03/08/2020
PROJETOS LITERÁRIOS E A FORMAÇÃO DE LEITORES
Na minha atividade como professora de língua portuguesa no ensino fundamental 2, o desenvolvimento de projetos literários é o que mais acredito como ferramenta pedagógica de transformação e, consequentemente, é o que mais me dá mais prazer em realizar em sala de aula. Num contexto dominado pelas leituras dinâmicas e fragmentadas das telas digitais, conectar-se com o aluno através da história de um livro (digital ou físico) é um grande desafio, principalmente entre os adolescentes.
O despertar para a magia da leitura enquanto experiência individual, mas também coletiva, é um esforço que envolve a sensibilidade do professor desde a escolha do livro até o tipo de atividade de conclusão do projeto, que deve ser trabalhado de forma contínua e dinâmica dentro da organização dos conteúdos.
Reservo um dia da semana dedicado ao projeto literário e, como num clube de leitura, realizamos atividades variadas, individuais e coletivas, combinadas previamente ou não, dentro ou fora da sala. O importante é a valorização dessa leitura como um espaço de construção de novas experiências.
Por isso, o início de um projeto literário é um momento muito especial, quando nos disponibilizamos para novos pensares e emoções a partir de outra perspectiva, a do autor. Escolho, na maioria das vezes, ler as primeiras páginas do livro com os alunos, geralmente em roda, seja embaixo de uma árvore, num tapete com almofadas ou sentados descontraidamente em cima das classes. Dependendo da turma, cada um lê um trecho, às vezes eu ou apenas alguns alunos leem a maior parte. O objetivo aqui é estar disponível e associar a atividade da leitura a um momento positivo e prazeroso.
Ao longo das semanas combinamos as páginas a serem lidas individualmente até o dia determinado para o trabalho com o livro e, então, realizamos debates, dramatizações de cenas da história, levantamentos de fatos relevantes, discussões em diferentes grupos, leitura coletiva e comentada do capítulo seguinte, entre outras atividades. O livro, nesse sentido, é o fio condutor de uma vivência subjetiva e em grupo, pois quando o aluno lê sozinho, faz suas relações a partir das suas experiências pessoais e depois, quando as leva para o grupo, percebe e faz novas relações, ampliando seu entendimento de mundo.
A escolha dos livros a serem trabalhados com cada turma também é uma etapa muito importante. Procuro leituras adequadas para a realidade de cada grupo, seja na linguagem ou no tema. Mesclo as leituras entre autores nacionais, internacionais e também regionais, o que acho fundamental. Nesse momento em que expandimos as discussões para um mundo menos seccionado e mais justo, é importante ficar atento também à leitura das escritas femininas, assim como a inclusão de autoras e autores negros.
A conclusão do projeto literário pode ser um momento muito especial, como a despedida de um lugar que visitamos e que deixará saudades. Um debate acompanhado de um lanche coletivo, a apresentação de um filme que se relacione com a narrativa ou um filme que seja a adaptação do próprio livro ou assistir a uma peça de teatro são boas opções para proporcionar uma memória afetiva em relação à leitura.
Enfim, a formação de leitores na escola demanda um trabalho de valorização e significação da literatura enquanto vivência de novos saberes e não apenas a cobrança da leitura para realizar uma prova. É uma rica oportunidade para o desenvolvimento de consciências críticas através da interdisciplinaridade.