27/10/2018
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"Se a cada dia parecemos mais vencidos, a derrota tem ao menos esta vantagem: ela nos força a pensar — e a pensar de outra maneira. É preciso fazer valer tal ocasião. (...)
É preciso fazer proliferar uma outra sensibilidade micropolítica, macropolítica, biopolítica, ecopolítica, cosmopolítica, dar nome aos bois, romper um consenso que nos quer abduzir a capacidade de pensar. Sim, fazer do pensamento uma conspiração cotidiana, uma insurgência indomável. Ideais fortes precisam às vezes de centenas de páginas para serem devidamente desdobradas.
(...)
Não é bom, em meio a um contexto tão sinistro, deixar-se afundar no catastrofismo melancólico e derrotista. Porque todo poder visa também a isto: nos separar de nossa força, nos inculcar a tristeza, a angústia, o medo, a culpa e sobretudo a sensação de impotência. Mas o poder não é um domínio absoluto, é uma relação de forças, sempre móvel, e assim comporta sua dose de jogo e margem de indeterminação — e portanto de reversibilidade. Se Foucault nos serve para pensar a resistência nessa chave da reversibilidade eventual das forças em jogo, talvez seja preciso também recorrer a Espinosa, que diferenciava poder e potência, e até os opunha. Por isso, talvez trate-se menos de apenas tomar o poder do que de expandir a potência. Menos tentar ocupar o lugar daqueles que tomaram de assalto o Estado do que ocupar ruas, praças, escolas, instituições, espaços públicos privatizados, experimentar novas formas de organização, de auto-organização, de sociabilidade, de produção, de despossessão, de subjetividade, de dissidência, de composição da vida. É preciso destituir a corja de bandidos que sequestrou o Estado, quebrar o monopólio das corporações que os sustentam — mas como fazê-lo sem entrar no jogo em que saímos vencidos de antemão? Talvez ainda não se tenha inventado máquinas de guerra à altura da eficácia da megamáquina que se instalou, e que vem de longe, no tempo e no espaço. Seria preciso produzir máquinas de guerra que, ao lado de sua eficácia, criassem outras coisas, outros espaços, outros tempos, outra subjetividade — em suma, outro tabuleiro onde pudessem enfrentar-se os novos desafios.
Quando passamos para esse registro mais ativo, por mais bélicas que pareçam essas imagens, não se pode fazer a economia da alegria. A alegria, dizia Espinosa, nada mais é do que a expressão de um aumento de potência. Ela está necessariamente presente ali onde as conexões se expandem, se multiplicam, abrem novas direções, criam novos modos de expressão, e produzem uma conversão subjetiva."
Peter Pál Pelbart alega que este texto não é de sua autoria.
Quem conhece o autor?
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