03/11/2020
Aos queridos amigos do PATO:
Após algumas semanas de pausa, pudemos avaliar a conjuntura com maior clareza. Tanto o momento atual como o futuro do país seguem tão indefinidos quanto estavam há dois meses, quando anunciamos a demissão da equipe e o encerramento do ano letivo. Por essa razão, estamos enviando os esclarecimentos que boa parte de vocês tem aguardado:
Ainda que as aulas presenciais para a educação infantil tenham sido liberadas, a maneira como esse retorno tem sido conduzido pelas autoridades não enseja a sensação de segurança desejável, nem no aspecto sanitário nem do ponto de vista financeiro.
Como foi dito em agosto, a escassez de recursos no caixa da empresa, provocada pelos cancelamentos de matrícula, pelo alto índice de inadimplência e pela concessão de descontos progressivos, colocou em risco a nossa capacidade de quitar as rescisões trabalhistas caso fosse necessário, já que deveríamos indenizações para pessoas com 4, 11, 22, 23, 29 e até 47 anos de casa.
Todo o planejamento teve em mente essa capacidade: só poderíamos seguir tentando até o momento em que continuar significaria sacrificar (ou no mínimo adiar) as eventuais indenizações da equipe, tomando rumos que não representariam os valores do PATO: as crianças devem ser respeitadas, mas jamais atingiríamos esse objetivo se os adultos envolvidos não recebessem o mesmo respeito.
É essencial esclarecer também que, diferentemente da maioria das escolas privadas de educação infantil da capital e do interior, o PATO reduziu em 50% o salário de professoras e coordenadoras por apenas dois meses, quando poderia ter usado não somente o recurso da redução, mas o da suspensão dos contratos por pelo menos seis meses. Nesse caso, as educadoras teriam sobrevivido com um mísero benefício emergencial durante todo esse período. Para não penalizar a equipe, então, a Direção não hesitou em cortar na própria carne. Além de usar o recurso da redução salarial somente por dois meses, a escola também pagou espontaneamente os benefícios emergenciais de três educadoras, visto que a então MP 936 não previa o acúmulo de benefícios nem para aposentados nem para professores contratados do setor público. Depois desses sessenta dias, a Direção ainda antecipou quinze dias de férias para toda a equipe, sempre na esperança de manter os empregos.
Como todos já sabem, então, em 27 de agosto passado entregamos os avisos prévios indenizados para todas as professoras e coordenadoras. Mais uma vez levamos em conta seu estado emocional e não quisemos sobrecarregá-las com o aviso trabalhado. Imaginamos que, assim como foi para nós, para elas também o encerramento do PATO beiraria a intensidade de uma perda na família. Queremos deixar claro que as rescisões foram pagas integralmente a cada um dos membros da equipe. Tanto eu quanto minha mãe (uma das fundadoras da escola) contribuímos com recursos próprios para que ninguém fosse lesado.
A transparência faz parte dos valores da escola, por isso escolhemos compartilhar alguns dados para que vocês possam compreender melhor nossas decisões:
A Direção está profundamente agradecida pelas doações recebidas através da campanha criada pela comunidade escolar para ajudar o PATO a cumprir os compromissos citados e eventualmente retomar as atividades em 2021. A atitude foi extremamente amorosa e bem intencionada e os valores arrecadados foram de grande ajuda, mas a realidade é que apenas as rescisões trabalhistas custaram quase meio milhão de reais, já que havia vários contratos de décadas e o PATO sempre se orgulhou de valorizar a educação pagando uma hora/aula acima do teto da categoria. Juntando-se a isso, muitos recursos foram investidos na aquisição de EPIs e na adaptação da escola para o retorno às aulas, o que vinha sendo negociado tanto com o governo do RS quanto com a prefeitura de Porto Alegre desde o mês de junho, o quê, como todos sabem, acabou se concretizando apenas quando era tarde demais e, no nosso entender, de forma desorganizada.
A equipe de apoio foi tratada da mesma forma que as pedagogas, dadas as diferentes circunstâncias. As educadoras assistentes e as funcionárias de serviços gerais tiveram os contratos suspensos por dois meses, já que a natureza das suas atividades só permite que o trabalho seja realizado presencialmente. Após esses sessenta dias, receberam também quinze dias de férias antecipadas, sempre com o intuito de manter os empregos, mas não houve milagre. Foram demitidas no final de julho e devidamente indenizadas. A Mara já havia sido desligada da equipe em abril, quando a queda na arrecadação exigiu que pelo menos uma das colaboradoras fosse demitida. Escolher a Mara foi doloroso, pois foram quase 30 anos de casa, mas consideramos vários fatores. O fato de que ela já estava aposentada e não ficaria sem renda foi determinante, além de pertencer ao grupo de risco. Generosa como sempre, Mara entendeu e aceitou nossa escolha com muita dignidade.
