18/04/2022
A história é uma das áreas da ciência que além de contar com métodos e ferramentais teóricos próprios, possui uma função social e política de lembrar a sociedade sobre certos episódios e, principalmente, sobre os processos do passado. Porém, tão importante quanto as lembranças, são também os esquecimentos ou apagamentos que, propositais ou não, deixam lacunas sobre nosso conhecimento do passado. Não por acaso o historiador Peter Burke escreveu que “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”. Por isso, viemos trazer algumas indagações sobre a data de aniversário de Porto Alegre que talvez você não tenha acompanhado por aí. A região que hoje chamamos de Rio Grande do Sul se constituiu como um espaço de presença indígena guarani, charrua, minuano e tapes, que passou a ser uma área de conflito, em razão da fronteira entre as ocupações do Império Português e do Império Espanhol, no sul da América, ao longo dos séculos XVI e XVIII. Após idas e vindas, guerras e acordos diplomáticos, no fim do século XVIII, a área permaneceu como posse dos portugueses. A Guerra Guaranítica, entre 1753 e 1756 foi fundamental para o processo de ocupação açoriana na cidade de Porto Alegre. Os açorianos que por aqui se estabeleceram, tinham como destino inicial a região das Missões Jesuíticas, que estava em guerra pela expulsão da rica cultura missioneira que dominou a área do noroeste gaúcho por mais de um século. Não há certeza sobre o número exato de casais açorianos que por aqui desembarcaram. Mas o fato é que ao não seguirem seu destino inicial para as Missões, acabaram ficando na região que na época fazia parte dos campos de Viamão. Um outro fato importante sobre os usos políticos do passado surge quando descobrimos que houve uma comemoração do bicentenário da cidade no ano de 1940, quando Getúlio Vargas, na época comandante do Estado Novo, período ditatorial entre os anos 1937 e 1945, havia inventado uma data de fundação de Porto Alegre, e em novembro de 1940 criaram-se desfiles ufanistas que comemoravam os duzentos anos da cidade.
📷Fotografia: Irmãos Ferrari. Mercado Público, último quartel do século XIX. Acervo do Museu Joaquim José Felizardo.