05/04/2025
A mulher adúltera
📖 | Verbo Divino em Foco - Reflexão do V Domingo da Quaresma (Ano C)
🪨"Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra" João 8,1-11.
O Papa Francisco já deixou o Hospital Gemelli, em Roma, e se encontra em fase de recuperação. Sua presença faz falta, pois suas palavras simples e diretas sempre tocam o coração e chamam atenção. Ao longo dos últimos anos, ele comentou diversas vezes o Evangelho deste domingo (Jo 8,1-11). Vejamos alguns de seus ensinamentos:
“O Evangelho deste Quinto Domingo da Quaresma (cf. Jo 8, 1-11) é tão bonito, eu gosto muito de o ler e reler. Apresenta o episódio da mulher adúltera, frisando o tema da misericórdia de Deus, que nunca deseja a morte do pecador, mas que se converta e viva. O episódio tem lugar na esplanada do templo. Imaginai-a ali, no adro [da basílica de São Pedro]. Jesus está a ensinar à multidão, e eis que chegam alguns escribas e fariseus que arrastam diante dele uma mulher surpreendida em adultério. Assim, aquela mulher encontra-se no meio entre Jesus e a multidão (cf. v. 3), entre a misericórdia do Filho de Deus e a violência, a raiva dos seus acusadores. Na realidade, eles não vieram ter com o Mestre para lhe pedir o seu parecer — eram pessoas maldosas — mas para lhe armar uma cilada. De fato, se Jesus seguir a rigidez da lei, aprovando a lapidação da mulher, perderá a sua fama de mansidão e de bondade que tanto fascina o povo; ao contrário, se quiser ser misericordioso, terá que ir contra a lei, que Ele mesmo disse que não queria abolir mas cumprir (cf. Mt 5, 17). E Jesus é posto nesta situação.
Esta má intenção esconde-se sob a pergunta que fazem a Jesus: «Tu o que dizes?» (v. 5). Jesus não responde, f**a em silêncio e faz um gesto misterioso: «Inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo» (v. 7). Talvez fizesse desenhos, alguns dizem que escrevia os pecados dos fariseus... contudo, escrevia, era como se estivesse noutra parte. Desta forma convida todos à calma, a não agir levados pela impulsividade, e a procurar a justiça de Deus. Mas eles, os maus, insistem e esperam d’Ele uma resposta. Parecia que tinham sede de sangue. Então Jesus levanta o olhar e diz: «Aquele que dentre vós estiver sem pecado atire a pedra contra ela» (v. 7). Esta resposta surpreende os acusadores, desarmando-os todos no verdadeiro sentido da palavra: todos abandonaram as «armas», ou seja, pedras prontas para serem lançadas, quer as visíveis contra a mulher, quer as escondidas contra Jesus. E enquanto o Senhor continua a escrever no chão com o dedo, a fazer desenhos, não sei..., os acusadores vão-se embora um depois do outro, de cabeça baixa, começando pelos mais idosos, mais cientes de não estarem sem pecado. Como nos faz bem estar cientes de que também nós somos pecadores! Quando falamos mal dos outros — estas são coisas que conhecemos bem — como nos fará bem ter a coragem de deixar cair no chão as pedras que temos para atirar contra os outros, e pensar um pouco nos nossos pecados! ...
Queridos irmãos e irmãs, aquela mulher representa todos nós, que somos pecadores, ou seja, adúlteros diante de Deus, traidores da sua fidelidade. E a sua experiência representa a vontade de Deus por cada um de nós: não a nossa condenação, mas a nossa salvação através de Jesus. Ele é a graça, que salva do pecado e da morte. Ele escreveu na terra, no pó com o qual é feito cada ser humano (cf. Gn 2, 7), a sentença de Deus: «Não quero que morras, mas que vivas”. (Papa Francisco, ângelus, 3 de abril de 2016)
«Ninguém te condenou? – diz-lhe Jesus – Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar» (8, 10.11). Que diferença entre o Mestre e os acusadores! Estes citaram a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e sabe encontrar sempre caminhos de libertação e salvação...
Assim é o Senhor Jesus; sabe-o bem quem fez experiência do seu perdão; quem, como a mulher do Evangelho, descobre que Deus nos visita através das nossas chagas interiores: é sobretudo nestas que o Senhor prefere fazer-Se presente, pois não veio para os sãos, mas para os doentes (cf. Mt 9, 12). E hoje esta mulher, que conheceu a misericórdia na sua miséria e volta curada pelo perdão de Jesus, sugere-nos, como Igreja, que principiemos de novo a frequentar a escola do Evangelho, a escola do Deus da esperança que sempre nos surpreende. (Papa Francisco, 3 de abril de 2022, Viagem a Malta)”.
Para meditar:
Nosso olhar é marcado pela ternura de Deus nos encontros do dia a dia?
Somos canais da bondade divina para os outros?
Reconhecemos que todos nós necessitamos do perdão — inclusive eu?
✍️Reflexão por Pe. Miguel Mcguinness, SVD
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