura. Só muda quem ocupa o topo dela.
A assistência segura não nasce de heróis. Nasce de ética, estudo, responsabilidade coletiva e coragem de permanecer humano mesmo ocupando um lugar técnico.
14/05/2026
Ao longo dos anos atendendo parto, eu percebi que enlouquecer era uma possibilidade real. E enlouqueci, várias vezes.
E não estou falando dos grandes acontecimentos. Estou falando do cotidiano mesmo.
Duas mulheres começando a contrair ao mesmo tempo.
O telefone tocando enquanto tu ainda está em outro parto.
Mensagens chegando em sequência.
Uma bolsa rompendo exatamente quando outra dilatação completa.
O relógio correndo numa direção que nunca respeita planejamento humano.
No começo eu tentava controlar tudo.
Mentalmente eu queria prever horários, organizar desfechos, antecipar riscos, impedir coincidências.
Como se bastasse eu me esforçar o suficiente pra vida obedecer uma lógica.
Mas o parto foi me ensinando uma coisa profundamente desconfortável:
quase nada está sob nosso controle.
E existe um sofrimento que nasce justamente da ilusão de que deveria estar.
Acho que foi aí que comecei, sem perceber, a me aproximar de uma visão mais estoica da vida.
Entender que serenidade não significa ausência de caos.
Significa aprender a não ser destruída por ele.
Hoje, quando duas mulheres começam a contrair juntas, eu ainda sinto adrenalina.
Ainda acelera tudo aqui dentro.
Mas já não existe aquele desespero antigo de querer dominar o impossível.
Eu penso:
o que está sob meu alcance agora?
Posso organizar deslocamentos.
Posso priorizar condutas.
Posso pedir ajuda.
Posso estar verdadeiramente presente onde estou.
Posso sustentar técnica e emocionalmente o que depende de mim.
O resto… eu aprendi a soltar.
Porque parto é quase um exercício diário de humildade.
Os bebês não nascem em horários convenientes.
As urgências não pedem licença.
Eventos fisiológicos não têm roteiro.
E talvez maturidade, nessa profissão, seja entender que estabilidade não é ter tudo funcionando perfeitamente.
É continuar inteira mesmo quando não está.
Maio tem sido um mês caótico.
Cheio de surpresas, imprevistos e exaustão.
Mas percebo que hoje eu atravesso isso de um jeito diferente de anos atrás.
Menos tentando controlar o mar.
Mais aprendendo a navegar.
Foto:
10/05/2026
Hoje eu dormi o dia inteiro.
E talvez isso também diga muito sobre a vida que eu vivo.
Nos últimos 5 dias, 9 bebês nasceram na nossa equipe.
9 famílias tiveram alguém disponível na madrugada, no feriado, no final de semana, na urgência, no medo.
Enquanto isso, eu estive fora de casa.
Sábado eu fui na apresentação da Clara na escola.
Cheguei, sentei, assisti ansiosa… e precisei precisava voltar pro hospital pra seguir cuidado de uma mulher se tornando mãe de novo.
Minha filha chorou quando eu fui embora.
E eu fui chorando também.
Tem uma parte do nosso trabalho que quase ninguém vê.
As pessoas veem a foto do bebê nascendo.
Veem o vídeo emocionante.
Veem o parto bonito.
Mas raramente enxergam o que existe do outro lado disso.
Não é “só estar de sobreaviso”.
É viver com a vida permanentemente interrompível.
É sair do almoço no meio.
É cancelar presença em cima da hora.
É nunca poder tomar uma taça de vinho.
É dormir com o celular no volume máximo.
É nunca conseguir prometer que vai estar.
É ver os próprios filhos entendendo cedo demais que a mãe deles pode precisar se ausentar a qualquer momento.
E talvez a parte mais difícil seja perceber que muitas vezes quem nos contrata não enxerga o tamanho da renúncia que existe por trás desse trabalho.
Porque cada parto ocupa horas da nossa vida.
Mas também ocupa aniversários, finais de semana, noites sem dormir, pedaços da nossa maternidade, da nossa família e da nossa ausência dentro da própria casa.
Hoje eu dormi o dia inteiro porque meu corpo simplesmente apagou depois de dias sustentando vidas, mulheres, famílias e nascimentos.
E mesmo amando profundamente o que faço… às vezes dói perceber o quanto mulheres que cuidam do nascer precisam desaparecer da própria vida para conseguir sustentar a vida dos outros.
Hoje, no Dia das Mães, eu só queria que isso também fosse visto.
15/04/2026
Há 9 anos eu atravessei a dor e ela me atravessou de volta.
Não foi só um trabalho de parto.
Foi um mergulho profundo, daqueles que rasgam a pele e a alma ao mesmo tempo. Doeu muito. Muito mais do que eu imaginaria ser possível.
Quase 42 semanas esperando…
E quando veio, veio intenso, avassalador e banhado por muito mecônio.
Doía no corpo, na frente e atrás, mas doía mais no invisível.
Na entrega.
No medo.
Na solidão que às vezes existe mesmo quando tem gente por perto.
Eu não saí ilesa.
E nem queria.
Eu saí partida no meio.
Porque foi ali, naquele limite, que nasceu mais do que minha filha.
Nasceu uma outra mulher em mim.
Uma mulher que entendeu, na própria carne, o que nenhuma teoria ensina.
Que dor sem cuidado marca.
Que presença transforma e ausência viola.
Que ser atravessada muda o rumo da vida.
Hoje ela faz 9 anos.
E eu celebro não só a vida dela
mas tudo o que aquele parto fez nascer em mim.
Minha filha me fez mãe, de novo.
E a minha dor me fez uma enfermeira obstetra melhor.
E por isso, hoje, eu honro as duas.
Foto:
Doula:
12/04/2026
A pedidos do story para o feed:
“Até na data existe confusão.
E talvez isso diga mais sobre o cenário do parto do que parece.
Tu já tinha ouvido que hoje também seria “dia do obstetra”?