Em relação aos nossos “guardiões”: como o Edson Duarte é autônomo e a natureza da sua função é também fundamentalmente presencial, conseguimos manter o pagamento contratual integral até maio, quando passamos, com sua concordância, a aplicar descontos progressivos de 25% a 50% até o anúncio do encerramento antecipado do ano letivo. Ricky Saldanha, sendo terceirizado da Rudder e por fazer parte do grupo de risco, também foi mantido em casa por dois meses graças a um acordo entre a empresa e a prestadora do serviço. Após esse período a escola já não podia mais se dar ao luxo de seguir com a parceria, mas forneceu as melhores referências na esperança de que a Rudder o mantivesse como colaborador.
Dito isso, esclarecemos que o PATO está, agora de fato, encerrando suas atividades definitivamente. Por mais penosa que tenha sido a tomada dessa decisão, ela se fez necessária não apenas levando em conta os aspectos financeiros, mas por termos chegado à triste conclusão de que no mundo atual não há mais espaço para uma escola como a nossa. Tivemos, nesses 53 anos, a sorte de contar com famílias para quem a educação e o bem-estar dos filhos vêm em primeiro lugar. Sem essa irmandade de pessoas sensíveis, bem-informadas e conscientes da importância de confiar na escola que escolheram para os filhos, o PATO não teria chegado onde chegou. Ser pai e mãe do PATO é muitas vezes não entender o porquê da maneira como cada coisa é feita, mas respeitar nossas decisões mesmo assim, confiando de coração aberto. É ter que mandar o lanche de casa quando a vida corrida pede algo mais prático, é fazer milagre para conseguir deixar o filho ou a filha apenas um turno na escola, porque entende que na primeira infância a convivência com a família é essencial, ainda que o mercado de trabalho esteja muito longe de compreender essa necessidade. É chamar vô, vó, tia, tio pra buscar seu filho no PATO porque o trânsito não colabora, é ir na fruteira na última hora pra comprar aquela fruta exótica que a professora pediu, é avisar o chefe que vai se atrasar porque hoje é dia do banho do bebê e você esqueceu o “bebê” sobre a mesa da sala. É abrir mão de muita coisa para trabalhar junto com a escola na fase mais importante da vida escolar de seu filho, pois sabe que, ainda que muitos dias sejam caóticos, esses primeiros seis anos deixarão marcas indeléveis e queremos que elas sejam amorosas, positivas e enriquecedoras, para que nossos filhos atinjam os objetivos explicitados na missão do PATO: que cresçam e se tornem “pessoas afetivas, sensíveis, críticas, autônomas e criativas, capazes de contribuir para a construção de um mundo melhor”, mas, acima de tudo, que estejam seguras e felizes.
Por todas essas décadas recebemos muito amor e o apoio incondicional dessa comunidade maravilhosa, mas consideramos importante esclarecer que também fomos alvo do que há de pior no ser humano, em especial nesses últimos meses, quando chegaram a nós desde comentários mentirosos e mal-intencionados até ofensas gratuitas e absolutamente desnecessárias. Quintana seguramente diria: eles passarão, nós passarinho!
Cumpre a nós também a triste tarefa de informar que as atividades planejadas para o Grupo 5 no intuito de marcar o final da etapa, em função dos ritos de passagem de praxe terem sido prejudicados pela pandemia, não poderão ocorrer nas dependências da escola. Ao enviar a carta aos pais da turma tratando do assunto, nem a Direção nem a Coordenação tinham plena consciência do que viria pela frente. Com o encerramento do CNPJ, porém, o prédio da escola terá que ser esvaziado e tudo que ele contém será vendido na tentativa de recuperar parte dos recursos investidos pessoalmente pela Direção. O imóvel será colocado para alugar assim que possível e estará, portanto, descaracterizado. A orientadora da turma, Laura Hoppe, entrará em contato com pais e mães para combinar um local alternativo para as fotos e a entrega das tradicionais “historinhas” de cada um dos alunos. O contato será feito no decorrer de novembro e a atividade na primeira quinzena de dezembro.
As notas fiscais eletrônicas de agosto serão enviadas em breve. Chamamos sua atenção para o fato de que todas as NFS-e anteriores já foram enviadas para os e-mails de cadastro, pois serão imprescindíveis para a declaração de IR em 2021.
Para encerrar, nosso mais sincero agradecimento a todos vocês. Estamos tristes, mas estamos certas de que a hora é essa. O PATO se despede fisicamente, mas segue vivo em nossos corações. Temos um orgulho imenso da nossa história e a certeza de que nossa missão foi cumprida com louvor. Queremos que sintam o mesmo orgulho, pois ele também pertence a vocês, assim como pertence às dezenas de profissionais que estiveram conosco todos esses anos, cada um deles colaborando com um tijolinho para essa bela história.
Sem falsa modéstia, não há e não haverá outra escola como o PATO.
Viva nós!
Um grande abraço,
Mônica Mariani
Direção
16/09/2020
15/08/2020